Coleção de resenhas feita por Vera Lúcia Dias

Nas palavras da curadora:

…diferentes visões e interpretações que cada pesquisador Brasil afora fez do seu livro. Esse site é justamente pra alargar a visão das obras. Além de incentivar que todos leiam eles complementam o leitura de cada uma delas. Creio que será um trabalho riquíssimo e que vai ajudar muitos estudantes, pesquisadores e professores.

Vera Lúcia Dias, abril de 2020

Clique para visitar o site: Antônio Torres com curadoria de Vera Lúcia Dias.

Veja, por exemplo, o verbete já bem extenso sobre Essa Terra.

Sinopse: Pelo Fundo da Agulha

Capas de Pelo Fundo da Agulha

Personagem principal de Essa terra, Totonhim e Junco, cidade natal do escritor Antônio Torres e de seu personagem mais célebre, surgem novamente para o público em 1997, com O cachorro e o lobo, no qual se conta o regresso do protagonista à cidade depois de ausência de 20 anos. Mas ainda faltavam coisas pra contar. O emocionante acerto de contas entre Totonhim e suas memórias de Junco acontece agora, com PELO FUNDO DA AGULHA, que fecha uma trilogia primorosamente construída na velocidade de um pau-de-arara.

São três tempos de um personagem catalisador da vida brasileira na última metade do século XX. Em Essa terra, ele aparece moço, recebendo seu irmão Nelo, que partira para São Paulo. Cultuado como alguém que deu certo, Nelo volta falido para sua Junco, no sertão baiano, e acaba cometendo suicídio por não corresponder às expectativas dos seus e por não se reencontrar mais com a cidade. 0Em O cachorro e o lobo, a narrativa ganha lentidão. Transcorridos 20 anos, Totonhim reaparece para comemorar o aniversário de 80 anos do pai. Atormenta-o o desemprego, mas ainda consegue representar o papel do homem bem-sucedido, distribuindo presentes e festejando com seus conterrâneos. Nesta viagem perigosa, seu pai teme que ele siga o exemplo do irmão, e lhe proporciona um almoço que é um elogio da vida e uma noite de amor com sua primeira namorada.

Em PELO FUNDO DA AGULHA, 10 anos depois, Totonhim está sozinho no mundo. Aposentou-se, separou-se da mulher e dos filhos, perdeu o melhor amigo e faz uma outra viagem de volta – totalmente interior. Embalado pela imagem da mãe velhinha, mas ainda com visão boa para enfiar a linha pelo fundo da agulha, sem usar óculos, ele repassa vários lances de sua vida, como se a olhasse por esse orifício. As figuras agora existem só na memória de Totonhim, que revela o lado paulista de sua história.

Ele está em uma nova encruzilhada. O homem fora de combate deita na cama e pensa no sentido de tudo. Não há ninguém para consolá-lo e ele se sente perseguido pelas histórias de amigos e parentes que se suicidaram. Quer voltar para Junco, Junco não existe mais. “Tentei, neste livro, fazer uma reflexão sobre este crepúsculo do mundo em que vivemos. Um mundo pós-utópico, pós-modernista, pós-tudo. Entendo que por trás dos impasses do personagem Totonhim não estão apenas os meus próprios. Nem apenas da minha geração. O que me parece é que de repente nos vemos todos – jovens, adultos e velhos – numa espécie de encruzilhada do tempo, em busca de uma saída para o futuro. E onde está esta saída? Eis a questão”, conta o autor.

Ao som de velhas canções, Torres constrói em PELO FUNDO DA AGULHA uma narrativa musical, com idas e voltas, representando o próprio movimento desses migrantes que habitam dois tempos e dois mundos, fazendo a passagem contínua de um para o outro.

Antônio Torres nasceu em 13 de setembro de 1940 em Junco, um povoado no interior da Bahia. Estudou em Alagoinhas e Salvador, onde ingressou no Jornal da Bahia. Aos 20 anos mudou-se para São Paulo, onde foi repórter e chefe de reportagem do caderno de esportes do jornal Última Hora. Trocou o jornalismo pela publicidade, trabalhando como redator publicitário em grandes agências brasileiras. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a lua. Em 1976, publicou Essa terra, seu maior sucesso, que já foi traduzido para o francês, espanhol, italiano, alemão, hebraico e holandês. Também é autor de Balada da infância perdida, Os homens de pés redondos, Carta ao bispo, Adeus, velho, O centro das nossas desatenções, O cachorro e o lobo, O circo no Brasil, Meninos, eu conto e Meu querido canibal. Em 1998, foi condecorado pelo governo francês com o Chevalier des Arts et des Lettres. Em 1987, recebeu o prêmio Romance do Ano do Pen Clube do Brasil por Balada da infância perdida e em 1997 o prêmio hors concours de Romance da União Brasileira de Escritores por O cachorro e o lobo. Em 2000, recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Meu querido canibal lhe rendeu o Prêmio Zaffari & Bourbon da Jornada Literária de Passo Fundo, em 2001. Em 2003, lançou O nobre seqüestrador, que conta a história de René Duguay-Trouin, corsário francês e personagem de muitas aventuras cuja espada submeteu navios, seqüestrou cidades, intimidou vontades e conquistou corações.


“Antônio Torres é um escritor que construiu carreira sólida ao longo de 30 anos. Poucos autores de sua geração têm um estilo tão marcante, uma linguagem tão poética e envolvente. Em seu mais recente romance [Pelo fundo da agulha], Torres penetra nos meandros da velhice. Quando ela começa, como se manifesta, o que acontece com nossa rotina diária no momento em que nos aposentamos, o que fica de nossa auto-estima, o vazio que nos toma. Não é, em momento algum, um livro para baixo, uma história de decadência. Cheio de atitude e poesia, é uma lição de vida, um romance cheio de ternura e compaixão, a história de um homem que perde o emprego e mergulha no sertão baiano em busca do pai. O romance busca a resposta que ninguém tem: qual é o sentido da vida? Por que aqui estamos? Torres é um obstinado: low profile, despreocupado das glórias vãs, cresce a cada livro”

Ignácio de Loyola Brandão (Revista Vogue Brasil/ janeiro 2007)

O Nobre Sequestrador – Sinopse

Algumas capas de O Nobre Sequestrador

Em O NOBRE SEQUESTRADOR, Antônio Torres conta a história de René Duguay-Trouin, corsário francês e personagem de muitas aventuras cuja espada submeteu navios, sequestrou cidades, intimidou vontades e conquistou corações.

Depois do sucesso de Meu querido canibal – vencedor do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura em 2001 –, cujo personagem principal era o emblemático Cunhambebe, Antônio Torres não resistiu pesquisar sobre a vida de outra figura importante mas muitas vezes esquecida na história do Rio de Janeiro. “Esse audaz corsário de Luiz XIV, que encheu o Rio de terror e medo. Corri mundos e fundos atrás das suas trilhas, fui duas vezes à terra dele, Saint-Malo, que fica na Bretanha francesa e também a La Rochelle, de onde Duguay-Trouin partiu.”, revela o autor.

René Duguay-Trouin, um dos mais audazes personagens de seu tempo, chegou ao Brasil numa esquadra de 18 navios, com quase 6 mil homens e 700 canhões, para saquear o ouro que era embarcado no Rio de Janeiro e seguia para Portugal. Executou o plano com sucesso e tomou a cidade como refém durante cinquenta dias, enquanto aguardava o pagamento do resgate para devolvê-la a seus habitantes, depois de encher os navios com o ouro carioca para partir, deixando-a dilapidada.

A bem-sucedida invasão de Duguay-Trouin funcionou como vingança pessoal para ele – um ano antes, um outro corsário francês, Jean-François Duclerc, tentou invadir o Rio, com cinco navios e mil homens, mas fracassou, terminando preso e assassinado misteriosamente –, além de representar um grande lucro para a França. As motivações de Duguay-Trouin eram bem mais amplas que as do corsário que o antecedeu. Pretendia deslocar o eixo da Guerra de Sucessão Espanhola da Europa, já que a França, que se batia nos mares contra uma poderosa coalizão formada por oito países, vinha sofrendo muito naquela guerra. Com a marinha agonizante, atacar o Rio seria uma maneira de eliminar os inimigos da França aos poucos, pelas beiradas, longe do seu poderio militar. Ou seja, atacar o Rio, na época a mais florescente colônia portuguesa, era atacar Portugal, eterno aliado dos ingleses e parte da coalizão européia que estava em guerra contra a França.

Com um fim nada heroico, a história de Duguay-Trouin, herói na França e vilão no Brasil, remonta a um tempo de aventuras e desventuras, de marinheiros, piratas e emoção. O NOBRE SEQUESTRADOR é um romance de deixar o leitor tonto, em meio a tantas guerras, vendavais, tempestades, naufrágios, heroísmo, sonhos e sacrifícios humanos, sobretudo na era de esplendor e miséria do Rei Sol.

Uma geração uivando para a Lua

Capas de Um cão uivando para a Lua
Algumas capas de Um cão uivando para a Lua

Jornal do Commércio, Recife
Fernando Azevedo

Antônio Torres criou um cão danado, que agride com a sua dor toda uma geração que vive (ou sobrevive?) entre sonhos e desilusões neste imenso País tropical. O seu “Um Cão Uivando Para a Lua”, magro e vigoroso como um nordestino, rosna e morde com todos os seus dentes, afiados pelas escaramuças travadas na cidade grande, onde a antropofagia ainda é praticada, apesar de 473 anos de catecismo. O seu cão, ao contrário de certa espécie de tigre, é mal comportado, escavaca velhas feridas e fuça mágoas, arranhando em cada página o equilíbrio aparente com que vivemos a nossa vidinha pequeno-burguesa, tecida ainda de sonhos que não se enquadram na realidade. A sua novela não foi escrita solitariamente, toda uma geração assina esta obra, de uma forma ou de outra.

As vezes sádico, debochado, melancólico, trágico ou irônico o seu tom lembra uma memória em processo crítico, onde cada experiência é purgada, pesada e analisada, para compor um quadro que define bem o que poderíamos chamar de uma geração de transição. Afinal, esta geração já se aproxima de uma idade em que terá de prestar contas: assinalar as suas virtudes e relatar os seus vícios e pecados, para que se avalie com exatidão a sua presença histórica e existencial. Uma geração não respira impunemente. Faça o que fizer, sempre haverá um julgamento.

Mas, a novela de Torres não pretende caçar bruxas, julgar ou avaliar quem quer que seja: apenas descreve, às vezes até próximo da crueldade, um estado de vida de uma geração perdida e maldita por diversas razões revelando os seus sonhos, suas ambições, desencontro e quedas. Suas personagens vivem a época da Transamazônica, respiram o ar poluído da metrópole e assumem todos os cacetes e neuroses do nosso tempo. Elas vieram no nordeste, romperam com o cordão umbilical do universo rural e tornaram-se pessoas urbanas, apesar das lembranças nostálgicas e por vezes odiosas da roça e da pequena cidade, onde permanece um passado tão forte que carregam nos ombros e na memória. Torres esquematiza dois tipos de comportamentos cara e coroa de uma mesma moeda, através de suas personagens. “T” enfrenta a metrópole e a máquina com uma visão fatalista (ou terrivelmente cartesiana?): a máquina existe, é forte, monolítica e nada se poderá fazer, a não ser aderir, abdicar os nossos sonhos mal elaborados na adolescência. O sonho acabou, meninos. A vida é dura, devemos enfrentá-la com o que sobrou de nossas couraças ou… nos arrebentamos. No entanto, esse comportamento é epidêmico, aparente porque envolve contradições profundas. Na medida em que “T” sobe na vida, descobre a sua imensa dor, uma dor de quem foi violentado, prostituído, engravidado por uma máquina que cada vez exige mais em troca de magras emoções e algumas gratificações sociais o “status” não é capaz de apagar o desencanto de uma vida rotineira e vazia de significados. Também pode-se uivar dentro de Dodge Dart do ano ou silenciosamente em cima dos confortáveis tapetes Tabocow que cobrem os tacos dos apartamentos da classe média. “T” venceu na vida para a máquina, três hurras para ele. “Ao vencedor, uma camisa de força”. Os tempos mudaram. Na época machadiana, os vencedores comiam batatas e Freud ainda não tinha lançado as bases da psicanálise, a magia civilizada adotada pelo nosso mundo ocidental.

O contraponto de “T” é “A”, uma personagem que esculhamba a sua estrutura nos choques da guerra diária, e vai parar num sanatório , terra de ninguém e exílio voluntário de quem não suportou a antropofagia de todos os dias. Ali, em paz de trégua, “A” realiza uma viagem de retorno às suas experiências de vida num flashback que se transforma num terrível balanço crítico, que transpõe as porteiras do drama pessoal e individual para situar-se numa amarga e desesperada análise de toda uma geração, que descobre estar os valores nus e as intenções onde sempre estiveram: apenas no nível da intencionalidade, simples potencia, nunca ato realizado. A equação está montada e é simples, exigindo uma apreensão apenas didática, como numa lição. Ou aceita-se as regras do jogo, com todos os seus riscos, ou fica-se à margem. A lógica da máquina é implacável e fria, mas exprime uma verdade que se tem de olhar de frente. Ela força, na prática, a uma tomada de posição, aceitar as regras do jogo ou rejeitá-la (jogar ou não jogar, eis a questão), ambas gerando conseqüências, uma, a dor; outra, o vazio do nada. “A” termina a viagem em torno de sua própria dor, e aprende a lição. Quebra o isolamento e deixa o exílio, retornando à vida. Afinal a máquina, possui a força do magnetismo, atrai para o seu campo de força tudo o que gravita em sua órbita, porque é ele quem dá a própria existência ao homem, apesar de limitá-la dentro de fronteiras  bem demarcadas. Fora da máquina não há vida, e isso é óbvio. “A” resolveu a equação, bem ou mal, escolheu o caminho de volta, a dor nossa de cada dia.

Esta é a forte novela de estréia de Torres. Ele destilou toda a sua experiência de baiano que foi para a cidade grande, carregando atrás de si séculos de êxodo contínuo e gerações inteiras, enfrentando uma máquina que se alimenta de homens e sonhos. Como escritor, entrou no festim antropofágico com seus dentes afiados, mostrando as suas marcas e feridas antigas e recentes. Escreveu um cão raivoso, de  peito aperto, que uivou para a lua para lembrar à sua geração as suas dores, as nossas dores. É difícil ver esse cão uivar, com som tão humano e tão verdadeiro. Seu livro é um soco na cara, daqueles que fazem o mundo rodar em nossa volta ao normal, o equilíbrio é sempre restabelecido. Só que espanamos a nossa memória, revisamos as nossas experiências e afiamos os próprios dentes. No final das contas, como disse Faulkner e Torres transcreve como epígrafe de sua novela, “entre a dor e o nada, escolho a dor”.

Orelha à primeira edição de “Um cão uivando para a lua”

A cosmologia do cão

Celso Japiassú

A tônica do livro é a de um desespero contido e que de repente, quando menos se espera, apossa-se e toma conta do leitor. Quem tiver sensibilidade e estiver fazendo uso dela para perceber o que se passa hoje com as pessoas, no mundo interior de cada uma, como reflexo do que está se passando no outro mundo, o de fora, o que cerca as pessoas, não deixará de sentir profundamente a carga de emoções trazida por cada uma das personagens deste livro.

Antônio Torres apresenta as personagens-chave por simples iniciais, revelando que voluntariamente recusa-se a nomeá-las, como a querer mostrar que por detrás deste aparente anonimato encontra-se não um homem determinado, com características bem definidas, mas o traço bem marcado de uma geração que subitamente se descobriu enganada por uma esmagadora mas bem definida escala de valores que não eram verdadeiros. A surpresa desta revelação trouxe consigo o desejo de encontrar uma saída, refletindo-se na busca caótica e desesperada que levou inclusive ao consumo de drogas e a uma perplexidade não só mal compreendida mas até mesmo reprimida com violência pelo Sistema.

O livro não critica o que apreende e que põe diante do leitor às vezes com o impacto de um soco. Nem condena ou absolve. Apenas expõe e emociona, numa linguagem clara e agressiva, mas literariamente criativa. O cão que uiva para a lua está sozinho e procura algo distante, que não sabe bem o que seja, mas que tem de ser melhor do que as amarras que o prendem.

O caminho que pode levar à libertação transforma as personagens em viajantes engajados numa peregrinação intensa e angustiante, dentro e fora de si mesmos, que só poderia se completar na compreensão da grandeza, da violência e da miséria que está presente em T. e em A., duas personagens que Antônio Torres coloca diante de nós e que assumem uma forma de espelho refletindo as nossas próprias caras.

Prefácio de Antonio Torres para a edição comemorativa dos 30 anos de lançamento do seu primeiro livro, “Um cão uivando para a lua”

Prefácio do autor.

Ou:

Como uivar para a Lua numa noite sem a menor possibilidade de estrelas

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela
loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
em busca de uma dose violenta de qualquer coisa…”

Allen Ginsberg/ Uivo – na tradução de Cláudio Willer/ LPM Pocket, 2001

Para começar, eu ainda não tinha lido o poema de Allen Ginsberg, que só caiu nas minhas mãos em 1973, numa viagem a Lisboa, um ano depois da publicação dos meus próprios uivos. Foi o poeta português Alexandre O´Neill quem me presenteou com o livro do Ginsberg que, na edição portuguesa, se não me falha a memória, começava assim: “Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura…”

Era um libelo da Geração Beat dos anos 50 – que incluía Jack Kerouac, William Bouroughs, Lawrence Ferlinghetti etc -, e da contracultura e rebeliões juvenis dos anos 60 e 70. O impressionante era que neste lado do paraíso, aqui nos subúrbios da América, estivéssemos vivendo a mesma inquietante atmosfera. Mas no tempo em que escrevi este Um Cão Uivando para a Lua – um tempo vivido entre São Paulo e o Rio de Janeiro, depois de andanças por Oropa, França e Bahia -, os meus autores preferidos eram outros, das Américas (a começar pelos brasileiros obrigatórios) e do mundo. E, onde quer que estivesse, sempre tinha à cabeceira um livro de Scott Fitzgerald, o que dizia: “Numa noite escura da alma são sempre três horas da manhã.” O que morreu dizendo: “O progresso é o desencanto contínuo.”

Vivíamos uma era de progresso – a Transamazônica, a ponte Rio-Niterói, Itaipu, o BNH, o boom imobiliário, o DDD e o DDI, PNBs fantásticos, as fachadas da ditadura militar. Em seus porões os descontentes, ou dissidentes, uivavam até a morte, se não fossem resgatados antes no rabo de um foguete para o exílio.

Nas selvas de pedra a classe média achava que finalmente havia chegado ao paraíso, enquanto seus rebentos exilavam-se num quarto, se entupindo de LSD ao som de Jimmy Hendrix e Janis Joplin, até a loucura.

Como todo mundo à minha volta, também ouvia os sons de uns e outros: Chico Buarque, Caetano & Gil, Vincius de Moraes e Tom Jobim, Milton Nascimento, Zé Kéti, Paulinho da Viola, Baden Powell – “todos os violões havidos e a haver,” na definição magistral do já citado poeta português Alexandre O´Neill -, e todo o resto do pessoal, que incluía o teatro do Zé Celso Martinez Correia, e o de Boal, Guarniéri e Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, de Plínio Marcos etc, e o cinema de Nelson Pereira dos Santos, Gláuber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade etc, etc, etc, ah, meninos, era uma era de arte, na contra-mão do enquadramento da ordem & progresso: censura, prisões, tortura, desaparecimentos, mortes, nunca é demais lembrar.

Um Cão Uivando para a Lua é desse tempo e lugar. O título me veio numa noite escura, em São Paulo, quando num quartinho de um hotel barato na Alameda Barão de Limeira, eu ouvia o tempo todo Miles Davis tocando sem parar My funny Valentine, uma terna canção americana, do dia dos namorados, que aquele trompetista, um gigante do jazz, transformara num lamento lancinante. Como os uivos vindos lá do fundo dos quartéis e dos manicômios, num dos quais eu havia visitado um amigo, que tinha a cabeça raspada e espumava loucamente. Já não se entupia de LSD, mas com as drogas que os médicos lhe davam, para acalmá-lo – e que o deixavam muito excitado. Foi aí que me veio uma idéia para um conto: um doido batendo papo consigo mesmo. Como parecia ser o de Miles Davis com o seu trompete. Oito meses depois tinha um romance nas mãos.

Bem, já havia entrado na casa dos trinta e finalmente o meu teclado engrenava. Até então vivia começando histórias que nunca passavam da segunda página. Isso me desesperava, me dava uma horrível sensação de fracasso. E de repente, como num milagre, já tinha ido além da terceira. Que maravilha. Como vivia ganhando e perdendo emprego no eixo Rio-São Paulo, coincidiu que por aqueles dias dei com os costados numa agência de publicidade carioca, onde fui contratado como redator. Entre um anúncio e outro, descubro que o gerente da empresa era um poeta, chamado Celso Japiassú, que me presenteou com um dos seus livros – e já não me lembro o que motivou tal gesto. Na verdade, naquele tempo havia até publicitários que gostavam de ler e escrever e acabamos por ter assunto para dois dedos de prosa depois do expediente. Acabei criando coragem para mostrar-lhe as minhas primeiras páginas. No dia seguinte fui chamado, pelo telefone interno, para ir à sua sala. Para minha surpresa, não se tratava de uma ordem de serviço, “uma campanha para ontem.”

— Você pode até nem saber que é um escritor – começou ele, tendo entre as mãos as páginas que eu havia lhe passado no dia anterior. Por uma questão de pudor, deixo a frase em suspenso, sem completar com o que ele disse a seguir. Mas não posso deixar de dizer que o primeiro leitor das primeiras mal-traçadas linhas deste meu primeiro livro me encorajou muito, muitíssimo, para ir em frente. Velho Japi: nunca será tarde demais para te dizer “Muito obrigado.” Sei que andas por aí a capitanear novos negócios e, espero, a escrever poemas de boa fatura literária, na calada da noite, como antigamente.

O livro iria ser lido com entusiasmo também por um pequeno editor, o Lúcio de Abreu, que me disse: “Isto tem cheiro de sucesso.” Só que no meio do caminho – já com os originais na gráfica -, ele iria revelar suas dificuldades financeiras, naquele momento, para produzi-lo. Foi uma confissão desesperadora. Olha eu de novo uivando para a Lua. O que fazer?

Foi aí que entrou em ação uma verdadeira corrente da solidariedade para que este livro viesse a ser publicado, liderada por um colega do departamento de criação da finada Denison Propaganda, chamado José Monserrat Filho, atualmente editor do Jornal da Ciência, da SBPC, e até hoje um amigo de fé. Ele arregimentou um mutirão: o produtor gráfico da Agência, o saudoso Bilé, que iria conseguir gratuitamente o fotolito da capa, que foi criada de mão beijada por um talentoso diretor de arte, o Cláudio Sendin. Carlos Estevão de Souza Filho fez a foto da contra-capa, que teve layout de Joaquim Pêcego, o velho Pá. A produção do livro acabou se tornando uma ação entre colegas de trabalho – não dá para esquecer aqui a extrema boa vontade de outros ali, como Aldyr Nunes e Federico Spitale -, que deram a sua contribuição pessoal para aliviar os custos e viabilizar a edição do livro. Celso Japiassú, o entusiasmado leitor da primeira hora, escreveu a orelha. E assim este Um Cão Uivando para a Lua foi embalado para as livrarias, no dia 14 de novembro de 1972, vindo a merecer também a solidariedade da crítica, dos leitores, dos escritores.

E estes se manifestavam através de cartas, ou por telefone. Nomes consagrados – como Jorge Amado, Marques Rebelo, José Américo de Almeida, Osman Lins e o português José Cardoso Pires – brindaram o estreante com calorosas palavras de incentivo. É preciso dizer que até então o autor destas linhas não conhecia pessoalmente aqueles escritores. Minhas – poucas – relações eram com outros. Numa curta temporada no Jornal da Bahia, trabalhara com Ariovaldo Matos e João Carlos Teixeira Gomes e, na Última Hora de São Paulo, com Ignácio de Loyola Brandão, que num começo de tarde, antes da zorra começar na Redação, me mostrou as páginas de um livro que estava escrevendo, o Depois do Sol. Naqueles primeiros tempos de São Paulo cheguei a conhecer Marcos Rey, já um autor de best-sellers e um excelente sujeito, que sempre me recebia em sua casa de copo na mão, enquanto a sua mulher, a doce Palma, se apressava em preparar um rango; e João Antônio, que me impressionara vivamente com o seu Malagueta, Perus e Bacanaço, e com quem havia perambulado uma vez pela noite paulistana, de ‘pé sujo’ em ‘pé sujo’, até o último bêbado olhar para o céu e gritar: “Não há possibilidade de estrelas!”

Mas agora eu iria saber quem eram os outros. Da Manaus de Márcio Souza à Porto Alegre de Moacyr Scliar, do Recife de Hermilo Borba Filho à Ituiutaba de Luiz Vilela, da Bahia de João Ubaldo ao Paraná de Domingos Pellegrini Júnior, eles formavam um bando, com uma enorme concentração em Minas Gerais – Murilo Rubião, Wander Piroli, Sérgio Sant`Anna, Oswaldo França Jr., Roberto Drummond etc – e no Rio de Janeiro: não tardou muito para o escriba aqui estar sendo recebido por Ana Arruda e Antônio Callado – aquele lorde que tanta falta nos faz -, e Nélida Piñon, em cuja mesa cabia sempre a verve de Rubem Fonseca. Ah, Rubem Nosso Bem, quando vamos voltar a dar umas boas risadas? Agregadores era o que não faltava. Como o casal Laura e Cícero Sandroni, com suas feijoadas concorridíssimas, nas quais Antônio Houaiss, José J. Veiga, José Louzeiro, Marcos Santarrita, Edilberto Coutinho, Eglê Malheiros e Salim Miguel, entre tantos, tinham cadeira cativa. Em São Paulo, as casas de Ivan Ângelo, Moacir Amâncio e Edla van Steen estavam sempre de portas abertas para outros. Numa volta lá, acabei conhecendo o Raduan Nassar. E ficamos amigos para sempre. Parecia que todo mundo seguia ao pé da letra os versos de Carlos Drummond de Andrade: “Como viver sem conviver/ na praça de convites?”

Depois alguns de nós – como o Loyola, o João Antônio, este aqui e muitos mais – ganhamos a estrada, falando em tudo quanto era canto deste imenso e mal administrado País, com a polícia sempre atenta ao que falávamos. Pelo caminho, fomos envelhecendo, alguns morrendo e vieram outros e já não era mais a mesma história. Mas nunca me esqueci do que uma vez me disse a adorável e inteligentíssima Nélida Piñon: “Toda essa camaradagem um dia vai acabar. Quando o tal do mercado fizer as suas escolhas.” Não deu outra.

Bom, valha o que valer o relançamento deste livro agora, não poderia deixar de dedicá-lo, ainda uma vez mais, a Sonia Torres, que não só o viu nascer – antes de nossos filhos Gabriel e Tiago – mas também resiste ao meu lado, com sua solidariedade incondicional, por toda uma vida feita de bons e maus momentos.

Tanto quanto consigno aqui os meus agradecimentos à minha agente literária Marisa Gandelman e à Editora Record, que vem reunindo todos os meus cacos deixados pelas estradas para com eles compor um belo mosaico. Sérgio e Sônia Machado, Luciana Villas-Boas e Ana Paula Costa: segurem aí o meu abraço.

Se este esforço editorial valerá a pena, é com você, caro leitor.