Dois Romances

Jornal de Letras – 1º Caderno – Junho, 1974
Marcos Santarrita

O primeiro romance de Antônio Torres, Um cão uivando para a Lua, sem dúvida a melhor estréia de 1972, transformou-se rapidamente num dos livros mais vendidos no País. E o segundo, Os homens dos pés redondos, repete o feito – tanto em êxito como em qualidade.

Torres é, visivelmente, o anti-literato. O primeiro romance, a estória de um nordestino criado na roça que vem para a cidade grande e acaba transformando-se num intelectual neurotizado, não só pelo choque de culturas quanto pela sufocante atmosfera do grande centro, é um milagre de equilíbrio entre o urbano e o regional. Além disso, por sua própria concepção – e apesar de pequena – a obra consegue criar um microcosmo que representa os dois Brasis já observado por Euclides da Cunha, mas até hoje pouco explorado pelos nossos ficcionistas. Torres consegue pular de um gênero para outro, fundi-los, interiorizar-se na análise da psique humana, sem cair nos cacoetes de nenhum deles. Enfim, uma obra tão equilibrada que, levando-se em conta a parcimônia de meios do autor, mais parece um acidente.

O segundo livro, mais ambicioso, sai do plano puramente individual para abranger uma gama mais ampla de tipos, e também aqui o escritor mantém o seu poder de criar personagens sólidas e convincentes, embora prossiga na vocação confissional do primeiro. A estória, se passa num país fictício, chamado Ibéria – fora o nome, não há nenhuma tentativa de disfarçar a identidade de Portugal –, e nela o autor funde, mais uma vez admiravelmente, os conflitos pessoais dos personagens com as características opressivas do regime português recentemente liquidado, sem jamais deixar o conteúdo político passar à frente ou mesmo ameaçar o existencial. Não se trata de um livro político, embora seja sem dúvida, um romance de consciência.

Outro escritor, mais literato, possivelmente não conseguiria escrever no tom confissional de Torres sem cair no diário pessoal, sem maior interesse como literatura, sem atingir um nível universal. E é justamente aqui que entra a vantagem – claro que apenas em casos como o dele – do primitivismo do autor: ele é tão sincero, tão puro, tão isento de ismos literários, que seus livros escapam de todos os perigos do gênero confissional e impõe-se como obras acabadas, definitivas.

Claro, há aqui e ali alguns deslizes, às vezes sérios – a começar pela linguagem –, mas que só fazem autenticar a validez das obras. No último livro, particularmente, parece que o sucesso demasiado fácil do autor levou-o a uma maior autocomplacência, a desleixar-se um pouco da autodisciplina visível no primeiro. Recursos como omitir o nome de um personagem principal, designando-o apenas de O Estrangeiro, dificilmente funcionam numa obra realista – e Torres apesar de todas as nuances oníricas de seus livros, é um realista, no sentido lukacsiano do termo. No fim do romance, o escritor leva a autoindulgência a ponto de referir-se a si mesmo como juiz supremo de um dos personagens, interrogando-se diante do leitor se deve matá-lo ou deixá-lo continuar vivendo.

Mas estes são pequenos senões, até certo ponto necessários – quando apenas senões – para dar uma dimensão humana à obra. O que parece claro, já neste segundo livro, é que Torres veio para ficar.

Ibéria ou nem só de propaganda vive o homem

Tribuna de Imprensa, Rio de Janeiro
João da Penha

“Guardamos a esperança para os que se desesperam.”
Patrice de La Tour du Pin

Ulisses é um romance pertencente à classe dos romances em forma de sonata, estruturado em tema, contra-tema, encontro, desenvolvimento, finale, segundo as palavras de Ezra Pound acerca do muito falado e pouco lido livro de Joyce. Ressalvadas as devidas proporções, podemos dizer o mesmo de Os Homens dos Pés Redondos, de Antônio Torres. A narrativa de Os Homens… se desenvolve em diversos tempos, com uma aparente desconexão entre si, num estilo que lembra vagamente o do “Roman-fleuve”, com episódios encadeados por intrigas diversas, mas cujo final o leitor habituado à moderna técnica narrativa, vislumbra logo às primeiras páginas.

Antônio Torres conta uma história (se ainda é lícito aqui, o uso do termo), em moldes nada tradicionais, usando de uma técnica romanesca que denuncia suas origens em Joyce, Faulkner e, numa certa medida, no “noveau-roman”, influências talvez nem sempre conscientes, mas que o autor já prenuncia em “Um Cão Uivando Para a Lua”, seu livro de estréia.

Em “Os Homens…” não há ação, mas sim uma persistente análise psicológica, interessando fundamentalmente os porquês dos atos e suas conseqüências.

Aqui e ali uma certa insistência descritiva que não dando o tom geral da obra, nos lembra, entretanto, alguns resquícios, propositais ou não, de uma técnica naturalística, influência antiga, talvez, que o autor insista em conservar.

A utilização da moderna técnica ficcional entre nós não é novidade, como de resto, em parte alguma. Muitos dos nossos autores já a exploraram, se bem que na maioria das vezes, de maneira pouco satisfatória. É aí que Antônio Torres supera seus pares, quase sempre claudicantes pela desmesurada e inconseqüente preocupação de criar obras que possam rivalizar com suas com suas afins de outras latitudes, naufragando num formalismo amorfo, estéril e maçante. Torres maneja com pleno conhecimento a linguagem literária, sabe até onde pode levar os experimentos vanguardísticos na construção de um universo ficcional, não se deixa seduzir pelo canto de sereia de um experimentalismo gratuito.

Os Homens… apresenta alguns pontos de contato com o romance de André de Figueiredo, Labirinto, ganhador do Prêmio Walmap 1971.

As semelhanças são visíveis na construção e linguagem que os dois romancistas utilizam.

As diferenças, entretanto, são ainda mais visíveis e favoráveis a Antônio Torres. O Labirinto, não propriamente uma obra autobiográfica, situa-se mais no gênero confissional, vive mais das experiências estritamente pessoais do seu autor.

Já o livro de Torres é o depoimento de um aqui e agora nada animador, não se perdendo num subjetivismo auto-gratificante. Ao estabelecer esse confronto entre as duas obras, não estou advogando, nenhum realismo objetivista (vale aqui, a redundância), com autores que não são artistas, mas tabeliões, ou psicopatas que reprimindo suas emoções construam uma realidade na qual não intervenham um instante sequer. Isso é falso. O artista só merece esse título, quando, partindo de sua experiência pessoal, constrói uma supre-realidade que se apóia nalguns pontos de semelhança com a experiência que todos temos do mundo objetivo, mas nunca construindo, deste, uma réplica. O novo livro de Antônio Torres ilustra o que estou querendo dizer.

Infelizmente, não posso achar que a minha dor é a dor do mundo e enclausurar-me num solipsismo, julgando que a realidade sou eu e nada mais.

Manoel Soares de Jesus, o herói ou anti-herói de Os Homens… ou suas projeções, como Emílio, são nossos conhecidos. A porta de Ibéria, que Antônio Torres não abre, é a de saída. Sutil. Mas Ibéria está cheia de outras sutilezas, algumas claras como a estupidez de muita gente.

Os Homens dos Pés Redondos: Uma alegoria do Portugal salazarista

Universidade de Lisboa
Vânia Pinheiro Chaves
(Conferência proferida nas seguintes universidades: 1 – Paris 10 – Nanterre -, que a publicou em 2005. 2 – Universidade do Porto. 3 – USP. 4 – UFRJ. E outras.)

O escritor brasileiro Antônio Torres não carece de apresentação nesse Colóquio, pois, além de ter sido agraciado pelo governo francês, em 1998, com a comenda de Chevalier dês Art set dês Lettres, comparece com freqüência em eventos que inúmeras instituições francesas dedicam ao Brasil e – o que é, sem dúvida, mais relevante para nós – tem três livros editados na França: Cette Terre, Um Taxi pour Vienne d’Autriche, Chie net Loup. No entanto, ainda não foram traduzidos dois de seus livros que têm, certamente, um particular interesse para o público francês, pois trabalham com episódios da História do Brasil que são também da História da França: Meu Querido Canibal tem como pano de fundo a tentativa de construção de uma França Antártica por Nicola Durand de Villegagnon, que se instalou na Baía de Guanabara, em 1555; O Nobre Seqüestrador retoma a breve ocupação do Rio de Janeiro, em 1711, pelo corsário francês René Duguay-Trouin.

Não me debruçarei, contudo, sobre tais obras, mas sobre Os Homens dos Pés Redondos, cuja primeira edição é de 1973 e cuja matéria se prende, segundo o próprio autor, com as suas vivências em Portugal. Sabendo-se que Antônio Torres residiu, em Lisboa e no Porto, de 1965 a 1968, e que trabalhou como redator de publicidade para diversas empresas, é de relacionar com esse período os acontecimentos narrados no romance, embora eles não se apresentem no texto situados num tempo histórico explicitamente datado.

A idéia de que Os Homens dos Pés Redondos retoma múltiplos aspectos da realidade portuguesa da década de 60 – os últimos anos do governo de Antônio de Oliveira Salazar – encontra apoio também noutras declarações do escritor, tais como:

Tiro meus livros de personagens que conheci na vida real, não planejo nada.
         [República nº 40, Fevereiro de 2000].

O que eu busco é isso: fazer um texto que seja o mais contemporâneo possível, inserindo numa realidade política, social, física e humana e também nas geografias física e humana.
         [O Popular, Goiânia, 3 de Julho de 2001].

O título do romance – espécie de cartão de visita metafórico da humanidade cuja história está nele contada – mereceu do autor uma explicação que, mais uma vez, vinculada a obra ao universo do Portugal salazarista:

No meu primeiro dia lá [Lisboa, 25 de Junho de 1965], sentado à mesa de um café, passei a observar os homens que iam e vinham pela calçada, dando voltas no quarteirão. Achei que eles tinham os pés redondos”. O título estava achado.
         [Entrevista concedida a Heloísa Buarque de Holanda, 16 de Janeiro de 2003].

Homens e mulheres de pés redondos, as criaturas de Antônio Torres adquirem, com tal qualificação, marcas simbólicas do << círculo >>. Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, este símbolo fundamental consubstancia, entre outras, noções de << totalidade indivisa >>, << ausência de distinção >>, << movimento imutável, sem começo ou fim e sem variações >>. Tais significações ganham concretude no romance, na medida em que as suas personagens – que, por metonímia, formam um painel da sociedade portuguesa ficcionalizada pelo escritor baiano – vivem num mundo fechado, sem escapatória, girando sem parar em torno das suas frustrações, dos seus medos e da sua solidão, como adiante será demonstrado.

A idéia da construção, em Os Homens dos Pés Redondos, de uma imagem negativa, depreciativa da sociedade portuguesa do período salarazista é ainda reforçada pela presença na sua abertura de duas epígrafes extraídas de poemas de dois renomados escritores portugueses do século XX:

Fernando Pessoa
 Seus três anéis irreversíveis são
 a tristeza, a desgraça, a solidão.
e Alexandre O’Neil
 E cada um por seu caminho
 havemos todos de chegar
quase todos
 a ratos
 Sim,
 a ratos

Manifestações líricas do sujeito poético, tais textos expressam a visão de mundo de seus criadores e se reportam, certamente, ao espaço real das suas vivências. Postos em relação com o romance de Antônio Torres, os versos de Fernando Pessoa parecem apontar seja para a infelicidade dos seres que habitam o universo construído na narrativa, seja para a imutabilidade do seu destino, ao passo que Alexandre O’Neil podem sugerir a degradação a que eles são conduzidos.

Dentre as inúmeras concretizações das idéias formuladas nas epígrafes que é possível encontrar em Os Homens dos Pés Redondos, vejam-se quer a história de Jorge Tunhas, um jovem médico que, mandado, na saída da Faculdade, para a luta nas colônias do Ultramar, recebe, no regresso, a oferta do comando dum destacamento na mesma região e se desespera, porque sabe não poder recusar, já que o vão “arrastar na marra” (p. 98), quer o episódio do << sapo >> que atormenta Manuel Soares de Jesus, interrogando-o acerca das suas opiniões sobre a guerra na Terra Negra (p. 51 e seguintes), quer ainda o do sonho dessa personagem com uma prostituta que, transformada em vaca, lhe dá um coice no exato momento em que deveria atingir o orgasmo (p. 49-51).

Em Os Homens dos Pés Redondos, a história se passa num território chamado Ibéria – disfarce que mais revela do que oculta a sua verdadeira identidade, pois tudo na narrativa aponta para o país real: a pequena extensão territorial, o regime ditatorial, a censura, a tortura, o medo, o cerceamento da intelectualidade, a guerra para guardar a posse das colônias africanas, a economia rural quase escravocrata, o desenvolvimento do capitalismo urbano, a exploração e a miséria do povo, a massificação produzida pela publicidade, o grande empenho na atividade turística, a presença muito forte do catolicismo e do clero, a mentalidade provinciana e preconceituosa, os modernos costumes citadinos.

Sem perspectivas de futuro, os habitantes desse mundo fictício estão voltados para os tempos remotos em que a:

Ibéria produziu um homem chamado Dom Afonso, o pai da pátria [,] que com uma única mão sustentava uma espada de 80 quilos [e] esculhambou os mouros a pedradas e azeite quente (p. 11).

Esse mítico passado nacional não esconde minimamente figura e episódios famosos das origens de Portugal, assim como ocultam pouco a real ditadura de Salazar, a caricatura bem mais grotesca de El-Rey e a cena em que ela aparece,

embora só da cintura para cima -, não apenas para mostrar o timbre exato da sua voz, ou a cor esmaecida de seu rosto comprido e magro, um rosto de quem passou 84 anos enclausurado num mosteiro, sem nunca ter visto a luz do sol (p. 171),

mas sobretudo para provar que estava vivo e que “era ainda e sempre o rei de todos, e não um simples presidente, como estava escrito na Constituição do Estado Novo, que ele próprio fundara havia quarenta anos (id. ib.).

Toda a caracterização de El-Rey e os acontecimentos em que ele está envolvido são, sem sombra de duvida, recriações inspiradas em dados e fatos da realidade portuguesa daquela época, como bem o comprova a seguinte passagem:

Tratava-se de um imperador antigo e antiquado, que não dava entrevistas nem festas, não tinha mulher nem filhos e nem amigos, e também não comparecia à inauguração de nenhuma obra pública. Para isso, contava com seus ministros e seus deputados, todos filiados a um único partido, o partido do rei. Eram eles quem se incubiam de enviar uma frota de ônibus às cidades do interior, para angariar a platéia necessária para cada manifestação pública. Iam de cidade em cidade oferecendo transporte e comida de graça para quem quisesse fazer um passeio até a capital, a convite de El-Rey. (p. 171-2)

Se bem que a Ibéria ganhe, com mais freqüência, formas concretas em espaços não localizados numa geografia precisa, algumas cenas do romance se passam em locais cujas designações apontam inequivocamente para o território português e, em particular, para o portuense. Reportam-se, por exemplo, à cidade do Porto, os nomes do bairro de Miragaia, das ruas Bonjardim e Santa Catarina, do Teatro Sá da Bandeira, do café Belas-Artes e se prendem ao universo mais amplo de Portugal os de Rio D’Onor, Cova Piedade [sic], Xira. Por sua vez, designações e referentes, tais como “Terra Crioula”, “Terra Negra”, “região de Napala”, “ilhota […] no calcanhar de Mao Tse-tung”, “boca de entrada da China”, mal disfarçam os nomes de espaços que estavam ou estiveram na dependência de Portugal.

Por outro lado, Ibéria é também o nome dado a uma personagem feminina de Os Homens dos Pés Redondos, que surge em configurações diversas, mas sempre com conotações mais ou menos aviltantes. Ela se apresenta ora como uma prostituta gorda, velha e doente, ora como uma grande dama, cujos salões se abrem para receber o Imperador da Terra Crioula, que se pretende venha a entrar na luta contra a Terra Negra, ora como uma guia de turismo, radiante por ter tido a oportunidade de oferecer ao seu grupo o espetáculo, que esses turistas muito apreciam, da repressão e da miséria nacionais. Em qualquer dos casos, essa mulher deve ser vista como uma alegoria de Portugal, uma mátria conservadora e degenerada, tal qual revelam os fragmentos abaixo-transcritos:

Nos braços da Ibéria eu sou mais homem. Um prato de sopa, um prato de peixe e outro de carne, que vem logo a seguir. Durante a sopa, beba vinho tinto. (Ah, é maravilhoso.) Peixe só combina com vinho branco. Volte ao vinho tinto no prato de carne. Depois, vamos às frutas, de toda espécie e qualidade (Já viu ameixas mais bonitas? E cerejas melhores do que as nossas? Gosta do melão? Ah, não. Não e não. Experimente estas uvas. São deliciosas. Ou prefere uma maça. Como queira. Sirva-se a seu gosto). Chegou a hora do cafezinho. Aceita um brandy? Uma aguardente velha. Safra de 1952. Estupenda. (p. 126)

Ibéria: eu vim seguindo as cores dos teus cartões-postais. “Venha tomar um banho de cultura, querido, venha” – foi o que ela me disse abrindo as pernas. Quando dei por mim, estava crivado com uma gonorréia. “Eu sou a beleza, menino, eu sou uma flor” – agora ela me olha como se eu fosse uma criança. “Teus tataravós e os tataravós dos teus tataravós me amaram muito”.

[…] Essa guerra esta me levando os últimos fios de cabelo. […] Não vê que aquela negrada ignorante não tem a menor condição de tomar conta de um continente? Aquilo ali é um continente. Que nós temos que civilizar. (pp. 124-125).

Em conformidade com a real sociedade portuguesa da época, os três pilares corroídos da Ibéria são Deus, Pátria e Família, que se consubstanciam de forma variada na matéria narrativa dos diversos episódios do romance. Neles se encontram situações que mostram quer uma Igreja hipócrita, corrupta e alienada dos problemas do seu rebanho, quer um Estado autoritário e vigilante, que explora, tortura, mata os cidadãos ou os manda para a morte na África, ode a sua missão civilizadora apenas mascara a defesa dos interesses da classe dominante, quer ainda a desagregação familiar, manifesta num mundo de homens e mulheres angustiados, que sofrem devido ao desamor, à solidão, ao medo, aos maus-tratos, à miséria, a que buscam consolo no álcool, nas prostitutas ou em amantes.

Por conseguinte, o universo descrito no romance é povoado por criaturas tristes, como os homens que se concentram no Old King – café que pode ser visto também como figuração metonímica de Portugal, pois a rígida separação de classes nos seus dois salões, não anula a identidade substancial e a infelicidade mais profunda de seus freqüentadores, “todos […] homens sem mulheres, porque as mães de seus filhos não contam” (p. 1). No entanto, as mulheres parecem ser os únicos seres capazes de achar saídas, ainda que precárias para o círculo infernal em que todos estão presos. Veja-se como o fazem Lícia Abramo, a atriz que afronta abertamente a preconceituosa sociedade a que pertence, ou Maria Manuela, cuja liberdade (ou libertinagem) se protege com uma máscara de bom comportamento, de “moça de família”. Predominam, porém, figuras femininas resignadas e exploradas, tal qual as:

Mulheres de preto [que], com enormes cestos sobre as cabeças, a caminho do mercado, cruzam com outras mulheres de preto (pernas cabeludas pudicamente resguardadas dentro de meias pretas), a caminho das igrejas, que cruzam com outras, ajoelhadas rente ao meio-fio da calçada, d[ando] brilho nas rodas importadas de seus patrões, enquanto muitas outras mulheres começam a dobrar a espinha para esfregar as entradas dos edifícios. (p. 37)

Rebeldes ou conformadas, as personagens femininas não ocupam, contudo, o primeiro plano da história contada em Os Homens dos Pés Redondos.

Fugindo da estruturação linear, das situações bem delineadas, da visão narrativa unívoca, e misturando numa dinâmica atordoante realismo e manifestações oníricas, o romance de Antônio Torres não constrói um drama centralizado numa personagem principal. Ao contrário, oferece ao leitor uma série de episódios mais ou menos autônomos que, no seu conjunto, formam um abrangente painel de uma coletividade cuja homologia com a sociedade portuguesa do período salazarista vem sendo demonstrada. É, todavia, possível encontrar um pequeno número de protagonistas, ou melhor, de figuras que se destacam pela sua maior presença na narrativa, pela importância fundamental das suas ações e pela sua significação enquanto representantes de cada uma das classes que formam o espectro da sociedade hierarquicamente organizada que o romance descreve. Assim sendo, três personagens masculinas se sobrelevam em Os Homens dos Pés Redondos: Manuel Soares de Jesus, Adelino Alves e o banqueiro Fernandes.

Personagem nuclear do Livro I (o maior dos três em que a obra esta dividida) e figura destacada do Livro III (que é o mais breve), Manuel Soares de Jesus pertence à classe média baixa. Filho de uma beata com padre da sua paróquia, ele ganha vida como desenhador “de cartazetes e bandeirolas para a freguesia dos comes e bebes” (p. 19) do banqueiro Fernandes. Mas seu salário é insuficiente para manter dignamente a mulher e os cinco filhos. A notícia de que passará a ser chefiado por Adelino Alves o conduz à idéia fixa de matá-lo, sem que lhe passe pela consciência que o seu crime é uma tentativa inútil de acabar com as frustrações de uma vida inteira:

amanhã ia ser o seu dia de glória, porque ia matar um homem.

[…]

Voltou a meter a mão no bolso, para sentir a tesoura ainda uma vez mais. Ao acariciá-la teve a sensação de estar deslizando os dedos entra as tripas do velho Alves.

[…]

Nove anos de casa, para isso. Um velho caindo aos pedaços ia dizer se o que ele fazia prestava ou não. […] Não, não iria submeter o seu trabalho à opinião daquele homem que nunca vira antes. (pp. 12, 16, 18-19)

Um revoltado que não soube direciona o seu ódio, a sua rebeldia, De Jesus não chega a ultrapassar a sua condição de miserável, nem a vencer a alienação, dado que anda a maior parte do tempo bêbado e em delírios. Estes o atiram para o passado ou para a degradação do mundo animal, numa luta inglória com sapos, galos, porcos, vacas, cobras e ratos. É, no entanto, capaz de escrever uma carta ao Papa, com a finalidade de fazê-lo desistir de visitar o país, cuja imagem pinta com cores negras:

Falou nas perseguições que alguns membros da Igreja vinham sofrendo, falou da guerra da Terra Negras, dos salários e da carestia, acrescentando: “Neste país, metade do povo pede esmola. A outra metade joga no toto-bola”. (p. 42).

Fracassados os seus dois planos, De Jesus rouba um bispo em cuja casa consegue ser recebido e tenta fazer o mesmo a Lena, esposa de Adelino Alves, mas no fim da história nada muda na sua vida. Anti-herói de pés redondos, ele se mantém no sofrimento e no delírio:

Eu ia de casa para o trabalho e já estava no ponto do ônibus. Vi um sujeito atrás de mim, mas pensei tratar-se de um passageiro qualquer, também à espera do mesmo ônibus. Assim que o ônibus chegou e eu pus o pé na porta, senti uma mão me agarrando. Tentei me livrar da mão que me puxava, sem êxito. Acabei caindo, o ônibus arrancou, e o curioso é que não vi quem foi que me puxou. Todos os dias, a todo instante, me acontece uma coisa mais ou menos parecida e que me deixa intranqüilo e pouco seguro nas pernas. Como a história daquele sapo.

[…]

O sapo já tinha tirado o gravador do bolso e se preparava para me mostrar a fita na qual havia registrado todas as minhas palavras pronunciadas durante o dia. Desta vez fui mais longe, meu velho. Registrei também os seus pensamentos. Quanto aos seus gestos e movimentos, estão muito bem guardados, numa outra fita. “Tire esse sapo daí, gritei de ovo, e minha mulher, finalmente, rolou para o outro lado da cama, me deixando dormir mais um pouco, sem aquele peso todo sobre o meu corpo. (pp. 285-286).

Igualmente consciente das mazelas do país, o escritor Adelino Alves, cujas obras estão traduzidas em muitos países, é também personagem de primeira linha nos mesmos Livros em que sobressai a figura de Manuel Soares de Jesus, que, no entanto, o toma como seu antagonista, por pensar que ele “era a voz do patrão, que, por sua vez, era a voz do Governo” (p. 17). Mas o velho Alves é, na realidade, um intelectual cerceado, que já sofreu oito anos de prisão e tortura por fazer parte da diretoria da Sociedade Ibérica de Escritores. A isto seguiu-se uma fase de miséria da qual saiu, quando aceitou a degradação de servir aos poderosos e corruptos. Era, no momento, chefe do departamento de produção da firma Fernandes & Fernandes, Negócios Bancários e remoia seus fantasmas solitariamente bebendo, fumando e ouvindo música. Outras vezes tomava um remédio para o fígado preparado por Maria Helena, sua mulher, que sabia que ele ia “arrastando a sua cruz, carregando-a até o fim, se arrastando, se arrastando, mas resistindo. Como se fosse de ferro” (p. 72).

Embora Adelino Alves contasse entre os seus trabalhos para o governo um utilíssimo cartaz – que dizia: Quem bebe vinho dá o pão a um milhão de ibéricos (p. 105) – continuava vigente a recusa da reedição de seus escritos. Considerado, sem dúvida, ameaçador para o regime, ele acaba por ser de novo preso e torturado:

É possível que desta vez eu morra na prisão. O que tanto pode levar anos e anos, como pode acontecer no próximo minuto. Aqui dentro, no fundo de um furgão escuro e trancado, antevejo o momento em que eles parem o carro e me mandem descer para a execução. Alguma coisa me diz que daqui a pouco poderei estar morto.

[…]

Não há heróis nem covardes. Estamos é sendo arrastados para uma irremediável loucura. Penso isso ao me lembrar, com gratidão, de um antigo companheiro de cela, muitos anos atrás. Ele possuía uma quase divina força moral, e acho que foi graças a essa estranha força que eu também não sucumbi, não me enterrei de vez. (p. 109-110)

Nessa nova prisão, a inexistência de um companheiro semelhante ao que tivera no passado, os anos a mais ou as torturas levam finalmente o escritor à loucura e a sua história termina numa casa de saúde, ou melhor, na << nave dos loucos >>:

Os internos abrem a passagem.
         Pi, pi, pi, pi. Vru, Vru, Vruuuuuu.
         Alves passa entre eles, como se tivesse um volante nas mãos.
         Passa correndo e fazendo curvas. Vez por outra anda de ré. (pp. 277-278)

Destino em todos os aspectos diferentes tem o banqueiro Fernandes – personagem a volta da qual está construído o Livro II, mas presente também nos outros dois. Para ele “este velho mundo burguês tem os seus encantos” (p. 113) e “o mal d[o] país é que o povo é preguiçoso” (p. 155). Consta, todavia, que chegou rapidamente ao topo da pirâmide social graças a um enriquecimento obtido em negócios escusos (contrabando de ouro e de moedas estrangeiras) e aos produtos africanos, pois como Ibéria explica ao Estrangeiro: “O algodão de lá é todo dele, e alguns poços de petróleo e…” (p. 125). Daí resulta ser ele um dos maiores sustentáculos da guerra no ultramar, se bem que (ou talvez por isso mesmo) dela consiga livrar o seu filho.

Além de impedir a mobilização de Júnior para as Colônias Fernandes tem força suficiente abafar, dentro da Ibéria, o escândalo da sua participação em orgias de velhos ricos com mocinhas em flor – divulgado contudo no Times, de Londres – mas parece não ter meios para localizar o paradeiro de Adelino Alves e de evitar o seu trágico destino. Em conversa com este seu funcionário, o banqueiro não deixa, contudo, de se vangloriar pelo fato de já ter tido os seus dias de revolta e de a sua “Companhia est[ar] cheia de gente de canhota” (p. 111). Mas, se acolhe “jovens idealistas, jovens esquerdistas […] rapazes que saíram da Universidade e foram para a guerra e voltaram e estão por aí meio sonâmbulos” (p. 112). É porque sabe que eles “têm uma garra terrível” e que a pode aproveitar em termos de produtividade. Para isto é necessário apenas que os responsáveis pelos diversos setores, entre os quais o próprio Alves, procurem “instigar-lhes o talento, dar-lhes a sensação de utilidade e de que têm um caminho pela frente” (id. ib.).

Omnipotente e omnipresente, o banqueiro Fernandes deseja, em dado momento, criar ele mesmo o slogan publicitário de um dos seus produtos. Seus empregados nas fábricas se perfilam como se ele fosse um general quando por lá aparece e só falta lhe beijarem os pés. Para Dona Santa, que trabalha na sua fazenda, Fernandes “era o seu chefe ou talvez até seu pai, muito possivelmente o seu homem – e com toda certeza o seu senhor” (p. 189), enquanto, para sua secretária no Banco, talvez não passe dum amante não-escolhido, mas a quem tem de servir todos os dias por volta das cinco da tarde.

O poderoso banqueiro não consegue, porém, despertar o interesse dos filhos pela fazenda que possui na terra onde nasceu pobre e que, além de ser uma boa fonte de lucro, é o seu maior orgulho e o lugar que lhe dá mais prazer na vida:

O homem descalçou as botas e pisou na bosta quente da vaca […] Parecia experimentar um delicioso e estranho prazer e era até possível adivinhar um sorriso em seu rosto duro. […] Mexia com os pés como quem marca o ritmo de uma música. (p. 179).

E talvez não seja verdadeiramente feliz. Não parece ser muito estimado pela família e pelos amigos que recebe na sua fazenda. A mulher lhe recusa o carinho e prefere passar horas e horas numa mesa de jogo com os hóspedes do momento. Perdeu a amizade do irmão ficando com um sócio a menos nas empresas e um rombo no cofre. Não consegue orientar os caminhos pelos quais a filha envereda. Mas os mais doloroso é a sua péssima relação com o filho que rejeita ser como ele, que faz tudo para chateá-lo e, como não descobre outro caminho para se libertar, busca na morte uma saída.

Outra personagem da maior importância no romance é o Estrangeiro, cujo nome sugere a partida tratar-se de um ser estranho, diferente, fora do sistema, conseqüentemente alguém que não tem os pés redondos e, por isto, é capaz de analisar e criticar com maior distanciamento e rigor o universo de que os demais não conseguem escapar por causa dos seus pés redondos. Entretanto, ele “queria mesmo era [se] dar bem com todo mundo, dizer boas palavras a quem as merecesse” (p. 211), mas só é bem acolhido pelos mais humildes e pelos menos ajustados: Emilio, De Jesus (que considera seus melhores amigos), seu Rodriguez, o vendedor do jornal A República, Lena, Manuela, Júnior.

Prostituída, a velha Ibéria parece aceitá-lo apenas porque ele lhe paga em dólares e ela precisa muito de dinheiro. Ibéria não hesita, contudo, em confessar que no “sente prazer em levar uns bêbados bem vagabundos, fedorentos e demorados que nem [ele] para um sórdido quaro de hotel, às quatro da manhã” (p. 125). Explica, outrossim, que seus maiores inimigos não são os negros que lutam pela independência na África e sim “os estrangeiros […] que espalham pelo mundo um monte de mentiras sobre [ela]” (id. ib.).

Por sua vez, o banqueiro Fernandes, ainda que tenha passado a chefia da sua agência de publicidade ao Estrangeiro, quando Alves foi preso e o tenha recebido com cordialidade na sua fazenda, nos feriados da Semana Santa, não confia inteiramente nele e deduz que é um aventureiro, depois de ter mandado fazer uma sindicância para saber se ele havia saído de seu país por motivos que o impediriam de contratá-lo. No fecho da narrativa, Fernandes presta um depoimento em que demonstra não o apreciar verdadeiramente, pois afirma que se interessou apenas pela sua capacidade de trabalho e que pode substituí-lo com facilidade na sua folha de pagamentos. Declara, outrossim, que o jovem publicitário é um ressentido, que veio de baixo e não pode compreender os ricos. Acusa-o, por fim, de ter corrompido os seus filhos com “suas idéias malsãs”, acreditando inclusive “que foi ele quem levou o Júnior ao suicídio” (p.284).

Quanto ao próprio Estrangeiro, autodefine-se como incongruente (p. 124), barroco e extravagante (p. 278). Com efeito, ele ora parece satisfeito com a vida que leva, ora se mostra melancólico e saudoso de outros tempos e lugares (p. 204-5). Sexualmente insaciável, revela-se, porém instável nas suas ligações amorosas, pois troca constantemente de companheira e jamais se mostra inteiramente feliz. Três das suas parceiras temporárias engravidaram e abortaram, por não se sentirem seguras na relação que mantinham com ele. A quarta – Maria Helena, esposa de Adelino Alves – conta-lhe que está grávida, mas vai fazer um aborto, porque ele não lhe dá um mínimo de assistência. Tendo-o como um “cara desleal” que só a procura quando está bêbado e que não telefona antes por pensar que ela estará compre pronta para o acolher, Lena afirma ainda saber que ele anda ao mesmo tempo com amigas suas. E, de fato – apesar de não se poder datar com precisão os acontecimentos narrados – o Estrangeiro, por esta altura, estava simultaneamente envolvido com Maria Manuela, filha do seu patrão, o banqueiro Fernandes. No entanto esta ligação não é levada a sério por Júnior, irmão de Manuela, que sabe que também ela “vive trocando de homem” (p. 207).

Outra relação afetiva mal resolvida pelo Estrangeiro é a que o liga pai, cuja lembrança não pára de atormentá-lo. Numa noite em que a febre o leva ao delírio, avista-o numa quitanda miserável, onde não ganharia o suficiente para sobreviver. Tenta fugir-lhe, mas o pai o reconhece e acusa de se envergonhar com a sua pobreza. Cheio de culpas que não quer, contudo, assumir ele pensa unicamente em entrar no primeiro botequim que lhe apareça pela frente, para beber até estourar o fígado (p. 146-8).

Em certos aspectos, as vivências do Estrangeiro se confundem com as do próprio autor. Nesse caso, ressaltam o trabalho temporário em Portugal com redator de publicidade e o nascimento do Junco, povoado no interior do Estado da Bahia, hoje transformado na cidade de Sátiro Dias. Por outro lado, o escritor se revela, em dado momento, hóspede da fazenda do banqueiro Fernandes e se apresenta a meditar, durante o café da manhã, sobre a escrita do romance, o desenho das personagens e o seguimento a dar à história:

O romancista, diante do papel e com muito espaço ainda por preencher, tenta recompor um banqueiro sentado à mesa de sua fazenda, para a primeira refeição do dia. Ele estava calado? Pensativo? Nervoso? Arrume a sua trouxa: engano, desenganos, sonhos, frustrações. Ponha no papel o melhor e o pior de tudo isso, depois carregue o peso da sua própria trouxa. O que é que vai acontecer com o filho do homem? Morrerá? Não morrerá. (p. 241).

Em contrapartida, o Estrangeiro, pouco ou nada vinculado ao universo pelo qual transita, assume, como já foi referido, posicionamentos fortemente críticos, manifestos tanto em palavras e pensamentos, como em ações, e que têm de ser lidos como postura autoral.

A idéia de que o autor se manifesta na narrativa metamorfoseado na figura do Estrangeiro e de que ela está impregnada do seu testemunho pessoal é corroborado ainda pelo fato de o Estrangeiro ser a personagem que, com mais freqüência, se encarrega da narração e de ele funcionar também como elemento de ligação entre as demais personagens, que, pertencendo a mundo distintos econômica e socialmente, estão rigidamente separadas. Além disso, o estrangeiro (e, por conseguinte, o próprio Antônio Torres) se confunde algumas vezes com outras personagens, englobando, portanto, na sua figuração personalidades diferentes ou mesmo antagônicas, entre as quais sobrelevam as de Adelino Alves, De Jesus e Júnior. Como já foi observado pela crítica, ele deve ser visto como uma só pessoa colocada em circunstâncias diversas, mas dentro de um mesmo mundo de tristeza, desgraça, solidão.

O conteúdo social e político de que estão impregnadas as personagens e a ação do romance não prejudica, como se procurou mostrar, o plano existencial e humano, uma vez que a narrativa, de grande amplitude, funde admiravelmente os conflitos pessoais com a atuação opressora do regime. Primeiro e até agora único romance brasileiro a focalizar a crise que Portugal enfrentou nos últimos anos do regime salarazarista, Os Homens dos Pés Redondos pode ser visto, em simultâneo, como uma representação mascarada do Brasil da mesma época, também ele submetido a um governo ditatorial, imposto, neste caso, pelos militares que, em 1964, derrubaram o presidente em exercício e revogaram a Constituição democrática do país.

Essa aproximação é legitimada não só por inúmeras componentes do universo criado, mas ainda – ou sobretudo – pela expressão lingüística e estilística das personagens e do narrador-autor, que optam sistematicamente por formas do linguajar brasileiro, em detrimento dos modos de falar próprios de Portugal, que seriam obrigatórios num romance de realismo mais restrito. Se bem que a velha Ibéria se refira em dado momete à fala supostamente diferente do Estrangeiro – ao fazer o seguinte comentário:

Gozado, ele é estrangeiro, mas ainda assim eu entendo o que ele fala.
         (p. 124).

– o que, na verdade, ocorre em todo o romance é uma ausência de fronteiras lingüísticas entre Portugal e Brasil, evidenciada quer nas falas das diversas personagens, quer nos seus monólogos interiores, que funcionam como discursos de narradores internos. Do primeiro tipo, é tanto a conversa entre De Jesus e um contínuo, a respeito do filho do dono da empresa onde trabalham –
         – O patrão mais novo. É um cara legal.
         – Deixa de ser besta.
         – Tou falando sério. O filho do patrão é um bacana. Não sai de uma gafieira.
         – Por isto você precisa lamber o rabo dele?
         – Você está é com inveja.
         – Vê se me respeita. (p. 20)

– como a caracterização, que Júnior faz para o Estrangeiro, de um dos hóspedes do pai, na fazenda onde estão passando a Semana Santa:

Esse cara é um mentiroso sem vergonha. Papai só suporta ele pra não deixar a velha chateada. Já fez tudo pra se livrar desse ranheta. È um puxa-saco e um invejoso […] Vê como a gente vive gozando ele, a toda hora? Ainda assim não se manca. É desses sanguessugas bem insistentes. Pra te dizer a verdade, toda essa parentada só vem pra cá nos encher o saco. (p. 200).

No segundo tipo, encaixa-se o monólogo interior de Zé das Minhocas, que reflete sobre o neto de seu cunhado, o banqueiro Fernandes:

Sacaninha. Coisa que preste é que não vai dar.

[…]

Tudo o que ele quer, o avô dá. […] E as outras que se virem. Que passem o tempo todo puxando o saco desse garoto levado da breca. […] Menino danado pra lá, menino sabido pra cá. Um cheiro, uma lindeza, um amor. E lá vai ele quebrando tudo. (p. 195).

Espalhados por todo o romance vocábulos, mas também noções e realidades próprias da sociedade brasileira transitam para o universo da Ibéria e se misturam com alguns poucos termos e objetos dela característicos. Dentre as numerosíssimas intromissões brasileiras no espaço ibérico vejam-se, por exemplo: o bonde (p.11), a frota ou o ponto de ônibus (p. 171 e 220), a boléia de caminhão (p. 55), a carona (p. 243), o estepe (p. 114), o posto de gasolina (p .217), os paus-de-arara (p. 98), o botequim ou boteco (p. 21 e 43), a boate ou o inferninho (p. 132 e 144), a zona ou puteiros (p. 49 e 21), as favelas (p. 27), o terreiro de macumba (p. 252), a quitanda (p. 146), a roça (p. 146), a biboca (p.185), as [paredes de] sopapo (p. 185), a latrina ou privada (p. 28 e 127), a grama (p. 190), o capim-gordura ou –de-burro (p. 50 e 196), a piaba (p. 194), a rolinha fogo-apagou (p. 201), os pamonhas (p. 186), o pileque (p. 70), o [final do] expediente (p.1 37), a carteira assinada (p. 226), o chororô (p. 54), o pagode (p. 214), a seresta (p. 214), a veadagem (p. 108), o mutirão (p. 187), o papo (p. 164), a grama ou prata (p. 16 e 46), o pisante (p. 38).

Infindáveis são os verbos, os adjetivos, os substantivos que, encontrados ao longo da narrativa e utilizados por quase todas as personagens, bem como pelo narrador-autor, têm um sentido peculiar na linguagem coloquial brasileira ou que inexistem no Português europeu. De exemplo sirvam: esculhambar (p.11), luxar (p. 57), espinafrar (p. 77), apagar ou abotoar para sempre (p. 91), aterrisar (p. 102), bronquear (p. 134 e 190), curtir (p. 159), xeretar (p. 185), trepar (p. 218), bolar (p. 270), manjada (p.20), bacana (p. 20), legal (p. 20), esnobação (p. 31), uma pilha (p. 236), o coisa-ruim (p. 239), puta frescura (p. 227), em cana (p. 26), na marra (p. 98), meia-sola (p. 144), bem quilometrada (p. 144), puxa-saco (p. 200).

Personagens e narrador externo valem-se,outrossim, de numerosas e interessantes formas de expressão e construções tipicamente brasileiras, entre as quis se incluem: cadê (p. 61), vambora (p. 222), não é mole (), cair fora (p. 13), dar no pé (p. 165), estar duro (p. 14), dar duro (p. 155 e 164), bater perna (p. 38), dar na telha (p. 41), fazer um neném (p. 49), encher a cara (p. 57, 161), descascar o abacaxi (p. 76), molhar a mão (p. 83), quebrar o galho (p. 84, 144), morder uma nota (p.84), nascer com a bunda pra lua (p. 113), quebrar a cara (p. 141), afogar a crista do galo (p. 144), o pau vai comer (p. 151), entrar pelo cano (p. 154), metida a sebo (p. 165), dar banho em minhoca (p. 193), limpar a barra (p. 215), devolver a bola (p. 215), esfolar o couro (p. 216), de cara cheia (p. 217), fundir a cuca (p. 218), dar um jeito (p. 219), pegar a estrada (p. 226), dar uma andada (p. 240), sentir o clima (p. 240), ou vai ou racha (p. 247), chega de papo (p. 272), enfiar peido em cordão (p. 27), deixar de onda (p. 275).

Predominantemente brasileiras são igualmente as formas de tratamento e designações encontradas no romance, tais como: meu chapa (p. 128), cara (p. 19), nego/a (p. 20 e 129), bicho (p. 15), sinhô (p. 188) mana (p. 196), crioula (p. 86), esse pinta (p. 20), o homem (p. 19), os tiras (p. 27), os bacanas (p. 86), os federais (p. 101), piranhas (p. 130), leão-de-chácara (p. 174), babá (p. 200), grã-fino (p. 225). A isto se soma a constante mistura do tu e do você, que é sem dúvida uma das manifestações mais típicas de linguagem coloquial brasileira dos nossos dias e que está bem representada nesse fragmento do diálogo das empregadas da família e/ou hóspedes do banqueiro Fernandes:

È, mas eles te enchem o saco aí o dia todo e você engole tudo calada.
         – Eles falam que você é muito respondona. Tu é fogo, mulher. (p.227).

O discurso romanesco inclui, como não poderia deixar de acontecer, o mais conhecido caso de brasileirismo referente ao emprego de verbos da Língua Portuguesa: o do verbo ter em lugar de haver. Inclui, igualmente, o emprego, também vulgaríssimo no Brasil, da preposição em com verbos de movimento, assim como a próclise dos pronomes átonos, em particular no início de frases ou de orações, contrariando o norma portuguesa.

Embora Antônio Torres tenha explicado que Os Homens dos Pés Redondos é uma obra de juventude e a considere o mais irregular de seus livros, o sucesso de eu goza junto do público e da crítica, desde a sua primeira edição, não permite secundarizá-la. O romance é complicado e polêmico, mas tem um interesse incontestável por se tratar seja de um retrato bem tirado de Portugal, com câmera dum escritor brasileiro que conheceu de perto a crise instalada naquele “doce país fascista, depois de dois mil anos de cristianismo e muitos séculos de Inquisição” (p. 131), seja de uma máscara bem ajustada à realidade brasileira da época da sua escrita, seja ainda de uma representação da miséria e desumanização do homem contemporâneo, agrilhoado à engrenagem de uma organização social opressora e arbitrária, seja enfim de uma demonstração do absurdo da condição humana independentemente de épocas e regimes.

Antônio Torres, Os Homens dos Pés Redondos, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1973; citado neste trabalho através da terceira edição: Rio de Janeiro, Record, 1999.

Na entrevista que deu a Giovanni Ricciardi (in Escreve. Origem, manutenção, ideologia, Bari, Libreria Universitaria, 1988), Antônio Torres afirmou: “Os Homens dos Pés Redondos, basicamente, reflete a minha experiência portuguesa” (p. 290).

  Dictionnaire dês Symboles, Paris, Seghers, 1973, pp. 302-309.

OS HOMENS DOS PÉS REDONDOS, DE Antônio Torres

Gerana Damulakis

A Editora Record vem reeditando a obra do baiano Antônio Torres. Já nas livrarias podemos reencontrar Balada da Infância Perdida e este Os Homens dos Pés Redondos, que foi publicado pela primeira vez em 1973, quando se tornou best seller. Antônio Torres tem uma obra já com 11 títulos, vários deles traduzidos e premiados. Seus romances são devidamente reconhecidos e, por tal, é acertada a resolução da editora em colocar outra vez ao alcance do público o prazer de ler uma literatura escrita por um ficcionista de “estatura incomum”, nas palavras de Jorge Amado. Os Homens dos Pés Redondos conta uma história inesquecível pela quantidade de personagens singulares vivendo casos ao mesmo tempo cheios de humor pela via da ironia e desgraçados pelo que encerram em suas linhas trágicas. As situações do romance não passam incólumes pelo leitor que se sentirá obrigado a refletir e, assim, entender melhor, quem sabe, até a si mesmo. Esta, por sinal, é uma marca da ficção de Torres, isto é, fazer pensar, deter-se no texto para dele retirar-se com sensações novas.

Gil, um perdedor – um Quixote do Nordeste

O Globo – Rio de Janeiro, 21/10/79
Edilberto Coutinho

Através de ação puramente psicológica, em que o passado está na consciência presente do personagem, Antônio Torres recria, neste “Carta ao Bispo”, todo universo de um homem que existe esmagado. Mais que isto, porque Gil se faz esmagado, e vamos conhecê-lo, exatamente, na situação-limite em que sentir e conhecer se repelem, são antinomias insuportáveis. Então, ao despedir-se da luta, Gil escreve sobre as razões de seu pretendido descanso. O que dirá na carta o leitor poderá, facilmente, recompor em suas próprias palavras. Porque não é difícil a gente se identificar com este personagem tão cheio de verdade humana e psicológica, com a consciência obscura, porém viva, da fatalidade que pesa sobre ele. Sobre nós.

O romancista não faz uma análise psicológica de Gil por trás do personagem. Seu livro não é uma tese. O narrador não está, em nenhum momento (e nem coloca o leitor) em posição por assim dizer superior do personagem. Claro que não. Porque Antônio Torres escreveu um romance (e que romance), não uma tese acadêmica. A força interior, o caráter interior, psicológico de Gil, portanto, não é apresentado no plano de consciência, geradora de conhecimento. Gil é surpreendido pelo que acontece, e não consegue atinar claramente com o sentido psicológico de seu destino, do destino. Ele tem a intuição de que nenhum futuro o fará sair de seu passado. Torres suprime e subverte as ligações cronológicas, de modo que o que Gil percebe é o passado. Ele não conseguiu arrancar Malhada da Pedra da pasmaceira, então vai se arrancar da vida. Decide isto e, neste momento, um número grande de coisas lhe ocorrem à lembrança. Gil não está agora sendo perseguido pelos outros, mas por ele mesmo, pelos anos todos que viveu, por suas ações e reações, coisas omitidas e cometidas.

Tudo corre para ele, neste corredor da morte em que o encontramos, quando decide finalmente fazer-se responsável pelo próprio destino, que apenas intui. Torres não tem verdades prontas para oferecer. Ele mostra, através do roteiro de Gil, as suas dúvidas, conduzindo o leitor a refletir sobre “este país trocado: cada macaco fora de seu galho”. Gil não ouve a voz antecipadora da mãe, verdadeira Sancho Pança de saias do sertão baiano: “Política e forró é gostoso, mas não é para os filhos da gente”. Gil-Quixote vai em frente, porque acha que Zito, “que é como se fosse meu irmão”, ia ganhar as eleições. “Porque agora a gente vai ganhar”. E o que acontece a este perdedor exemplar na visão implacável e verdadeira que seu criador no oferece? “Gil deixa sua causa sincera e insana, na qual enterrou quase todos os seus quarenta anos. Queria salvar um lugar e um povo. Sozinho”.

Antônio Torres escreveu um romance rigoroso (estrutura e linguagem pedindo análise mais aprofundada), vigoroso, novo, feroz e ferino, que faz avançar a ficção brasileira. O professor e crítico Jorge de Sá fez uma síntese admirável da obra de Torres, nestas palavras: “Com os pés fincados no chão seco do Nordeste e com a alma impregnada pelos nossos problemas característicos, A.T. recria personagens tão vivos quanto cada um de nós”. Aí estão as características mais fortes deste romancista de mão cheia, que sabe contar uma história de sabor bem brasileiro, capaz de seduzir qualquer leitor. Mas que não é um ingênuo, e sabe também como armar a sua narrativa, de modo a oferecer uma leitura que pode ser feita em mais de um nível; que pede um leitor cúmplice, participante; a seu modo, também, recriador; quase um co-autor. Porque é preciso merecer o livro. Um livrão, apesar de magro em número de páginas. Mas cheio de sustança, em cada uma delas. Livro para ficar. Um triunfo.

Em Cartaz

ISTO É. 12/12/1979
Caio Porfírio Carneiro

Este é um romance “cheio de atalhos”, para nos valermos de expressão do autor sobre a “conversa encabulada” do personagem Gil com Chico, seu pai. Porque é por atalhos que Antônio Torres chega às evidências. Sempre foi mais ou menos assim nos livros anteriores. Nesta Carta ao Bispo, em particular, os atalhos se condensam, a plasticidade é menos difusa (em Antônio Torres a plasticidade é de meia-sombra e reversamente revelada) e a angústia humana, mais tensa e desesperante.

Num jogo curioso em que o tempo se retrai e se amplia em constante fusão e repulsão e o espaço geográfico vai da beira do regional à expressão ampla do universal, Antônio Torres alcança um nível de beleza literária onde tudo é alucinadamente palpitante. Desde a linguagem (fluente, contida, desestruturada, límpida e a fotográfica, mas sempre uniformizada no todo) ao epicentro da história – Gil – e tudo que dela (dele) emana, demanda e denuncia. Porque Gil é ele e sua consciência. Em essência, é isto. O conduto narrativo, em muitos pontos, está a indicar isto. A consciência, tal qual independente personagem, está sempre a acusá-lo, a lembrá-lo e a estudá-lo. E Gil, por sua parte, a viver os desencontros da vida e denunciar, pelo comportamento, as injustiças e desconcertos dela.

Daí as meias-voltas (atalhos), as muitas faces formais, para que o corpo ficcional se transfigure por inteiro.

Aqui a trama não se compõe nem flui num suceder narrativo natural. Muitos são os fragmentos, porque o que importa é a abordagem ficcional vista de vários ângulos, para que se alcance, em maior profundidade, o mundo de Gil e seus tormentos, o mundo (atualíssimo) que o cerca, com suas injustiças. Gil é apelo de salvação neste mundo conturbado. E ele próprio é personagem sem apelo. Nem o Bispo (a luz do túnel) o salvará, embora o Bispo implore, peça e chame.

Carta ao Bispo é obra para ser lida e sentida. Não temos aqui propriamente uma história, antes o espírito conturbado de uma época através de uma personagem. Porque Gil é o espírito da Bahia e é um pouco de todos nós e de nossos tormentos.

Livro bem-escrito, como tudo o que vem de Antônio Torres, e que pede espaço maior para análise mais detida, porque, apesar do pequeno número de páginas, estende-se ele da mais simples concessão ao limite perigoso da legibilidade, sem todavia transpô-lo. Aí está o difícil na arte literária tão nobremente realizada por este escritor de pulso que já alcançou (e com este livro soma mais um pouco) o justo lugar de destaque na moderna literatura brasileira.

Antônio Torres queixa-se ao Bispo pelos vencidos

Jornal do Brasil, Caderno B – Rio de Janeiro, 06/10/79
Norma Couri

Fosse pelo pai, este primeiro filho dos 13 que teve estaria até hoje na enxada, pé na terra úmida do Junco, sertão da Bahia. Mas o menino aos três anos lia livro de Igreja, aos oito Castro Alves, aos poucos devorou toda a estante de um tal mestre Zezito, fogueteiro, e foi estudar em Lagoinhas. Não demorou muito, trocou a enxada pela Olivetti vermelhinha que quebrou muitas vezes.

Aos 39 anos e muitas máquinas depois, Antônio Torres publica seu quarto livro e avisa que o menino já está nascendo. Chama-se Carta ao Bispo. Quem escreve a carta é Gil, o personagem principal, depois de envenenar-se com formicida encontrada na cozinha do bispo. A partir daí é a caminhada pelo corredor da casa, e cada passo é um capítulo desse romance “brasileiro na latitude da sua consciência”.

Uma queixa ao bispo é a última coisa que nos-resta, quando ninguém mais está disponível, ninguém mais escuta. Para Gil, a carta foi o limite de sua resistência física, o lamento deixado nas marcas de sua mão no corredor da casa.

O personagem é o brasileiro derrotado. O político de interior que não se elege prefeito e vira cabo eleitoral de um cachaceiro, tocador de viola, no final vitorioso. Gil dá um desfalque, está com processo correndo na Justiça, sabe que a opção é a cadeia ou a morte. “Só que ele resiste”, diz Torres. “Um dado novo, surpreendente até para mim. Sabe, o livro é como filho, a gente cria de um jeito, ele cresce de outro”.

A surpresa foi maior porque Torres sabe ser este quarto livro continuação de um processo iniciado com o primeiro, Um Cão Uivando para a Lua (o brasileiro vencido pelo Rio de Janeiro), emendado no segundo, Os Homens dos Pés Redondos, e pelo terceiro, Essa Terra. Torres levou 30 anos para escrever o primeiro livro, uma história que não acabava nunca. Porque era tudo um livro só, ele percebeu: “Faulkner disse que a gente parte para o livro pensando poder contar tudo, mas vai morrer achando que não conseguiu”.

– A gente é menor do que o próprio material. Por exemplo, a influência católica alastra-se por todo o meu livro, graças ao fato de eu ter ganho o meu primeiro salário como sacristão. Depois rompi com a Igreja, revoltado (como Gil) pela maneira como os padres enriqueciam com a pobreza do sertão. Mesmo assim estou impregnado de religiosidade.

Carta ao Bispo são 128 páginas escritas em pedaços de madrugadas, nas férias, nas sobras de tempo, durante dois anos. “Às vezes”, diz Torres sorrindo, “roubando tempo do patrão”. Há muitos anos no Rio, trabalhando em jornal e publicidade (hoje é diretor de criação da Denison), Torres ainda se assusta com a cidade. Tem “a visão do medo, da loucura, do isolamento, da pressão, da prisão e que ela nos conduz”. E acha muito difícil viver aqui sem dor.

– É duro ser escritor no Brasil. Viver na Zona Sul, andar três quilômetros e de repente ver o Nordeste, a roça vindo para a cidade. Conviver com a Europa e o século XVII que estão ao nosso lado.

Para Torres, o grande romance desde século vai ser latino. Conversa na Cadetral, de Vargas Llosa, Pedro Paramo, de Juan Rulfo, Grande Sertão, de Guimarães Rosa, ou qualquer outro. “A América Latina tem muito a dizer. Uma realidade nada uniforme, muito rica, com uma língua marcada por incríveis diferenças regionais. Jorge Amado já disse que operamos na periferia. É verdade. Não estamos na órbita do poder dos grandes centros; nossos isolamentos é conseqüência do subdesenvolvimento. Daí nossa força. Há uma brecha, na medida em que não obedecemos as leis do consumo. Qualquer dia desses vão olhar pra gente e dizer que valemos alguma coisa”.

Antônio Torres tem dois filhos pequenos (Gabriel, 5, e Tiago, 2 anos), uma “casa de baiano” (ajeitada pouco a pouco por ele e a mulher Sonia nos muitos apartamentos por que passaram no Rio) e uma pergunta, sempre sem resposta, da qual tira impulso para continuar. “Escrevo, no fundo, para exercitar algumas respostas”.

Trás nos ombros, como todo escritor brasileiro atual, o peso de ter nascido depois de José Lins do Rego, Lima Barreto, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Vira mais um copo de uísque, e lembra que o peso é como o da máquina de escrever, simbolizando, no fundo, a enxada que ficou no Junco, a responsabilidade social imposta pelo pai. Outro dia voltou lá, relembrou casos, como os das desculpas para se afastar do Junco: qualquer inauguração de cantoneira para santo, qualquer reza para moribundo. Na poeira levantada pelo primeiro caminhão, a oportunidade de fugir da enxada e chegar à escola rural mais próxima, a 3 quilômetros de casa.

Antônio Torres não tem parado no caminho, não tem deixado o peso do passado atrapalhar. E falando mais dos nossos escritores gigantes do que do assimilado no Junco, ele diz:

– Mas o peso está lá, eu sei que está.

Sucessão e Superação

Jornal do Brasil, Caderno B – Rio de Janeiro, 06/10/79
Jorge de Sá

Desde o seu romance de estréia, Antônio Torres mostrou-se propenso a realizar uma obra de características marcadamente nacionais. Centrado no eixo do regionalismo e apoiado na riqueza da oralidade, ele vem captando não apenas as implicações do homem rude com a sua terra, mas principalmente a forma brutal que conduz o brasileiro a uma possível compreensão Don osso processo histórico. Assim, seria quase impossível classificar a obra do criador de Um Cão Uivando para a Lua somente de acordo com uma das áreas do ciclo baiano. Com os pés no chão seco do Nordeste e com a alma impregnada pelos nossos problemas característicos, Torres recria personagens tão vivos quanto cada um de nós. Portanto, sua despreocupação com a universalidade do romance reflete uma fecunda brasilidade só alcançada pelos maiores escritores da nossa literatura. Consciente de que a arte literária não se faz com técnica apenas, ele mergulha por inteiro na construção de seus textos, percorrendo com seus personagens o difícil caminho que vai da consciência ingênua, em que a alienação nos coloca a serviço de ideologias estranhas a nós mesmo, até uma consciência critica, que problematiza o nosso real, conduzindo-nos a uma ideologia coerente com os interesses do povo brasileiro.

Logo se a obra de Torres foge do universal (no sentido apenas estético), cada vez mais se aproxima do centro nervoso de nossos impasses, tornando-se espelho de uma realidade latino-americana, repensando todo o seu contexto. Por essa razão, cada novo trabalho reescreve o anterior através de novos ângulos, conquistando novas formas de melhor avaliar as implicações sócio-econômicas no confronto entre a cidade e a roça. Nesse processo, Carta ao Bispo é a sucessão natural de Essa Terra. Mas é, também, a sua ultrapassagem.

Nessa ultrapassagem, o novo romance de Torres coloca em cena um aprendiz de político, apaixonado por seu povo e desejoso de arrancar Malhada da Pedra da marginalidade a que foi condenada. Verdadeiro “cavaleiro andante se torna viagem”, Gil amadurece e se desgasta tentando concretizar seus sonhos quixotescos. Sozinho, esmagado pelas armadilhas dos poderosos, sé lhe resta o suicídio como afirmação da sua luta e grito de alerta àqueles que constroem o destino de seus filhos com “metros de pano, litros de farinha, quilos de açúcar e nacos de carne”. Para que seu sacrifício não seja inútil, decide escrever ao Bispo Dom Luís, seu amigo e confidente. O conteúdo da carta, porém, será um eterno segredo.

Neste caso, que interesse pode despertar um romance cujo titulo anuncia uma carta que jamais será lida por nós? É exatamente nessa estratégia que o leitor se vê envolvido. Num ritmo vertiginoso, acompanhamos o fluxo da memória com que Gil reconstrói sua vida. Cada fragmento, cada fato que marcou a tumultuada existência do protagonista é um enigma a ser decifrado. No trajeto da cozinha à sala, verdadeiro corredor de lembranças, Gil espalha os estilhaços de ma verdade que pertence ao mundo. Na medida em que avançamos na leitura, percorremos as mesmas etapas e vamos recolhendo as frases que constituem o texto ignorado. E nos surpreendemos cumprindo a mesma função do escritor-narrador: selecionar e sintetizar para alcançar um todo. A mensagem cifrada passa a ser reescrita, fazendo de cada um de nós seu verdadeiro emissor à procura de receptores capazes de ouvir um grito parado no ar desde os primórdios da nossa colonização.

Os incríveis compassos da invenção

Correio Brasiliense
Marcilio Farias

O Romance tem aquela prerrogativa maior do Romancero, que é a linguagem extensiva, dilatadora e elastecedora das tensões verbais intrínsecas à narrativa. O romance moderno, fragmentou essa prerrogativa maior, fruto da herança e dos ensinos da traditio e instaurou formulações novas para extensão ou contração do jogo narrativo.

No Brasil, essa ruptura com a linearidade dos processos narrativos só veio a acontecer, em definitivo, a partir do único realmente primoroso romance de Machado: “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Isso depois de Sterne, de Scott, de James e principalmente, depois de clássicos do romancero adquirirem edições internacionais, como o caso do “Cid”.

A partir de Machado a situação se acomoda até Callado (que incorpora o pontilhismo jornalístico à formulação da narrativa do romance em um livro inigualável. “Kuarup”) e João Antônio. O que acontece então é uma explosão de postulações narrativas realmente impressionantes e com diversos autores. Abel Silva, Roberto Drummond, Carlos Gurgel, Álvaro Faria se inscreveram nesse fluxo fantástico que injetou algo novo e vigoroso na modorra falso burguesa do nosso romance anterior a essa fase.

Antônio Torres é um romancista que alia uma consciência fundamental dos processos narrativos historiais do romance (o que se evidencia pela rigorosa arquitetura da obra) a um sentido rítmico impressionante que sabe onde distender ao máximo a carga da linguagem: onde deve contê-la máxima ou mínima, em sua tensão de significâncias. Desde “Um cão uivando para a lua” que o itinerário inventivo de Torres se abriu, colocando-o um passo adiante do moderno ficcionismo latino-americano, situando-o pari passu com Cortazar, Astúrias e Llosa. “Os homens dos pés redondos” é uma alegoria impressionante: tal como “Essa terra”, talvez a mais profunda análise do millieu latino-americano.

“Carta ao Bispo” é uma excitante aventura narrativa, em saudabilíssimo exercício de proposições narrativas, aliado e correlato a uma penetração marcante de um fenômeno sócio-político visceral na formação do homo brasileiro: a odisséia interior da Bahia, e sua desagregação interna, à medida em que a convivência com o fato político (ou pliticoso comme il fault) vai colocando-o em xeque com sua estrutura íntima de emoções e expectativas.

Gil é símbolo. Torres retoma aqui ou melhor, amplia aqui aquela sua tendência fabulativa esboçada nas suas obras anteriores. No entanto, o peso do seu novo livro é reforçado pela aguda inventiva que espaceja as várias formas de captação das emoções em uma manipulação atenta e segura do apparat lingüístico.

“Agora ele está só, tão desgraçadamente só quanto no dia em que nasceu. Mas agora ele dispensa a parteira e já não precisa mais berrar ao mundo que está só”.

Gil é um símbolo. Mas que o personagem, através do qual se repassa toda a agonia do existir defasado, distendido, Gil é a clave da exploração narrativa de Torres. A alquimia de correspondências entre o agônico mover-se do personagem e o distanciamento critico do autor permite ao leitor, pela disposição e/ ou montagem ideogramática dos blocos narrativos (onde mesclam-se a narrativa clássica, o discurso interior e o fragmentarismo icônico) uma visão plurimorfa e plurívoca de um processo que in facto ocorre com o interior de Gil, o símbolo.

O romance possibilita uma recriação, do fluxo real dos sentimentos sob o ritmo ou compasso da intervenção crítica, analítica do autor. No caso de Torres, essa intervenção se faz em todos os níveis e instantes do processo narrativo, abarcando e abrangendo as mínimas feições tocadas pela sua analítica.

“Parecia até um desperdício, esta cidade: tanta árvore, tanta fronde, tanta franja, tanta flor a derramar-se sobre os alegres portões ensolarados que não escondiam a estupidez de honestos ferroviários que comem e cagam a fazem filhos e morrem no fiado, igualzinhos aos bêbados do petróleo, essa horda fedida e barulhenta que chegava de noite estourando gasolina, detonando dinheiro e enchendo a cara e depois caía na cama até a hora da buzina, levantar, lavar a cara e seguir para o campo do petróleo e uma vez na vida toma banho, uma vez na vida tem uma folga, troca os trapos e segue atrás do trio elétrico, crente que a vida é boa, pelo menos uma vez por ano”. (Página. 32).

O que mais define a excelência do criador é a sua disposição para o claro-aberto. A palavra prédispõe o que a possui, isto é, a utiliza, para a clarificação dos processos interiores, onde a energia existencial se move no silêncio, como se fosse plâncton e dunas. O dizer do romance postula antes de qualquer nada a atenção às grandes massas de significados (i.é.. de energia simbólica) que se movem no entre mear dos trechos. Clarificar o uso da palavra é abrir-se a toda manifestação do discurso criador, é o que a critica academicista chama de perfeição estética.

Torres mergulha no seu universo de significâncias com a disposição do guerreiro. O pique que imprime a sua narrativa é o equivalente ao pique interior das suas indagações enquanto e como criador. Li o livro n o mesmo dia que recebi, sem interrupções, em uma hora e meia. Terminei a leitura sem fôlego. A dose exata das marcações narrativas, a sutil trança que o real e a critica desse real tecem e retecem. Vão construindo um bloco maciço de emoção e frustrações, um mover-se uníssono de vida e antivada.

Pouco importa saber se Gil morre (após tomar uma superdose de formicida Tatu) sem conseguir o tão almejado contato com o Bispo, ao qual sempre desejou (desejava?) escrever uma carta. Morre como um rato, uma barata, um homem. Simplesmente morre. O comentário do Bispo, incidentalmente nos braços de quem poderia ter expirado, não poderia ser mais adstringente:

“Não sei mais se acredito em Deus ou se este homem tem sangue de cavalo.” (Página. 107).

O principal na criação de Antônio Torres é a seriedade proposicional de seu trabalho. Qualquer proposição (ensina-nos a lógica das formas) (formas que, no entanto, independem da lógica que o raciocínio ordenador engendra) possui em si a trajetória anterior de um estado ou vários estados de coisa. O romance possui atrás de si toda a história, toda ontologia. Torres demonstra conhecer bem essa realidade fenomênica: conhece-a e penetra em sua corrente com a mesma desenvoltura de quem sabe as possibilidades e limites (infinitas possibilidades, infinitos limites) do ser, da existência, do sofrimento e da paixão.

“Carta ao Bispo” e a indagação ontológica

Jornal O Norte – João Pessoa, Paraíba, 02/05/83
Hildeberto Barbosa Filho

Se Percy Lubbock escrevesse, hoje, o já clássico “A Técnica da Ficção”, não poderia prescindir do farto material disponível na narrativa de Antônio Torres, mormente em “Carta ao Bispo”. Sobretudo porque, privilegiando as formas de composição, ou seja, as estratégias do foco narrativo, teria, no aludido romance, as mais equilibradas experiências de uma narrativa moderna. Centrando a ação nos limites de um tempo diegético extraordinariamente curto (os instantes finais do personagem “Gil” que decide suicidar-se), o autor recorre a pluralidade dos recursos narrativos, principalmente no tocante ao terreno dos pontos de vista, buscando diluir a concentração dramática da ação principal. E, aguçando-a em outras seqüencias episódicas, consegue fornecer uma visão macroestrutural da trajetória do personagem, instaurando, assim, os alicerces do edifício romanesco em lugar de tecer os fios articulatórios da estrutura do conto.

Daí a narrativa em primeira pessoa, calcada sobremaneira nos dados da memória; a narrativa em terceira, mantendo a unidade da trama, e a presença recorrente do fluxo da consciência joyceano, remetendo para o universo caótico em que se debate o personagem. Nesse caso, se a narrativa opera, ordenadamente, um primeiro nível (o da fabulação), vai apontar, no espaço entretextual, para uma inquietação ideológica subjacente, traduzida na permanente indagação a respeito da condição ontológica do ser humano. Conseqüentemente, um exercício de narrativas superpostas, travando os rumos da narração e da reflexão. Por isso, no texto do escritor baiano, uma dimensão além da estética – o sentido filosófico. Em meio aos momentos cruciais do delírio da personagem, a linha episódica é interrompida (o que se faz constante na obra) por elucubrações dessa jaez: “O mundo está rodando. O mundo, mamãe, é um tonto, um alcoólatra de ressaca, um cego no meio do tiroteio. Esta vida é uma gangorra. Mas eu ainda quero rosetar. Rose-tar, mamãe. Cravar o espinho do cravo na roseira do mundo, cravar o meu espinho numa rosa aveludada, macia e cheirosa, cheirando a mulher.”

Logo, importa revelar em “Carta ao Bispo”, não somente a problematização conteudística das motivações recorrentes, isto é, o fluxo migratório e as suas irradiações temáticas: solidão, medo, opressão etc, como também o corte social na micro-região do “Junco” baiano, porém, fundamentalmente, o discurso maior sobre a existência. O que, diga-se de passagem, eleva a ficção de Antônio Torres a um plano universal.