O primeiro romance de Antônio Torres, Um cão uivando para a Lua, sem dúvida a melhor estréia de 1972, transformou-se rapidamente num dos livros mais vendidos no País. E o segundo, Os homens dos pés redondos, repete o feito – tanto em êxito como em qualidade.
Torres é, visivelmente, o anti-literato. O primeiro romance, a
estória de um nordestino criado na roça que vem para a cidade grande e
acaba transformando-se num intelectual neurotizado, não só pelo choque
de culturas quanto pela sufocante atmosfera do grande centro, é um
milagre de equilíbrio entre o urbano e o regional. Além disso, por sua
própria concepção – e apesar de pequena – a obra consegue criar um
microcosmo que representa os dois Brasis já observado por Euclides da
Cunha, mas até hoje pouco explorado pelos nossos ficcionistas. Torres
consegue pular de um gênero para outro, fundi-los, interiorizar-se na
análise da psique humana, sem cair nos cacoetes de nenhum deles. Enfim,
uma obra tão equilibrada que, levando-se em conta a parcimônia de
meios do autor, mais parece um acidente.
O segundo livro, mais ambicioso, sai do plano puramente individual
para abranger uma gama mais ampla de tipos, e também aqui o escritor
mantém o seu poder de criar personagens sólidas e convincentes, embora
prossiga na vocação confissional do primeiro. A estória, se passa num
país fictício, chamado Ibéria – fora o nome, não há nenhuma tentativa de
disfarçar a identidade de Portugal –, e nela o autor funde, mais uma
vez admiravelmente, os conflitos pessoais dos personagens com as
características opressivas do regime português recentemente liquidado,
sem jamais deixar o conteúdo político passar à frente ou mesmo ameaçar o
existencial. Não se trata de um livro político, embora seja sem
dúvida, um romance de consciência.
Outro escritor, mais literato, possivelmente não conseguiria
escrever no tom confissional de Torres sem cair no diário pessoal, sem
maior interesse como literatura, sem atingir um nível universal. E é
justamente aqui que entra a vantagem – claro que apenas em casos como o
dele – do primitivismo do autor: ele é tão sincero, tão puro, tão
isento de ismos literários, que seus livros escapam de todos os perigos
do gênero confissional e impõe-se como obras acabadas, definitivas.
Claro, há aqui e ali alguns deslizes, às vezes sérios – a começar
pela linguagem –, mas que só fazem autenticar a validez das obras. No
último livro, particularmente, parece que o sucesso demasiado fácil do
autor levou-o a uma maior autocomplacência, a desleixar-se um pouco da
autodisciplina visível no primeiro. Recursos como omitir o nome de um
personagem principal, designando-o apenas de O Estrangeiro, dificilmente
funcionam numa obra realista – e Torres apesar de todas as nuances
oníricas de seus livros, é um realista, no sentido lukacsiano do termo.
No fim do romance, o escritor leva a autoindulgência a ponto de
referir-se a si mesmo como juiz supremo de um dos personagens,
interrogando-se diante do leitor se deve matá-lo ou deixá-lo continuar
vivendo.
Mas estes são pequenos senões, até certo ponto necessários – quando
apenas senões – para dar uma dimensão humana à obra. O que parece
claro, já neste segundo livro, é que Torres veio para ficar.
“Guardamos a esperança para os que se desesperam.” Patrice de La Tour du Pin
Ulisses é um romance pertencente à classe dos romances em forma de
sonata, estruturado em tema, contra-tema, encontro, desenvolvimento,
finale, segundo as palavras de Ezra Pound acerca do muito falado e
pouco lido livro de Joyce. Ressalvadas as devidas proporções, podemos
dizer o mesmo de Os Homens dos Pés Redondos, de Antônio Torres. A
narrativa de Os Homens… se desenvolve em diversos tempos, com uma
aparente desconexão entre si, num estilo que lembra vagamente o do
“Roman-fleuve”, com episódios encadeados por intrigas diversas, mas
cujo final o leitor habituado à moderna técnica narrativa, vislumbra
logo às primeiras páginas.
Antônio Torres conta uma história (se ainda é lícito aqui, o uso do
termo), em moldes nada tradicionais, usando de uma técnica romanesca
que denuncia suas origens em Joyce, Faulkner e, numa certa medida, no
“noveau-roman”, influências talvez nem sempre conscientes, mas que o
autor já prenuncia em “Um Cão Uivando Para a Lua”, seu livro de
estréia.
Em “Os Homens…” não há ação, mas sim uma persistente análise
psicológica, interessando fundamentalmente os porquês dos atos e suas
conseqüências.
Aqui e ali uma certa insistência descritiva que não dando o tom
geral da obra, nos lembra, entretanto, alguns resquícios, propositais
ou não, de uma técnica naturalística, influência antiga, talvez, que o
autor insista em conservar.
A utilização da moderna técnica ficcional entre nós não é novidade,
como de resto, em parte alguma. Muitos dos nossos autores já a
exploraram, se bem que na maioria das vezes, de maneira pouco
satisfatória. É aí que Antônio Torres supera seus pares, quase sempre
claudicantes pela desmesurada e inconseqüente preocupação de criar
obras que possam rivalizar com suas com suas afins de outras latitudes,
naufragando num formalismo amorfo, estéril e maçante. Torres maneja
com pleno conhecimento a linguagem literária, sabe até onde pode levar
os experimentos vanguardísticos na construção de um universo ficcional,
não se deixa seduzir pelo canto de sereia de um experimentalismo
gratuito.
Os Homens… apresenta alguns pontos de contato com o romance de
André de Figueiredo, Labirinto, ganhador do Prêmio Walmap 1971.
As semelhanças são visíveis na construção e linguagem que os dois romancistas utilizam.
As diferenças, entretanto, são ainda mais visíveis e favoráveis a
Antônio Torres. O Labirinto, não propriamente uma obra autobiográfica,
situa-se mais no gênero confissional, vive mais das experiências
estritamente pessoais do seu autor.
Já o livro de Torres é o depoimento de um aqui e agora nada
animador, não se perdendo num subjetivismo auto-gratificante. Ao
estabelecer esse confronto entre as duas obras, não estou advogando,
nenhum realismo objetivista (vale aqui, a redundância), com autores que
não são artistas, mas tabeliões, ou psicopatas que reprimindo suas
emoções construam uma realidade na qual não intervenham um instante
sequer. Isso é falso. O artista só merece esse título, quando, partindo
de sua experiência pessoal, constrói uma supre-realidade que se apóia
nalguns pontos de semelhança com a experiência que todos temos do mundo
objetivo, mas nunca construindo, deste, uma réplica. O novo livro de
Antônio Torres ilustra o que estou querendo dizer.
Infelizmente, não posso achar que a minha dor é a dor do mundo e
enclausurar-me num solipsismo, julgando que a realidade sou eu e nada
mais.
Manoel Soares de Jesus, o herói ou anti-herói de Os Homens… ou
suas projeções, como Emílio, são nossos conhecidos. A porta de Ibéria,
que Antônio Torres não abre, é a de saída. Sutil. Mas Ibéria está cheia
de outras sutilezas, algumas claras como a estupidez de muita gente.
Universidade de Lisboa
Vânia Pinheiro Chaves
(Conferência proferida nas seguintes universidades: 1 – Paris 10 – Nanterre -, que a publicou em 2005. 2 – Universidade do Porto. 3 – USP. 4 – UFRJ. E outras.)
O escritor brasileiro Antônio Torres não carece de
apresentação nesse Colóquio, pois, além de ter sido agraciado pelo
governo francês, em 1998, com a comenda de Chevalier dês Art set dês Lettres,
comparece com freqüência em eventos que inúmeras instituições
francesas dedicam ao Brasil e – o que é, sem dúvida, mais relevante
para nós – tem três livros editados na França: Cette Terre, Um Taxi pour Vienne d’Autriche, Chie net Loup.
No entanto, ainda não foram traduzidos dois de seus livros que têm,
certamente, um particular interesse para o público francês, pois
trabalham com episódios da História do Brasil que são também da
História da França: Meu Querido Canibal tem como pano de fundo a
tentativa de construção de uma França Antártica por Nicola Durand de
Villegagnon, que se instalou na Baía de Guanabara, em 1555; O Nobre Seqüestrador retoma a breve ocupação do Rio de Janeiro, em 1711, pelo corsário francês René Duguay-Trouin.
Não me debruçarei, contudo, sobre tais obras, mas sobre Os Homens dos Pés Redondos, cuja primeira edição é de 1973 e cuja matéria se prende, segundo o próprio autor, com as suas vivências em Portugal.
Sabendo-se que Antônio Torres residiu, em Lisboa e no Porto, de 1965 a
1968, e que trabalhou como redator de publicidade para diversas
empresas, é de relacionar com esse período os acontecimentos narrados
no romance, embora eles não se apresentem no texto situados num tempo
histórico explicitamente datado.
A idéia de que Os Homens dos Pés Redondos retoma múltiplos
aspectos da realidade portuguesa da década de 60 – os últimos anos do
governo de Antônio de Oliveira Salazar – encontra apoio também noutras
declarações do escritor, tais como:
Tiro meus livros de personagens que conheci na vida real, não planejo nada.
[República nº 40, Fevereiro de 2000].
O que eu busco é isso: fazer um texto que seja o mais contemporâneo
possível, inserindo numa realidade política, social, física e humana e
também nas geografias física e humana.
[O Popular, Goiânia, 3 de Julho de 2001].
O título do romance – espécie de cartão de visita metafórico da
humanidade cuja história está nele contada – mereceu do autor uma
explicação que, mais uma vez, vinculada a obra ao universo do Portugal
salazarista:
No meu primeiro dia lá [Lisboa, 25 de Junho de 1965],
sentado à mesa de um café, passei a observar os homens que iam e vinham
pela calçada, dando voltas no quarteirão. Achei que eles tinham os pés
redondos”. O título estava achado.
[Entrevista concedida a Heloísa Buarque de Holanda, 16 de Janeiro de 2003].
Homens e mulheres de pés redondos, as criaturas de Antônio Torres
adquirem, com tal qualificação, marcas simbólicas do << círculo
>>. Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant,
este símbolo fundamental consubstancia, entre outras, noções de
<< totalidade indivisa >>, << ausência de distinção
>>, << movimento imutável, sem começo ou fim e sem
variações >>. Tais significações ganham concretude no romance, na
medida em que as suas personagens – que, por metonímia, formam um
painel da sociedade portuguesa ficcionalizada pelo escritor baiano –
vivem num mundo fechado, sem escapatória, girando sem parar em torno
das suas frustrações, dos seus medos e da sua solidão, como adiante
será demonstrado.
A idéia da construção, em Os Homens dos Pés Redondos, de uma
imagem negativa, depreciativa da sociedade portuguesa do período
salarazista é ainda reforçada pela presença na sua abertura de duas
epígrafes extraídas de poemas de dois renomados escritores portugueses
do século XX:
Fernando Pessoa
Seus três anéis irreversíveis são
a tristeza, a desgraça, a solidão.
e Alexandre O’Neil
E cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim,
a ratos
Manifestações líricas do sujeito poético, tais textos expressam a
visão de mundo de seus criadores e se reportam, certamente, ao espaço
real das suas vivências. Postos em relação com o romance de Antônio
Torres, os versos de Fernando Pessoa parecem apontar seja para a
infelicidade dos seres que habitam o universo construído na narrativa,
seja para a imutabilidade do seu destino, ao passo que Alexandre O’Neil
podem sugerir a degradação a que eles são conduzidos.
Dentre as inúmeras concretizações das idéias formuladas nas epígrafes que é possível encontrar em Os Homens dos Pés Redondos,
vejam-se quer a história de Jorge Tunhas, um jovem médico que,
mandado, na saída da Faculdade, para a luta nas colônias do Ultramar,
recebe, no regresso, a oferta do comando dum destacamento na mesma
região e se desespera, porque sabe não poder recusar, já que o vão
“arrastar na marra” (p. 98), quer o episódio do << sapo >>
que atormenta Manuel Soares de Jesus, interrogando-o acerca das suas
opiniões sobre a guerra na Terra Negra (p. 51 e seguintes), quer ainda o
do sonho dessa personagem com uma prostituta que, transformada em
vaca, lhe dá um coice no exato momento em que deveria atingir o orgasmo
(p. 49-51).
Em Os Homens dos Pés Redondos, a história se passa num
território chamado Ibéria – disfarce que mais revela do que oculta a
sua verdadeira identidade, pois tudo na narrativa aponta para o país
real: a pequena extensão territorial, o regime ditatorial, a censura, a
tortura, o medo, o cerceamento da intelectualidade, a guerra para
guardar a posse das colônias africanas, a economia rural quase
escravocrata, o desenvolvimento do capitalismo urbano, a exploração e a
miséria do povo, a massificação produzida pela publicidade, o grande
empenho na atividade turística, a presença muito forte do catolicismo e
do clero, a mentalidade provinciana e preconceituosa, os modernos
costumes citadinos.
Sem perspectivas de futuro, os habitantes desse mundo fictício estão voltados para os tempos remotos em que a:
Ibéria produziu um homem chamado Dom Afonso, o pai da pátria
[,] que com uma única mão sustentava uma espada de 80 quilos [e]
esculhambou os mouros a pedradas e azeite quente (p. 11).
Esse mítico passado nacional não esconde minimamente figura e
episódios famosos das origens de Portugal, assim como ocultam pouco a
real ditadura de Salazar, a caricatura bem mais grotesca de El-Rey e a
cena em que ela aparece,
– embora só da cintura para cima -, não apenas para mostrar o
timbre exato da sua voz, ou a cor esmaecida de seu rosto comprido e
magro, um rosto de quem passou 84 anos enclausurado num mosteiro, sem
nunca ter visto a luz do sol (p. 171),
mas sobretudo para provar que estava vivo e que “era ainda e sempre o
rei de todos, e não um simples presidente, como estava escrito na
Constituição do Estado Novo, que ele próprio fundara havia quarenta anos
(id. ib.).
Toda a caracterização de El-Rey e os acontecimentos em que ele está
envolvido são, sem sombra de duvida, recriações inspiradas em dados e
fatos da realidade portuguesa daquela época, como bem o comprova a
seguinte passagem:
Tratava-se de um imperador antigo e antiquado, que não dava
entrevistas nem festas, não tinha mulher nem filhos e nem amigos, e
também não comparecia à inauguração de nenhuma obra pública. Para isso,
contava com seus ministros e seus deputados, todos filiados a um único
partido, o partido do rei. Eram eles quem se incubiam de enviar uma
frota de ônibus às cidades do interior, para angariar a platéia
necessária para cada manifestação pública. Iam de cidade em cidade
oferecendo transporte e comida de graça para quem quisesse fazer um
passeio até a capital, a convite de El-Rey. (p. 171-2)
Se bem que a Ibéria ganhe, com mais freqüência, formas concretas em
espaços não localizados numa geografia precisa, algumas cenas do
romance se passam em locais cujas designações apontam inequivocamente
para o território português e, em particular, para o portuense.
Reportam-se, por exemplo, à cidade do Porto, os nomes do bairro de
Miragaia, das ruas Bonjardim e Santa Catarina, do Teatro Sá da
Bandeira, do café Belas-Artes e se prendem ao universo mais amplo de
Portugal os de Rio D’Onor, Cova Piedade [sic], Xira. Por sua vez,
designações e referentes, tais como “Terra Crioula”, “Terra Negra”,
“região de Napala”, “ilhota […] no calcanhar de Mao Tse-tung”, “boca
de entrada da China”, mal disfarçam os nomes de espaços que estavam ou
estiveram na dependência de Portugal.
Por outro lado, Ibéria é também o nome dado a uma personagem feminina de Os Homens dos Pés Redondos,
que surge em configurações diversas, mas sempre com conotações mais ou
menos aviltantes. Ela se apresenta ora como uma prostituta gorda, velha
e doente, ora como uma grande dama, cujos salões se abrem para receber
o Imperador da Terra Crioula, que se pretende venha a entrar na luta
contra a Terra Negra, ora como uma guia de turismo, radiante por ter
tido a oportunidade de oferecer ao seu grupo o espetáculo, que esses
turistas muito apreciam, da repressão e da miséria nacionais. Em
qualquer dos casos, essa mulher deve ser vista como uma alegoria de
Portugal, uma mátria conservadora e degenerada, tal qual revelam os
fragmentos abaixo-transcritos:
Nos braços da Ibéria eu sou mais homem. Um prato de sopa, um
prato de peixe e outro de carne, que vem logo a seguir. Durante a
sopa, beba vinho tinto. (Ah, é maravilhoso.) Peixe só combina com vinho
branco. Volte ao vinho tinto no prato de carne. Depois, vamos às
frutas, de toda espécie e qualidade (Já viu ameixas mais bonitas? E
cerejas melhores do que as nossas? Gosta do melão? Ah, não. Não e não.
Experimente estas uvas. São deliciosas. Ou prefere uma maça. Como
queira. Sirva-se a seu gosto). Chegou a hora do cafezinho. Aceita um
brandy? Uma aguardente velha. Safra de 1952. Estupenda. (p. 126)
Ibéria: eu vim seguindo as cores dos teus cartões-postais.
“Venha tomar um banho de cultura, querido, venha” – foi o que ela me
disse abrindo as pernas. Quando dei por mim, estava crivado com uma
gonorréia. “Eu sou a beleza, menino, eu sou uma flor” – agora ela me
olha como se eu fosse uma criança. “Teus tataravós e os tataravós dos
teus tataravós me amaram muito”.
[…] Essa guerra esta me levando os últimos fios de cabelo.
[…] Não vê que aquela negrada ignorante não tem a menor condição de
tomar conta de um continente? Aquilo ali é um continente. Que nós temos
que civilizar. (pp. 124-125).
Em conformidade com a real sociedade portuguesa da época, os três
pilares corroídos da Ibéria são Deus, Pátria e Família, que se
consubstanciam de forma variada na matéria narrativa dos diversos
episódios do romance. Neles se encontram situações que mostram quer uma
Igreja hipócrita, corrupta e alienada dos problemas do seu rebanho,
quer um Estado autoritário e vigilante, que explora, tortura, mata os
cidadãos ou os manda para a morte na África, ode a sua missão
civilizadora apenas mascara a defesa dos interesses da classe
dominante, quer ainda a desagregação familiar, manifesta num mundo de
homens e mulheres angustiados, que sofrem devido ao desamor, à solidão,
ao medo, aos maus-tratos, à miséria, a que buscam consolo no álcool,
nas prostitutas ou em amantes.
Por conseguinte, o universo descrito no romance é povoado por criaturas tristes, como os homens que se concentram no Old King
– café que pode ser visto também como figuração metonímica de
Portugal, pois a rígida separação de classes nos seus dois salões, não
anula a identidade substancial e a infelicidade mais profunda de seus
freqüentadores, “todos […] homens sem mulheres, porque as mães de
seus filhos não contam” (p. 1). No entanto, as mulheres parecem ser os
únicos seres capazes de achar saídas, ainda que precárias para o
círculo infernal em que todos estão presos. Veja-se como o fazem Lícia
Abramo, a atriz que afronta abertamente a preconceituosa sociedade a
que pertence, ou Maria Manuela, cuja liberdade (ou libertinagem) se
protege com uma máscara de bom comportamento, de “moça de família”.
Predominam, porém, figuras femininas resignadas e exploradas, tal qual
as:
Mulheres de preto [que], com enormes cestos sobre as
cabeças, a caminho do mercado, cruzam com outras mulheres de preto
(pernas cabeludas pudicamente resguardadas dentro de meias pretas), a
caminho das igrejas, que cruzam com outras, ajoelhadas rente ao
meio-fio da calçada, d[ando] brilho nas rodas importadas de seus
patrões, enquanto muitas outras mulheres começam a dobrar a espinha para
esfregar as entradas dos edifícios. (p. 37)
Rebeldes ou conformadas, as personagens femininas não ocupam, contudo, o primeiro plano da história contada em Os Homens dos Pés Redondos.
Fugindo da estruturação linear, das situações bem delineadas, da
visão narrativa unívoca, e misturando numa dinâmica atordoante realismo
e manifestações oníricas, o romance de Antônio Torres não constrói um
drama centralizado numa personagem principal. Ao contrário, oferece ao
leitor uma série de episódios mais ou menos autônomos que, no seu
conjunto, formam um abrangente painel de uma coletividade cuja
homologia com a sociedade portuguesa do período salazarista vem sendo
demonstrada. É, todavia, possível encontrar um pequeno número de
protagonistas, ou melhor, de figuras que se destacam pela sua maior
presença na narrativa, pela importância fundamental das suas ações e
pela sua significação enquanto representantes de cada uma das classes
que formam o espectro da sociedade hierarquicamente organizada que o
romance descreve. Assim sendo, três personagens masculinas se
sobrelevam em Os Homens dos Pés Redondos: Manuel Soares de Jesus, Adelino Alves e o banqueiro Fernandes.
Personagem nuclear do Livro I (o maior dos três em que a obra esta
dividida) e figura destacada do Livro III (que é o mais breve), Manuel
Soares de Jesus pertence à classe média baixa. Filho de uma beata com
padre da sua paróquia, ele ganha vida como desenhador “de cartazetes e
bandeirolas para a freguesia dos comes e bebes” (p. 19) do banqueiro
Fernandes. Mas seu salário é insuficiente para manter dignamente a
mulher e os cinco filhos. A notícia de que passará a ser chefiado por
Adelino Alves o conduz à idéia fixa de matá-lo, sem que lhe passe pela
consciência que o seu crime é uma tentativa inútil de acabar com as
frustrações de uma vida inteira:
amanhã ia ser o seu dia de glória, porque ia matar um homem.
[…]
Voltou a meter a mão no bolso, para sentir a tesoura ainda
uma vez mais. Ao acariciá-la teve a sensação de estar deslizando os
dedos entra as tripas do velho Alves.
[…]
Nove anos de casa, para isso. Um velho caindo aos pedaços ia
dizer se o que ele fazia prestava ou não. […] Não, não iria submeter
o seu trabalho à opinião daquele homem que nunca vira antes. (pp. 12, 16, 18-19)
Um revoltado que não soube direciona o seu ódio, a sua rebeldia, De
Jesus não chega a ultrapassar a sua condição de miserável, nem a vencer
a alienação, dado que anda a maior parte do tempo bêbado e em delírios.
Estes o atiram para o passado ou para a degradação do mundo animal,
numa luta inglória com sapos, galos, porcos, vacas, cobras e ratos. É,
no entanto, capaz de escrever uma carta ao Papa, com a finalidade de
fazê-lo desistir de visitar o país, cuja imagem pinta com cores negras:
Falou nas perseguições que alguns membros da Igreja vinham
sofrendo, falou da guerra da Terra Negras, dos salários e da carestia,
acrescentando: “Neste país, metade do povo pede esmola. A outra metade
joga no toto-bola”. (p. 42).
Fracassados os seus dois planos, De Jesus rouba um bispo em cuja
casa consegue ser recebido e tenta fazer o mesmo a Lena, esposa de
Adelino Alves, mas no fim da história nada muda na sua vida. Anti-herói
de pés redondos, ele se mantém no sofrimento e no delírio:
Eu ia de casa para o trabalho e já estava no ponto do
ônibus. Vi um sujeito atrás de mim, mas pensei tratar-se de um
passageiro qualquer, também à espera do mesmo ônibus. Assim que o
ônibus chegou e eu pus o pé na porta, senti uma mão me agarrando.
Tentei me livrar da mão que me puxava, sem êxito. Acabei caindo, o
ônibus arrancou, e o curioso é que não vi quem foi que me puxou. Todos
os dias, a todo instante, me acontece uma coisa mais ou menos parecida e
que me deixa intranqüilo e pouco seguro nas pernas. Como a história
daquele sapo.
[…]
O sapo já tinha tirado o gravador do bolso e se preparava
para me mostrar a fita na qual havia registrado todas as minhas
palavras pronunciadas durante o dia. Desta vez fui mais longe, meu
velho. Registrei também os seus pensamentos. Quanto aos seus gestos e
movimentos, estão muito bem guardados, numa outra fita. “Tire esse sapo
daí, gritei de ovo, e minha mulher, finalmente, rolou para o outro
lado da cama, me deixando dormir mais um pouco, sem aquele peso todo
sobre o meu corpo. (pp. 285-286).
Igualmente consciente das mazelas do país, o escritor Adelino Alves,
cujas obras estão traduzidas em muitos países, é também personagem de
primeira linha nos mesmos Livros em que sobressai a figura de Manuel
Soares de Jesus, que, no entanto, o toma como seu antagonista, por
pensar que ele “era a voz do patrão, que, por sua vez, era a voz do
Governo” (p. 17). Mas o velho Alves é, na realidade, um intelectual
cerceado, que já sofreu oito anos de prisão e tortura por fazer parte
da diretoria da Sociedade Ibérica de Escritores. A isto seguiu-se uma
fase de miséria da qual saiu, quando aceitou a degradação de servir aos
poderosos e corruptos. Era, no momento, chefe do departamento de
produção da firma Fernandes & Fernandes, Negócios Bancários e
remoia seus fantasmas solitariamente bebendo, fumando e ouvindo música.
Outras vezes tomava um remédio para o fígado preparado por Maria
Helena, sua mulher, que sabia que ele ia “arrastando a sua cruz,
carregando-a até o fim, se arrastando, se arrastando, mas resistindo.
Como se fosse de ferro” (p. 72).
Embora Adelino Alves contasse entre os seus trabalhos para o governo um utilíssimo cartaz – que dizia: Quem bebe vinho dá o pão a um milhão de ibéricos (p.
105) – continuava vigente a recusa da reedição de seus escritos.
Considerado, sem dúvida, ameaçador para o regime, ele acaba por ser de
novo preso e torturado:
É possível que desta vez eu morra na prisão. O que tanto
pode levar anos e anos, como pode acontecer no próximo minuto. Aqui
dentro, no fundo de um furgão escuro e trancado, antevejo o momento em
que eles parem o carro e me mandem descer para a execução. Alguma coisa
me diz que daqui a pouco poderei estar morto.
[…]
Não há heróis nem covardes. Estamos é sendo arrastados para
uma irremediável loucura. Penso isso ao me lembrar, com gratidão, de um
antigo companheiro de cela, muitos anos atrás. Ele possuía uma quase
divina força moral, e acho que foi graças a essa estranha força que eu
também não sucumbi, não me enterrei de vez. (p. 109-110)
Nessa nova prisão, a inexistência de um companheiro semelhante ao
que tivera no passado, os anos a mais ou as torturas levam finalmente o
escritor à loucura e a sua história termina numa casa de saúde, ou
melhor, na << nave dos loucos >>:
Os internos abrem a passagem. Pi, pi, pi, pi. Vru, Vru, Vruuuuuu. Alves passa entre eles, como se tivesse um volante nas mãos. Passa correndo e fazendo curvas. Vez por outra anda de ré. (pp. 277-278)
Destino em todos os aspectos diferentes tem o banqueiro Fernandes –
personagem a volta da qual está construído o Livro II, mas presente
também nos outros dois. Para ele “este velho mundo burguês tem os seus
encantos” (p. 113) e “o mal d[o] país é que o povo é preguiçoso” (p.
155). Consta, todavia, que chegou rapidamente ao topo da pirâmide
social graças a um enriquecimento obtido em negócios escusos
(contrabando de ouro e de moedas estrangeiras) e aos produtos
africanos, pois como Ibéria explica ao Estrangeiro: “O algodão de lá é
todo dele, e alguns poços de petróleo e…” (p. 125). Daí resulta ser
ele um dos maiores sustentáculos da guerra no ultramar, se bem que (ou
talvez por isso mesmo) dela consiga livrar o seu filho.
Além de impedir a mobilização de Júnior para as Colônias Fernandes
tem força suficiente abafar, dentro da Ibéria, o escândalo da sua
participação em orgias de velhos ricos com mocinhas em flor – divulgado
contudo no Times, de Londres – mas parece não ter meios para
localizar o paradeiro de Adelino Alves e de evitar o seu trágico
destino. Em conversa com este seu funcionário, o banqueiro não deixa,
contudo, de se vangloriar pelo fato de já ter tido os seus dias de
revolta e de a sua “Companhia est[ar] cheia de gente de canhota” (p.
111). Mas, se acolhe “jovens idealistas, jovens esquerdistas […]
rapazes que saíram da Universidade e foram para a guerra e voltaram e
estão por aí meio sonâmbulos” (p. 112). É porque sabe que eles “têm uma
garra terrível” e que a pode aproveitar em termos de produtividade.
Para isto é necessário apenas que os responsáveis pelos diversos
setores, entre os quais o próprio Alves, procurem “instigar-lhes o
talento, dar-lhes a sensação de utilidade e de que têm um caminho pela
frente” (id. ib.).
Omnipotente e omnipresente, o banqueiro Fernandes deseja, em dado
momento, criar ele mesmo o slogan publicitário de um dos seus produtos.
Seus empregados nas fábricas se perfilam como se ele fosse um general
quando por lá aparece e só falta lhe beijarem os pés. Para Dona Santa,
que trabalha na sua fazenda, Fernandes “era o seu chefe ou talvez até
seu pai, muito possivelmente o seu homem – e com toda certeza o seu
senhor” (p. 189), enquanto, para sua secretária no Banco, talvez não
passe dum amante não-escolhido, mas a quem tem de servir todos os dias
por volta das cinco da tarde.
O poderoso banqueiro não consegue, porém, despertar o interesse dos
filhos pela fazenda que possui na terra onde nasceu pobre e que, além
de ser uma boa fonte de lucro, é o seu maior orgulho e o lugar que lhe
dá mais prazer na vida:
O homem descalçou as botas e pisou na bosta quente da vaca
[…] Parecia experimentar um delicioso e estranho prazer e era até
possível adivinhar um sorriso em seu rosto duro. […] Mexia com os pés
como quem marca o ritmo de uma música. (p. 179).
E talvez não seja verdadeiramente feliz. Não parece ser muito
estimado pela família e pelos amigos que recebe na sua fazenda. A
mulher lhe recusa o carinho e prefere passar horas e horas numa mesa de
jogo com os hóspedes do momento. Perdeu a amizade do irmão ficando com
um sócio a menos nas empresas e um rombo no cofre. Não consegue
orientar os caminhos pelos quais a filha envereda. Mas os mais doloroso
é a sua péssima relação com o filho que rejeita ser como ele, que faz
tudo para chateá-lo e, como não descobre outro caminho para se
libertar, busca na morte uma saída.
Outra personagem da maior importância no romance é o Estrangeiro,
cujo nome sugere a partida tratar-se de um ser estranho, diferente,
fora do sistema, conseqüentemente alguém que não tem os pés redondos e,
por isto, é capaz de analisar e criticar com maior distanciamento e
rigor o universo de que os demais não conseguem escapar por causa dos
seus pés redondos. Entretanto, ele “queria mesmo era [se] dar bem com
todo mundo, dizer boas palavras a quem as merecesse” (p. 211), mas só é
bem acolhido pelos mais humildes e pelos menos ajustados: Emilio, De
Jesus (que considera seus melhores amigos), seu Rodriguez, o vendedor
do jornal A República, Lena, Manuela, Júnior.
Prostituída, a velha Ibéria parece aceitá-lo apenas porque ele lhe
paga em dólares e ela precisa muito de dinheiro. Ibéria não hesita,
contudo, em confessar que no “sente prazer em levar uns bêbados bem
vagabundos, fedorentos e demorados que nem [ele] para um sórdido quaro
de hotel, às quatro da manhã” (p. 125). Explica, outrossim, que seus
maiores inimigos não são os negros que lutam pela independência na
África e sim “os estrangeiros […] que espalham pelo mundo um monte de
mentiras sobre [ela]” (id. ib.).
Por sua vez, o banqueiro Fernandes, ainda que tenha passado a chefia
da sua agência de publicidade ao Estrangeiro, quando Alves foi preso e
o tenha recebido com cordialidade na sua fazenda, nos feriados da
Semana Santa, não confia inteiramente nele e deduz que é um aventureiro,
depois de ter mandado fazer uma sindicância para saber se ele havia
saído de seu país por motivos que o impediriam de contratá-lo. No fecho
da narrativa, Fernandes presta um depoimento em que demonstra não o
apreciar verdadeiramente, pois afirma que se interessou apenas pela sua
capacidade de trabalho e que pode substituí-lo com facilidade na sua
folha de pagamentos. Declara, outrossim, que o jovem publicitário é um
ressentido, que veio de baixo e não pode compreender os ricos. Acusa-o,
por fim, de ter corrompido os seus filhos com “suas idéias malsãs”,
acreditando inclusive “que foi ele quem levou o Júnior ao suicídio”
(p.284).
Quanto ao próprio Estrangeiro, autodefine-se como incongruente (p.
124), barroco e extravagante (p. 278). Com efeito, ele ora parece
satisfeito com a vida que leva, ora se mostra melancólico e saudoso de
outros tempos e lugares (p. 204-5). Sexualmente insaciável, revela-se,
porém instável nas suas ligações amorosas, pois troca constantemente de
companheira e jamais se mostra inteiramente feliz. Três das suas
parceiras temporárias engravidaram e abortaram, por não se sentirem
seguras na relação que mantinham com ele. A quarta – Maria Helena,
esposa de Adelino Alves – conta-lhe que está grávida, mas vai fazer um
aborto, porque ele não lhe dá um mínimo de assistência. Tendo-o como um
“cara desleal” que só a procura quando está bêbado e que não telefona
antes por pensar que ela estará compre pronta para o acolher, Lena
afirma ainda saber que ele anda ao mesmo tempo com amigas suas. E, de
fato – apesar de não se poder datar com precisão os acontecimentos
narrados – o Estrangeiro, por esta altura, estava simultaneamente
envolvido com Maria Manuela, filha do seu patrão, o banqueiro
Fernandes. No entanto esta ligação não é levada a sério por Júnior,
irmão de Manuela, que sabe que também ela “vive trocando de homem” (p.
207).
Outra relação afetiva mal resolvida pelo Estrangeiro é a que o liga
pai, cuja lembrança não pára de atormentá-lo. Numa noite em que a febre
o leva ao delírio, avista-o numa quitanda miserável, onde não ganharia o
suficiente para sobreviver. Tenta fugir-lhe, mas o pai o reconhece e
acusa de se envergonhar com a sua pobreza. Cheio de culpas que não
quer, contudo, assumir ele pensa unicamente em entrar no primeiro
botequim que lhe apareça pela frente, para beber até estourar o fígado
(p. 146-8).
Em certos aspectos, as vivências do Estrangeiro se confundem com as
do próprio autor. Nesse caso, ressaltam o trabalho temporário em
Portugal com redator de publicidade e o nascimento do Junco, povoado no
interior do Estado da Bahia, hoje transformado na cidade de Sátiro
Dias. Por outro lado, o escritor se revela, em dado momento, hóspede da
fazenda do banqueiro Fernandes e se apresenta a meditar, durante o
café da manhã, sobre a escrita do romance, o desenho das personagens e o
seguimento a dar à história:
O romancista, diante do papel e com muito espaço ainda por
preencher, tenta recompor um banqueiro sentado à mesa de sua fazenda,
para a primeira refeição do dia. Ele estava calado? Pensativo? Nervoso?
Arrume a sua trouxa: engano, desenganos, sonhos, frustrações. Ponha no
papel o melhor e o pior de tudo isso, depois carregue o peso da sua
própria trouxa. O que é que vai acontecer com o filho do homem?
Morrerá? Não morrerá. (p. 241).
Em contrapartida, o Estrangeiro, pouco ou nada vinculado ao universo
pelo qual transita, assume, como já foi referido, posicionamentos
fortemente críticos, manifestos tanto em palavras e pensamentos, como
em ações, e que têm de ser lidos como postura autoral.
A idéia de que o autor se manifesta na narrativa metamorfoseado na
figura do Estrangeiro e de que ela está impregnada do seu testemunho
pessoal é corroborado ainda pelo fato de o Estrangeiro ser a personagem
que, com mais freqüência, se encarrega da narração e de ele funcionar
também como elemento de ligação entre as demais personagens, que,
pertencendo a mundo distintos econômica e socialmente, estão rigidamente
separadas. Além disso, o estrangeiro (e, por conseguinte, o próprio
Antônio Torres) se confunde algumas vezes com outras personagens,
englobando, portanto, na sua figuração personalidades diferentes ou
mesmo antagônicas, entre as quais sobrelevam as de Adelino Alves, De
Jesus e Júnior. Como já foi observado pela crítica, ele deve ser visto
como uma só pessoa colocada em circunstâncias diversas, mas dentro de
um mesmo mundo de tristeza, desgraça, solidão.
O conteúdo social e político de que estão impregnadas as personagens
e a ação do romance não prejudica, como se procurou mostrar, o plano
existencial e humano, uma vez que a narrativa, de grande amplitude,
funde admiravelmente os conflitos pessoais com a atuação opressora do
regime. Primeiro e até agora único romance brasileiro a focalizar a
crise que Portugal enfrentou nos últimos anos do regime salarazarista, Os Homens dos Pés Redondos
pode ser visto, em simultâneo, como uma representação mascarada do
Brasil da mesma época, também ele submetido a um governo ditatorial,
imposto, neste caso, pelos militares que, em 1964, derrubaram o
presidente em exercício e revogaram a Constituição democrática do país.
Essa aproximação é legitimada não só por inúmeras componentes do
universo criado, mas ainda – ou sobretudo – pela expressão lingüística e
estilística das personagens e do narrador-autor, que optam
sistematicamente por formas do linguajar brasileiro, em detrimento dos
modos de falar próprios de Portugal, que seriam obrigatórios num
romance de realismo mais restrito. Se bem que a velha Ibéria se refira
em dado momete à fala supostamente diferente do Estrangeiro – ao fazer o
seguinte comentário:
Gozado, ele é estrangeiro, mas ainda assim eu entendo o que ele fala.
(p. 124).
– o que, na verdade, ocorre em todo o romance é uma ausência de
fronteiras lingüísticas entre Portugal e Brasil, evidenciada quer nas
falas das diversas personagens, quer nos seus monólogos interiores, que
funcionam como discursos de narradores internos. Do primeiro tipo, é
tanto a conversa entre De Jesus e um contínuo, a respeito do filho do
dono da empresa onde trabalham –
– O patrão mais novo. É um cara legal.
– Deixa de ser besta.
– Tou falando sério. O filho do patrão é um bacana. Não sai de uma gafieira.
– Por isto você precisa lamber o rabo dele?
– Você está é com inveja.
– Vê se me respeita. (p. 20)
– como a caracterização, que Júnior faz para o Estrangeiro, de um
dos hóspedes do pai, na fazenda onde estão passando a Semana Santa:
Esse cara é um mentiroso sem vergonha. Papai só suporta ele
pra não deixar a velha chateada. Já fez tudo pra se livrar desse
ranheta. È um puxa-saco e um invejoso […] Vê como a gente vive
gozando ele, a toda hora? Ainda assim não se manca. É desses
sanguessugas bem insistentes. Pra te dizer a verdade, toda essa
parentada só vem pra cá nos encher o saco. (p. 200).
No segundo tipo, encaixa-se o monólogo interior de Zé das Minhocas,
que reflete sobre o neto de seu cunhado, o banqueiro Fernandes:
Sacaninha. Coisa que preste é que não vai dar.
[…]
Tudo o que ele quer, o avô dá. […] E as outras que se
virem. Que passem o tempo todo puxando o saco desse garoto levado da
breca. […] Menino danado pra lá, menino sabido pra cá. Um cheiro, uma
lindeza, um amor. E lá vai ele quebrando tudo. (p. 195).
Espalhados por todo o romance vocábulos, mas também noções e
realidades próprias da sociedade brasileira transitam para o universo
da Ibéria e se misturam com alguns poucos termos e objetos dela
característicos. Dentre as numerosíssimas intromissões brasileiras no
espaço ibérico vejam-se, por exemplo: o bonde (p.11), a frota ou o ponto de ônibus (p. 171 e 220), a boléia de caminhão (p. 55), a carona (p. 243), o estepe (p. 114), o posto de gasolina (p .217), os paus-de-arara (p. 98), o botequim ou boteco (p. 21 e 43), a boate ou o inferninho (p. 132 e 144), a zona ou puteiros (p. 49 e 21), as favelas (p. 27), o terreiro de macumba (p. 252), a quitanda (p. 146), a roça (p. 146), a biboca (p.185), as [paredes de] sopapo (p. 185), a latrina ou privada (p. 28 e 127), a grama (p. 190), o capim-gordura ou –de-burro (p. 50 e 196), a piaba (p. 194), a rolinha fogo-apagou (p. 201), os pamonhas (p. 186), o pileque (p. 70), o [final do] expediente (p.1 37), a carteira assinada (p. 226), o chororô (p. 54), o pagode (p. 214), a seresta (p. 214), a veadagem (p. 108), o mutirão (p. 187), o papo (p. 164), a grama ou prata (p. 16 e 46), o pisante (p. 38).
Infindáveis são os verbos, os adjetivos, os substantivos que,
encontrados ao longo da narrativa e utilizados por quase todas as
personagens, bem como pelo narrador-autor, têm um sentido peculiar na
linguagem coloquial brasileira ou que inexistem no Português europeu. De
exemplo sirvam: esculhambar (p.11), luxar (p. 57), espinafrar (p. 77), apagar ou abotoar para sempre (p. 91), aterrisar (p. 102), bronquear (p. 134 e 190), curtir (p. 159), xeretar (p. 185), trepar (p. 218), bolar (p. 270), manjada (p.20), bacana (p. 20), legal (p. 20), esnobação (p. 31), uma pilha (p. 236), o coisa-ruim (p. 239), puta frescura (p. 227), em cana (p. 26), na marra (p. 98), meia-sola (p. 144), bem quilometrada (p. 144), puxa-saco (p. 200).
Personagens e narrador externo valem-se,outrossim, de numerosas e
interessantes formas de expressão e construções tipicamente
brasileiras, entre as quis se incluem: cadê (p. 61), vambora (p. 222), não é mole (), cair fora (p. 13), dar no pé (p. 165), estar duro (p. 14), dar duro (p. 155 e 164), bater perna (p. 38), dar na telha (p. 41), fazer um neném (p. 49), encher a cara (p. 57, 161), descascar o abacaxi (p. 76), molhar a mão (p. 83), quebrar o galho (p. 84, 144), morder uma nota (p.84), nascer com a bunda pra lua (p. 113), quebrar a cara (p. 141), afogar a crista do galo (p. 144), o pau vai comer (p. 151), entrar pelo cano (p. 154), metida a sebo (p. 165), dar banho em minhoca (p. 193), limpar a barra (p. 215), devolver a bola (p. 215), esfolar o couro (p. 216), de cara cheia (p. 217), fundir a cuca (p. 218), dar um jeito (p. 219), pegar a estrada (p. 226), dar uma andada (p. 240), sentir o clima (p. 240), ou vai ou racha (p. 247), chega de papo (p. 272), enfiar peido em cordão (p. 27), deixar de onda (p. 275).
Predominantemente brasileiras são igualmente as formas de tratamento e designações encontradas no romance, tais como: meu chapa (p. 128), cara (p. 19), nego/a (p. 20 e 129), bicho (p. 15), sinhô (p. 188) mana (p. 196), crioula (p. 86), esse pinta (p. 20), o homem (p. 19), os tiras (p. 27), os bacanas (p. 86), os federais (p. 101), piranhas (p. 130), leão-de-chácara (p. 174), babá (p. 200), grã-fino (p. 225). A isto se soma a constante mistura do tu e do você,
que é sem dúvida uma das manifestações mais típicas de linguagem
coloquial brasileira dos nossos dias e que está bem representada nesse
fragmento do diálogo das empregadas da família e/ou hóspedes do
banqueiro Fernandes:
– È, mas eles te enchem o saco aí o dia todo e você engole tudo calada.
– Eles falam que você é muito respondona. Tu é fogo, mulher. (p.227).
O discurso romanesco inclui, como não poderia deixar de acontecer, o
mais conhecido caso de brasileirismo referente ao emprego de verbos da
Língua Portuguesa: o do verbo ter em lugar de haver. Inclui, igualmente, o emprego, também vulgaríssimo no Brasil, da preposição em
com verbos de movimento, assim como a próclise dos pronomes átonos, em
particular no início de frases ou de orações, contrariando o norma
portuguesa.
Embora Antônio Torres tenha explicado que Os Homens dos Pés Redondos
é uma obra de juventude e a considere o mais irregular de seus livros,
o sucesso de eu goza junto do público e da crítica, desde a sua
primeira edição, não permite secundarizá-la. O romance é complicado e
polêmico, mas tem um interesse incontestável por se tratar seja de um
retrato bem tirado de Portugal, com câmera dum escritor brasileiro que
conheceu de perto a crise instalada naquele “doce país fascista, depois
de dois mil anos de cristianismo e muitos séculos de Inquisição” (p.
131), seja de uma máscara bem ajustada à realidade brasileira da época
da sua escrita, seja ainda de uma representação da miséria e
desumanização do homem contemporâneo, agrilhoado à engrenagem de uma
organização social opressora e arbitrária, seja enfim de uma
demonstração do absurdo da condição humana independentemente de épocas e
regimes.
Antônio Torres, Os Homens dos Pés Redondos, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1973; citado neste trabalho através da terceira edição: Rio de Janeiro, Record, 1999.
Na entrevista que deu a Giovanni Ricciardi (in Escreve. Origem, manutenção, ideologia, Bari, Libreria Universitaria, 1988), Antônio Torres afirmou: “Os Homens dos Pés Redondos, basicamente, reflete a minha experiência portuguesa” (p. 290).
Dictionnaire dês Symboles, Paris, Seghers, 1973, pp. 302-309.
A Editora Record vem reeditando a obra do baiano Antônio Torres. Já nas livrarias podemos reencontrar Balada da InfânciaPerdida e este Os Homens dos Pés Redondos,
que foi publicado pela primeira vez em 1973, quando se tornou best
seller. Antônio Torres tem uma obra já com 11 títulos, vários deles
traduzidos e premiados. Seus romances são devidamente reconhecidos e,
por tal, é acertada a resolução da editora em colocar outra vez ao
alcance do público o prazer de ler uma literatura escrita por um
ficcionista de “estatura incomum”, nas palavras de Jorge Amado. Os Homens dos Pés Redondos
conta uma história inesquecível pela quantidade de personagens
singulares vivendo casos ao mesmo tempo cheios de humor pela via da
ironia e desgraçados pelo que encerram em suas linhas trágicas. As
situações do romance não passam incólumes pelo leitor que se sentirá
obrigado a refletir e, assim, entender melhor, quem sabe, até a si
mesmo. Esta, por sinal, é uma marca da ficção de Torres, isto é, fazer
pensar, deter-se no texto para dele retirar-se com sensações novas.
O Globo – Rio de Janeiro, 21/10/79
Edilberto Coutinho
Através de ação puramente psicológica, em que o
passado está na consciência presente do personagem, Antônio Torres
recria, neste “Carta ao Bispo”, todo universo de um homem que existe
esmagado. Mais que isto, porque Gil se faz esmagado, e
vamos conhecê-lo, exatamente, na situação-limite em que sentir e
conhecer se repelem, são antinomias insuportáveis. Então, ao despedir-se
da luta, Gil escreve sobre as razões de seu pretendido descanso. O que
dirá na carta o leitor poderá, facilmente, recompor em suas próprias
palavras. Porque não é difícil a gente se identificar com este
personagem tão cheio de verdade humana e psicológica, com a consciência
obscura, porém viva, da fatalidade que pesa sobre ele. Sobre nós.
O romancista não faz uma análise psicológica de Gil por trás do
personagem. Seu livro não é uma tese. O narrador não está, em nenhum
momento (e nem coloca o leitor) em posição por assim dizer superior do
personagem. Claro que não. Porque Antônio Torres escreveu um romance (e
que romance), não uma tese acadêmica. A força interior, o caráter
interior, psicológico de Gil, portanto, não é apresentado no plano de
consciência, geradora de conhecimento. Gil é surpreendido pelo que
acontece, e não consegue atinar claramente com o sentido psicológico de
seu destino, do destino. Ele tem a intuição de que nenhum futuro o
fará sair de seu passado. Torres suprime e subverte as ligações
cronológicas, de modo que o que Gil percebe é o passado. Ele não
conseguiu arrancar Malhada da Pedra da pasmaceira, então vai se
arrancar da vida. Decide isto e, neste momento, um número grande de
coisas lhe ocorrem à lembrança. Gil não está agora sendo perseguido
pelos outros, mas por ele mesmo, pelos anos todos que viveu, por suas
ações e reações, coisas omitidas e cometidas.
Tudo corre para ele, neste corredor da morte em que o encontramos,
quando decide finalmente fazer-se responsável pelo próprio destino, que
apenas intui. Torres não tem verdades prontas para oferecer. Ele
mostra, através do roteiro de Gil, as suas dúvidas, conduzindo o leitor
a refletir sobre “este país trocado: cada macaco fora de seu galho”.
Gil não ouve a voz antecipadora da mãe, verdadeira Sancho Pança de
saias do sertão baiano: “Política e forró é gostoso, mas não é para os
filhos da gente”. Gil-Quixote vai em frente, porque acha que Zito, “que
é como se fosse meu irmão”, ia ganhar as eleições. “Porque agora a
gente vai ganhar”. E o que acontece a este perdedor exemplar na visão
implacável e verdadeira que seu criador no oferece? “Gil deixa sua
causa sincera e insana, na qual enterrou quase todos os seus quarenta
anos. Queria salvar um lugar e um povo. Sozinho”.
Antônio Torres escreveu um romance rigoroso (estrutura e linguagem
pedindo análise mais aprofundada), vigoroso, novo, feroz e ferino, que
faz avançar a ficção brasileira. O professor e crítico Jorge de Sá fez
uma síntese admirável da obra de Torres, nestas palavras: “Com os pés
fincados no chão seco do Nordeste e com a alma impregnada pelos nossos
problemas característicos, A.T. recria personagens tão vivos quanto
cada um de nós”. Aí estão as características mais fortes deste
romancista de mão cheia, que sabe contar uma história de sabor bem
brasileiro, capaz de seduzir qualquer leitor. Mas que não é um ingênuo,
e sabe também como armar a sua narrativa, de modo a oferecer uma
leitura que pode ser feita em mais de um nível; que pede um leitor
cúmplice, participante; a seu modo, também, recriador; quase um
co-autor. Porque é preciso merecer o livro. Um livrão, apesar de magro
em número de páginas. Mas cheio de sustança, em cada uma delas. Livro
para ficar. Um triunfo.
Este é um romance “cheio de atalhos”, para nos
valermos de expressão do autor sobre a “conversa encabulada” do
personagem Gil com Chico, seu pai. Porque é por atalhos que Antônio
Torres chega às evidências. Sempre foi mais ou menos assim nos livros
anteriores. Nesta Carta ao Bispo, em particular, os atalhos
se condensam, a plasticidade é menos difusa (em Antônio Torres a
plasticidade é de meia-sombra e reversamente revelada) e a angústia
humana, mais tensa e desesperante.
Num jogo curioso em que o tempo se retrai e se amplia em constante
fusão e repulsão e o espaço geográfico vai da beira do regional à
expressão ampla do universal, Antônio Torres alcança um nível de beleza
literária onde tudo é alucinadamente palpitante. Desde a linguagem
(fluente, contida, desestruturada, límpida e a fotográfica, mas sempre
uniformizada no todo) ao epicentro da história – Gil – e tudo que dela
(dele) emana, demanda e denuncia. Porque Gil é ele e sua consciência. Em
essência, é isto. O conduto narrativo, em muitos pontos, está a
indicar isto. A consciência, tal qual independente personagem, está
sempre a acusá-lo, a lembrá-lo e a estudá-lo. E Gil, por sua parte, a
viver os desencontros da vida e denunciar, pelo comportamento, as
injustiças e desconcertos dela.
Daí as meias-voltas (atalhos), as muitas faces formais, para que o corpo ficcional se transfigure por inteiro.
Aqui a trama não se compõe nem flui num suceder narrativo natural.
Muitos são os fragmentos, porque o que importa é a abordagem ficcional
vista de vários ângulos, para que se alcance, em maior profundidade, o
mundo de Gil e seus tormentos, o mundo (atualíssimo) que o cerca, com
suas injustiças. Gil é apelo de salvação neste mundo conturbado. E ele
próprio é personagem sem apelo. Nem o Bispo (a luz do túnel) o salvará,
embora o Bispo implore, peça e chame.
Carta ao Bispo é obra para ser lida e sentida. Não temos aqui propriamente uma história,
antes o espírito conturbado de uma época através de uma personagem.
Porque Gil é o espírito da Bahia e é um pouco de todos nós e de nossos
tormentos.
Livro bem-escrito, como tudo o que vem de Antônio Torres, e que pede
espaço maior para análise mais detida, porque, apesar do pequeno
número de páginas, estende-se ele da mais simples concessão ao limite
perigoso da legibilidade, sem todavia transpô-lo. Aí está o difícil
na arte literária tão nobremente realizada por este escritor de pulso
que já alcançou (e com este livro soma mais um pouco) o justo lugar de
destaque na moderna literatura brasileira.
Jornal do Brasil, Caderno B – Rio de Janeiro, 06/10/79
Norma Couri
Fosse pelo pai, este primeiro filho dos 13 que
teve estaria até hoje na enxada, pé na terra úmida do Junco, sertão da
Bahia. Mas o menino aos três anos lia livro de Igreja, aos oito Castro
Alves, aos poucos devorou toda a estante de um tal mestre Zezito,
fogueteiro, e foi estudar em Lagoinhas. Não demorou muito, trocou a
enxada pela Olivetti vermelhinha que quebrou muitas vezes.
Aos 39 anos e muitas máquinas depois, Antônio Torres publica seu quarto livro e avisa que o menino já está nascendo. Chama-se Carta ao Bispo.
Quem escreve a carta é Gil, o personagem principal, depois de
envenenar-se com formicida encontrada na cozinha do bispo. A partir daí
é a caminhada pelo corredor da casa, e cada passo é um capítulo desse
romance “brasileiro na latitude da sua consciência”.
Uma queixa ao bispo é a última coisa que nos-resta, quando ninguém
mais está disponível, ninguém mais escuta. Para Gil, a carta foi o
limite de sua resistência física, o lamento deixado nas marcas de sua
mão no corredor da casa.
O personagem é o brasileiro derrotado. O político de interior que
não se elege prefeito e vira cabo eleitoral de um cachaceiro, tocador
de viola, no final vitorioso. Gil dá um desfalque, está com processo
correndo na Justiça, sabe que a opção é a cadeia ou a morte. “Só que
ele resiste”, diz Torres. “Um dado novo, surpreendente até para mim.
Sabe, o livro é como filho, a gente cria de um jeito, ele cresce de
outro”.
A surpresa foi maior porque Torres sabe ser este quarto livro continuação de um processo iniciado com o primeiro, Um Cão Uivando para a Lua (o brasileiro vencido pelo Rio de Janeiro), emendado no segundo, Os Homens dos Pés Redondos, e pelo terceiro, Essa Terra.
Torres levou 30 anos para escrever o primeiro livro, uma história que
não acabava nunca. Porque era tudo um livro só, ele percebeu: “Faulkner
disse que a gente parte para o livro pensando poder contar tudo, mas
vai morrer achando que não conseguiu”.
– A gente é menor do que o próprio material. Por exemplo, a
influência católica alastra-se por todo o meu livro, graças ao fato de
eu ter ganho o meu primeiro salário como sacristão. Depois rompi com a
Igreja, revoltado (como Gil) pela maneira como os padres enriqueciam com
a pobreza do sertão. Mesmo assim estou impregnado de religiosidade.
Carta ao Bispo são 128 páginas escritas em pedaços
de madrugadas, nas férias, nas sobras de tempo, durante dois anos. “Às
vezes”, diz Torres sorrindo, “roubando tempo do patrão”. Há muitos anos
no Rio, trabalhando em jornal e publicidade (hoje é diretor de criação
da Denison), Torres ainda se assusta com a cidade. Tem “a visão do
medo, da loucura, do isolamento, da pressão, da prisão e que ela nos
conduz”. E acha muito difícil viver aqui sem dor.
– É duro ser escritor no Brasil. Viver na Zona Sul, andar três
quilômetros e de repente ver o Nordeste, a roça vindo para a cidade.
Conviver com a Europa e o século XVII que estão ao nosso lado.
Para Torres, o grande romance desde século vai ser latino. Conversa na Cadetral, de Vargas Llosa, Pedro Paramo, de Juan Rulfo, Grande Sertão,
de Guimarães Rosa, ou qualquer outro. “A América Latina tem muito a
dizer. Uma realidade nada uniforme, muito rica, com uma língua marcada
por incríveis diferenças regionais. Jorge Amado já disse que operamos
na periferia. É verdade. Não estamos na órbita do poder dos grandes
centros; nossos isolamentos é conseqüência do subdesenvolvimento. Daí
nossa força. Há uma brecha, na medida em que não obedecemos as leis do
consumo. Qualquer dia desses vão olhar pra gente e dizer que valemos
alguma coisa”.
Antônio Torres tem dois filhos pequenos (Gabriel, 5, e Tiago, 2
anos), uma “casa de baiano” (ajeitada pouco a pouco por ele e a mulher
Sonia nos muitos apartamentos por que passaram no Rio) e uma pergunta,
sempre sem resposta, da qual tira impulso para continuar. “Escrevo, no
fundo, para exercitar algumas respostas”.
Trás nos ombros, como todo escritor brasileiro atual, o peso de ter
nascido depois de José Lins do Rego, Lima Barreto, Machado de Assis,
Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Vira mais um copo de uísque, e lembra
que o peso é como o da máquina de escrever, simbolizando, no fundo, a
enxada que ficou no Junco, a responsabilidade social imposta pelo pai.
Outro dia voltou lá, relembrou casos, como os das desculpas para se
afastar do Junco: qualquer inauguração de cantoneira para santo,
qualquer reza para moribundo. Na poeira levantada pelo primeiro
caminhão, a oportunidade de fugir da enxada e chegar à escola rural
mais próxima, a 3 quilômetros de casa.
Antônio Torres não tem parado no caminho, não tem deixado o peso do passado atrapalhar. E falando mais dos nossos escritores gigantes do que do assimilado no Junco, ele diz:
Jornal do Brasil, Caderno B – Rio de Janeiro, 06/10/79
Jorge de Sá
Desde o seu romance de estréia, Antônio Torres
mostrou-se propenso a realizar uma obra de características marcadamente
nacionais. Centrado no eixo do regionalismo e apoiado na riqueza da
oralidade, ele vem captando não apenas as implicações do homem rude com
a sua terra, mas principalmente a forma brutal que conduz o brasileiro
a uma possível compreensão Don osso processo histórico. Assim, seria
quase impossível classificar a obra do criador de Um Cão Uivando para a Lua
somente de acordo com uma das áreas do ciclo baiano. Com os pés no
chão seco do Nordeste e com a alma impregnada pelos nossos problemas
característicos, Torres recria personagens tão vivos quanto cada um de
nós. Portanto, sua despreocupação com a universalidade do romance
reflete uma fecunda brasilidade só alcançada pelos maiores escritores
da nossa literatura. Consciente de que a arte literária não se faz com
técnica apenas, ele mergulha por inteiro na construção de seus textos,
percorrendo com seus personagens o difícil caminho que vai da
consciência ingênua, em que a alienação nos coloca a serviço de
ideologias estranhas a nós mesmo, até uma consciência critica, que
problematiza o nosso real, conduzindo-nos a uma ideologia coerente com
os interesses do povo brasileiro.
Logo se a obra de Torres foge do universal (no sentido apenas
estético), cada vez mais se aproxima do centro nervoso de nossos
impasses, tornando-se espelho de uma realidade latino-americana,
repensando todo o seu contexto. Por essa razão, cada novo trabalho
reescreve o anterior através de novos ângulos, conquistando novas
formas de melhor avaliar as implicações sócio-econômicas no confronto
entre a cidade e a roça. Nesse processo, Carta ao Bispo é a sucessão natural de Essa Terra. Mas é, também, a sua ultrapassagem.
Nessa ultrapassagem, o novo romance de Torres coloca em cena um
aprendiz de político, apaixonado por seu povo e desejoso de arrancar
Malhada da Pedra da marginalidade a que foi condenada. Verdadeiro
“cavaleiro andante se torna viagem”, Gil amadurece e se desgasta
tentando concretizar seus sonhos quixotescos. Sozinho, esmagado pelas
armadilhas dos poderosos, sé lhe resta o suicídio como afirmação da sua
luta e grito de alerta àqueles que constroem o destino de seus filhos
com “metros de pano, litros de farinha, quilos de açúcar e nacos de
carne”. Para que seu sacrifício não seja inútil, decide escrever ao
Bispo Dom Luís, seu amigo e confidente. O conteúdo da carta, porém,
será um eterno segredo.
Neste caso, que interesse pode despertar um romance cujo titulo
anuncia uma carta que jamais será lida por nós? É exatamente nessa
estratégia que o leitor se vê envolvido. Num ritmo vertiginoso,
acompanhamos o fluxo da memória com que Gil reconstrói sua vida. Cada
fragmento, cada fato que marcou a tumultuada existência do protagonista
é um enigma a ser decifrado. No trajeto da cozinha à sala, verdadeiro
corredor de lembranças, Gil espalha os estilhaços de ma verdade que
pertence ao mundo. Na medida em que avançamos na leitura, percorremos
as mesmas etapas e vamos recolhendo as frases que constituem o texto
ignorado. E nos surpreendemos cumprindo a mesma função do
escritor-narrador: selecionar e sintetizar para alcançar um todo. A
mensagem cifrada passa a ser reescrita, fazendo de cada um de nós seu
verdadeiro emissor à procura de receptores capazes de ouvir um grito
parado no ar desde os primórdios da nossa colonização.
O Romance tem aquela prerrogativa maior do Romancero, que é a linguagem extensiva,
dilatadora e elastecedora das tensões verbais intrínsecas à narrativa.
O romance moderno, fragmentou essa prerrogativa maior, fruto da
herança e dos ensinos da traditio e instaurou formulações novas para extensão ou contração do jogo narrativo.
No Brasil, essa ruptura com a linearidade dos processos narrativos
só veio a acontecer, em definitivo, a partir do único realmente
primoroso romance de Machado: “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Isso
depois de Sterne, de Scott, de James e principalmente, depois de
clássicos do romancero adquirirem edições internacionais, como o caso do
“Cid”.
A partir de Machado a situação se acomoda até Callado (que incorpora
o pontilhismo jornalístico à formulação da narrativa do romance em um
livro inigualável. “Kuarup”) e João Antônio. O que acontece então é uma
explosão de postulações narrativas realmente impressionantes e com
diversos autores. Abel Silva, Roberto Drummond, Carlos Gurgel, Álvaro
Faria se inscreveram nesse fluxo fantástico que injetou algo novo e
vigoroso na modorra falso burguesa do nosso romance anterior a essa
fase.
Antônio Torres é um romancista que alia uma consciência fundamental
dos processos narrativos historiais do romance (o que se evidencia pela
rigorosa arquitetura da obra) a um sentido rítmico impressionante que
sabe onde distender ao máximo a carga da linguagem: onde deve contê-la
máxima ou mínima, em sua tensão de significâncias. Desde “Um cão
uivando para a lua” que o itinerário inventivo de Torres se abriu,
colocando-o um passo adiante do moderno ficcionismo latino-americano,
situando-o pari passu com Cortazar, Astúrias e Llosa.
“Os homens dos pés redondos” é uma alegoria impressionante: tal como
“Essa terra”, talvez a mais profunda análise do millieu
latino-americano.
“Carta ao Bispo” é uma excitante aventura narrativa, em
saudabilíssimo exercício de proposições narrativas, aliado e correlato a
uma penetração marcante de um fenômeno sócio-político visceral na
formação do homo brasileiro: a odisséia interior da
Bahia, e sua desagregação interna, à medida em que a convivência com o
fato político (ou pliticoso comme il fault) vai colocando-o em xeque com sua estrutura íntima de emoções e expectativas.
Gil é símbolo. Torres retoma aqui ou melhor, amplia aqui aquela sua
tendência fabulativa esboçada nas suas obras anteriores. No entanto, o
peso do seu novo livro é reforçado pela aguda inventiva que espaceja as
várias formas de captação das emoções em uma manipulação atenta e
segura do apparat lingüístico.
“Agora ele está só, tão desgraçadamente só quanto no dia em que
nasceu. Mas agora ele dispensa a parteira e já não precisa mais berrar
ao mundo que está só”.
Gil é um símbolo. Mas que o personagem, através do qual se repassa
toda a agonia do existir defasado, distendido, Gil é a clave da
exploração narrativa de Torres. A alquimia de correspondências entre o
agônico mover-se do personagem e o distanciamento critico do autor
permite ao leitor, pela disposição e/ ou montagem ideogramática dos
blocos narrativos (onde mesclam-se a narrativa clássica, o discurso
interior e o fragmentarismo icônico) uma visão plurimorfa e plurívoca
de um processo que in facto ocorre com o interior de Gil, o símbolo.
O romance possibilita uma recriação, do fluxo real dos sentimentos
sob o ritmo ou compasso da intervenção crítica, analítica do autor. No
caso de Torres, essa intervenção se faz em todos os níveis e instantes
do processo narrativo, abarcando e abrangendo as mínimas feições
tocadas pela sua analítica.
“Parecia até um desperdício, esta cidade: tanta árvore,
tanta fronde, tanta franja, tanta flor a derramar-se sobre os alegres
portões ensolarados que não escondiam a estupidez de honestos
ferroviários que comem e cagam a fazem filhos e morrem no fiado,
igualzinhos aos bêbados do petróleo, essa horda fedida e barulhenta que
chegava de noite estourando gasolina, detonando dinheiro e enchendo a
cara e depois caía na cama até a hora da buzina, levantar, lavar a cara
e seguir para o campo do petróleo e uma vez na vida toma banho, uma
vez na vida tem uma folga, troca os trapos e segue atrás do trio
elétrico, crente que a vida é boa, pelo menos uma vez por ano”. (Página. 32).
O que mais define a excelência do criador é a sua disposição para o
claro-aberto. A palavra prédispõe o que a possui, isto é, a utiliza,
para a clarificação dos processos interiores, onde a energia
existencial se move no silêncio, como se fosse plâncton e dunas. O
dizer do romance postula antes de qualquer nada a atenção às grandes
massas de significados (i.é.. de energia simbólica) que se movem no
entre mear dos trechos. Clarificar o uso da palavra é abrir-se a toda
manifestação do discurso criador, é o que a critica academicista chama
de perfeição estética.
Torres mergulha no seu universo de significâncias com a disposição
do guerreiro. O pique que imprime a sua narrativa é o equivalente ao
pique interior das suas indagações enquanto e como criador. Li o livro n
o mesmo dia que recebi, sem interrupções, em uma hora e meia. Terminei
a leitura sem fôlego. A dose exata das marcações narrativas, a sutil
trança que o real e a critica desse real tecem e retecem. Vão
construindo um bloco maciço de emoção e frustrações, um mover-se
uníssono de vida e antivada.
Pouco importa saber se Gil morre (após tomar uma superdose de
formicida Tatu) sem conseguir o tão almejado contato com o Bispo, ao
qual sempre desejou (desejava?) escrever uma carta. Morre como um rato,
uma barata, um homem. Simplesmente morre. O comentário do Bispo,
incidentalmente nos braços de quem poderia ter expirado, não poderia ser
mais adstringente:
“Não sei mais se acredito em Deus ou se este homem tem sangue de cavalo.” (Página. 107).
O principal na criação de Antônio Torres é a seriedade proposicional
de seu trabalho. Qualquer proposição (ensina-nos a lógica das formas)
(formas que, no entanto, independem da lógica que o raciocínio
ordenador engendra) possui em si a trajetória anterior de um estado ou
vários estados de coisa. O romance possui atrás de si toda a história,
toda ontologia. Torres demonstra conhecer bem essa realidade
fenomênica: conhece-a e penetra em sua corrente com a mesma desenvoltura
de quem sabe as possibilidades e limites (infinitas possibilidades,
infinitos limites) do ser, da existência, do sofrimento e da paixão.
Jornal O Norte – João Pessoa, Paraíba, 02/05/83
Hildeberto Barbosa Filho
Se Percy Lubbock escrevesse, hoje, o já clássico “A Técnica da Ficção”, não poderia prescindir do farto material disponível na narrativa de Antônio Torres,
mormente em “Carta ao Bispo”. Sobretudo porque, privilegiando as
formas de composição, ou seja, as estratégias do foco narrativo, teria,
no aludido romance, as mais equilibradas experiências de uma narrativa
moderna. Centrando a ação nos limites de um tempo diegético
extraordinariamente curto (os instantes finais do personagem “Gil” que
decide suicidar-se), o autor recorre a pluralidade dos recursos
narrativos, principalmente no tocante ao terreno dos pontos de vista,
buscando diluir a concentração dramática da ação principal. E,
aguçando-a em outras seqüencias episódicas, consegue fornecer uma visão
macroestrutural da trajetória do personagem, instaurando, assim, os
alicerces do edifício romanesco em lugar de tecer os fios
articulatórios da estrutura do conto.
Daí a narrativa em primeira pessoa, calcada sobremaneira nos dados
da memória; a narrativa em terceira, mantendo a unidade da trama, e a
presença recorrente do fluxo da consciência joyceano, remetendo para o
universo caótico em que se debate o personagem. Nesse caso, se a
narrativa opera, ordenadamente, um primeiro nível (o da fabulação), vai
apontar, no espaço entretextual, para uma inquietação ideológica
subjacente, traduzida na permanente indagação a respeito da condição
ontológica do ser humano. Conseqüentemente, um exercício de narrativas
superpostas, travando os rumos da narração e da reflexão.
Por isso, no texto do escritor baiano, uma dimensão além da estética –
o sentido filosófico. Em meio aos momentos cruciais do delírio da
personagem, a linha episódica é interrompida (o que se faz constante na
obra) por elucubrações dessa jaez: “O mundo está rodando. O mundo,
mamãe, é um tonto, um alcoólatra de ressaca, um cego no meio do
tiroteio. Esta vida é uma gangorra. Mas eu ainda quero rosetar.
Rose-tar, mamãe. Cravar o espinho do cravo na roseira do mundo, cravar o
meu espinho numa rosa aveludada, macia e cheirosa, cheirando a
mulher.”
Logo, importa revelar em “Carta ao Bispo”, não somente a
problematização conteudística das motivações recorrentes, isto é, o
fluxo migratório e as suas irradiações temáticas: solidão, medo,
opressão etc, como também o corte social na micro-região do “Junco”
baiano, porém, fundamentalmente, o discurso maior sobre a existência. O
que, diga-se de passagem, eleva a ficção de Antônio Torres a um plano universal.