Gerson Pereira Valle no Facebook sobre Querida Cidade

Publicado na revista InComunidade em jan/2022.

ESCRITOR é o profissional que assobia palavras, contando histórias como melodias. As palavras do escritor formam conceitos referentes, de agrado ou desagrado, com ou sem significado lógico, mas marcantes como enunciados. É claro que os escritores possuem também outras características, mas se nos ativermos a somente esta, e que é bem peculiar à espécie, já por aí se evidencia o fato de ANTÔNIO TORRES ser um grande, imenso escritor. Seu mais recente romance, “Querida cidade” (Editora Record, 2021), trabalhado por muitos anos com o saber trazido por uma experiência rara no ramo, traz-nos, a nós seus fiéis leitores, assobios reconhecíveis de músicas palpáveis por sua apurada sensibilidade. Sim, literalmente as músicas são citadas por suas letras. E elas vão direto a um tempo e popularidade que as fizeram moldar caracteres de brasileiros. Isto à época em que o rádio era ouvido por toda a parte, e a estação da Rádio Nacional transmitia conceitos de vida nas músicas que integravam o quotidiano de todos. Hoje em dia é preciso historiar tal realidade, pois a relação da música pela televisão, que substituiu o rádio nos costumes, não é exatamente igual. E, sobretudo, talvez, pelos caminhos da poesia das canções ter tido efetivamente uma era áurea (que o filme de Woody Allen taxou de “a era do rádio”) tanto para o autor aqui tratado como para este seu resenhista. Versos extraídos de tais canções equiparavam-se, muitas vezes, a anexins (como se dizia ao tempo de Arthur Azevedo), ditados populares, provérbios, máximas, adágios… E no romance em causa as citações de todas essas espécies, ao lado até de frases ou versos saídos de livros conhecidos, vão compondo a narrativa.

Esta a letra, mas qual a melodia? Outra característica do ESCRITOR é a de usar sua experiência própria para projetar suas “invenções”, de modo a possuírem a garantida verossimilhança pelo reflexo de seu conhecimento. Mesmo ao final de vida, um Tolstói, por exemplo, transpõe o seu péssimo comportamento de jovem ao ter uma filha com uma empregada submissa, no romance “Ressurreição”, e, na busca da autenticidade e de acerto ante a existência, acusa o egoísmo da aristocracia russa a que pertencia. A ambiência trazida nas memórias subjetivas (que são a fonte primária de todo escritor) de Antônio Torres são bem menos agressivas, correspondendo, aliás, a seu temperamento cortês sabiamente pacífico, como seus conhecidos podem observar. A ambientação moldada em memórias indiretas se projetou mais nitidamente na trilogia composta por “Essa terra”, “O cachorro e o lobo” e “Pelo fundo da agulha”. Eu ouso observar que “Querida cidade”, de certa maneira, retorna à ambiência e tipos similares aos da trilogia, como se a experiência da idade de quem já provou de outros meios de manifestação de suas verdades, compusesse então um painel de novo estilo, no amadurecimento da forma e visão mais distanciada.

O personagem central já é um “ele” mais genérico. Na trilogia era o “Totonhim”, que é apelido de Antônio, seu nome mesmo. Aqui não tem mais nome. O personagem amplia-se num quase anonimato de uma pessoa do povo, mesmo que com personalidade que o distinga para a contação da história, como todos temos em nossas existências. Diga-se que a “contação de história” integra uma diretiva própria do contexto em que se integra a Literatura de Torres. Genericamente, poder-se-ia classificá-lo como Regionalismo nordestino inserido no Modernismo e Pós-Modernismo brasileiros. No que pese o amazonense Milton Hatoum, ao referir-se a Graciliano Ramos, lembrar da irrelevância do local da narrativa, mas da importância sim de sua linguagem, há algumas constantes no chamado regionalismo nordestino, e uma delas é a “contação de história”. Poderia lembrar, tendo José Américo de Almeida de início, de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna, e baianamente a linha de Jorge Amado, Ubaldo Ribeiro, que parece encerrar-se em Antônio Torres. Talvez até a “contação” tenha atingido seu clímax de forma direta, e mesmo linear, em Zé Lins e Jorge Amado (que ensaiou narrativas menos tradicionais nos “Velhos marinheiros”, sobretudo no notável “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”). Mas, nunca desaparece. Ecos da narrativa cinematográfica, sobretudo do “flash back”, com planos cruzados (que marcaram o “Contraponto” de Aldous Huxley ou o “Sursis” de Jean Paul Sartre) tornaram-se imprescindíveis mesmo nos mais arraigados “romancistas contadores”, da tradição popular de Sherazade. Aliás, de qualquer vínculo popular, e o romance nordestino segue muito esta linha. Em Antônio Torres, um simultâneo internacionalismo aparentemente dissolve a “contação” tradicional nordestina. No entanto, o interesse narrativo não esconde de todo certas origens, o que lhe dá a personalidade que todo leitor procura no enriquecimento dado pela Literatura.

“Querida cidade” parece-me não só um epílogo da Trilogia de Torres, mas mais abrangentemente de toda a chamada Literatura Regionalista nordestina. Uma quebra sequencial da narrativa tradicional, acrescida de uma nova composição multiplicadora de enfoques novelísticos. Dá a impressão das histórias serem bonecas que saem de dentro de outras bonecas, como na matriosca russa. Um truque do ESCRITOR que faz com que nunca se encontre num ponto definitivo, abrindo sempre novo espaço para outro desenvolvimento, espichando a vida além das expectativas usuais. Como espero que venha a ocorrer na bibliografia de Antônio Torres. Que ele nos possa brindar ainda com mais algumas de suas mágicas literárias em novas narrativas para o nosso deleite e sobrevida da Literatura Brasileira, agora nesse invólucro universal.

Gerson Pereira Valle no Facebook sobre Querida Cidade

Querida Cidade na TV Senado em 22/10/2021

“Quinze anos depois de publicar um romance, Antônio Torres volta ao gênero com Querida Cidade. O livro marca também a volta a um dos temas mais recorrentes em sua larga obra, o migrante perplexo e deslocado diante do mundo. A partir de um sonho, onde o homem se vê no topo de um edifício ilhado por uma enchente, Torres retoma a esperança de um país perfeito que embalou a década de 1950 e busca encontrar os desesperos que nos conduziu até o presente.”

Querida Cidade: Diversas impressões

“Querida Cidade é um encantamento, un embrujo, com esconderijos a céu
aberto. Cada frase tem a ternura de uma carícia, a alegria de uma
lembrança, a potência de um soco na memória. E sim, a paciência
incomparável de um escritor artesão para filigranar a estrutura do
romance. Tangos, guarânias, boleros. Uma longa jornada noite adentro”.
Leda Senise – atriz, cenógrafa e escritora.

“Ele é mágico. Sua linguagem nos envolve como um rio feiticeiro, dotado
de cor e ritmo, conduzindo uma narrativa poderosa que conecta tempos e
lugares na sua deliciosa fluidez, produzindo cronótopos cujo entrelace traz
à tona a querida cidade e ao mesmo tempo nos faz submergir nela e com
ela. Um encanto”. Ordep Serra – escritor e presidente da Academia de Letras da
Bahia.

“Um livro com estilo do começo ao fim”. Ignácio de Loyola Brandão – escritor,
membro da Academia Brasileira de Letras.

“Pura polifonia de vozes aliada à segurança de um narrador assombroso”.
Cunha de Leiradella – escritor.

“É profundamente metafórico, em muitas camadas. A gente vai lendo
como quem retira palimpsestos. A sensação é de iceberg narrativo. Pela
ponta visível vai se desnudando um mundo submerso, donde emerge um
mundo de referencialidades – os signos não apenas da memória, da
história, dos ícones de um país estão ali contemplados. E Torres se utiliza
da música em si e da musicalidade das palavras para ir realizando essa
tessitura”. Ronaldo Cagiano – escritor e crítico literário.

“Querida Cidade é uma obra riquíssima. Além da narrativa e do aspecto
literário, além do imaginário, há nela o fabuloso poder de Antônio Torres
na reconstrução da memória”. Dominique Stoenesco – professor e tradutor.

“Livro importante e significativo”. Ana Maria Machado – escritora.

“É magistral. Merece muitas resenhas, dissertações e teses. Sobretudo,
merece um imenso público leitor”. Reginaldo de Jesus – professor e crítico
literário.

“A sensação de conjunto de Querida Cidade é magnífica. Uma trama
aberta ao espaço infinito da imaginação e também da sedução do leitor”.
Aramis Ribeiro Costa – escritor.

“Obra madura e estruturalmente perfeita, na qual Torres retoma os
grandes temas dos seus romances – o interior e a capital, as certezas do
passado e o incerto presente, a família como memória e a solidão do
agora etc. E aguça ainda mais o ouvido para a frase, que ganha uma
cadência límpida, musical. Que livro maravilhoso”. Miguel Sanches Neto –
escritor.

Querida Cidade por Ronaldo Albuquerque

Em 25 de setembro no Facebook

Querida cidade, de Antônio Torres

Antônio Torres surgiu no cenário da literatura brasileira com o romance ‘Um cão uivando para a lua’ (1972), recebido com grandes elogios pela crítica. Com ‘Essa terra’, seu terceiro romance, foi aclamado como um dos maiores escritores nacionais. É membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira nº 23. Seus livros estão traduzidos em incontáveis idiomas. Quase 50 anos depois da estreia e após um silêncio de 15 anos, ele brinda seus leitores com ‘Querida cidade’, um longo romance com 430 páginas.

Trata-se de um texto aliciante e perpassado pela ironia, construído por um artesão dotado de infinita paciência, com um cuidado beneditino, texto esse em que estão incorporados chavões, trechos de música, títulos de livros e assim por diante. O autor não nomeia o personagem principal, autointitulado Das Dores.

No belo romance se interpenetram as vozes do narrador e dos personagens (mesmo que utilizada a 3ª pessoa). Mas nem sempre a do personagem principal, que por vezes permite que um personagem secundário surja à frente da cena, quando então a narração sobre este se derrama.

Antônio Torres sabe criar como muito poucos, entre o personagem principal e o leitor, uma atmosfera de forte empatia.

Com seus 81 anos, que acabou de completar no último dia 13, é um homem profundamente sintonizado com o século XXI, mas que, ao mesmo tempo, sabe lançar um olhar de infinita ternura para o interior do Brasil nos distantes anos 50, época em que se passa a maior parte da história.

Imagem: Livraria da Travessa

Querida Cidade por Nelson Rodrigues Filho

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LI, GOSTEI E RECOMENDO AOS AMIGOS
QUERIDA CIDADE, na sua polifonia e na forma de metaficção, constrói a cidade que a história de cada um recupera, não na concretude, mas na força da memória e sua companheira, a imaginação. Desse modo, embora haja a presença ativa de um personagem (o Das Dores), fio condutor e fator de verossimilhança, as ocorrências vão se dando, no tempo da memória, que desconstrói a linearidade temporal, para deixar fluir a lembrança, que não discrimina o cotidiano, o sentimental, o histórico , realizando o que é mais característico da escritura romanesca, a reprodução do discurso do outro. Organiza-se, na sua literaridade, o já-visto, o já-lido, o já-ouvido, o já- dito, criando, nesse espaço citacional – que incorpora, no mesmo plano, o trágico, o cômico, o alusivo, a ironia, a paródia – a grande personagem, que é a cidade interior do sujeito, as diversas relações, universo de crenças, costumes, desgraças, hábitos, desejos, frustrações, na finitude do mundo, cujo limite é significado no limite da linguagem. Não me lembro se foi Benjamin o mestre que ensinou ser a ficção a história íntima de um povo, o que cumpre muito bem o romance de Antônio Torres, trazendo para a cena a intimidade e o cotidiano que é tarefa da ficção e a História não consagra. QUERIDA CIDADE cumpre muito bem a lição de Tostói, segundo o qual ser universal começa na pintura da própria aldeia. A narrativa de Torres “dialoga” prazerosamente com o leitor, fazendo-o parceiro e confidente.
TORRES, Antônio. QUERIDA CIDADE. Rio de Janeiro/São Paulo, Record, 2021.

Querida Cidade por Luis Pimentel

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Chegando à quadragésima trigésima e última pagina do imprescindível “Querida cidade” (Editora Record, 2021), do gigante Antônio Torres, como quem desce zonzo de uma roda gigante e tenta reencontrar a serenidade em terra firme. “Uma história cheia de histórias”, como ele já definiu o romance literário, um exercício da tão urgente e necessária sobrevivência, “entre sonhos e sustos”. Livro para se recomendar aos amigos como quem recomenda uma oração. E ainda passei pelo susto e o orgulho de ver o meu nome nos agradecimentos. Como se diz lá na terra dele, é porreta!