E agora, Totonhim?

Fonte: Revista Previ – Novembro de 2006 » Perfil – Antonio Torres

E agora, Totonhim?

O escritor Antônio Torres lança o romance Pelo Fundo da Agulha, em que o personagem principal mergulha em si para encontrar repostas sobre a vida e o que fazer a partir do primeiro dia da aposentadoria no Banco do Brasil.


O cenário: a cidade de São Paulo, onde você é capaz de suportar tudo, menos a falta do que fazer. O personagem: o ex-roceiro Antão Filho, o Totonhim, que veio do interior da Bahia para trabalhar em São Paulo como bancário do Banco do Brasil. O tempo: o primeiro dia de sua aposentadoria. A pergunta: depois de 30 anos no Banco, o que fazer a partir de agora? A busca dessa resposta é o fio que conduz o livro Pelo Fundo da Agulha, do escritor baiano Antônio Torres. Totonhim é o protagonista da história em que, segundo o autor, o sentimento é o de que passará a viver numa espécie de não-lugar.

Este terceiro livro, que conclui a saga escrita por Antonio Torres de migrantes que saem do Nordeste e enfrentam a cidade de São Paulo com um olhar carinhoso, começou com Essa Terra, de 1976, e reapareceu em 1997, em O Cachorro e o Lobo, no qual Totonhim já é o personagem principal e se vê dez anos ou mais antes da aposentadoria, vivendo o conflito das mudanças do mundo, a reengenharia, o neoliberalismo, a globalização, com medo de perder o emprego.

No segundo livro, a resposta encontrada por Totonhim, seu narrador, foi estudar muito e ascender dentro do Banco, chegando a gerente de recursos humanos. Fechando a trilogia, em Pelo Fundo da Agulha, ele está sozinho. Aposentou-se, separou-se da mulher e dos filhos, perdeu o melhor amigo. Como resume o próprio autor, Totonhim está em uma nova encruzilhada.
O escritor nas ruas de São Paulo. “Tenho experiência muito grande com os migrantes da periferia. Eles viviam com essa saudade da Bahia, mas havia uma coisa amorosa com São Paulo.”

O escritor nas ruas de São Paulo.
“Tenho experiência muito grande com os migrantes
da periferia. Eles viviam com essa saudade da Bahia, mas havia uma coisa amorosa com São Paulo.”

O homem deita na cama e pensa no sentido de tudo. Não há ninguém para consolá-lo e ele se sente perseguido pelas histórias de amigos e parentes que se suicidaram. “Tentei, fazer uma reflexão sobre o crepúsculo do mundo em que vivemos. Um mundo pós-utópico, pós-modernista, pós-tudo. Entendo que por trás dos impasses do personagem não estão apenas os meus próprios. Nem apenas da minha geração. O que me parece é que de repente nos vemos todos – jovens, adultos e velhos – numa espécie de encruzilhada do tempo, em busca de uma saída para o futuro. E onde está esta saída? Eis a questão”, conta.

Perguntado se o personagem revela muito do autor, Torres sai com a frase de Flaubert, que “Madame Bovary sou eu”, resposta que o francês teria dado à pergunta de quem inspirara um de seus mais conhecidos personagens. Como a dizer que Totonhim sou eu, Antônio revela muitas de suas coincidências.

Os dois nasceram no interior da Bahia, na cidade de Junco, hoje chamada Sátiro Dias. Vieram jovens para São Paulo, o personagem para trabalhar no Banco do Brasil. O autor, aos 20 anos, na capital paulista começou a trabalhar no jornal Última Hora. Se Totonhim fez carreira e se aposentou no Banco,Torres virou romancista em 1972, escrevendo Um Cão Uivando para a Lua, que causou grande impacto entre o público e a crítica, sendo considerado a revelação do ano. “Uma estréia feliz, que me abriu as portas do mundo da literatura. A partir fui embora”, comenta. Carreira de sucesso no Brasil, com dezenas de livros lançados, e em países como Portugal e França (para mais informações consulte www.antoniotorres.com.br).

Pesquisa

A opção profissional do personagem vem da constatação de que para quem morava no interior, na sua juventude, o horizonte era ir para as Forças Armadas, para o seminário (a Igreja), ser funcionário do Banco do Brasil ou da Petrobrás. “Essas eram as carreiras sonhadas pelos pobres do interior.”
Para compor Totonhim, Torres diz que entrevistou muitos aposentados do Banco: “aposentado, para pegar um perfil psicológico do momento em que o homem perde o seu crachá, e de pessoas da ativa, que “quando trabalham têm seu e-mail como sobrenome, fulanodetal@bb.com.br A hora em que a pessoa perde isso passa a se sentir numa espécie de não-lugar. Esse é o sentimento do personagem”, diz.

Além das pesquisas, o escritor também contou com a ajuda de seu primo, Marcelo Torres, “que fez concurso ainda lá na cidade de Junco e hoje trabalha na Diretoria de Marketing e Comunicação do BB em Brasília e me ajudou muito a construir o perfil do personagem. Ele pesquisou, me mandou dados que estão no romance, não só do sentimento do aposentado, mas também da questão concreta, real, o que o cara perde. Pois mesmo que mantenha o salário real, ele fica sem os benefícios de quem continua trabalhando, mas, sobretudo, o convívio. E isso é o que pesa mais. O envelhecer já vai criando limitações em termos de convívio, você sabe que isso é real.
O sentimento de perda econômico e social. O colega de trabalho, a secretária, as estagiárias, a sala, o telefone, o e-mail, o celular, todas perdas que são reais”, diz Torres.

Se há muitas perdas, o autor é otimista com seu personagem e diz que o livro tem uns toques de auto-ajuda. “Porque a voz interior desse homem o acompanha nas coisas que ele pode fazer. Ele pode se dedicar mais a andar, a fazer seções de teatro-terapia, fazer acupuntura e, sobretudo, pegar os livros na estante e corrigir o déficit de leitura dele, participar mais de eventos culturais. Também pode, pelo preparo dele, ser um gerente de recursos humanos, dar aulas em uma universidade, reencontrar o lugar de convívio.”

Sobre o desfecho, Antônio explica o título da obra que, nessa revisão da vida, Totonhim repassa a sua história e se sente mais leve, a ponto de passar pelo fundo da agulha, como na referência bíblica. Se durante o livro o suicídio é uma das hipóteses, no final ele se refaz: decide que no dia seguinte vai reencontrar os filhos, que estão perdidos pela cidade, vai almoçar com eles. “Aí entra na região sem tempo dos sonhos.” E tudo fica aberto para o leitor descobrir que sonhos serão esses.


Tempo que afaga e faz doer

Jornal Rascunho – Curitiba, fevereiro de 2007 Vilma Costa

Com Pelo fundo da agulha, Antônio Torres encerra a trilogia em que o suicídio é presença marcante

“Venham — vocês leitores conhecer/reconhecer Torres e levar um dos mais belos romances sobre o tempo que passa e nos acaricia e morde, afaga e faz doer.” Com essas palavras, Ignácio de Loyola Brandão, em O Estado de S. Paulo, edição de 17 de novembro de 2006, formula, talvez, uma das mais contundentes definições do romance Pelo fundo da agulha, de Antônio Torres.

Considerado o último de uma trilogia, é um texto complexo, ligado aos dois romances que o antecederam através de um enredo que estabelece fios de ação, personagens, espaços e problemáticas comuns. Neste aspecto, a relação dos três romances — Essa terra (1976), O cachorro e o lobo (1997) e Pelo fundo da agulha (2006) — é de continuidade e íntima relação da trama que discute idas e vindas de personagens sobre uma história de vida que, apesar de particular, traz o selo de questões bastante amplas de uma coletividade. Voltado para as dificuldades vividas por grande parcela do povo brasileiro em diferentes momentos da nossa história política e social, permite à crítica identificar marcas realistas de referencialidades espaciais e geográficas, assim como eixos autobiográficos e autorais. Apesar de ser inegável a importância dessas marcas nos textos, no contexto geral da produção a questão central de discussão é mais ampla.

Torres se liga à tradição dos grandes nomes da literatura brasileira por sua filiação de romancista preso às suas origens e compromissos com o tempo histórico que testemunha, ao mesmo tempo em que se posiciona observando as mudanças estéticas e as novas experimentações no plano da linguagem, enquanto leitor crítico e atento dos seus contemporâneos. É, provavelmente, o diálogo que estabelece com aspectos tão distintos das esferas literárias que mantém sua produção em alta cotação de público e crítica. Ou seja, não deixando de abordar velhas questões, trata de aprofundá-las dentro de novas perspectivas, atualizando-as e ressemantizando-as.

Essa terra conta a história de uma família do interior da Bahia que recebe o primogênito Nelo, depois de 20 anos de ausência, com todas as honras de um bem- sucedido cidadão vindo de São Paulo. Apesar do aparente sucesso, Nelo surpreende a todos com um suicídio, incapaz de suportar o fracasso de seus projetos e da expectativa frustrada que isso poderia causar aos seus. A narrativa desenvolvida sob o ponto de vista do irmão mais novo, Antão, Totonhim, problematiza a falta de sentido dessa tragédia familiar que atinge, com violência, todo o lugarejo e põe em discussão concepções, valores e crenças da comunidade. É na pequena cidade de Junco que tudo se inicia.

Em O cachorro e o lobo, Totonhim retorna à cidade natal para o aniversário de 80 anos do pai, 20 anos depois de ter partido também para São Paulo e de ter internado a mãe em um hospício. A pequena cidade já incorpora novas tecnologias e se amplia nos aspectos físico e econômico, mas do ponto de vista afetivo e cultural mantém velhas crenças e memórias. A lembrança de Nelo e a ameaça de suicídio de quem volta ainda sobrevivem e pairam no ar.

Na viagem de retorno, o protagonista revê sua gente, encontra-se e faz amor com a primeira namorada, Inesita, reencontra a mãe velhinha e lúcida, livre da crise de loucura que a levou ao hospício, depois da morte do primogênito Nelo, e um pai sóbrio e disposto a evitar seu desencanto e suicídio. Seus caminhos foram diferentes dos do irmão. A tragédia não se repete. Mas retorna de mãos vazias. Como o outro, a pequena cidade não lhe pertence, não lhe acolhe, é como se ele não coubesse mais nela, não lhe oferecesse referência de pertencimento.

Memória e hipóteses

Em Pelo fundo da agulha, dez anos depois, ainda sob o signo da viagem, Totonhim refaz o percurso de sua trajetória de vida e revisita as cidades por aonde passou dentro de um plano imaginário entre sono e vigília, fragmentos de memória e hipóteses do que foi ou poderia ter sido a sua história. Dentre essas cidade, São Paulo tem um lugar privilegiado, mas não exclusivo. Paris, Babilônia, Nova York, etc. são contrapontos que estabelecem diálogo desse mundo globalizado com a provinciana origem que não oferece qualquer garantia de territorialidade.

O narrador do romance, como seu criador Antônio Torres, é um leitor e estudioso da literatura urbana contemporânea. Calvino, com suas Cidades invisíveis, Baudelaire, Walter Benjamin e Renato Cordeiro Gomes, em Todas as cidades, a cidade, não deixam de ser citados e discutidos nas conferências pronunciadas pelo autor.

Desde a epígrafe de Carson McCullers até as últimas linhas do romance, a cidade merece um tratamento privilegiado e mais do que uma referência de espaço físico é uma alegoria que acompanha o protagonista como auxiliar indispensável para a leitura da sua própria vida. Neste sentido, dialogando entre si, as cidades concretas e as invisíveis, do desejo, da memória, dos sonhos dos personagens, funcionam como poderosas lentes.

Nos textos anteriores, São Paulo já se apresentava como um contraponto a Junco, o que não se limitava a uma simplista oposição cidade/campo. Aqui, São Paulo equaciona a grande metrópole com seus núcleos de imigrantes e seus conflitos e estabelece relação com o mundo globalizado através de outras cidades geograficamente nominadas ou simbolicamente imaginadas. No primeiro parágrafo do romance, logo após a epígrafe, o narrador já sinalizava: “Era outra a cidade, e outro o país, o continente, o mundo deste outro personagem, um homem que já não sabia se ainda tinha sonhos próprios”.

Em termos da construção narrativa, a lógica linear se esgarça, apesar de se fazer perceptível por um frágil fio discursivo no qual predomina a ação situada num tempo cronológico e num espaço físico pautado no plano de uma realidade objetiva.

A complexidade do texto ganha fôlego a partir de um narrador onisciente, que acompanha o protagonista em sua noite de vigília pelos meandros de suas impressões, sugestões, medos, memórias e delírios. Nessa viagem afetiva, o narrador se apresenta, ora como um cúmplice tão íntimo que some numa narrativa que parece se fazer por si só, na qual a introspecção do protagonista ganha a força de uma voz própria.

Outras vezes, esse mesmo narrador se impõe, estabelecendo uma interlocução não apenas com o leitor, mas, principalmente, com o personagem, que passa a ser questionado e construído em termos de hipotéticas possibilidades de ação.

Vamos combinar que esta história da morte brutal da sua mulher é má literatura ou, no mínimo, uma solução fácil, senhor…

Ao eliminar a sua ex-mulher brutalmente, o distinto aí pretendeu retirá-la da sua vida, de uma vez para sempre, não foi?

Pontos importantes de apoio, como as referências às músicas, aos filmes e a outros textos, tanto clássicos e literários quanto ditos populares, percorrem todo este livro, e a maior parte da obra do autor. Funcionam como um fio de linha, preso pelo fundo de uma agulha, que vai costurando os fragmentos de memória e ação, ora atribuídos aos personagens, ora assumidos pelo próprio narrador como elementos constitutivos do tecido. Algumas referências a letras de música são importantes elos de contextualização, ou seja, ajudam a situar os acontecimentos particulares num tempo histórico e social, portanto, coletivo.

Mais que citações avulsas, são recortes costurados ao texto, nele integrados, garantindo expressividade poética e ampliação de significados semânticos e contextuais. Como exemplo, podemos observar o lamento pela perda do grande amigo Bira e sua relação de amizade e amor pela cidade. “Nunca mais um chope no Jeca, na esquina da Avenida Ipiranga com a São João, imortalizada por Caetano Veloso… Sampa!”. Nada mais eficiente para criar a ambientação de uma festa popular de São Miguel Paulista do que “a voz do mesmo Luiz Gonzaga, o rei do baião, ouvida em todas as praças do sertão. Sentiu-se em Junco”.

O narrador ainda se destaca pela precisão com que se utiliza de outros textos na construção da trama, dos personagens, do tempo e do espaço narrativos. As questões temáticas levantadas ganham relevância quando acompanhadas por uma referência bibliográfica importante. Caso exemplar é a citação de trechos poéticos de Vladimir Maiakovski, quando o protagonista sugere seus medos do suicídio. “Hoje tocarei a flauta da minha própria coluna vertebral.”

O suicídio é uma questão que volta e meia entra em pauta, desde o primeiro livro da trilogia. As mortes do irmão Nelo e do primo Pedrinho, por enforcamento, do amigo de infância Gil e a do sogro, por tiro, são retomadas sob diversas formas nas memórias do protagonista. A referência a O mito de Sísifo, de Albert Camus, amplia o enfoque. Mais que um fato em si, um pecado mortal e condenado pela religião e cultura dos personagens, o atentado contra a própria vida é uma situação limite de perda de perspectiva do sujeito despatriado, sem referencial identitário, sem sonhos próprios. “… num universo subitamente privado de ilusões e de luzes, o homem sente-se um estrangeiro” (Camus). Independentemente da ação suicida se realizar ou não, o que ela suscita no protagonista é o mesmo sentimento que levou seus amigos, irmão e sogro à morte, esse sentimento de estrangeiro de si mesmo.

Totonhim agora está aposentado de um cargo importante no Banco do Brasil e toda a sua vida se desenrola em apenas uma noite. “Não o imagine um guerreiro que depois de todas as batalhas finalmente encontrou repouso… Esta é a história de um mortal comum, sobrevivente de seus próprios embates cotidianos…”

Seus passos, seus medos, seus sonhos, suas perdas, seus desencantos, sua solidão, seus vazios têm uma noite de vigília para serem revistos, sem esperança de algum sentido definitivo.

Situa-se como viajante sem rumo, cujo último porto só espera seus relatos de bordo, sua fragmentada narrativa. Sua matéria fundamental é o tempo: “É humanamente impossível fugir do tempo que está dentro dele, com todo um insatisfatório acúmulo de vivências — desejos e esperanças,… perdas e ganhos, prazer e dor, solidão e mágoa”. Passado e futuro, dois tempos que se cruzam na ponte incerta do presente narrativo, sonhos perdidos que apontam também para a atemporalidade dos desejos inatingíveis na angústia cotidiana.

Agora se sentia como um marinheiro que perdera o barco do tempo —olha lá onde já vai; acabou de sumir na linha do horizonte! —, deixando-o plantado à beira de um cais imaginário, sem saber que rumo tomar.

Paradoxalmente, o tempo como matéria dialoga com a “região sem tempo dos sonhos”, imaginário de um marinheiro que perdeu o barco a sumir na linha do horizonte, que constrói sua narrativa se apegando a referenciais concretos do tempo histórico. A partir da nossa história política dos anos de ditadura militar, são construídos personagens caros ao protagonista: Bira, o melhor amigo, revolucionário perseguido e assassinado em plena praça pública por forças policiais, e o sogro, militar reformado que se suicida e leva consigo segredos de Estado que jamais serão revelados.

Por fim, entre os mistérios e segredos que a escritura tenta inutilmente desvendar está a figura materna que admiravelmente sobrevive com sua visão apurada de costureira dos fragmentos desse tempo. “Com a mesma delicadeza com que passara a vida a enfiar a linha no fundo de uma agulha”, vela agora a noite de insônia do filho. Este ainda se inquieta e, depois de tantas perdas e vazios, tem curiosidade quanto ao que pode ser visto pelo fundo da agulha. Recortes de um tempo que ainda sobrevive em ruínas do passado? Fragmentos leves como seu corpo semi-adormecido, camelo capaz de atravessar a fronteira do sono e da vigília, pelo fundo da agulha? Ainda bem que essa mulher batalhou para dar estudo a seus filhos. Agora, quando tudo parece sem sentido e Totonhim não sabe mais se tem sonhos próprios, lhe resta “uma pilha de livros… para tomar de empréstimo sonhos alheios na esperança de vir a ter os seus…”, quem sabe, um dia.

O AUTOR Antônio Torres nasceu em 1940 num lugarejo chamado Junco (hoje município de Sátiro Dias), na Bahia. Aos 20 anos, em São Paulo, foi chefe de reportagem de esportes do jornal Última Hora. Redator de publicidade desde 1963, trabalhou em algumas das principais agências do País, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sua estréia literária ocorreu em 1972 com o romance Um cão uivando para a lua. Entre outros, é autor de Os homens dos pés redondos, Essa terra, Carta ao bispo, Adeus, velho, Um táxi para Viena D’Áustria e O cachorro e o lobo. Pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, em 2000.

TRECHO • Pelo fundo da agulha Daí para a frente era só se deixar ser levado. Arrastar-se de um ônibus para outro e do outro para o infinito. Contar as horas que faltavam para chegar. Soltar os pensamentos na estrada. As memórias das primeiras viagens, a pé, para visitar parentes de muito longe, andando em caravana, entre um bando de meninos, e seguindo a mãe e as tias, pelas veredas de tabuleiros que cheiravam a alecrim, murta e murici, aqui e ali dando um beliscão safadinho na coxa da uma priminha. Ou na garupa de um cavalo, com os braços enlaçados no cavaleiro, o senhor seu pai. Ou num carro de bois, vagaroso, gemedor. Um dia inteiro de jornada, nas sete léguas do caminho de Inhambupe, onde veria, pela primeira vez, as luzes de uma cidade, que lhe provocariam um impacto jamais igualado. Agora vencia-se esse percurso em menos de uma hora. Sem cheiro de mato e medo de onça. As cruzes à beira da estrada sinalizavam um outro medo: de um desastre. Rezar para São Cristóvão, o padroeiro dos motoristas. Fechar os olhos e tentar dormir. Sonhar.

As memórias da morte e a fome de vida

Estadão, Caderno 2 – Domingo, 11 de março de 2007 Paulo Bentancur

Pelo Fundo da Agulha é a conclusão da trilogia de Antonio Torres iniciada há 30 anos com o contundente Essa Terra

Em 1976, Antônio Torres publicava um dos mais contundentes romances da literatura brasileira, Essa Terra (Record, 192 págs., 21ª edição, posfácio de Vânia Pinheiro Chaves, R$ 26,90): a história elíptica, num ritmo vertiginoso (apesar de retratar o Recôncavo Baiano, onde se suporia uma condução narrativa arrastada), febril na sua perturbadora condução e linguagem. Totonhim, o irmão mais moço, recebe Nelo, vindo de São Paulo, onde este fora tentar a vida. Parentes, amigos e vizinhos esperam que, mala aberta – uma só -, o filho pródigo traga fortuna. Nelo, entretanto, foi, viu… e perdeu. Carregando, na volta, insustentável bagagem (desemprego, alcoolismo), não suportando a ausência de respostas que plantem alguma esperança na terra seca dos conhecidos, o homem que partira em busca de êxito enforca-se no retorno ao lar, sentenciado pelo secreto fracasso. Isso já no primeiro capítulo. E o romance termina com cena mais dramática, cinema puro, Brasil puro. É o ritmo vertiginoso de um livro que, com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Os Ratos, de Dyonélio Machado, está entre os mais tristes e convincentes da literatura como espelho da nossa realidade.

Em 1997, com O Cachorro e o Lobo (Record, 224 págs., R$ 29,90), Torres retomaria a história. Essa terra terminara com a decisão de Totonhim, depois de pôr a mãe num asilo (incapaz de assistir ao enterro do primogênito, tomada de surto psicótico) e deixar o pai à própria sorte em sua precária lavoura, em ir para São Paulo, tentar o que Nelo não conseguira. Foram necessários 21 anos para que essa espécie de anti-saga se impusesse ao escritor. Um monumento ao contrário, uma trajetória feita de impossibilidades, mas, por isso mesmo, a atingir uma intensidade de realismo poucas vezes presente na nossa ficção. O Cachorro e o Lobo retoma esse torturante vaivém. Totonhim, já passado dos 40, retorna para casa também 20 anos depois. Diferente do emudecido e arruinado Nelo, porém, chega apenas de visita, para comemorar, com três meses de atraso, o 80º aniversário do pai, Antão. Antão Filho, o Totonhim, está casado, com filhos, e um bom emprego no Banco do Brasil – embora a estabilidade não exista e ele tema, sem revelar aos que dele se orgulham, uma provável demissão em breve. Não saberemos do desfecho nessa parte.

Essa continuação trata da visita de 24 horas – que parecem uma semana. Totonhim, o cachorro (tratado assim pelo tom carinhoso do pai, que usa a mesma palavra com os desafetos, com significativa diferença na pronúncia) encontra uma cidade habitada por fantasmas, os do passado (o irmão, cuja presença se faz constante ainda na casa paterna; a mãe, separada, preferiu ficar noutra cidade, ainda no Recôncavo Baiano, há uns 100 quilômetros dali) e gente viva que se arrasta no andar, no falar, no agir, igualmente como mortos que apenas ainda permanecem deste lado.

Totonhim redescobre a primeira namorada, Inesita, revive com ela o encontro/desencontro, vital e inevitável, de uma relação que não pôde dar certo. E um pai (o lobo) octogenário, vendendo saúde, humor, e vítima de rumores sobre vício e esquisitices que o filho não confirma. Ao contrário, frutos da distorção do afeto da filha que mora longe e da curiosidade mórbida dos vizinhos que o velho Antão não visita, as imagens emanadas no dia-a-dia do ancião recluso (ainda que a testemunha filial tenha um prazo exíguo para comprová-las) mostram uma imensa fome de vida e uma fidelidade digna das memórias que o progresso, lamentavelmente, atingindo terras mesmo ermas, enterra para sempre.

Em Pelo Fundo da Agulha, lançado há pouco, Torres afinal chega ao desfecho de um pesadelo que levou três livros para ser expresso. Talvez o maior pesadelo da ficção em língua portuguesa. Se no primeiro romance o protagonista era Totonhim (embora o irmão Nelo e seu suicídio, além da parte final do romance, a mais marcante, a da mãe e sua fuga da realidade para não viver a morte do primeiro filho, sejam a essência do livro), no segundo, o pai e sua personalidade voluntariosa costuram uma trama que merece exatamente esse nome, porque alinhavada com esmero, quase elíptica não fossem recorrências e ecos musicais e temáticos: constâncias do medo, da culpa, das perdas humanas, do choque social entre uma São Paulo que é quase uma miragem e uma Junco – cidade natal – que não cessa de enviar notícias, imagens, febris mas reais (cidade fictícia, próxima a Alagoinhas, esta real, a cerca de 100 km de Salvador).

Uma Junco desolada, povoado fantasma nos anos 1970; 20 anos mais tarde, uma cidadezinha híbrida entre os costumes ainda vigentes daquele tempo (a sentenciar, por uma moral implacável e por falta de perspectivas econômicas, homens e mulheres), incapaz de exumar suas vítimas do Vale dos Suicidas, e um território suscetível aos abusos espoliativos da política pequena e do progresso desigual. Dez anos mais tarde, no fecho da trilogia, quando Totonhim se aposenta, cai numa região mais ignota ainda. Se a mãe, com 85 anos (o pai, vivo fosse, teria 90), é capaz de, numa visita sob a forma de despedida emblemática, mais desejada que realizada, fazer uma linha passar pelo buraco da agulha (como fazia há décadas, sem óculos), Totonhim nesse desfecho da própria trajetória trafega – e a linguagem evocativa do romancista contribui muito para isso – num não-lugar, que parece ter sido sempre o habitado pela personagem, da juventude à aposentadoria. Uma referência nunca cumprida, nunca legitimadora (contra a qual é preciso lutar; a favor da qual não se deve fugir).

Em Pelo Fundo da Agulha, sob a presença da mãe (como um Virgílio conduzindo Dante no Inferno), sabemos afinal um pouco dessa São Paulo e do casamento de Totonhim, quase nada mencionados nos volumes anteriores. E chega-se ao ápice dramático: a confissão materna das diferenças com o marido, da arte da persistência e de um estratégico afastamento de um espaço cujo solo parece servir mais para enterrar mortos que plantar sementes. A depressão da aposentadoria cede a uma sutil esperança. Um tempo renovado para que as culpas sejam substituídas por ações “indenizadoras”.

PS.: A terra – nos três volumes, sobretudo no primeiro e no segundo – parece sempre ser a mesma, quando a memória a evoca como ponto de partida para uma, duas, tantas travessias de um homem que, também, já não é o mesmo. Não, não se trata da mesma terra. Nem a história poderia ser o desdobramento previsível de um começo há três décadas. Por mais que ele sofra na ilusão de estar chegando ao fim de uma única vida. Quantas existências cabem em uma só? Tantas quantas forem as fendas abertas para as saídas (ou fugas, ou recuperações), ou as agulhas para o ingresso num novo espaço.

Paulo Bentancur é escritor, poeta, crítico literário, autor de Bodas de Osso e o recém-lançado A Solidão do Diabo, contos (ambos editados pela Bertrand Brasil)

Pelo Fundo da Agulha na revista Brasil/Brazil, da Brown University. Cláudia Nina

Se a ficção contemporânea tem a marca da diversidade de estilos e de vozes, sendo um caldo onde convivem várias tendências, entre elas o urbano, o histórico revisitado pela invenção, a anti-linearidade e muitos outros vieses, um elemento talvez seja o elo comum – ou a linha que perpassa – a tudo isso: a temática da solidão. Afinal, eis a condição na qual está o homem, desde a modernidade, mergulhado na multidão, mas irremediavelmente só.

É também sobre a solidão um dos romances mais desconcertantes de 2006: Pelo Fundo da Agulha, de Antônio Torres, que dá seqüência a Essa Terra, de 1976, e O Cachorro e o Lobo, de 1997. Com esse último, fecha-se o cerco da trilogia, marcando três tempos na obra do autor e ainda três momentos distintos da história da ficção no País. Aqui, seu personagem mais célebre – Antão Filho, o Totonhim – está de volta à cena, agora imerso num abandono emocional que é a sua maior dor: na capital paulista, deitado na cama, começa a pensar no sem-sentido da existência.

Marinheiro à beira de um cais imaginário, como diz o texto, Totonhim empreende a mais arriscada de todas as viagens: a volta ao tempo de sua própria história, em lances fotográficos em que a memória fragmentada por excelência, vai conduzindo sua mão pelos momentos vividos. Nessa viagem, embarca sozinho. Está aposentado, separado da mulher e dos filhos, perdeu o melhor amigo. Suas raízes estão em Junco, no sertão baiano, a cidade natal, e é de onde retira a belíssima imagem que dá título ao romance: a mãe, já velinha, mas com visão suficiente para enfiar a linha pelo fundo da agulha sem usar óculos. É a clareza de quem sobreviveu a uma dor lancinante, o suicídio do filho, mas mantém-se forte a ponto de não se deixar sucumbir.

Importante fazer aqui uma breve viagem no tempo dos romances para se entender o que ocorre antes desse momento. Em Essa Terra, o personagem Totonhim ainda está jovem e recebe o irmão, Nelo, que volta a Junco com o peso nas costas da derrota na capital paulista. É ele quem comete suicídio, humilhado por não ter conseguido vencer na vida. No final da história, é Totonhim quem abandona Junco, seguindo os passos do irmão na tentativa de sobreviver onde Nelo faliu. Em O Cachorro e o Lobo, passam-se 20 anos e Totonhim volta a Junco para comemorar o aniversário de 80 anos do seu pai. Não está feliz e nem vitorioso. Pelo contrário, o desemprego é um tormento iminente. Pelo Fundo da Agulha acontece dez anos após esse retorno a Junco e traz novamente o protagonista a uma nova encruzilhada.

A viagem agora é mais emocional do que real, Junco, o lugar que o ônibus deixou pra trás, resiste com força e poder apenas do reino da memória, assim como todas as personagens que se esfumaçaram na vida real, mas insistem em retornar à lembrança, teimosas que são. Não se tem aqui um relato linear; as vozes se confundem assim como os tempos narrativos. A intenção é embolar tudo mesmo. Nem poderia ser diferente, já que o texto se faz ao sabor da memória. A lembrança e seus fantasmas são sempre perigosos.

Eis um trecho que resume bem a situação em que se encontra Totonhim, no fim da linha, sem ter o que fazer ou pra onde ir: “Era São Paulo esta noite. A cidade que contemplou os sonhos de um imigrante com emprego, mulher, sogro, sogra, filhos (onde estariam eles?), amigos (e estes também?), viagens, amantes, sim, queridas colegas de trabalho, vocês foram o sal e a pimenta do nem sempre insosso modo funcionário de viver. E agora muito disso, ou quase tudo isso, havia se esvanecido na fumaça do maior parque industrial da América do Sul – mais um forno, mais um torno, mais um Volks. Agora ele estava só. Totalmente só, na cidade onde é possível você suportar tudo, quase tudo, menos a falta do que fazer”.

Ninguém está só quando se tem algo do que se ocupar. Mas, quando o tempo vai retirando os afazeres, percebe-se que todos à volta já se foram. Esse impacto de uma realidade que não se pode modificar é um soco no estômago de Totonhim que nem sequer num “longínquo passado” consegue encontrar um sentimento para a vida. É a cilada do tempo: enquanto o presente é solidão, o passado também não lhe oferece a possibilidade de um reencontro confortável, já que as lembranças têm um sabor mais agreste do que doce.

Pelo Fundo da Agulha talvez seja um romance perigoso, como narrar é também perigoso, pois trata da volta ao que foi vivido ou ao que, a duras penas, se vive. E uma narrativa sobre a solidão traz consigo um duplo perigo: o de fazer com que as personagens do outro lado da cena, os leitores, também percebam a sua irremediável condição.