O Centro das Nossas Desatenções: o olhar imigrante sobre o Rio

O Centro visto sob a ótica de um autor baiano que nos revela a história e a evolução da região mais antiga do Rio de Janeiro. A visão do imigrante que pode se confundir com as primeiras impressões de um morador nascido na cidade. O Centro como interseção da própria história do Brasil.

“Amar é conhecer. ” (Érico Veríssimo)

A frase de Érico Veríssimo, citada em “O Centro das nossas desatenções(de Antonio Torres, Ed. Record: 2015), define com precisão um sentimento que trago da infância, das minhas primeiras incursões guiadas por familiares às ruas do coração do Rio. Enquanto meu pai me carregava pela mão, marchando pela Rua da Alfândega, eu olhava assustado aquelas vielas estreitas, meu maior receio era que ele me soltasse e eu me perdesse naquele labirinto humano sem a referência do Minotauro. Uma sensação que durou até que a necessidade de trabalhar me levasse a mergulhar no Centro, perambulando na entusiasmada busca do primeiro emprego, rompendo aquelas ruelas como um arqueólogo destemido. Foi no papel de um Indiana Jones juvenil que descobri a Lapa, a Praça Mauá, a Saúde, Gamboa, Central, o Castelo, a Praça XV e o turbilhão humano que me fez amar toda essa região.

É uma coincidência que o livro do mestre Antônio Torres comece pela descrição do Aeroporto Santos Dumont. Justamente, no Santos Dumont, reside a minha recordação mais remota do contato com o Centro da Cidade. Criança ainda, me vi extasiado diante daquele aquário de vidro do Aeroporto, um helicóptero pousava na pista e meus olhos acompanhavam hipnotizados aquele balé de rodopios. O autor faz uma descrição sensorial do seu primeiro e breve contato com o Rio de Janeiro, um desfile de luz e cores que impressionam o imigrante. Talvez uma criança também veja as novidades com olhos de imigrante, olhos de desbravador. Da mesma forma que o escritor, guardei na memória primitiva a luz ofuscante e o azul opressor.

Em “O Centro das nossas desatenções”, Antônio Torres, como um velho amigo, nos pega pela mão e nos conduz, num passeio atemporal, pelos recantos, pelas igrejas, pelos becos, pelas pessoas e pela história do Rio. Uma excursão complexa, que pode ser lida num único fôlego, um livro de poucas páginas e denso como a Avenida Rio Branco.

É no Centro que, de imediato, nos deparamos com uma cidade de muitas faces. O pobre e o rico; o mendigo em trapos e o frajola do terno bem cortado; um passado em ruínas e o presente ansioso pelo futuro que o transforma incessante; a paisagem deslumbrante que nos convida à contemplação e a violência que intimida. Decifra-me ou te devoro, logo compreendemos que o Rio é um arrisque-se fascinante.

Sobrados centenários entre arranha-céus futuristas, à primeira vista parece que o velho e o novo conseguem conviver. No olhar mais atento, percebe-se que o presente que evolui empurra o passado à degradação, ao abandono. A cidade cresce em constantes revoluções urbanísticas, o que resta do museu a céu aberto vai se deteriorando, parindo guetos decadentes que se transformam em refúgio do sem-teto, dos viciados e trombadinhas. Os cenários em conflito na metrópole da desigualdade reforçam a fama internacional. É no Centro que está o Morro da Providência, a primeira favela do Rio, uma das marcas da nossa carnificina cotidiana. Porém, é no mesmo Centro que fica o Morro da Conceição, a Pedra do Sal, que faz a alegria musical de turistas e nativos.

O Centro da Cidade, de uma cidade que foi se afastando do mar pelos sucessivos aterros. Um Centro que escondeu suas belezas atrás das armações de concretos. A paisagem, porém, sobrevive.

Folheando esta obra de Antônio Torres, constatamos que o Rio dos primórdios, aquele dos índios, preferia os franceses aos lusitanos. Como se encontrassem a amizade com os franceses e se deparassem com a barbárie da colonização encarnada nos portugueses.

Com o avanço da leitura, me ocorreu uma inevitável comparação. O Rio foi sequestrado por um francês no século 18, seu nome era Duguay-Trouin, uma espécie de pirata que exigiu resgate para libertar a cidade. A história se refaz no século 21, só que agora o Rio, volta e meia, é refém de algum traficante da moda. Fernandinho Beira Mar, Playboy, Arafat, Nem da Rocinha, Matemático e um rosário de alcunhas destituídas de glamour e que entram para a galeria dos nossos tiranos pós-modernos.

Uma cidade que vislumbra o oceano e que em algumas ocasiões quis dar às costas ao mar. É o que conta, por exemplo, um capítulo do folclore da Candelária.

O Centro foi erguido em cima de um lençol freático que vai da Praça Mauá à Cinelândia. Um Centro ancorado que flutua, mas não navega. Um Centro de vielas estreitas que se escondem do Sol, o Centro das largas avenidas que servem como bigornas para o mesmo Sol. O caos do que não foi planejado, a sedução do improviso.

Abraçados ao autor, encontramos os grandes cronistas urbanos, Antônio Maria e João do Rio atravessam a nossa caminhada. Juntos redescobrimos o Beco das Cancelas e revivemos bares como o Bico Doce, na Rua Buenos Aires. Hoje, os bares da Buenos Aires e adjacências também são pontos das mulheres da vida, elas transbordam pela madrugada dos inúmeros bordeis que não param de proliferar pelas esquinas do pecado. Um Centro que tenta recuperar a sua vocação cultural, após décadas de abandono e da solidão noturna que faz contraste com o formigueiro corporativo que transita durante o dia.

Certamente, algum colega sensato irá me censurar pela ousadia de querer resenhar um livro de Antônio Torres. Peço que me perdoem, mas foi a leitura deliciosa, que fez reviver a minha própria jornada, a culpada de tamanha afronta intelectual. Ao terminar de percorrer todas as páginas, me lanço na óbvia conclusão: todas as histórias convergem para o Centro do Rio.

Análise da obra de Antônio Torres por Jorge de Souza Araújo

Por Jorge de Souza Araújo, doutor em letras pela UFRJ e prof. da Universidade Estadual de Feira de Santana, BA.*

Designer da neurose urbana, atuando ao mesmo tempo como um sismógrafo e um enxadrista das repercussões emocionais e psicológicas dos indivíduos submetidos à bateria dos fenômenos sociais na contemporaneidade das cidades grandes, Antônio Torres é reconhecidamente um romancista do depoimento visceral, sincero e honesto sobre a condição humana. Sua narrativa depõe e reproduz além do texto, ampliando a sentença exata do jogo do bicho, onde vale o escrito.

A inequívoca fragrância de colagens autobiográficas (ou, antes, de impressões e reminiscências tingidas de agudezas sobre fatos, acontecimentos e pessoas) na obra de Torres se inicia com Um cão uivando para a lua (1972), título, aliás, que reconstitui, de forma pânica, um dos mais expressivos versos do árcade português João Xavier de Matos, pouco conhecido inclusive por seus compatriotas. O romance de estréia encena o trajeto agonístico de um jornalista ético na estreita sociedade dos grandes conglomerados de comunicação na fechada época da ditadura militar no Brasil.

Nesse universo complexo, o percurso do herói é o da busca desesperada de interlocução com a consciência pública para relatar os frutos e derivações do transe por que passara toda uma geração nos episódios culminantes do rabo-de-foguete histórico pós AI-5 e recrudescimento do regime a partir de 1968. O período e o poder baniram dos meios políticos e sociais qualquer possibilidade de reação, em meio à voga propagandística das realizações patrióticas em tempo de booms, pontes Rio-Niterói, Transamazônicas, Itaipus etc. O ritmo do discurso narrativo de Um cão uivando para a lua é de desespero latente explodindo as comportas da violência agregadora das repressões, acumuladas com o desaparecimento físico de muitos e as barreiras explícitas ao exercício de determinadas profissões.

Nesse embate de antagonismos entre a resistência e a alienação, a epígrafe de Faulkner — “Entre a dor e o nada eu escolho a dor” — avulta como mote pretextual para a desenvoltura do texto, que escorre a água do relato com a fluidez dolorosa de quem escorre o sangue e o pus das exasperações. O interior humano com suas mais intrincadas teias de complexidades psicológicas reativas ao mundo exterior, de que é reflexo e conseqüência, anima o feixe emocional do romance. As personas não têm identificação (ao menos no sentido da convenção onomástica) e são nomeadas por suas iniciais. A sonegação do explícito apenas dissimula não um recato esquemático, mas um voluntário e progressivo movimento de expiação e contemplação do indivíduo deformado pelas agressivas e hostis injunções de uma verdadeira central de anulamentos da personalidade individual e coletiva.

Um cão uivando para a lua atua, assim, depondo sobre uma escala de valores que se desmoraliza, valores derrogados ante a subserviência e pusilanimidade de uns, a delação e servidão voluntária de outros, as hostes antípodas entre a empulhação e a busca caótica da verdade e de um sentido para a existência. A. e T. representam o duplo investimento expressionista do herói em sua derivária e inquieta investigação ontológica, recorrendo ao álcool e às drogas, ao êxodo presumível e às fugas programadas, vistos como manobras diversionistas para escapar ao aniquilamento projetado por um invisível e todopoderoso Sistema. A perplexidade e o aturdimento não salvam ou curam o herói de suas encruzilhadas e o resultado fica entre o desbunde e o retorno entregue e impotente à rodaviva do que procurava escamotear.

O romance de Antônio Torres tem o impacto de dolorosas revelações não recomendadas a cardíacos. Não trata a denúncia pela denúncia alcoviteira de intangíveis proselitismos. Antes descarna o indivíduo solitário no mais recluso depoimento das vísceras morais, comovendo pela expressão verdadeira do testemunho. O cão uiva sozinho, mas sua linguagem renovadora e atenta devolve ao leitor a sensação de partilha das epifanias definitivas. O cão uiva buscando eco dentre os que se disponham a semelhante mergulho na épica (e ética) estóica de outros seres verdadeiros em igual sintonia. O que emerge da narrativa é sua impressionante carga de intensidade confessional, expressa num discurso desconcertante, de que são exemplos ilustrativos algumas imagens colhidas aleatoriamente da voz narrativa em primeira pessoa:

Minha memória é uma cova funda, onde enterrei todos os meus mortos.

Minha cabeça é uma montanha esburacada, por onde escoam todos os detritos do mundo.
Meu coração não bate, apanha.
E os meus pés estão sempre tropeçando.
Cit., 101)

E é como trôpego e hesitante que o ex-sofisticado repórter vitorioso em São Paulo irá reaprender o ofício de reexperimentar embates com o contingente. Entre o feijão e o sonho, debatendo-se embora e reaparelhado pela oportunidade que dá a si mesmo, o herói perplexo fará ecoar seu protesto mudo.

Em Os homens dos pés redondos (1973) a narrativa tripartite abarca (e dissolve) o indivíduo em três esquizofrênicas personalidades correspondentes às três seções (ou Livros) do enredo romanesco. A técnica inovadora não se constitui apenas em técnica, ousa redividir o herói em três perspectivas dinâmicas e atemporais, permanecendo o indivíduo em instâncias e quadrantes diferenciados pela intensidade das ações que sofre e em que pontifica. A memória pessoal se intensifica e se amplia em Os homens dos pés redondos. O relato alterna o passado em flashs de reminiscências proveitosas cotejadas com a dureza de um presente competitivo e cruel, que provoca deslocamento, embriaguez e náusea, sono profundo e pesadelos apavorantes. Manoel de Jesus, filho reprimido de pai sacerdote católico, é o herói que vive a promiscuidade entre irmãos dormindo numa mesma cama na miséria do subúrbio. Os planos do real e do delírio não têm uma fronteira nítida, de sorte que se confundem e confundem o leitor na sua apreensão do real no estético.

A própria narrativa, conquanto densa e com forte carga de inconsciente dramático, tem sua trama determinada pela aparência de caos discursivo misturado ao caos instalado na vida de indivíduos emparedados. A máscara de dor e impotência ante um sistema de opressão faz todos os indivíduos parecerem um único, fortalecendo o dualismo impactante das identidades individuais e dissolvendo-se num coletivo de angústias. Discurso e personagens em círculo lembram um beco sem saída, com as inerentes ansiedades de todos os becos sem saída. A linha de pânico seguida na composição narrativa de Antônio Torres exibe o universo existencialista de um Camus menos preocupado com questões ontológicas e metafísicas e mais inquieto ante o contingente. Daí o existencialismo ancorado mais no político que no filosófico, mais expressionista e patético — circunstancialmente afetado por problemas materiais concretos — que especulativo sobre os dramas imanentes.

Em estado permanente de tensão e ansiedade, a narrativa de Os homens dos pés redondos descreve cortes cinematográficos, com instantâneos sobre fatos e personagens, de forma abrupta ou programática. Os conflitos e dramas se passam numa intangível Ibéria (recurso semelhante ao percorrido por Gonzaga nas Cartas chilenas para melhor refletir o caos) e as personagens mais atuantes (Manoel Soares de Jesus, publicitário, pai de 5 filhos, vivendo de miséria e opróbrios, o escritor Adelino Alves, sua mulher Lena, o instável Emílio, o inominado Estrangeiro etc.) são simulacros do perfil de asfixia na ditadura militar no Brasil dos anos 70. Por isso a voz narrativa percorre a primeira pessoa de cada uma delas e Ibéria assume alegoria da fala nacional obesa e preconceituosa, prostituta penetrada por um Estranho a quem se entrega prazerosamente.

A despeito do esforço de distanciamento, o Estrangeiro é apresentado como oriundo de um país onde um monarca gordo andava com bolsos atulhados de frangos e um outro, seu filho, não passava de Casanova gaiato e promíscuo que não contraíra uma única doença venérea. Antônio Torres tangencia aqui o nouveau roman com anotações atemporais e a-espaciais e com a pulverização de uma temática antes atomizada por sucessivas crispações, onde a memória desempenha um papel fundamental e o relato se distribui entre o emergente, o cósmico e o provinciano, com direito a reminiscências da infância interiorana. O contingente apronta sustos e o ufanismo disfarça as neuras, escondido nas mensagens cretinas dos climas festeiros.

Por fim, o Estrangeiro assume seu lugar de origem: o Junco, onde uma gente estranha, em condições precaríssimas, vive cantando para não perder o juízo (Cit., 136). Em seu burgo, o nativo Estrangeiro se despersonaliza na alienação amorfa e bisonha de um dissolvente amargurado que se refugia no álcool e no sexo inconseqüentes.

Com Essa terra (1976) Antônio Torres inicia o núcleo referencial de qualidade superior em sua novelística. Conquanto o romance evidencie a primeira e direta menção à personagem Totonhim, podemos antes desentranhá-la, por citação indireta e lateral, nos discursos anteriores. A obra de Torres, aliás, desenvolve um denso e cíclico percurso de retorno do autor a si mesmo e à sua mais marcante geografia sentimental e humana, a épica e lírica paisagem do Junco, uma Yoknopatawa especial na nebulosa memória do narrador, que declina o verbo afetivo de um espaço modesto no mapa emocional do sertão da Bahia. Ao contrário do que supõe o próprio Antônio Torres, em carta ao primo José Giése da Cruz (no anteprólogo do romance Essa terra), de que o Junco não ocupa um espaço decente no mapa do Mundo, interpõem-no o conceito de geografia física e a rica moção postulada por Oscar Wilde, que dizia não reconhecer legitimidade num mapa-múndi que excluísse a Utopia.

Pois Antônio Torres, com Essa terra, inscreve definitivamente o Junco num legítimo e renovado globo terrestre. Seu terceiro romance é marco original a partir do qual a geografia literária baiana ganha contornos de novos signos, situados no Recôncavo Norte, na região capitaneada por Alagoinhas, matéria descritiva de um sertão mais amplo. Pela própria aferição autoral, Essa terra assinalaria uma autêntica viagem de volta à aldeia, às referências mais enriquecedoras e fecundantes da inscrição existencial humana. Escrita e temática se incumbem do risco amarronzado sobre a terra arada. A cunha seletiva do narrador incursiona pelo épos, pela lira, pelo drama e testemunho, mas também pela sátira mordaz, assim traduzindo o famigerado Produto Nacional Bruto: gente se alimentando de farinha de telha, sopa de farrapos e carne de rato.

Isso explica a obsessão autoral em dissecar o Brasil doente, o país verdadeiro amortizado pelas empulhações simplificadoras e mortificantes. O Junco é símile metonímico, anti-paradigmático, dessa noção de deserto e o romance Essa terra é invocativo dessas diferenças, recuperando, mediante caráter ficcional, o documento transfigurado paradoxalmente. A teia de interlocuções do discurso textual não oblitera, mas alarga o conceito do real. A razão e os diálogos do romance convalidam e invectivam à reflexão e à consciência crítica a propósito da forma como nos debruçamos sobre a realidade social brasileira.

Por conta dessa realidade, de suas repercussões ou dos descaminhos dela conseqüentes, o texto induz a pensar no Advento bíblico, na culpa consciente, deliberada e do inconsciente individual ou coletivo, culpa absorvível desde o êxodo, o fascínio abstrato da redenção na cidade grande, o nicho paulistano como edênico de transformações. E o insucesso, a noção de fracasso, o amargurado retorno, tudo, no fundo, dirigido pelos desequilíbrios nacionais de natureza econômica e social. As mudanças traumáticas operadas no Junco catapultam outros sofrimentos, mesmo aqueles a princípio sinalizados como progresso — o Banco, a tevê, a circulação das idéias, as novidades urbanas, a moda etc. A ira do doido Alcino reverbera os velhos anátemas desde os referenciais sertanejos mais emblemáticos, Antonio Conselheiro e Canudos.

O Apocalipse ganha então revestimentos de coerência no discurso alusivo, reforçado tragicamente com o suicídio de Nelo. Delírio, culpa, expiação, punição exemplar seguem um encadeamento lógico na narrativa, que expõe os conflitos decisivos para qualquer tomada de decisão por parte de Totonhim mesmo em face da diáspora familiar entre os conceitos redentoristas exteriores da mãe e o desejo do pai em permanecer no solo sagrado, visto como curador da integração familiar. O telurismo da roça é antagônico da dispersão citadina. A todos os contextos de exclusão o narrador-protagonista reage pela incorporação da culpa, purgativa do excesso mítico e da antevisão profética a ela associados. As lembranças podem até ser aleatórias, menos suas causas e conseqüências no repertório memorial do narrador. Fatos presentes (mesmo os acidentais) podem deflagrar reminiscências graves e dolorosas, pois se relacionam ao evento mais constrangedor: a morte de Nelo por enforcamento. Os cismas familiares como que se dissolvem ante a dimensão trágica do desaparecimento do Irmão. O esforço de compreender leva o narrador à auto-gnose e ao entendimento de suas referências mais profundas (a cosmogonia do lugar de onde provêm as dissensões familiares, a ambivalência de sentimentos), como se houvesse uma estreita relação de causa/efeito entre o indivíduo e seu espaço nativo.

Desde aí as fantasias são circulares, deixando ou não aflorar impropriedades comportamentais na cidade grande (a embriaguez, a dubiedade moral, a instabilidade de afetos), dentre as quais ganham relevo o pêndulo e a alteridade do amor e do ódio à terra de seu nascimento, origem de seus conflitos. Totonhim é o germe (em flash-back) sobre o qual se projetam os protagonistas narradores dos romances anteriores de Antônio Torres, coincidentemente designados A. e T. em Um cão uivando para a lua e De Jesus, o Estrangeiro e Alves em Os homens dos pés redondos. Em todos esses relatos o indivíduo se desintegra, fragmentário e exilado, desfigurado identitariamente e à cata de um porto salvador onde ancorar a esperança de continuidade.

Essa terra não é tão somente uma história de ou sobre migrantes desterrados para São Paulo, onde e de onde acorrem e decorrem misérias e grandezas materiais e éticas. O tema do retorno também não se circunscreve apenas aos ensaios de esperança frustrada e impossibilidades. Isso talvez seja dizer pouco. Nelo volta de São Paulo e faz a retrospectiva de seus passos desde a ida triunfalista ao retorno desalentado. O filho próspero, no entanto, voltaria ao Junco para encontrar a morte, enforcando-se em casa, para surpresa e mistério gerais. O porque do gesto conflagra decifradores desconstruindo idealizações redentoras. O herói mitificado não passaria de um sobrevivente brutalizado por uma existência atormentada entre carências materiais e afetivas, abandonado pela mulher e pelos filhos paulistanos.

Aos olhos do narrador Totonhim passa o filtro das sensações de frustração, impotência, despeito e desolação. O irmão-herói descalçara os sapatos (de cromo alemão) da prosperidade para realçar (e recalcar) as alpercatas de couro cru, pisando o pó das intempéries sertanejas, mantendo mortas as chamas de qualquer projeto de redenção familiar e o eco das ruínas do sonho nos circunstantes. O retorno de Nelo — sem nenhum aviso — revela a instabilidade de sua condição social e psíquica, contrastando com as gerais expectativas. Ao narrador Totonhim são apresentados os primeiros sintomas de desequilíbrio dos retornados de São Paulo, flagrando no irmão Nelo as alucinações e delírios de um homem infeliz, alienado e só, descompensado por sucessivas e brutais perdas, anulando-se no lugar de suas origens, atando as pontas de um ciclo de culpas e auto-punição. Impotente em prover imagens de heroísmo referencial conciliadoras à decadência de seus projetos, Nelo escolhe o Junco para por termo à dor.

Ao narrador (e irmão mais novo, Totonhim) só resta o retrospecto de primitivas lembranças traumáticas, relacionadas ao cosmo familiar e do Junco, ermo longínquo e próximo onde a venda de Pedro Infante representa o abrigo de todas as queixas. A linguagem dos afetos será pulverizada em um fundo de ressentimentos, amarguras e intolerâncias.

Carta ao bispo (1979), de certa forma, seqüencia Essa terra. No quarto romance, Antônio Torres cumula de testemunho retrospectivo e prospectivo o êxodo do indivíduo ao recôndito de si mesmo. É romance-sonata, cujo primeiro movimento ordena uma lógica cruel: recolhido a uma casa do bispado, isolado com suas amarguras, Gil decide morrer ingerindo veneno. Antes escreve (ou vai escrevendo enquanto aguarda o desenlace) sua confessional Carta ao bispo, refazendo o itinerário de suas perplexidades, começando pela primeira comunhão, ao jogo de futebol, à descoberta das primícias sexuais, daí cortando para o Gil adulto, a atividade política, a Prefeitura, o idealismo, o comício (onde repete falas do comediógrafo Gil Vicente e do pacifista Martin Luther King).

O perfil do protagonista-narrador é do típico político do interior acossado por intrigas e ameaças de morte física ou simbólica (acusado de safado, ladrão, comunista e homossexual) e dividido entre o idealismo ideológico e o oportunismo espoliador. As imagens do remetente epistolar se misturam, passado e presente se entrechocando, a conversa encabulada, cheia de atalhos. O depoimento suicidário corta qualquer fio de esperança na redenção humanista. A Carta ao bispo punge e choca porque revela o quanto somos emparedados nos macro ou micro cosmos de angústias, de nada valendo obstinações nas geografias sem sentido das cidades sem alma, condenando ao esforço inútil a comunidade de sobrevivência dos párias, fustigados pela hostilidade do meio. Como Essa terra, Carta ao bispo é o romance dos sem-lugar, dos deslocados, destituídos do mais remoto ânimo, seja na infinita São Paulo ou no deserto do Junco.

Gil não contemporiza: quem come miséria não caga nem merda (Cit., 39); Deus me deu a pátria, o Diabo me deu a angústia (Cit., 40). A escritura romanesca investe em inovações formais, buscando, pela fragmentação da linguagem, a representação psicológica de desintegração moral e social. O jorro de palavras desconexas, substantivando e expondo Gil como o herói atomizado, expele-o de um eu primordial, remoldando desertos em amargurados despistamentos. Por isso as conclusões de imobilismo reativo na Carta ao bispo, onde Gil se despede da verticalidade do existir: Os pecados mortais são só três, Dom Luís: nascer, crescer e viver (Cit., 47). As instâncias dramáticas repassam, como num filme, as imagens constituintes do desespero do herói, sua raiva impotente contra pessoas, instituições e cidades como Feira de Santana e Alagoinhas, as muitas idas-e-vindas São Paulo/Bahia, o amor frustrado por Marília, os delírios da embriaguez do álcool e das sensações imprimidas no espírito contrafeito.

O fundo humanista determina o final do romance. O bispo chega a tempo de levar Gil ao hospital e a sugestão e expectativa de salvar o idealista no atormentado suicida.

Confrontos e entrechoques entre o Brasil arcaico e o Brasil moderno permanecem singularizando a obra de Antônio Torres em Adeus, velho (1986). Levando em conta uma estruturação molecular no conjunto de desintegrações do cosmo familiar e de referência aos núcleos sociais do interior brasileiro face à fragmentação identitária, o novo romance de Torres contextualiza em Salvador a reduzida apetência da sociedade humana dilacerada por imperativos econômicos e sociológicos.

Adeus, velho obedece às dolorosas circunstâncias do descompasso que acompanha todo processo de mobilidade social do interior à metrópole, fotografando graus e degraus de dispersão e ruptura da personalidade, síndrome que acompanha cataclismos pessoais e coletivos acarretando os mais bruscos atavios da organização sócio-psicológica. A protagonista (pela primeira vez na obra de Torres) é uma Virinha representando emblematicamente a luta da mulher na sociedade corrompida por valores forjados pela competição estigmatizada como natural num mundo zoomorfizado, conquanto pobreza, miséria e degradação sejam males coletivos co-naturais ao nordeste brasileiro.

Como o passado não se apaga e o presente só delega desencanto, cansaço e deserção, quanto mais conformistas se revelarem, mais soterrados serão os indivíduos em seus mecanismos de imobilidade. Entre degradar-se e desiludir-se, Virinha parece aproximar-se perigosamente da convivência com os dois verbos mais perversos na trajetória dos que se empenham no esforço da alteridade. O Adeus, velho do título sugere invocação de despedida, mas também o despedaçamento, renúncia excludente a um tempo olvidado e substituído por outro que, não sendo novo, muito tem de ausente por inércia.

A odisséia de Virinha (nome civil: Maria Elvira) começa com o galanteio fácil, logro, sedução e abandono por um motorista de caminhão, à vista da cidade distante. Os passos da lograda Virinha atordoam o relato com a vertigem da rápida sucessividade dos fatos. Acusada de assassinar o sedutor, aos 40 anos, Virinha é presa em Salvador e vira notícia preconceitualmente repercutida no Junco, sobretudo pelos requintes do crime hediondo que cortara ao motorista o pescoço, a língua e o membro viril. O irmão caçula de Virinha, Mirinho (Zulmiro, ou Zu) realiza a versão dramática do resgate da família repartida em surdos ressentimentos e atavismos de herança.

O velho a quem se declina o Adeus é o velho Godofredo, pai de 17 filhos perdidos na solidão dos desertos metropolitanos e diaspóricos. A família se desintegra como um álbum que, aos poucos, vai desbotando. Os filhos, premidos pelo sonho da redenção individual, arribam na estrada de chão, tangidos pelo visionário umbral de liberdade ao meio cada vez mais mortiço do Junco. Nesse sentido, Adeus, velho é uma extensão do ciclo de êxodos e expatriamentos dos sertanejos para outros destinos, ciclo aberto por Antônio Torres com Essa terra. Os diálogos dos irmãos tangenciam a aspereza, sem a boa lembrança de qualquer intimidade ou aos lugares de suas referências. O encontro por ocasião da morte e funeral do velho Godofredo só aprofunda a litigância dos irmãos, aqueles filhos da verdadeira vereda tropical, que liga o mundo ao nada e vice-versa (Cit., 138).

O Adeus ao velho é emblemático das variadas orfandades. Como pausa às dissensões por direitos de herança, Virinha e Mirinho passeiam suas desilusões pela praça e ruas da aldeia. Mais uma vez Antônio Torres se presentifica no repertório de imagens do passado recuperadas pela reminiscência psicológica. O epílogo do romance alterna constrangimentos e asceses, revelando um narrador atento às simuosidades da alma em todos os quadrantes e fisionomias morais deflagradas pela eterna incógnita da condição humana.

No exemplo aproximado de Um dia na vida de Ivan Denissovitch, de Alexander Soljenitzin, a Balada da infância perdida (1986) repassa num só dia — ou noite, de insônia, mal-estar e bebedeira — um quarto de século da experiência psicológica de um ser mutante no esforço de permanecer ele mesmo dentre os muitos que intenta. Neste seu sexto romance, Antônio Torres permanece reescrevendo os delíquios do migrante miticamente retornado ao chão da origem geográfica, lúdica, psicológica e existencial, conjugando as tensões do impossível retorno ao passado remoto e harmonizando o presente aos influxos revitalizadores das expressões afetivas e memoriais.

Nessa Balada da infância perdida, ao império da sociologia e psicologia dinamizadas por conflitos interiores das personagens, o narrador acumula 25 anos de reflexões sobre o destino dos indivíduos num país combalido em suas forças vitais, vítima de sucessivos equívocos institucionais. Ou seja: à introdução psicológica — que flagra o contínuo das instabilidades pessoais evidenciadas pelo narrador e suas diferentes personas e vozes — o romancista adere e cola fatos políticos da História recente (golpe militar de 1964 e seus desdobramentos), comprometendo ainda mais a mecânica explosiva das emoções humanas.

A memória afetiva do Junco acompanha, mais uma vez, o fabulário narrativo de Antônio Torres, subsidiando a obra romanesca de temas e linguagem convergentes. Um mesmo e polívoco Totonhim, ainda que derive a persona para outros nomes (A., T., Estrangeiro, De Jesus, Nelo, Gil, Mirinho, Virinha et alli), muito mais evoca a infância simples e residual. Balada da infância perdida arrebata a memória coletiva de paisagens, seres, lugares, mitos e personalidades de todo interiorano do nordeste brasileiro, cumprindo um avatar sertanejo desequilibrado em suas bases emocionais de permanência nômade, espécie de Ahasverus do sertão das secas, cujas asperezas emergem do solo e da ecologia agreste para a alma crestada das pessoas.

Tanto neste quanto nos outros romances de igual signo, a presença de um velho pai, de origens rurais e aversão à cidade, é fenômeno circular. Progenitor de muitos filhos (12, 15, 17) e em conflito discreto ou escancarado com a figura da Mãe, o velho percorre as páginas memoriais da obra de Antônio Torres com ou sem a caducidade dos estigmas, em contexto problemático, mas nunca indiferente. A aversão às cidades é justificada em função do seqüestro e fascínio que exercem na sociologia afetiva, roubando-lhe os filhos, minando a família e provocando-lhe a diáspora de contornos entre o drama, a tragédia e o trauma. Tentando compreendê-lo em sua mudez, o narrador é sempre exclamativo na referência ao velho, com a carga evidente de sentimentalidade devocionária. Por isso o romance sugere constantes fusões do épico com a lírica e recorrentes serão a sonoridade e o eco dessa Balada da infância perdida.

Antônio Torres talvez seja o mais proustiano dos narradores contemporâneos da Bahia. Seu texto advoga recuerdos dos pathos, repondo em pé a memória viva, telúrica e sinestésica, embalado pelo cheiro de alecrim. O delírio alcoólico é pretexto para reproduzir cenas memoráveis, algumas de teor cômico insuperável de harmonia. O humor corresponde ao sarcasmo dos desiludidos, sobretudo dos que viviam imprensados entre regimes a fórceps. Mas o forte mesmo — que mais comove, tanto quanto o conhaque de Drummond no famoso poema — é o rescaldo da memória do narrador escavando lembranças do pai cantando aboios, dos irmãos desterrados no mundo sem endereço, do retorno ao coração selvagem das sondagens íntimas. Por isso o narrador se interroga inquieto entre o peso do passado e as incertezas do futuro, enquanto convive com o terror de suas alucinações e a presença ininterrupta de seus mortos (o primo Calunga, a tia Madalena, a mãe, os irmãos anjinhos no caixão azul feito pelo próprio pai). Encurralado no tédio da cidade grande, o narrador-protagonista bebe sua solidão e se embriaga de angústia.

Romance expressionista como os anteriores, o pathos anima os cordéis da Balada da infância perdida, presente também no espírito parodístico dos hinos e poemas declamados na escola. O ritmo de vertigem cinge o relato ao círculo intermitente das elucubrações afetivas.

Um táxi para Viena d’Áustria (1991) é o texto mais cosmopolita dentre os romances de Antônio Torres. De humor esquivo e pouco à vontade, reflete os desencontros do indivíduo na cidade grande frente à náusea e o descaminho, a desorientação de quem procura rumor num tempo disperso. A narrativa adensa o pânico desse desnorteamento fixando-se, de forma fragmentária, num conjunto de impressões, cortes e colagens expressionistas da complexidade sem pistas de decifração ante o nervo exposto da simultaneidade dos traumas urbanos.

O discurso se afasta da linha até aqui seguida. O cenário não é mais a Bahia (citada direta ou indiretamente nas ações) e sim o Rio de Janeiro, e mesmo assim um Rio de Janeiro sem uma incisiva noção de identidade e permanência, acossada por assaltos e outros golpes na conformada passividade urbana. As reações percorrem a afirmação da beleza do jazz na meia-noite e a ironia sarcástica das tribos na ambiência urbana. O protagonista se ressente de um pouco à vontade comum também ao narrador e à própria narrativa.

E por que Viena? Porque a capital da Áustria é também a capital da música e lá as pessoas dançam nas ruas, lugar de liberdade de movimentos e das sensações estéticas. O romance resvala no gênero policial sofisticado pela substância do merchandáising da úrbis. O impressionismo das descrições recebe a unção do registro das sensações ciclotímicas da cidade que dispersa fluências identitárias, cidade cósmica, planetária, que pode ser qualquer uma em sua fúria de desconfortos. Por isso que Viena d’Áustria é a pátria regularmente dos refugos, dos manobristas do diversionismo espiritual.

O protagonista-narrador mata um amigo, mas o ato e o crime são praticados a-serviço do próprio assassinado, à semelhança de uma eutanásia em rito de eliminação da dor de um doente terminal. Sem dúvida, é o relato mais sombrio na obra densa de significados afetivos de Antônio Torres. Documenta a insatisfação pessoal contaminando a deserção coletiva de um universo em profundo desencanto, expandido a determinadas categorias profissionais que não vislumbram valores em seu ofício. O exemplo ilustrativo é a publicidade, onde as relações são corroídas pela competição estupidificante e o império extorsivo dos mercados. O protagonista é assassino piedoso, banalizando sua crueldade como os exilados urbanos sufocando-se de inação.

O cachorro e o lobo (1997) assinala o retorno de Antônio Torres ao território cosmogônico da memória de sua infância, o Junco, sua Aracataca ainda não desmitificada, apesar dos arranhados signos de uma modernidade suspeitosa (televisores, antenas parabólicas, telefones, supermercado).

Há duas décadas na São Paulo dos iludidos, o Narrador refaz brevemente um retorno sempre problemático à sua terra, em visita ao pai octogenário, que vive fora da cidade deserta de glórias e convivendo com seus fantasmas, medos e mortos, enquanto cumpre um rito de sol, roça, animais e paisagem rústica. Pela linguagem, cujo arcabouço é também persona decisiva no traçado do discurso, com O cachorro e o lobo Torres retoma o fio proustiano das tensões do eterno retorno às raízes míticas pendentes do lugar para a inteireza existencial. O indivíduo-narrador vive o espectro das lembranças e dos entrecruzamentos afetivo e emocional das histórias que a todos implicam e enredam, inclusive os leitores, mesmo aqueles que não tenham o sertão como origem. O universo dessas recordações sugere uma condição especial da náusea existencialista, do convívio com a memória agônica dos desterrados cíclicos.

O contra-senso da era moderna também chega ao Junco, interferindo nas relações e conflitos e determinando os rumos de uma herança de afetos no romance que reinveste na emoção e na ironia, filtrados pelo sinete da forma. Matéria de memória, O cachorro e o lobo retoma explicitamente Essa terra, mas ultrapassa o clamor do migrante pela iconografia da canção popular (cujas letras se interpõem quase como entidades no contexto do romance), retratando, por extensão diaspórica do Junco, uma Feira de Santana sem glamour, meio do tempo, meio do mundo, corredor polonês no rumo obrigatório da distante São Paulo.

Retirado numa casinha simples de uns restos da outrora próspera propriedade rural, o Pai, o Velho do Narrador, aos 80 anos de idade, vive isolado do mundo, mantendo conversas excludentes com os mortos, em longos serões, tão logo chegue a noite. E já que a obra de Antônio Torres se desenvolve em ritmo e rito cinematográficos, a alusão temática que a ela parece melhor caber é à filmografia de Frank Capra. Na forma literária, a melhor lembrança que a leitura de O cachorro e o lobo associa é ao conjunto Pedro Páramo/O planalto em chamas, do mexicano Juan Rulfo. Texto permeado de metáforas involuntárias, também sem competidor é o lírico desdobramento da recordação da primeira namorada de Totonhim, a professora Inesita.

O cachorro do título é referência afetiva de tratamento a Totonhim, narrador e filho caçula do lobo solitário, o velho pai recolhido em seu ensimesmamento de octogenário recluso no sítio, conversando à noite com os mortos e, durante o dia, com as galinhas e demais bichos da roça. Sem dúvida, é este o mais convincente em comoção espontânea dos romances de Antônio Torres, também o mais sincero e obstinado no resgate dos afetos positivos e o texto mais inteiriço, amarrado e sem eventual desmaio de composição. Com O cachorro e o lobo o romancista do Junco se inscreve na singular galeria dos narradores que escrevem com os nervos expostos da emoção mais forra e mais fecunda, de maior empatia e verdade intrínseca.

Em seus dois últimos romances (sem contar Pelo fundo da agulha, lançado no segundo semestre de 2006, refazendo o ciclo começado por Essa terra), Antônio Torres percorre a metaficção historiográfica, centrada tematicamente em episódios alusivos às invasões francesas no Brasil (mais especificamente o Rio de Janeiro nos séculos 16 e 18) e à trajetória dos verdadeiramente invadidos e profanados em seus direitos e valores.

Conforme acentua o narrador de Meu querido canibal (2000), como os índios não dominavam a escrita, seu destino sobre a terra esfumaçou-se em lendas (Cit., 9). Por isso talvez que Meu querido canibal pode ser lido como um romance que emerge de uma dessas lendas, tendo os tupinambás como atores coadjuvantes e Cunhambebe como protagonista metonímico e adversário das cruentas rupturas impostas à Colônia brasileira desde o seu primeiro século. O livro pode também ser lido como esforço revisor da perspectiva colonizadora, esforço considerado neo-romântico, exposto às flechadas da história oficial, essa velha dama mui digna, aqui sujeita aos retoques da nossa indignação (Cit., 9).

Antônio Torres constrói narrativas explorando o menor espaço como ampliações do olhar para questões universais, seja no plano ideológico, telúrico, metaficcional. Assim, compreende o romance, conforme Camus, como um exercício da inteligência a serviço (ou filtrado) da sensibilidade estética, nostálgica ou revoltada, reunindo indignação e ternura. Sua leitura do passado é feita como opção repensadora (e recompensadora) do presente. Nessa visão pós-colonialista, o passado não se ressente de mero fruto de contemplações monumentalistas, nem matéria de ressentimentos estéreis. Em Meu querido canibal, signos de devoração antropofágica oswaldiana fazem o indivíduo revisto e revisitado, ampliado ou deformado das intrínsecas e renovadas configurações históricas e literárias.

O romance revisa o tratamento dado ao índio, atribuindo-lhe persona e identidade anímica, predicados completamente ausentes dos compêndios escolares e acadêmicos. Sob a forma da representação ficcional a partir do divergente da construção dos discursos, Meu querido canibal põe em relevo a voz do índio, num rumo ruptor do caráter dependente e subalterno do oficialismo. O rito discursivo passa a operar em sintonia com o penhor da fragmentação do real objetivo, visando a uma reconstituição reconstrutora, pondo termo à utilização de meios e recursos convencionais da cultura fora da natureza.

Se o romancista de Essa terra narrou e descreveu o homem fragmentado e descosido, sujeito a impactos, choques culturais, marginalização e periferismo, supremacia hegemônica das metrópoles sufocando individualidades; se a perda de identidade é conseqüência das marcas apagadas da nostalgia de um passado que ruiu, o narrador denunciando a angústia humana pelo desenraizamento, claro que o autor de Meu querido canibal balisará o romance se não pelo anulamento do passado colonial que, de forma consciente e historiográfica, contribuiu para o aniquilamento moral dos autóctones, parodiará, como Oswald de Andrade, escarnecendo da força, reinserindo a pessoa civil do índio. Em conseqüência, canibalizará o passado oficial e seus modelos de culto à convenção, desvelando fisionomias obscuras ou esmaecidas pelo apagamento das marcas.

Assim, Meu querido canibal desmonta eixos de etnocentrismo concentrador do pensamento único. O retorno ao passado só terá sentido se permitir ressignificações dialetizadoras e o romance de Torres recria esse passado em dimensões repensadoras, estabelecendo novos fluxos discursivos e possibilitando a crítica da cultura e das relações temporais passado/presente. O objetivo é a assunção de uma consciência dos sujeitos e objetos históricos sem a hierarquização paralisadora dos efeitos dominantes nas versões opacas dos vencedores. As três partes do romance convidam a uma agudeza crítica, reorientando o discurso histórico em torno de uma nova Confederação dos Tamoios.

Ao passo que o Romantismo de Alencar disseminaria a idéia do índio manso, o bom selvagem atado ao jugo discreto do mito do bom senhor, Meu querido canibal erigirá uma imagem do chefe guerreiro, do bravo e incansável refugador das tiranias colonialistas em voga no Novo Mundo, ampliando o choque cultural ao corpo-a-corpo do debate. Como Cunhambebe, o romance de Antônio Torres é reagente à imagem pródiga do índio ingênuo e prosaico, burlado por espelhinhos e bugingangas, tendo sua história asfixiada por superstratos violentadores. À herança apagada dos dizimados, a reagente e canibalesca nova versão dos fatos, dissolvendo-se fronteiras postiças entre História e Literatura e dos objetos exclusivos de cada uma.

Entre o verossímil e o factual, a obra de Antônio Torres inova pelo leque e o prestígio diferenciadores das versões. Incontáveis trechos do romance ajudam a pulverizar a farsa do pensamento excludente, oferecendo novas angulações do problema, na forma avessa às mistificações e ombreando-se ao que caracterizamos como culturas de resistência, pelo reconhecimento da diferença e seus valores permanentes. Cunhambebe não teria melhor representação étnica e epopéica do que a que lhe é conferida no romance Meu querido canibal: um guerreiro tupinambá no tempo da pedra polida, a combater os inimigos de seu povo. A faceta anti-portuguesa e pró-interesses dos franceses escamoteia o convívio hedonista e sensual a uma festa civilizatória, esquecida da violência dissolvente da corrupção, das doenças, dos vícios, deserções e mortes patrocinados pelos europeus — fossem portugueses, franceses ou holandeses.

A narrativa de Antônio Torres prima pelo dialogismo com a ciência e a cultura e, mais, o contrapontístico intercurso temporal, citando referências, conhecimentos de homens e mulheres do passado e do presente indistintamente, socorrendo-se, por exemplo, do pensamento de Einstein, de que é mais fácil destruir um átomo do que um preconceito (Cit., 20). O presente do narrador completa o percurso de sua reavaliação do país e do romance. O querido canibal de hoje seria trucidado pelas balas perdidas ou pela liqüidação de qualquer identidade na Barra da Tijuca (in)devidamente maiamizada, made in USA.

Já em O nobre seqüestrador (2003), com o pretexto de seu segundo romance histórico, o romancista reflete sobre a cidade do Rio de Janeiro, refém ontem, como hoje, das impropriedades de seus seqüestradores, municiados de cinismo e arrogância e o beneplácito de nativos e governos, pagando a vilania com a pusilanimidade cúmplice, a hipocrisia volante e a indiferença aliciadora. Muitas dessas reflexões provêm da própria análise do corsário René Duguay-Trouin, que monologa e se diverte com o pânico que instalou no Rio de Janeiro em princípios do século 18 inflado de invasões e efervescências. É desse narrador soberbo e melífluo, aliás, a análise precisa e cortante de que Canalhas não têm pátria. Têm interesses imediatos (Cit., 17).

De uma certa maneira, O nobre seqüestrador complementa o roteiro de contrafações historiográficas de Meu querido canibal. As peripécias conquistadoras do corsário Duguay-Trouin, tutelado por Luiz XIV (o rei-sol), não apenas tomou de assalto o Rio de Janeiro em 1711 (tendo antes pensado em saquear a Bahia, ainda centro administrativo do Brasil Colônia) — pretendendo a re-instalação da França Antártica, compelido pela febre do ouro em Minas Gerais —, como antecipou a visão do caos noturno de um país modular em desorganização e arbítrio, submetido à lei do mais esperto. O monólogo de Duguay-Trouin presentifica-o como alter-ego esquivo e irônico do narrador, perspectivando uma atualidade ainda mais irônica.

É possível que o nobre do título seja também irônico (da aristocracia ou da distinção de caráter). Mas isso não nos ocorre da leitura da primeira parte do romance, onde a estátua falante de Duguay-Trouin expõe e dispõe de suas aventuras de marinheiro e almirante vingador do prestígio de uma França quase arruinada por tantas guerras. O narrador dialoga com um desconfiado interlocutor, assente em quase tudo com o que vai ouvindo e transformando em biografia temperada de picaresco e glosa sarcástica. O romance histórico, então, deriva para o romance-reportagem sobre personalidades históricas e a cidade do Rio de Janeiro ilha-se em confinamento de medo de novos saques, assaltos, seqüestros e profundas concussões na vida civil transtornada em paranóia, onde se sepulta diariamente qualquer sopro de racionalidade cordial. Por isso o narrador conclui que a história dela (da cidade do Rio de Janeiro) é a dos seus próprios arrasos. E não foram poucos (Cit., 147).

A terceira parte do romance registra alegoricamente a cidade do Rio lastimando seu destino de invasões e estupros, fenômenos sociais e bélicos de que sai sempre aviltada e com surtos de baixa estima moral, quase sempre entregue à sua própria sorte e ao discurso retórico de quem a deveria defender e a abandona ciclotimicamente. As querelas históricas são denunciadas e o relato épico se despe da epopéia para vestir a túnica da humildade lírica, pois O nobre seqüestrador, no fundo, é uma elegia e um canto de afeto do romancista ao Rio de Janeiro metonímico da afeição e cordialidade que tributamos ao próprio país. Isso, apesar de a cidade ter perdido sua aura de Cidade Maravilhosa, vitimada por perversos ciclos de invasões mil vezes piores que as do passado remoto e seus seqüestradores fossem nobres ou meros capitães de pirataria e rapinagem.

Na contramão do Pindorama, de Xavier Marques, o romance histórico de Antônio Torres tem um projeto escancaradamente revisor, crítico e anti-apologético.

*Do livro Floração de imaginários, o romance baiano no século XX, de Jorge de Souza Araújo, premiado pela Academia de Letras da Bahia / Braskem S/A, e publicado pela Via Litteranum Editora: Itabuna/Ilhéus, Ba, 2008.

Indignação sustenta novo romance de Antônio Torres

Folha de São Paulo, 1º de Junho de 1991
José Geraldo Couto

À esquerda a capa brasileira com a foto do reflexo de prédios em uma superfície curva, a segunda capa toda vermelha, a terceira com textura semelhante a couro e a quarta é a mais recente com um prédio vienense na parte superior e a silueta de morros cariocas na parte inferior
Quatro capas para Um Táxi para Viena D’Áustria

A literatura de Antônio Torres sempre esteve sintonizada com as tendências literárias de seu tempo, o que não significa adesão às modas correntes, mas, pelo contrário, uma tomada de posição crítica e pessoal diante delas. Seu sétimo romance, o pequeno “Um Táxi para Viena d’Áustria”, não apenas dá continuidade a esse diálogo com a literatura brasileira contemporânea como ocupa nele um papel singular.

A “ação” do livro transcorre em uma única tarde, no espaço de um quarteirão de Ipanema. É ali que Watson Rosavelti Campos, um redator publicitário desempregado, mata um amigo que não via há 20 anos, entra num táxi e, ao ouvir pelo rádio a “Missa em Dó Maior”, de Mozart, “viaja” no tempo e no espaço para frente e para trás, enquanto o carro, preso por um congestionamento-monstro, não sai do lugar.

Duas coisas chamam a atenção à leitura dessa breve sinopse. A primeira delas é a tensão entre um tempo narrativo extremamente concentrado e uma amplitude espacial e temporal virtualmente sem limites, facultada pelo delírio do protagonista. Um procedimento semelhante aparece em quase toda a obra do autor, e de modo especial em “Carta ao Bispo” (1979). A segunda coisa é a (falsa) impressão de que o romance filia-se a uma certa ficção ligeira (no sentido de veloz e também no de superficial) recente, marcada por um cosmopolitismo de fachada, por uma pseudomodernidade asséptica e acrítica. O que distancia Torres dessa tendência – e até o opõe a ela – é a ironia. E uma sagrada ira que o leva a todo momento a proclamar estridentemente a miséria material, política e cultural que cerca o protagonista (seu próprio nome, Rosavelti, é um erro de transcrição), estabelecendo os contornos de seu drama individual.

O fluxo narrativo é frenético e envolvente, alternando com desenvoltura a terceira e a primeira pessoas, a gíria cotidiana e a paródia do jargão publicitário, a gravidade e o deboche, o tom confessional e o distanciamento metalingüístico. Assim como “Essa Terra” (1976) acertava contas com o romance regionalista, “Um Táxi…” de certo modo funde e resume criticamente inúmeras vertentes da ficção urbana brasileira das últimas décadas: a violência verbal de Ruben Fonseca (especialmente o de “O Cobrador”); a fragmentação e colagem do “Zero” de Loyola Brandão; o naturalismo de João Antônio; a vivacidade “pop” de Roberto Drummond…

Ao trabalhar essas linhas disparatas de forma absolutamente pessoal e sem concessões, Torres construiu uma obra irregular, que às vezes dá a impressão de um conto esticado demais, em outras a de um romance inacabado. O livro foi reescrito várias vezes. Um último trabalho de “copy desk” que lhe aparasse as arestas talvez fosse fatal para o brilho e a contundência do conjunto. Exagerado, freqüentemente redundante, quase panfletário, mas sobre tudo radical e independente. “Um Táxi para Viena d’Áustria” é um livro alimentado pela indignação e pelo talento de um artista que tem o que dizer sobre seu tempo – e sabe como dizê-lo.

Barriga falante, uma lúcida metáfora do subdesenvolvimento

Jornal da Tarde, São Paulo, 18/05/1991
Oscar D’Ambrosio

Os dez capítulos do novo livro de Antônio Torres confirmam um traço marcante de sua obra: frases curtas, despojadas e diretas. O protagonista, um publicitário, é uma das mais preciosas expressões literárias modernas do drama do desemprego.

Ao estrear em 1972 com Um Cão Uivando para a Lua, Antônio Torres logo despertou a atenção da critica. Não só ganhou o Prêmio de Revelação, mas também começou uma carreira que, ao longo do tempo, o coloca, junto a Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Ângelo, Márcio de Souza, Oswaldo França Jr. e João Ubaldo Ribeiro, como um dos principais expoentes de uma geração que não será esquecida na literatura brasileira.

Um Táxi para Viena d’Áustria, sétimo romance de Torres, confirma as previsões da crítica. O autor não se limita apenas a exibir a apurada técnica de obras anteriores, mas atinge o nível dos mestres, parodiando a si mesmo e evocando, com sutilezas e ironia, textos anteriores, publicados em vários momentos de sua trajetória ficcional.

O presente romance tem um eixo aparentemente simples: um publicitário desempregado, imerso em sua angústia, marca um encontro com um amigo que não via há muito tempo e o mata. Após o crime, toma um táxi. Porém, este não sai do lugar. Um enorme congestionamento parou a cidade. O assassino começa então uma viagem interior que mistura surrealismo, dados biográficos, humor e ácida visão da realidade nacional.

Os dez capítulos da obra confirmaram um traço marcante de Torres: suas frases são curtas, despojadas e diretas. O publicitário, comicamente chamado Watson Rosavelti Campos, é uma das mais preciosas expressões literárias modernas do drama do desemprego. Sem ter o que fazer, Watson afunda em uma mar de bebida, a espera de telefonemas salvadores que nunca virão, improváveis ajudas de amigos e desespero.

A vítima de Watson é Cabralzinho, morto com dois tiros. Trata-se de um escritor de pouco sucesso. Subsiste graças a uma bolsa, sendo que, há alguns anos, fora internado em um manicômio, tendo passado por um tratamento de eletrochoques. Curiosamente, em Um Cão Uivando para a Lua, encontra-se exatamente o drama existencial de um personagem em um desumano hospital psiquiátrico.

O desemprego leva Watson a beber (“Andar, andar, até ficar de pé redondo, como um bêbado”). Esta imagem já tinha sido utilizada em Os Homens dos Pés Redondos (Francisco Alves, 1973), obra que mostra os últimos tempos do regime salazarista em Portugal. O contexto é outro, mas a simbologia é a mesma. Esmagados pelo autoritarismo, os lusos caminhavam morosamente rumo ao nada. O mesmo acontece com o publicitário desempregado de Um Táxi para Viena d’Áustria.

Vencido pela falta de perspectivas, o protagonista também se encaixa com perfeição em uma frase de Essa Terra: “O mundo é um relógio que perdeu o eixo: cada ponteiro vai para seu lado e cada louco fica no seu canto”. O romance da década de 70 referia-se ao patético drama das migrações internas e das terras abandonadas, porém seu tom triste, caótico e fragmentado vale também para o universo urbano retratado por Antônio Torres.

Todavia, torna-se ainda mais revelador o diálogo entre Balada da Infância Perdida e o recente romance. As reminiscências, alucinações, flash-backs, digressões e divagações de Watson no táxi parado confirmam a tese central de a Balada…: a utilização das experiências pessoais e das emoções do passado seria o principal caminho para uma pessoa reconstruir-se, tomando coragem para enfrentar-se no espelho e, em seguida, para recolocar-se na sociedade.

Um Táxi… apresenta o tom de um roteiro felliniano. As criticas ao modus vivendi urbano e carioca são avassaladoras. A epígrafe de Carta ao Bispo, pinçada de Nietzche, já apontava para o desejo de Torres de desmontar, através de sua prosa, os pilares de um país carcomido pelos cupins da corrupção, da incompetência e da hipocrisia: “Resta-nos a arte para não morrermos de verdade”.

O fato de Antônio Torres ser publicitário também não pode ser ignorado. Não se trata simplesmente de ver em Watson um alter-ego, mas de conceber esse personagem, som seu tom derrisório, como uma ácida representação dos bastidores do mundo da propaganda. Nada resiste aos olhos de um autor aparentemente convicto de que a sociedade está desmoronando.

A guerra estaria em todo lugar: nos morros, nas ruas, no campo, no emprego e no desemprego. Ao considerar a velocidade e o cinismo como “a receita universal da modernidade”, Watson nos oferece uma pista para apreender o verdadeiro motivo do assassinato de Cabralzinho. Trata-se de mais um momento de extremo talento do autor.

Cabralzinho padece de insuportáveis dores de barriga. Contudo, Watson apenas dispara a arma que encontra sobre uma mesa quando a barriga do amigo começa a falar. Com dois tiros, ela se cala. Podemos considerá-la então como a parte do corpo que dava voz e vazão às dores, medos e agonias de todo um povo, constituindo uma lúcida metáfora do subdesenvolvimento nacional.

As terríveis pontadas de Cabralzinho são sentidas o dia inteiro por todo o país. Após o assassinato, dentro do táxi, o rádio toca a Missa em Dó Maior, de Mozart. Daí os sonhos de Watson de ir para a harmoniosa e poética Viena e de subir ao topo da montanha mais alta e esperar “até que venha uma nuvem e me leve para um lugar tão longe que nem Deus sabe onde fica”.

Em Adeus Velho, Antônio Torres já pregava, embora no universo nordestino, a despedida dos absurdos do passado para o vislumbre de um glorioso futuro. Agora, mais maduro, o escritor baiano propõe, em tom de realismo fantástico, o extermínio do subdesenvolvimento para que todos tenham a possibilidade de sonhar ao ouvir Mozart e de alcançar as alturas sem a necessidade de encontrar Deus, mas apenas a de recuperar o brilho e o equilíbrio interior há muito tempo perdidos.

A Velocidade Ex-Tática

Nísia Vilaça
(“Paradoxos do pós-moderno – sujeito e ficção”, Editora UFRJ, 1986.)

O Barroco se explicita na “viagem” temporal construída no romance Um Táxi para Viena d’Áustria, de Antônio Torres. Um êxtase estático.

Tempos e lugares os mais díspares percorrem, afetam a personagem presa a um táxi em um engarrafamento, após cometer um crime aleatório: efeito de nenhuma causa. A personagem principal, Watson Rosavelte Campos, é um potiguar que trabalhava no Rio como publicitário até ser demitido. Entre um pileque e outro revê o Cabral, antigo amigo, em entrevista na tevê. Resolve visitá-lo, encontra-o deprimido, decadente, e mata-o num ímpeto. A história vem narrada em flashback delirante, enquanto Watson, refugiando-se num táxi parado, faz velozes viagens no imaginário espaço / temporal.

Ney Reis comenta no Caderno Idéias, do Jornal do Brasil, por ocasião do lançamento do livro: “É difícil não embarcar nesse pileque estilístico pelo imaginário do Rio classe média rumo a Viena”.

Gilles Deleuze, trabalhando a questão temporal, nos dá pistas para a leitura do trajeto de Antônio Torres neste seu último livro:

Velocidade não significa chegar primeiro a uma meta: às vezes, por ir com muita velocidade, se chega com atraso. Tampouco significa mudar; às vezes, por ir com muita velocidade, alguém se mantém constante e invariável. Velocidade é como um táxi: linha de espera, linha de fuga, engarrafamento de calçada, sinais verde e vermelho, ligeira paranóia, complicação com a polícia.

A velocidade a que se refere Deleuze parece presidir a estruturação do romance de Antônio Torres, onde o narrador nos introduz no burburinho do universo desencantado de uma Ipanema engarrafada, através de imagens fraturadas do cotidiano. A técnica é cinematográfica, jornalística, publicitária. Com takes rápidos, manchetes engraçadas e vivas, percorremos velozmente cenas, surpreendemos tipos das mais variadas classes, raças e sexos. Da turma do morro querendo descer às senhoras de fino trato, que aproveitam o trânsito parado para se ajeitarem no espelhinho do carro. O narrador se coloca simultaneamente de fora dos acontecimentos descritos e vivamente interessado, enquanto descreve e comenta o desenrolar do tumulto criado pelo acidente com m caminhão de Cola-Cola. Seu interesse fica nítido no emprego da função apelativa da linguagem: dialoga com várias das personagens. Ao motorista do caminhão, que adivinha drogado ou de porre, adverte:
– Tu pensas que foi muita sorte sair com vida deste acidente? Pois pensavas, burro e azarado, é o que tu és. Sorte mesmo seria teres partido desta pra outra melhor, levando junto sua congênita pobreza.

À técnica de radialista se misturam outros recursos para narrar o espetáculo. “O pau vai comer solto, amigo ouvinte a cobra vai fumar. Prepara o seu coração para muita emoção”.

Pequena quadrinha para narrar uma batalha de garrafas, intertextualidades literárias e musicais se misturam a ditados populares na composição do tumulto. Delineia-se então a personagem principal: um indivíduo descendo apressado pelas escadas do edifício número 3 da Rua Visconde de Pirajá. O narrador, que se opõe na posição de um motorista de táxi, observa as atitudes suspeitas e se pergunta sobre sua identidade. Maluco, paranóico, quarentão inofensivo ou culpado de algum crime? Depois desta primeira postura, numa visão de fora, o narrador-motorista de táxi passa a entabular com o suspeito uma imaginária conversa e aproxima-se mais da personagem. Quando o “campeão de salto aos degraus”, ou seja, o suspeito, entra no táxi do narrador-motorista há, então, uma mudança de ponto de vista narrativo. A perspectiva de fora é substituída por uma corrente de consciência que viaja desabalada pela imaginação, memória e desejos da personagem. Cala-se o narrador-motorista. Cessa a distância da visão de fora, expediente usado para criar o suspense policial. A passagem de uma visão a outra se dá em breve trecho através de discurso indireto livre, onde a ambigüidade do sujeito da fala reproduzida aponta para a cumplicidade entre o narrador e a personagem e indicia a substituição de um pelo outro ou a identificação dos dois.

Volta a recostar-se no banco do táxi, sente-se cansado e com sono. Hum, uma cama agora, hein, amigão? Dormir, dormir, dormir e acordar a milhares de quilômetros daqui.

O romance põe em cena uma geração que nos anos 60, ao tornar-se adulta, encontrou todos os deuses mortos, todas as guerras terminadas e toda a fé do homem abalada. É a literatura sem literatice. Fica mesmo explicitada a questão da escritura e as circunstâncias do mundo contemporâneo, distintas daquelas que presidiram a criação de um Machado, de um Joyce, de um Faulkner, de um Dostoievsky. “Como escrever sem mesa, cadeira, papel, casa, dinheiro, comida, emprego?” O jeito é caminhar no ritmo dos fragmentos, do rebaixamento do estilo, acompanhado de personagens sem nenhuma grandeza. Fala prosaica, fala em que registros múltiplos reproduzem no nível do significante o engarrafamento narrado. Viena d’Áustria é um ponto de fuga que não chega a ser trilhado. É a música de Mozart Missa em dó maior tocada no rádio do táxi que o leva à catedral em Viena d’Áustria. Trajetória kitsch. Sonhos, alucinações, misturam-se no táxi imóvel com cheiro de pólvora e combustível. “É como estar engarrafado no maior túnel do mundo, entre um tiroteio e um incêndio”.

Entre as altas velocidades do delírio, as pequenas memórias de um passado, ou na evocação das figuras paterna e materna, e do Cabralzinho, o amigo que será morto, o livro caminha em ritmo de surpresa. A mesma surpresa que tem a personagem ao descobrir-se assassino. O aleatório criando excessos e não economia de meios, como em João Gilberto Noll. O aleatório cria o crime perfeito no ritmo da modernidade, como comenta o narrador: “velocidade e cinismo, uma coceirinha no dedo. E pimba, esporro e êxtase”. A personagem Veltinho acaba por matar o amigo a partir de uma troca de canal fortuita, quando sintonizava na TV Educativa uma entrevista com outro amigo que não vê há 20 anos. A inconsciência do crime é sublinhada no livro pelo fato de o narrador, ao contar o momento decisivo, trocar a primeira pessoa pela terceira. “Watson Rosavelte Campos, filho da mãe honesta e pai corrupto, assassino em potencial, embora não saiba disso, chega finalmente ao prédio da sua vítima.

A estruturação do livro em fragmento impede que se reconstrua uma razão social (desemprego), uma crise existencial (suspeita de decadência) ou razões psicológicas (identificações com o pai). Não há preocupação com o desenvolvimento linear, mas com o caminho que “se faz ao andar”, como lembra o narrador na trilha de Antonio Machado. E Deleuze lembra: “O que interessa em um caminho, o que interessa em uma linha nunca é o princípio nem o fim, mas sempre o meio”.

O livro se inicia com o caos do engarrafamento e caminha nômade em direção a um ponto de fuga: Viena d’Áustria. O táxi não chega porque não parte e o narrador, ao final, caminha para ver o pôr-do-sol à beira-mar, bem devagar, enquanto espera que venha uma nuvem e o leve para um lugar tão longe que nem Deus sabe onde fica.

Em A Balada da Velha Infância Perdida, do mesmo autor, a personagem também tem vôos e sonhos movida pela embriaguez, mas a narrativa ainda possui uma linearidade na recuperação do passado de uma vida entre Natal, São Paulo e Rio, com outro viés de personalização própria aos livros de memória. Tal não sucede em Um Táxi para Viena d’Áustria. O narrador, em várias ocasiões, repudia a memória.

Pensar faz mal à saúde. Bom mesmo seria ter um dispositivo automático na cabeça. Pintou um pensamento indesejado? O dispositivo disparava e a cabeça passava a emitir uma música incidental sem referência, sem memória, sem lembrar nada.

Mais que sucessão de tempos, oposição de tempos e lugares como em A Balada da Velha Infância Perdida, temos superposição, acavalamentos. Técnica do pick-up, como o tartamundeio, de que fala Deleuze, opondo este procedimento ao Cut-up de Burroughs. Não há corte, mas multiplicações crescentes, idéias desterritorializadas. “Multiplicar os lados, acabar com todo tipo de círculos a favor dos polígonos”.

Torres reinventa a escritura e a libera da função-autor, cujos inconvenientes seriam: constituir um ponto de partida ou de origem, formar um sujeito de enunciação de que dependam todos os enunciados produzidos, fazer-se reconhecer e identificar numa ordem de significações dominantes e de poderes estabelecidos. Imprime ao discurso um uso rizomático que procede por interesses, cruzamentos de linhas, pontos de encontro no meio. Conversas e não colóquios ou debates. Afasta-se do modelo narcísico com seus estados de ânimo para se inventarem em dobras e devires barrocos.

Sem que o narrador saia do espaço do táxi são inúmeras as linhas de fuga criadas no romance. Surgem devires que se sobrepõem à partida do Rio ou à chegada a Viena. A respeito deste thriller de Antônio Torres não se poderia comentar: “Elementar, meu caro Watson”.