Entrevista à Heloisa Buarque de Hollanda

Entrevista publicada no Portal Liberal www.portalliberal.com.br (dezembro de 2002)

Antônio Torres conta a Heloisa Buarque de Hollanda o caminho até seu primeiro livro, relançado trinta anos depois

Antônio Torres, um de nossos mais consagrados ficcionistas, acaba de relançar seu livro de estreia, “Um cão uivando para a lua”, de 1972. De lá para cá publicou nada menos do que 12 romances, com traduções em Cuba, Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel e Holanda, e recebeu varios prêmios, como o Chevalier des Arts et des Lettres, o Machado de Assis e o Zaffari & Bourbon. A conversa que se segue toma o rumo de juntar os fios do Brasil de hoje com a época de sua estréia literária, conhecida como os anos de chumbo, seus impasses geracionais e o boom da literatura que já se anunciava e veio à tona com insuspeito vigor por volta de 1975.

H: Por que essa reedição agora? Que ventos são esses que andam nos trazendo os Doces Bárbaros e tantos outros remakes dos tempos em que o sonho ainda não tinha acabado?

AT: Permita-me começar puxando um Freud de bolso: os sonhos só acabam quando a gente morre. Quanto aos remakes, eles estão tirando do baú do tempo produções que de alguma maneira marcaram uma época, assim os entendo. Tipo assim: “recordar é viver”. Ou um breve ato contra a ditadura do Novo! Chegou! Agora no Brasil!  No caso desta reedição, porém, trata-se da disposição da Record de reunir todos os meus cacos e com eles fazer um belo mosaico. A partir da publicação de “O cachorro e o lobo”, em 1997 – meu primeiro livro publicado lá -, essa editora vem trabalhando nesse sentido. Tanto que, de 1999 para cá, já relançou cinco dos meus títulos: “Os homens dos pés redondos”, “Balada da infância perdida”, “Essa terra”, “Um táxi para Viena d’Áustria”, e, agora, “Um cão uivando para a lua”. O fato de “Um cão…” ter feito 30 anos no finalzinho de 2002 acabou servindo de gancho para o seu relançamento, com prefácio do autor e posfácio com a fortuna crítica do livro. Com isso, a Record vem me dando um verdadeiro banho de loja, pois as edições são muito bacanas, capas bonitas etc. A empresa não está apenas publicando e republicando os meus livros. Tem um projeto para eles, obedecendo a uma programação muito bem planejada. A repaginação do acervo deste velho autor deixa-o se sentindo com pinta de quem acabou de sair da clínica do doutor Ivo Pitanguy. Agora, quero deixar claro que existe nos meios editoriais brasileiros um certo tabu de que reedição não funciona, porque o leitor brasileiro só gosta de novidade. Nos casos expostos acima, editora e autor não podem se queixar. Os resultados têm sido satisfatórios. Onde foi que erramos?

H: Esse livro reflete os anos de chumbo ou os tempos do “sufoco”, como diziam os poetas. Qual sua lembrança como artista e intelectual daquele momento? Como foi sua experiência pessoal e literária nesses anos negros?

AT: Tinha todo aquele clima (os da minha idade ainda devem se lembrar): ditadura, censura, prisões, desaparecimentos, mortes. O chumbo era de grosso calibre mesmo. Mas um ufanismo de inspiração fascista ou algo parecido tentava abafar os uivos, que eram interpretados pelos artistas – os que tinham voz e souberam usá-la -, tornando-se uma frase bíblica metáfora do protesto: “Pai, afasta de mim este cálice/ afasta de mim este cálice/ de vinho tinto de sangue”. Bom, minha experiência pessoal foi a de estar ligado nos acontecimentos como um parceiro desse tempo – era preciso estar atento e forte; não tínhamos tempo de temer a morte, cantava a Gal. À minha volta, havia os que caíam nas drogas até irem parar debaixo dos eletrochoques. Outros pegavam em armas. Por causa de um deles, que era meu amigo, acabei tendo que andar me escondendo da polícia, por um bom tempo. Foi um sufoco. Também tive amigos que se exilaram. Meu exílio foi aqui mesmo. Lendo muito. E tentando escrever.

H: A questão da loucura do personagem era também sinal dos tempos? O que seria a loucura nos anos 70 e a loucura hoje, no século XXI? Lembro que naquela época loucura era sinônimo de experiência interessante, sensibilidade, transgressão. Sentido que ficou ainda mais carregado e múltiplo com o clima sombrio da ditadura.

AT: Agora você me faz lembrar do meu primeiro analista (passei por três, dos anos 70 aos 90, pois voltava aos divãs, sempre que a barra pesava). A primeira vez foi análise em grupo, que estava na moda – e era mais barato. Quando o grupo começou a falar muito em loucura, o terapeuta disse: “Vocês não sabem o que é isso.” Naqueles anos, falava-se em loucura como quem dizia: “Me traz aí uma coca-cola.” Não deixava de haver uma certa tendência a romantizá-la, glamourizá-la. A loucura funcionava esteticamente como metáfora, creio, ou sinônimo de rebeldia. O que fosse loucão era maravilhoso: o filme, o romance, o poema, a pintura, o sujeito. Havia qualquer coisa de importado nisso (do conde de Lautréamont com seus fantásticos “Cantos de Maldoror”, escritos sob o efeito de ervas alucinógenas, aos hipsters que faziam o contraponto para os squares, antecessores dos caretas). Criativamente, a loucura sempre foi sedutora. Quanto ao personagem de “Um cão uivando para a lua”, ele surgiu a partir do impacto provocado ao me deparar com um amigo que havia sido internado como louco. Logo, o ponto de partida para a sua construção partiu de um alicerce real. Como o autor aqui estava “inserido no contexto”, como era também moda dizer-se, tentei buscar a loucura do outro (está no livro: “O universo são dois. Quero ir ao outro para ver vocês de lá.”) e introjetá-la em mim. Como se quisesse entender, afinal, onde estava a fronteira entre sanidade e loucura. Agora, o que existe de modo generalizado é a caretice, a platitude das imagens globalizadas.  Mas agora, dizemos “que loucura!” quando vemos o presidente dos Estados Unidos da América gritar “fogo, fogo!”. E quando os petardos no morro ao pé de nossas camas nos tiram o sono. Ou assustados com o fanatismo religioso e outros. Ah, quanta loucura.

H: Como foi fazer esse livro? Voce pensava em ser escritor naquela época?

AT: “Um cão uivando para a lua” começa assim: “Passei o dia todo subindo e descendo escada.” Relendo isso quando tive de fazer a revisão das provas do livro, pensei: essa frase diz muito sobre todas as minhas tentativas anteriores de escrever. Ah, quantas páginas tive que jogar na cesta do lixo antes daquele começo! Sim, claro, escrever era – e continua sendo – o meu sonho de criança. Se você, depois de brincar de esconde-esconde comigo, me perguntasse o que eu queria ser quando crescesse, a resposta viria na ponta da língua: “Castro Alves!” Tive uma professora chamada Tereza que percebeu isso e todo dia me escalava para ler um texto literário em voz alta. Depois, passava um exercício de redação, que ela chamava de composição. Era sofisticadíssima aquela professora da minha escola rural, lá no Junco – hoje Sátiro Dias -, no sertão da Bahia. Um dia aquela bendita professora pegou pesado, me pedindo para escrever sobre um dia de chuva. Como eu vivia num lugar chegado a uma seca, tive que apelar para a imaginação. Hoje, acho que ela estava mesmo querendo fazer de mim um romancista. E aí saí pelo mundo borrando papel – para o lixo. Até chegar a Lisboa. No meu primeiro dia lá (passou-se isto em 25 de junho de 1965), sentado à mesa de um café, passei a observar os homens que iam e vinham pela calçada, dando voltas no quarteirão. Achei que eles tinham os pés redondos de tanto andar em torno de si mesmos. Eureca! “Os homens dos pés redondos”. O título estava achado. Fiquei três anos em Portugal tentando achar o resto. Acabei vindo embora com apenas um título na bagagem. No regresso, em São Paulo, depois de muito batucar numa Lettera 22 – a mais fantástica máquina de escrever que o mundo foi capaz de inventar -, consegui chegar à primeira frase: “A julgar por ele, todos aqui são homens sem mulheres, porque as mães de seus filhos não contam.” Mas, e aí, como era que se fazia para continuar? Empaquei. Até o dia em que, no Rio de Janeiro, fui visitar um amigo que estava internado num hospital psiquiátrico, onde vinha sendo tratado a eletrochoques. Fiquei chocado. Desse choque nasceu o “Um cão uivando para a lua”, que foi escrito de um jato, com toda a urgência deste mundo. A minha urgência de parir um livro. Que resultou cheio de gafes literárias, pouca ou nenhuma elaboração, um texto sujo, como diz o meu filho Tiago, acrescentando: “Por isso mesmo é o seu livro de que mais gosto.”

H: Como esse livro sinalizou sua longa e definitiva trajetória, que o tornou um dos mais respeitados ficcionistas de nossa geração?

AT: Bom, tão logo cheguei ao ponto final de “Um cão…”, voltei ao outro, que empacara. E aí o teclado continuou andando, em velocidade de cruzeiro. E quando o telefone tocou e uma voz se anunciou como repórter do “Jornal do Brasil”, e disse que queria me entrevistar, pensei que era algum amigo querendo me sacanear, me passando um trote. Eu ainda não sabia que escritor dava entrevista. Depois vieram as críticas, as cartas, os livros. E aí percebi que o país estava cheio de escritores da minha idade, que adentravam a minha casa, dentro dos envelopes. Eram tantos que cheguei a pensar que, se eles comprassem os livros uns dos outros, todos viravam best-sellers. Até àquela altura, meus conhecimentos de literatura brasileira paravam em Clarice Lispector e Antônio Callado. Havia lido o “Quarup”, quando ainda morava em Portugal, onde também li Borges, Cortázar, todos os italianos do pós-guerra, os franceses e ingleses (os young angry men estavam na onda), enquanto o poeta português Alexandre O’Neill me pedia para ler o “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, em voz alta, “por causa da oralidade do texto, da sua sonoridade”. Aliás: o O’Neill me apresentava aos seus amigos assim: “Este gajo chegou cá falando de Scott Fitzgerald, de quem cita de memória páginas e páginas. Temos que o levar a sério.” Um dia fiquei desempregado lá. Aí ele me disse: “Não precisas de emprego. Na minha casa tem um quarto para ti. Vou te trancar a pão e água, pois tudo o que tens a fazer é escrever.” Voltei a Lisboa em 1973, já com dois livros publicados. E casado com a Sonia. O O’Neill me saudou assim: “Oh pá, leste bem os norte-americanos!” Aí me lembrei do tempo em que ele lia J. D. Sallinger em voz alta. Aquilo que acabava de me dizer era um elogio, com certeza. Ah, não me fale dos norte-americanos. Malditos escritores! Eles contribuíram muito para que eu retardasse o meu começo. Porque vivia com a cabeça totalmente ocupada com as primeiras frases, as primeirs linhas, os começos deles. Eram de humilhar: “Todos estavam bêbados” (Hemingway). “Era precisamente meio-dia nesse domingo quando o xerife chegou à cadeia com o Lucas Beauchamp embora toda a cidade (e todo o conselho, para falar a verdade) já soubesse desde a véspera que o Lucas havia matado um branco” (Faulkner). “Havia um homem e um cão também desta vez. Duas feras, considerando-se Old Ben, o urso, e dois homens, contando-se Boon Hogganbeck, em cujas veias corria um pouco do sangue que corria em Sam Fathers, embora a linhagem de Boon fosse plebéia e apenas Old Ben e o mestiço Leão fossem puros e incorrupitíveis” (idem). “Imagine uma manhã no fim de novembro. A chegada de uma manhã de inverno há mais de vinte anos. Pense na cozinha de um velho casarão numa cidade do interior. A peça principal é um grande fogão preto; mas há também uma ampla mesa redonda e uma lareira com duas cadeiras de balanço em frente. Exatamente hoje a lareira começou seu rugido sazonal” (Truman Capote). “Começa-se com um personagem e, antes de se dar conta, descobre-se que se criou um tipo; começa-se com um tipo e descobre-se que não se criou coisa nenhuma” (Scott Fitzgerald). E mais os outros, daqui e d’alhures. Guimarães Rosa: “… era uma viagem inventada no feliz.” Juan Rulfo: “Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia o meu pai, um tal de Pedro Páramo.” Albert Camus: “Hoje, minha mãe morreu.” E chega. “Esqueça os outros”, dizia-me Alexandre O’Neill. “Escreva, pá, escreva. Depois os críticos vão descobrir com quem te pareces.” E não deu outra. É, doutora Heloisa: demorei a começar. Depois que o teclado pegou o embalo, escrevi o primeiro livro num jato, como já disse. Porque tinha pressa em chegar ao segundo. (Atenção! Esta frase aí está me soando a Borges, em “O fim”. Também pudera. Já li esse conto dele mais de 30 vezes. E em voz alta). O terceiro livro veio devagar. Houve quem o classificasse de maduro. Fiquei preocupado. Fruto maduro cai da árvore. Depois apodrece. Temeridades à parte, a (presumível) maturidade literária não veio só com o tempo e o fazer e refazer. A crítica teve sua (digamos, inestimável) parcela de contribuição. Porque prestei mais atenção nas restrições do que nos elogios. Se tive algum crescimento ao longo dessa trajetória, se deve também a isso. Ou principalmente foi isso. Mas já que o motivo desta entrevista é a minha estréia nas letras, há 30 anos, termino dizendo que tenho uma saudade danada do tempo em que vivia escrevendo sem saber que existia vida literária, com seus padrões, regras, jogos de poder, panelas, cascas de banana, uma tremenda mão-de-obra. Mas acho entrevista um barato. Me faz pensar, refletir. Conferência também: é uma maneira de fazer da fala uma extensão da escrita. Ou de escrever em voz alta.

H: Diz aqui em primeira mão: qual seu próximo projeto????

AT: Um romance que tem como personagem principal René Duguay-Trouin (o corsário de Luiz XIV, o Rei Sol), que em 1711 fez o primeiro seqüestro do Rio de Janeiro – o da própria cidade, que tomou como refém durante os 50 dias em que esperava o pagamento do resgate, para devolvê-la a seus habitantes. Foi uma loucura! Venho pesquisando isso desde 1998, quando estive pela primeira vez em Saint-Malo, na França, a terra natal de Duguay-Trouin e fortaleza dos corsários. Voltei lá em fevereiro de 2002, e fui também a La Rochelle, de onde ele partiu com 17 navios e quase 6 mil homens para arrasar o Rio e pegar todo o ouro que aqui era embarcado para Portugal. Em La Rochelle passei um dia inteiro com um historiador chamado Laurent Vidal, diretor do Espaço do Novo Mundo, que marcou encontro às nove da manhã no Aquário da Marinha. Cheguei pontualmente, levado por uma tropa da Universidade Michel de Montagne, de Bordeaux. Para começo de conversa ele me deu uma revista na qual acabava de publicar um ensaio sobre a invasão francesa ao Rio de Janeiro, com a seguinte dedicatória: “Na esperança de que você escreva um ótimo romance sobre esse assunto.” Como esse historiador havia lido o “Meu querido canibal”, isso facilitou o papo. Nem precisei lhe dar maiores explicações sobre o meu projeto. Durante aquele dia falamos de Duguay-Trouin o tempo todo. Ele me ajudou muito a ajustar a alça de mira. Já estou na metade do livro e com contrato assinado com a Record. Se o teclado continuar correndo bem, poderá ser publicado em 2003. Por fim, mas não por último: ao escrever um livrinho sobre o Centro do Rio, para a coleção Cantos do Rio (Rioarte-Relume-Dumará), me encantei com a história desta cidade, que tem personagens fascinantes, como o Cunhambebe, o meu querido canibal, e o Duguay-Trouin, o audaz corsário.

Com a palavra o escritor

“Prezadíssimo Carlos Ribeiro: reescrevi tudo. Enxuguei tudo, reduzindo o texto praticamente à metade, tentando torná-lo publicável. Do jeito que estava – longo, repetitivo, chato – parecia que dei aí a minha pior palestra de todos os meus anos de palestrante nacional e internacional. Menino, achei um horror. De me matar de vergonha. Espero que tenha melhorado, pelo menos um pouquinho. Ainda assim, me sinto devedor de uma palestra decente para os meus conterrâneos. Outra coisa: acabo de escrever uma crônica sobre Jorge Amado, sob encomenda do “site”do Banco do Brasil, que está disponível no seguinte endereço: www.cultura-e.com.br(depois busque orbita e depois estado da arte.) Se achar, e achar que vale a pena, por favor, peça aos amigos para darem uma olhada (Aleilton, Gerana e quem mais possa se interessar). Bom, já são 4 da matina de domingo. Essa revisão acabou sendo uma refação. Deu um trabalho do cão. Um abração e obrigadão. Antônio Torres.”

Com a palavra o escritor Antônio Torres
Data: 13/06/97

Em primeiro lugar, meus agradecimentos a Ildásio Tavares pela brilhante apresentação. Realmente, ele tem razão: depois da sua fala não tenho muito mais a dizer (risos).

Bem, quero agradecer às instituições baianas que tornaram possível essa minha presença aqui em Salvador. Refiro-me à Fundação Casa de Jorge Amado e à Universidade Federal da Bahia. E, claro, a todos vocês.

Fiquei muito contente com o que o meu querido Ildásio Tavares falou  sobre O Cachorro e o Lobo, ao dizer que é um momento muito diferente na minha literatura. Acrescentaria que este romance coincide com um momento diferente na minha vida. É a idade avançando e, quem sabe, a maturidade chegando.

Permitam-me contar-lhes a curiosa reação de Luciana Vilas Boas, a diretora editorial da Record, logo que o leu, ainda nos originais. Ela me telefonou para perguntar como era que eu tinha conseguido criar um personagem “tão bem resolvido.” Se eu era uma pessoa “bem resolvida.” Respondi-lhe que certamente que não; que talvez o personagem estivesse na contra-mão dos meus próprios impasses pessoais. A verdade, porém, é que quando escrevi o livro, ele me deu, em primeiro lugar, muito prazer, e, em segundo, me trouxe um certo apaziguamento. Assim que o terminei, enviei uma cópia pra Paris, para Alice Raillard, que é tradutora de Jorge Amado e conselheira para a língua portuguesa, na editora Gallimard. E ela me mandou uma carta tão bonita, tão entusiástica, que eu pensei que não precisava mais publicar o livro: aquela carta já me bastava. Andei um tempão com ela no bolso, já me dando por satisfeito.

Deixei O Cachorro e o Lobo na gaveta e parti para outra empreitada: a de escrever um livrinho de encomenda para uma coleção chamada Cantos do Rio, do Rio-Arte, instituto da Secretaria de Cultura do Município do Rio de Janeiro. A nova tarefa resultou num volumezinho intitulado O Centro das nossas desatenções, que me fez bater perna pelo centro da cidade, vasculhando-o em seus becos, bares, espaços culturais, legados históricos e, até, nos cocorutos de seus arranha-céus. Perigrinei também pelas ilhas, que são marcos da história do Rio: a de Villegagnon, a das Cobras e a Fiscal – esta, a do famoso baile que derrubou o Império. Além desse corpo-a-corpo, também mergulhei num trabalho de pesquisa que, passo a passo, ia se revelando fascinante. Tanto que esqueci O Cachorro e o Lobo por uns tempos. Até porque o livro sobre o Centro do Rio era uma encomenda com prazo de entrega e publicação.

Durante as minhas pesquisas percebi que, assim como eu, a maioria dos cariocas andam pelo Centro da cidade sem dar a menor atenção à história que existe nele, e que é riquíssima. Daí ter me ocorrido esse título de O Centro das nossas desatenções. E que colou. E olhem que eu temia o que os naturais do Rio de Janeiro iam dizer. “Como que um baiano se atreve a contar a nossa própria história?” Para minha surpresa, a recepção foi extremamente simpática. Até hoje continuo recebendo caixas e caixas de livros ensebados, alfarrábios caindo aos pedaços, com pedidos de leitores para que eu escreva mais sobre o Rio. Logo, o resultado foi altamente compensador.

Se O Cachorro e o Lobo foi apaziguador em relação ao meu passado de retirante, o livro sobre o Centro do Rio poderá me abrir perspectivas futuras, pois me deixou fascinado pelo estudo da História, e, sobretudo, o estudo da História das nossas cidades, como Rio de Janeiro, Salvador e Recife, por exemplo. Ainda não sei aonde esse novo interesse vai me levar, literariamente falando. Mas, para já, concluo que o conhecimento da História é fundamental para um romancista.

E já que o escritor aqui está com a palavra, permitam-me mostrar como a história que escrevi sobre o Centro do Rio se inicia. Porque as linhas que vou ler tem muito a ver com a trajetória deste narrador que vos fala – um baiano que passou boa parte da vida se descolando de um lugar para outro: do Junco para a Alagoinhas, depois Salvador, São Paulo, Lisboa, Porto e outras Oropas e, finalmente, Rio de Janeiro. Vejamos:

“Comecemos pelo aeroporto Santos Dumont, onde um dia um rapaz de vinte anos chegou, olhou a cidade de longe e foi embora. Eu me lembro: era uma bela tarde de janeiro, o mês do Rio. Céu de brigadeiro. O esplêndido azul de Machado de Assis. O azul demais de Vinícius de Moraes. Ano: 1961. O passageiro estava em trânsito. Vinha da Bahia com destino a São Paulo. Desceu aqui para fazer uma conexão, depois de cinco horas preso numa cadeira de uma geringonça ensurdecedora e vagarosa, relíquia aeronáutica da Segunda Grande Guerra. Um pau de arara do ar chamado kurtis commander que, mal avistava uma pista de aterrissagem, ia baixando.

Descer no Rio havia sido uma bênção. Para os seus ouvidos, suas pernas, seus olhos. Assim o vejo: olhando a cidade por trás dos vidros que o enjaulavam no saguão do aeroporto, enquanto aguardava a  chamada para o embarque. Azul era também a cor do seu paletó. Ele estava convenientemente vestido para sua primeira viagem de avião. Trajava até uma gravata vermelha, sobre uma camisa branca. E seus sapatos espelhavam, de tão bem lustrados. Numa das mãos, portava uma maleta com tudo que possuía de seu, aos 20 anos – o que incluía meia dúzia de livros -, além da roupa do corpo. Já que não podia sair, contentou-se em olhar à distância a cidade que só conhecia de prosa e verso, cinema e canções, e tudo nela, o que vinha dela, o fascinava. E dava medo. Imaginava-a fora da rota dos imigrantes, inatingível para principiantes. O Rio era a Corte – dos sabidos e malandros. Suas artes e letras, sua natureza deslumbrante (“ Deus fez o mundo em sete dias, dos quais tirou um para fazer o Rio de Janeiro,” dizia a voz de ouro de Luiz Jatobá, num documentário de Jean Manzon), o atraíam. Mas a manchete do jornal comprado na banca do aeroporto o amedrontava. Era sobre uma operação de extermínio chamada chamada de mata-mendigos. E ali estava ele,  entre duas visões da cidade: uma sedutora, outra assustadora. Teve vontade de ficar. A chamada para o vôo o levou em frente. Tinha que ir para São Paulo. Assim estava escrito na sua passagem. Era um baiano do interior, um tímido roceiro, e estava indo para a locomotiva da nação, onde sempre haveria de cabermais um. Voltaria ao Rio um dia, para vê-lo de perto, entrar nele, conhecê-lo nas solas dos seus sapatos, se para tanto não lhe faltasse coragem. O Rio não era uma cidade para capiaus, tabaréus da roça.

Trinta e cinco anos depois, um passageiro diário das linhas urbanas de Copacabana-Centro, Centro-Copacabana, vai retornar ao Santos Dumont. A pé. Para tentar descobrir o que foi mesmo que aquele garoto interiorano viu – e se por um momento poderiam voltar a ser a mesma pessoa -, ainda capaz de ver a cidade com um olhar de novidade. E vai chegar moído. Esbodegado. Como se tivesse batido nos cascos a longa estrada Bahia-São Paulo, embora seu fique logo ali. Aqui mesmo, no miolo do Centro, o número 110 da avenida Rio Branco, entre a rua do Ouvidor e a 7 de Setembro, onde era o Jornal do Brasil.”

Até aí, não é ainda a História do Rio que está no centro da narrativa, mas a do narrador, que se move sobre o seu próprio eixo de deslocamento. Todos os meus livros contém esse núcleo. Em alguns dos meus romances, acho que de alguma maneira em todos eles, tento buscar um entendimento do que se passa com os homens que trocam a sua terra por outra e que – é minha percepção – lá no fundo de si mesmos perdem a que tinham e não conquistam a outra. Isso a partir de minhas vivências junto aos baianos que foram para São Paulo.

Os que migravam do Junco, digo, de Sátiro Dias, se instalavam em São Miguel Paulista, na periferia da cidade. Quando chegava o mês de junho, eles pegavam uma sanfona, um zabumba e um triângulo e iam para os botequins, para comemorar os famosos santos do mês, como se estivessem na Bahia. A vizinhança chamava a polícia, que chegava e os revistava. Assim que a polícia ia embora, pediam um rabo-de-galo, despejavam um pouco para o santo e diziam: “Eles estão na sina deles e nós na nossa. Vamos lá!” E o forró varava o tempo, até a polícia voltar. E quando cheguei àquelas bandas, todos me perguntavam: “Sabe dizer se está chovendo por lá?” Então entendi tudo: se dissesse que sim, muitos pegariam a estrada de volta.

Eis aí o substrato de romances como Essa Terra, que é a trágica história de uma viagem de regresso às origens. Carta ao Bispo e Adeus, Velho seguem a trilha do ir-e-vir, só que com personagens procurando um lugar dentro do mapa da Bahia mesmo. Em Adeus, Velho o deslocamento é do interior para a capital, depois do pólo petroquímico, da insdustrialização do estado, com novas oportunidades de trabalho, que reduzem os fluxos migratórios para o Sul.

Balada da Infância Perdida é essa Bahia  nas paredes de um quarto em Copacabana. Inspirado num poema de Garcia Lorca – Balada da pracinha -, é a história de um desfile de crianças vestidas de azul e branco levando os anjinhos para o céu – ou seja, os caixõezinhos azuis. Isso às 5 horas da manhã, com um narrador de porre, com um olho na parede e outro no despertador. Nessa parede desfilam 25 anos da história do Brasil contemporâneo. É um delírio.

Tanto quanto há algo de delirante em Um táxi para Viena d’Áustria, que tem por cenário uma esquina de Ipanema, e por ingredientes a violência urbana e o desemprego, na era Collor, pré-globalização. E mais: uma banda com Mozart ao piano, Art Blakey à bateria, Charlie Parker ao saxofone, Miles Davis ao trompete, nosso Baden Powell ao violão, Charles Mingus no contrabaixo e Sigmund Freud ao reco-reco. Todos regidos pelo próprio Deus, em pessoa. E a decretação da morte de todos os escritores do mundo, incluindo também a entrega dos restos mortais de Dostoiévski aos urubus de Niterói. Tanto na Balada, como no Táxi, os personagens centrais são nordestinos. E cada um, à sua maneira, está às voltas com o seu deslocamento.

Queria aqui falar da minha ligação com a música, que vem da minha infância, quando o Jazz de Inhambupe ia tocar na missa solene e, à noite, no baile do Mercado do Junco. E depois, na adolescência, ouvi muito todos aqueles maravilhosos e inesquecíveis vidas-tortas da minha terra, que ficavam na calçada da igreja tocando para a Lua ou improvisando bailes, para animar a moçada. O Junco (naquele tempo Sátiro Dias ainda era o Junco, um distrito de Inhambupe) exportou muitos músicos para o Sul. Em São Paulo, peguei muita carona na carava de um trompetista meu conterrâneo, chamado Zé Bispo, que tocava nos bailes de São Miguel Paulista, Itaquera, Ermelino Matarazzo e outras cidades periféricas. Esse foi um dos que voltaram, não para se matar, como o personagem de Essa Terra, mas para morar em Feira de Santana, de onde arrasta a sua banda aí pelo interior. Mas há um outro, o Zito de Zé de Satu, o professor de violão e maestro Zito de Oliveira, que assentou praça em Presidente Prudente, no Oeste paulista, montando uma escola de música também em Presidente Venceslau, e que ainda faz a festa até às margens do rio Paraná. E há ainda  o João do Bolero, cujo cavaquinho exerce seus domínios lá para os lados de Marília, também no Estado de São Paulo, derretendo os corações paulistas com os sons do Junco. Tenho um irmão, aqui em Salvador, chamado José Raineldes, Nem para a família, que é profissional do baixo elétrico. E um filho baterista, para desespero dos meus vizinhos. Eles compensam um pouco a minha frustração de só tocar o teclado das letras. Mas antes que eu me esqueça: foi o trompete de Miles Davis, um gigante do jazz, que inspirou um de meus títulos: Um Cão Uivando para a Lua. E o piano de Thelonius Monk sempre dá uma certa cadência às minhas mal-traçadas linhas, que batuco dando razão a Caetano Veloso: “Como é bom poder tocar um instrumento!”

Foi a lembrança de uma música, e as minhas memórias da chuva – com licença do poeta Ruy Espinheira Filho – que me levaram a escrever O Cachorro e o Lobo. A música se chama Ne me quites pas e é do belga Jacques Brel. A chuva veio num domingo. Cheguei à minha janela em Copacabana e senti o cheiro da terra, com as primeiras gotas caindo no terreno baldio ao lado do prédio onde moro. Os passarinhos cantavam. As árvores se eriçavam. Então me lembrei de Jacques Brel, quando cantava: “Eu te oferecerei, pérolas de chuva, vindas de um país, onde nunca chove.” Então pensei: “Este país é o meu. E se chama Junco.” E me lembrei de que, quando chovia no sertão, os homens vestiam terno branco e rolavam na lama, loucos de alegria. Corri para o teclado e bati nele: “Eis aí. Eis-me de regresso a essa terra de filósofos e loucos, a começar pelo meu pai, que disso tudo tem um pouco.” Pronto, foi como se o espírito de Totonhim, o narrador de Essa Terra que partiu para São Paulo, aos 20 anos, houvesse baixado em minhas mãos, entrando em cena e pedindo para voltar às páginas, ou seja, para fazer uma viagem de regresso à Bahia. O narrador aqui rendeu-se ao apelo do personagem e deu-lhe estrada. O que significou uma volta da volta. E se as coisas não tivessem acontecido deste modo, eu não teria voltado também, para ter o prazer de estar aqui com vocês.

Para terminar, queria lembrar que se a volta de Nelo, o personagem de Essa Terra, foi um desencontro com final trágico, a de seu irmão Totonhim foi um reencontro. Ou por outra: a recuperação da sua memória afetiva, do seu passado, de sua história, de si mesmo. Essa é a diferença entre um livro e outro, entre esse romance de agora e os outros, o que nosso amigo Ildásio Tavares percebeu. É como se o Totonhim afinal me fizesse compreender que esse mundo está mesmo perdido, vai ver ele até já acabou faz tempo, e o que nos resta a fazer é cuidar bem dos nossos afetos.

Na mesma medida digo a vocês: muitíssimo obrigado pela atenção afetuosa com que me ouvem nesta Universidade Federal da Bahia. E fico por aqui, por não ter mais palavras para lhes agradecer.

Entrevista para a Revista Iararana

Entrevista para a Revista Iararana n° 6, de Salvador, BA. Por Antônio Brasileiro, Cid Seixas, Aleilton Fonseca e Rubens Pereira

Antônio Brasileiro – Você é simpaticíssimo, cativa as pessoas, é tido como uma pessoa que incentiva os outros. Isto é uma característica muito pessoal, ou se deve ao fato de você ter nascido no Junco, ter vivido a infância no interior da Bahia?

Torres – Jamais pensei ser visto assim, com tanta simpatia. É possível que eu seja um tanto gregário, por ter nascido no sertão, numa família muito grande – eu sou o primeiro de uma fila de onze irmãos, só de tios do lado materno eram dezessete. E aquela criação na vida rural, ao natural… O trabalho tinha um sentido coletivo. Quando eu era garoto, meu pai contratava trabalhadores para trabalhar na lavoura, e eu ia trabalhar junto com eles. Na hora do rancho, sentávamos todos nós debaixo de um pé de umbuzeiro para comer. Os trabalhadores dormiam em nossa casa, nas redes, ou na casa de farinha, onde espalhávamos esteiras. Fui criado assim: todo mundo junto. Isto, de alguma maneira, deve ter tido alguma influência no meu temperamento, no meu comportamento. É uma coisa da experiência humana, das relações de trabalho e convívio. Como era que se fazia farinha? Era todo mundo junto, raspando mandioca e proseando. Como era um mutirão para fazer a casa de um compadre? Era todo mundo junto. Como era a despalha do milho? Uma festa! Bater o feijão? Era todo mundo batendo e cantando! Tudo era um trabalho comunitário na minha infância. E hoje sinto falta disso, porque nosso tempo urbano e cosmopolita é um tempo muito individualista.  cada um na sua. A minha infância me marcou muito. E eu me reencontrei com ela ao fazer o livro Meu Querido Canibal. Quando fui à aldeia dos Guaranis, lá na Serra da Bocaina, no município de Angra dos Reis, levei um susto, ao ver aqueles indiozinhos brincando com gravetos lá em cima daquela pirambeira, mães com criancinhas sujinhas e nuas. Puxa, eu fui índio e não sabia! E quando eu cheguei ao platô, onde a turma da aldeia se reúne, eu vi que os índios estavam levantando uma casa de reza. Era igualzinho ao Junco. Quer dizer, eu fui tribal e não sabia. Eu vim de uma aldeia indígena e não sabia. Fui descobrir isso ao pesquisar para escrever o livro.

Cid Seixas – Quando vi anunciar Meu querido canibal, eu esperava um romance, devido ao hábito de lê-lo como um romancista. O que o levou a não fazer disto um romance, mas sim uma crônica histórica?

Torres – Levei muito tempo para encontrar o meu recorte na história. Primeiro,  pesquisei muito. Eu tinha um grande personagem nas mãos. E, como romancista, a primeira coisa que me encanta é o personagem. E Cunhambebe é tão forte que eu não precisava “ficcionalizá-lo.” Mesmo assim, tive de me valer de estratégias de romancista para preencher os vazios, os buracos da história, não só a de Cunhambebe como a da Confederação dos Tamoios. Ora, como os índios não tinham escrita, não deixaram registros de sua própria história. Aí temos que nos contentar com os relatos dos brancos, que reduziram a existência de Cunhambebe nessa terra a notas de pés-de-páginas ou verbetes mínimos. Referem-se a ele como como o tipo acabado do selvagem mais repelente. Então, eu entrei na história com muita paixão, em busca das trilhas do guerreiro Cunhambebe, sem medo do meu próprio delírio, do que iam dizer do meu delírio. É uma história em que eu  procurei soltar a mão entre o delírio e a indignação. A indignação pelos fatos que eu ia encontrando, e pelo esquecimento, mais do que esquecimento, o fato de terem relegado esta história, de a terem colocado debaixo do tapete. Porque ninguém se preocupou em trazer a história do nativo para a festa dos quinhentos anos. Agora, alguns amigos, como você, tinham a expectativa de que fosse um romance. Alguns estão lendo como um romance, outros lêem como uma crônica, outros lêem como uma biografia. Eu vejo no jornal os comentários. Uns dizem que é uma biografia romanceada ou um romance biografado. Outros dizem que eu ficcionalizei a história e historicizei a ficção. Agora, o que eu te digo é o seguinte: fiz o que o meu coração e o meu querido canibal, o grande chefe Cunhambebe, mandaram.

Aleilton Fonseca – A história tende a fechar no factual, no registro da realidade, enquanto a ficção privilegia a abertura. Como o romancista que se serve da história como matéria equaciona este problema?

Torres – Meu querido canibal foi produto de uma obsessão. Eu fiquei obcecado pelo grande guerreiro Cunhambebe, que era um gigante, tinha quase dois metros de altura e se orgulhava de ter nas veias o sangue de mais de cinco mil inimigos. Eu me fascinei por este tipo. O meu fascínio veio da percepção que eu tive, que virou um mote para mim. Eles, os índios, não tiveram escolha. Era a escravidão ou a morte. E o fato deste país ter tido um guerreiro que levou todo o seu povo a morrer de pé para não se deixar escravizar, se tornou uma questão emblemática para mim. Comecei a me perguntar se não é de Cunhambebes que este país precisa. Embarquei neste delírio do herói. Encontrei nele as possibilidades para desenvolver um relato. A outra questão é a seguinte: eu sempre busco o sonho de não ser um sambista de uma nota só. O fato de eu ter feito determinados romances em uma determinada linha não significa que eu vou ficar a vida inteira trilhando aquela picada. Porque pra mim não vai ter graça, não é para o leitor não, é pra mim, como criador. Eu quero experimentar relatos variados. Eu começo o livro: “Era uma vez um índio”. Pronto. Já coloquei o livro em tom de fábula. Isto vai me levar a ir buscar as fábulas, os mitos e as lendas dessa história. Porque a maioria dos livros que eu li não me ajudaram em nada. Foram livros importantes, que explicam a história, com interpretações brilhantes, mas cadê as fábulas, os mitos?  Aí que foi o meu trabalho. O de fazer ligações, levantar hipóteses, criar brincadeiras até, para construir este personagem. Foi aí que entraram as estratégias do romancista para cobrir os vazios da história e criar um relato.

Brasileiro – Você tem sua raízes na Bahia, mas isto não impede que você tenha aberto o coração para escrever um livro sobre o Rio de Janeiro. O que o levou a escrever este livro, amorosamente?

Torres – O Rio de Janeiro é uma cidade adorável. Cheguei lá depois de ter rodado o mundo, ter vivido muito tempo em São Paulo, três anos em Portugal, corrido a Europa. Quando finalmente cheguei ao Rio, como última etapa de uma longa perigrinação, senti que essa cidade aceita bem todo o país. Os melhores cronistas do Rio – depois do carioca Machado de Assis, bem entendido – são o capixaba Rubem Braga, o pernambucano Antônio Maria, os mineiros Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, e outro capixaba, Carlinhos de Oliveira. O Rio é a cidade com o maior número de escritores de outros estados. Dos baianos João Ubaldo e Marcos Santarrita ao amazonense Márcio Souza, sempre cabe mais um. E quem instala a sua tenda no Rio, acaba um dia por cantar a cidade, seja em verso, seja em prosa. Fui convidado pelo RioArte, instituto da Secretaria Municipal de Cultura, para escrever um livro sobre o Centro da cidade, para uma coleção chamada Cantos do Rio. Topei. A primeira fornada da coleção tinha o Carlos Heitor Cony, escrevendo sobre a Lagoa; Aldyr Blanc, sobre Vila Isabel; José Almino, sobre o Baixo Gávea; e Geraldo Carneiro, sobre o Leblon. Como já tenho um longo convívio com a cidade, na qual nasceram minha mulher e meus filhos, e como de fato gosto muito do Rio, não foi difícil cumprir a tarefa. E a reação dos leitores cariocas a esse livro foi a melhor possível.

Rubens Pereira – Seu trabalho sobre o centro do Rio surpreendeu os próprios cariocas, no sentido de explicitar aspectos que o olhar do carioca não enxergava mais. Foi um trabalho de estrangeiro, por ser de uma pessoa que não é carioca de nascença?  Você se sente estrangeiro em algum lugar?

Torres –   Deve haver alguma razão muito forte nisto, que eu acho que responde a você. Foi a minha identificação total quando eu li O estrangeiro, de Albert Camus. Eu acho que o criador, o artista, se sente estrangeiro. Mas, de repente, você passeia por um país que, por ser grande demais, cria uma solidão enorme. E as pessoas estão sempre se deslocando de um lugar para outro, e vivendo numa espécie de não-lugar. O baiano que saiu do Junco e foi para São Miguel Paulista, tal qual eu fui, ele estava lá fisicamente, o corpo dele estava lá, mas a cabeça dele estava no Junco. Eu nunca me esqueço de quando eu cheguei lá na primeira vez, em São Miguel Paulista, e a primeira pergunta que me fizeram (os conterrâneos) foi: “Você sabe se está chovendo por lá?”. Eu sabia qual era o resultado da minha resposta. Se eu dissesse: “Tá chovendo”,  nego voltava (para o Junco). E é nesta piração de ir e vir que acabei, ao longo do tempo, tendo o insight para criar o personagem Nelo de Essa terra, o que vai, vem, e se mata. Por quê? Porque ele ficou solto no espaço, num entre-lugar, que é uma teoria pós-moderna que está rolando, mas que eu acho que meus personagens se encaixam perfeitamente nesta teoria. Faz pouco tempo o cineasta Paulo Thiago me ligou, ele queria fazer Essa terra   no cinema, acabou não fazendo… Ele me disse: “Eu reli Essa terra em Miami, e vi teus personagens lá, eles não estão mais em São Paulo, eles já estão em Miami”. Porque aí começa a outra questão da pós-modernidade, que é a fuga do brasileiro para fora do Brasil, um fato absolutamente novo. Este estrangeiro, que era um estrangeiro psicológico, está virando um estrangeiro real.

Aleilton – O seu romance Essa terra é perpassado pela angústia e o fracasso no ir e vir do sertão para ao centro-sul, vividos pelo personagem Nelo. Vinte anos depois este mesmo cenário retorna, em O cachorro e o lobo,  romance  perpassado pelo ternura da compreensão, da resposta, da experiência. O que representou para o homem e o escritor Antônio Torres a volta ao tema e seu cenário?

Torres – É difícil dizer porque eu voltei. Mas são as buscas permanentes do romancista. Quando eu terminei Essa terra eu me senti muito mal. Não foi nem quando eu terminei. Mais ou menos na primeira metade dele eu fui parar na psicanálise. Eu fiquei apavorado com aquele suicida que havia no livro. E escrevendo na primeira pessoa – e eu costumo escrever na primeira pessoa não porque seja uma narrativa autobiográfica, mas para eu entrar mais no personagem, para eu grudar mais nele. E neste grudar no personagem, eu comecei a me apavorar com aquele suicida. E Essa terra também tinha um quadro de época muito pesado, da ditadura militar, um país muito polarizado, todo mundo vivendo aqueles impasses, luta armada, prisões, assassinatos, todo um quadro político nada suave. Já em O cachorro e o lobo o tempo não era mais leve mas, formalmente, vivemos numa democracia. E, por outro lado, entra a questão da maturidade. Você vai tendo umas certas compreensões de vida. Com os impasses e transes de nosso tempo, você acaba concluindo de alguma maneira que o que nos resta é a salvação pelo afeto. Como se o mundo já tivesse acabado mesmo, e como se eu estivesse andando por ele como mais um zumbi martirizado no tempo. Então eu quero encontrar as pessoas, bater um papo com elas sobre as durezas da vida, mas vamos nos divertir um pouco, vamos contar uma piada, vamos relaxar um pouco. Porque não há muito mais a fazer. Eu penso que tem uma saída por aí. Essa terra é um livro de desencontro, e O cachorro e o lobo é um reencontro. Há um reencontro do personagem, quando ele chega cheio de fantasmas, todo assustado. Mas, com o passar do dia – o livro se passa num dia, ele gira com o movimento do sol, manhã, tarde e noite –, é como se este personagem  fosse recuperando a sua memória, sua afetividade, sua história, a história daquele lugar, e isto lhe faz bem. Mas vocês estão mais preparados pra dizer sobre essas coisas do que o autor, até porque eu parto do princípio de que, quando o autor explica seu trabalho, corre o risco de reduzi-lo.

Rubens – Nesta questão filosófica do ter e do ser, já foi dito que “os artistas são a antena da raça”. Eu queria saber se novas questões filosóficas não surgiriam nesses novos tempos de mundo virtual, da informática, da multiplicação de informações? Será se a pergunta sobre o ser e o ter não se deslocaria para o “tornar-se e o transformar-se”? Como suas antenas, enquanto artista, captam o novo mundo?

Torres – A questão básica do artista me parece que é a busca do autoconhecimento. Essa busca leva à abertura de novas fronteiras dentro de si mesmo. Por esse caminho pode-se chegar ao “tornar-se e transformar-se.” Nestes tempos de pragmatismo desbragado, seria isto uma ilusão de filósofos e loucos? Certo, vivemos uma era mais da técnica do que da arte, e, menos ainda, da filosofia. Tenho um amigo que anda desesperado: sua filha decidiu estudar filosofia… logo num tempo deste?, ele reclama. Bom, creio que ainda é cedo para sabermos que novas questões filosóficas surgirão do mundo virtual. Esse mundo ainda não foi capaz de dimensionar o seu próprio alcance, de criar regras de competividade, legislação etc. Mas já produziu mudanças de mentalidades. E um insuportável deslumbramento, diga-se.

Brasileiro – Você esperava o reconhecimento que tem hoje? O que significa isto psicologicamente, em termos de vaidade, de prazer, de auto-estima?

Torres – Escrever foi o meu sonho de criança, lá no Junco, digo, Sátiro Dias. Todo o chão que bati, todos os caminhos que andei, foram em busca de um texto, que só começou a aparecer depois dos trinta, com Um Cão Uivando para a Lua. Foi uma estréia com uma recepção simpaticíssima, calorosa, animadora. Houve até quem achasse que eu não ia agüentar o rojão: com tão entusiástica crítica, logo no primeiro livro, ia tomar um porre e sumir. Só que eu já estava imbuído do espírito de Scott Fitzgerald, o que dizia que o fim de uma tarefa significava o começo de outra. Tanto que quando um repórter (era do Jornal do Brasil) me telefonou dizendo que queria me entrevistar, achei que era algum amigo me passando um trote. Eu estava tão por fora da vida literária que nem sabia que escritor dava entrevista. Eu só queria escrever e publicar para quem quisesse ler. Mas agora estava enredado num novo romance e o telefone tocava sem parar por causa da boa recepção ao primeiro livro. Claro que fiquei vaidoso, e com a auto-estima em alta. Mas não perdi o ritmo e o rumo das horas: mal terminei o primeiro, voltei a trabalhar no segundo, que já estava começado, antes do primeiro. Conto isso para dizer a você, poeta Brasileiro, que o meu trabalho literário tem sido uma construção, tijolo a tijolo. Todos os meus doze livros, cada um a seu tempo, foram bem recebidos. Não posso me queixar. O melhor de tudo é que o interesse pelo meu trabalho não diminuiu, com o passar do tempo. Tenho a impressão que vem crescendo, até. Só posso dizer que isso me dá um certo conforto dentro do quadro da literatura brasileira contemporânea. No entanto queria aqui falar de outra coisa.  Eu acho até que a literatura está um pouco em baixa no mundo, não é só no Brasil, não. Porque o leitor de hoje não é mais aquele leitor que eu fui. Eu não comprava livro por causa de lista de best-seller, nem por televisão, nem por jornal, eu não sabia que tinha resenha! Como é que eu lia em Alagoinhas? Eu ia lá na biblioteca do IBGE catar, num rodapé que tinha lá, o agente do IBGE gostava de mim e me deixava ficar fuçando, e eu ia descobrindo um Tolstoi. Chegou um professor de Geografia, o Carloman Borges – hoje na UEFS -, e me emprestou Jorge Amado, Mar Morto. Achei uma maravilha! Quando eu devolvi ele me deu Angústia, de Graciliano Ramos. Depois me taca um Tolstoi. Aí eu fui despertando o gosto. Quando fui morar em São Paulo comprei toda a obra de José Lins do Rego, no Viaduto do Chá, vendida no chão. Não foi nenhum jornal que me mandou, não foi nenhuma pressão publicitária. Aí eu chego na avenida São João e tem uma coleção chamada “Violão de Rua”, da Editora Civilização Brasileira. Aí descubro Ferreira Gullar, e outros poetas que na época eram muito lidos, como Geir Campos, Ledo Ivo, Moacyr Félix. Então, eu acho que há também uma mudança dos tempos, que a gente está assim meio sem saber para onde vai o bonde desta História. Mas, voltando ao começo, esta coisa de sucesso tem muito de aparência. Sucesso literário no Brasil, para mim, é pura ficção.

PERGUNTA – A recente 15a edição do romance Essa Terra mobilizou a mídia e ampliou o interesse por sua obra. A que você atribui a força desse romance em sua carreira?

Torres – Incrível. O relançamento do Essa Terra, pela Record, está tendo uma repercussão tão grande quanto o seu lançamento, em 1976, pela Ática. Isso é mesmo surpreendente. Até porque existe um tabu de que brasileiro só gosta de novidade, não gosta de reedição. O que mais me surpreende ainda: há uma nova geração de leitores que está descobrindo o livro agora. E o está lendo como se fosse um livro de agora. Já tive provas disso, principalmente em algumas universidades onde tenho feito palestras. Não sei, sinceramente, a que atribuir a força do livro. Mas alguma ele deve ter. A força da terra, talvez. A força do sertão, com certeza.

PERGUNTA – O que o Prêmio Machado de Assis para o conjunto da obra, que lhe foi conferido pela Academia Brasileira de Letras, em 2000, representa para sua condição de escritor?

Torres – Não há como negar: os prêmios literários mais respeitados do Brasil são os da ABL. E o Prêmio Machado de Assis é o mais importante deles, sem dúvida. Também, pudera: o prêmio tem o nome do escritor que fundou a instituição que o patrocina, a Casa de Machado de Assis! Senti o peso dessa premiação ao recebê-la, ano passado. Diria que, no plano nacional, foi o maior incentivo que recebi até agora à minha carreira de escritor. No internacional, foi o título de Chevalier des Arts e des Lettres, que me foi concedido pelo governo francês, em 1998, pelos meus livros publicados na França até então (“Essa Terra” e “Um táxi para Viena d’Áustria”). É isso aí: reconhecimento nunca é demais e faz bem à saúde.