“Cinquenta anos após sua primeira edição, o romance “Os homens dos pés redondos”, de Antônio Torres, confirma que a literatura engajada só tem força quando não abdica da própria complexidade.”
E quando parecia que ninguém mais se lembrava desse romance, publicado pela primeira vez em 1973, eis que duas professoras comprovam que ele está vivo sim, querida leitora, caríssimo leitor. Imensos agradecimentos a Vanusia Amorim, por tê-lo incluído em sua tese de doutorado prestes a ser defendida na Universidade Federal de Alagoas, e a Vania Pinheiro Chaves, da Universidade de Lisboa, que acaba de publicar um baita ensaio sobre ele na revista acadêmica E-Letras Com Vida (“Autoritarismo, cerceamento da liberdade e tortura em Os homens dos pés redondos”), no qual realça que “a estética revolucionária do romance é uma das mais bem conseguidas da ficção brasileira da pós-modernidade”. Com madrinhas assim, estes “Homens” não morrerão pagãos.
Com os Homens dos Pés Redondos, acabei
de compreender o escritor que obriga a pensar com sua forma aberta e
flexiva. Vai traçando situações e esculpindo o humano da maneira mais
atraente. Conta, além de tudo, com um lastro de experiência que
enriquece a sua obra.”
Numa época em que os Best-sellers
indígenas refletem (salvo as exceções de regra) melancólico
conformismo literário, o aparecimento de “Os Homens dos Pés Redondos”,
segundo romance de Antônio Torres, constitui testemunho de que ainda
contamos com autores que não se resignam à letargia que ameaça nossas
letras.
Reconheça-se que o autor de “Um Cão Uivando para a Lua” ainda não
alcançou o desejável equilíbrio entre forma e espírito, estilização e
tema. Ademais ainda está influenciado pela preocupação da denúncia
social o que, de certa maneira, em certos trechos, lhe compromete o
fluxo da narrativa.
É ponto pacífico que um romancista, por mais “atualizado” que seja,
não poderá condicionar sua arte unicamente a uma concepção
sócio-política do mundo, sob pena da mesma adquirir ranço panfletário.
Comparando-se, porém, o primeiro livro de Antônio Torres com este, é
sensível a evolução sofrida. Embora o ângulo de focalização ainda seja,
basicamente, o da deshumanização do homem contemporâneo, agrilhoado à
engrenagem de arbitrária organização social, os personagens já se
movimentam com maior liberdade individual, pondo à mostra o absurdo da
condição humana, independentemente de épocas e regimens.
Situando a ação num país chamado Ibéria (nome, também, de uma das
figuras da trama), que está congregando esforços para, com
metralhadoras e “napalm”, levar o progresso às suas colônias africanas,
o autor cria um clima de “realismo mágico” (ou de “realismo Ilógico”?)
que sem incidir nas realizações de M. Scorza, de J. M. Arguedas e
outros do mesmo naipe, dá bom rendimento em suas mãos. O simbólico sapo
kafkaniano, que permanece sempre alerta para que não sejam infringidas
as leis que regem o país, passa a ter, nesse clima, personalidade de
acentuada vivência.
Digna de relevo a expressividade com que o jovem romancista
desenvolve os monólogos interiores e as descrições, numa demonstração
de notável habilidade artesanal. Um exemplo: o método pelo qual expõe a
agressão sofrida por Junior, narrada em varias versões, cada qual
correspondendo à maneira de ser respectivo narrador.
Rico em criatividade, Antônio Torres se distingue, ainda, por um
traço raro entre os novos ficcionistas brasileiros: o do senso de
humor. Veja-se por exemplo, o julgamento do pretenso criminoso e o caso
da carta-queixa ao Vaticano. Um humor negro, convenhamos, mas que
confere curioso significado ao sentimento de frustração que corrói os
personagens. Humor, aliás, comum não somente aos cidadãos de Ibéria,
mas também aos de outros países nossos conhecidos.
Cabe ressaltar, também, o meio-encabulado lirismo oculto em algumas
passagens do livro, como no da visita do “Estrangeiro” ao velho
Rodriguez, já moribundo – passagem que pela áspera beleza basta para
dar idéia das possibilidades do autor.
A critica poderá objetar que pela riqueza dos temas em contraponto,
pela diversidade de situações e de planos, pela complexidade da
concepção (com raízes, não ocultas pelo autor, em Kafka e Joyce), “Os
Homens dos Pés Redondos” lembra mais a estrutura de vasto romance do
que uma obra devidamente realizada. Tal observação poderá ser valida em
relação ao inicio do livro. No entanto, sobretudo a partir da página
96, a narrativa ganha singular consistência, a prosa se torna mais
elástica e os protagonistas adquirem dimensões mais humanas.
Há perto de um ano, por ocasião da estréia do autor, fio dito nestas
páginas que estávamos diante de uma revelação. Urge agora acrescentar
que se trata da revelação de um escritor que dificilmente deixará de
figurar na primeira fileira dos novos ficcionistas brasileiros. De um
escritor que vem trazer um jorro de ar fresco ao abafado círculo da
nossa atualidade literária.
Através de um estilo transparente, perfeito,
musical e cadenciado, Antônio Torres conta a estória dos “homens dos
pés redondos”, governados pelo todo poderoso El Rey, que nunca aparece,
habitantes de Ibéria, homens brancos ou pretos, ricos ou pobres, onde
as mulheres de todos só existem na medida que servem aos seus homens e
aos seus filhos.
Neste mundo meio fantástico e meio real, existe o Vaticano, guerras
para todas a gerações, ao mesmo tempo que pessoas e coisas se
transforma e desdobram em outras pessoas e outras coisas. Nesse
sentido, Torres tem a mesma força e criatividade de um Garcia Marques.
Só ainda mais tenso e um pouco menos livre.
O que impressiona; já nas primeiras páginas, é a atmosfera que o
autor consegue criar, fazendo com que o leitor participe, com grande
impacto, da linguagem, dos dramas e do ambiente dos personagens.
Antônio Torres não quer poupar os seus leitores nem os seus
personagens. E através de um estilo, por vezes cru e agressivo, ao
mesmo tempo altamente sofisticado, faz as suas pessoas se expressarem
por meio de sonhos e flash-back, e, sempre, todos eles, na primeira
pessoa.
Essa técnica brilhante, se possibilita uma comunicação mais direta
entre leitor e o personagem, através das nuances de linguagem e
pensamentos de cada um deles, faz o livro bastante difícil para os
leitores apressados.
A grande variedade de assuntos, característicos de cada personagem,
torna a obra muito densa. Talvez tivesse ficado mais harmônica e
explícita se os diversos pontos de vista – político, intelectual,
social e pessoal – tivessem sido tratados mais extensivamente.
Mas mesmo assim, “Os Homens dos Pés Redondos”, é um excelente livro, talvez ainda um pouco imaturo e apressado.
“Maria Helena: Sim, foi um lindo romance, um lindo romance de amor. Não o acuso de nada. Não foi ele quem inventou o mundo. Também não o acuso de ter agido apenas para satisfação própria, por motivos de vaidade pessoal. Essas coisas não se fazem sem motivo justo. Também não sou uma mulher de programas, como
muitos homens pensam. Aceitei ir com este senhor, porque ele me pareceu
disposto a tudo. Podem acusá-lo de brutalidade. É certo. A brutalidade está nele, como está em mim – e nos senhores doutores. Vivemos um tempo sem dó. A esta citação de Brecht, a acusação se inquieta: Silêncio! Maria Helena, silêncio. O acusado tem algo a declarar? O Acusado: Eu te amo, Maria Helena, flor do lodo da minha Ibéria. Me dá uma terceira oportunidade. Vai ser ainda melhor. Vozes na platéia: – Estão dizendo que ele é m agente. Um inimigo da nação. – É da CIA? – Não sei, mas parece. – Também dizem que ele se dedica ao contrabando. – É possível. – É. Não está dando mais para se confiar em ninguém.”
Jornal do Brasil – Rio de Janeiro, out/73
Norma Couri
É na sola do pé que ele sente a vida. “Foi
queimando a sola dos pés no caminho da escola, onde ficavam os pastos e
o cabo da enxada, que comecei a sentir um desejo louco de sair pelo
mundo afora”. E, para esse romancista baiano basta ficar de pé no chão,
para que a vida se irradie pelo corpo inteiro. Mãos, olhos, pele, tudo
participa do processo de criação de Antônio Torres, 33 anos, que
quando pisa no esboço de um livro “é como se na garganta”. Ele gastou
oito meses fabricando idéias no meio da noite e escrevendo-as durante o
dia, até as cinco da tarde, “quando a luz começava a fraquejar”, para
se livrar da primeira espinha, Um Cão Uivando para a Lua. E foi queimando novamente a sola dos pés que fez explodir, o segundo livro, Os Homens dos Pés Redondos, e esboçar um terceiro, e um quarto, declarando: “Meus pés estão doendo. Eu estou vivo”.
– Vejo uma porção de homens de pés redondos – e eu no meio deles –
rodando, rodando pelo mesmo quarteirão, comendo pipoca e engolindo em
seco a vista baixa, um passo aqui outro não sei quando, como se não
existisse mais nenhum horizonte, como se o mundo começasse aqui e
terminasse aqui mesmo, neste banheiro, neste bairro, e sempre ligado a
um aparelho de televisão.
Antônio Torres não viu só isso. Viu pessoas andando em redor de si
mesmas. Pessoas que se ataram e não conseguem mais desatar. E imaginou a
Ibéria, uma nação impossível, que já não está mais suportando o peso
de seu próprio passado.
É nessa nação que se passa a história. É a terra dos homens
cabisbaixos, homens “de crista baixa”. Diante de seu fracasso, só resta
à velha Ibéria a memória de tempos mais felizes, quando seus homens
podiam levantar, com uma só mão, uma espada de 80 quilos, e resolver
guerras a pedradas e azeite, porque o azeite era barato e naquela época
os americanos ainda não fabricavam armas.
– Levei um bocado de tempo para escrever este livro. Primeiro,
vivendo o assunto. Depois ruminando idéias para encontrar a forma de
atacar. Só para encontrar a primeira frase gastei dois anos. Eu sabia
que tudo dependia dela. Foi num promiscuo quarto de hotel, que mais
parecia um velho e enferrujado navio, que este começo me veio: “A
julgar por ele, todos são homens sem mulheres, porque as mães de seus
filhos não contam”. Aí eu não parei mais de rondar a máquina de
escrever.
O uivo do cão
Mas o resto do romance ficou engasgado, Antônio Torres saiu de São
Paulo, veio para o Rio, viajou para Nova Friburgo, voltou ao Rio.
Escrevia até o sol raiar, esfregava as mãos, dialogava com Faulkner
(“juro, eu falava com um cara que já morreu, numa casa vazia, onde só
tinha eu e uma máquina de escrever”), rasgou muitas folhas e então
aconteceu o romance. Não o que Torres pretendia. Mas outro. A história
de um louco batendo papo consigo próprio.
– Numa tarde de sábado eu sentei na máquina. Senti um troço na
garganta e precisava tirar. Praticamente só me levantei dela oito meses
depois. Um Cão Uivando para a Lua estava pronto. O livro fala de
desespero, apalpa as causas e as conseqüências desses cães são uma
geração que de repente se descobriu enganada por uma série de valores
que não eram verdadeiros.
Antônio Torres, homem de sertão (“melhor ainda, um homem de sertão
que pegou o matulão, enfiou a viola no saco, subiu num pau-de-arara e
rumou para o Sul – um entre 80% da população, que fez o mesmo”), viu em
pouco tempo os uivos de seu cão serem elogiados pela critica. Seu livro
já vendeu mais de 10 mil exemplares.
– Mas a espinha continuava atravessada na minha garganta. Precisava
retirá-la para continua vivendo – e sendo capaz de funcionar. Então
voltei-me para Os Homens dos Pés Redondos. Foi quando terminei de ler
Bar Dom Juan, de Antônio Callado, ainda um pouco assustado, que tudo
recomeçou normalmente, sem muito esforço. Comecei do principio,
salvando apenas a primeira frase, aquela que eu havia levado dois anos
para encontrar.
O texto da enxada
Foi no caminho da escola, que começava depois de uma cancela – e
antes da cancela ficavam os pastos e o cabo da enxada – que Antônio
Torres viu o primeiro caminhão aparecer no Junco, levantando poeira. “Eu
queria cair fora, principalmente para me livrar do cabo da enxada”.
Então passou a recitar Gonçalves Dias, Castro Alves e Olavo Bilac nas
festas da roça. Os matutos gostavam muito, mas quem ficava comovida
mesmo era a mãe, “a velha Durvalice”. Acabei no Ginásio de Alagoinhas,
Bahia. Foi lá que descobri Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Jorge
Amado. Aos 17 anos entrei para o Jornal da Bahia, em Salvador. Fui
levado por um homem de nome Mário Alves, que passava o dia todo
recauchutando pneus, na entrada de Alagoinhas. Ele pós um terno branco e
pagou-me a passagem do trem. Em Salvador, fui direto à sala do Dr.
João Falcão, que também estava de terno branco. João Falcão levou-me
para Florisvaldo Matos, seu redator-chefe. Ele não só me admitiu como,
mais tarde, viria a arranjar um emprego num banco. Mais: cavou nesse
banco a minha ida para São Paulo.
Nesse tempo Torres já havia deixado de estudar. E acabou “se enfiando de cara” no jornalismo.
– Agora estou em cima de um livro de contos (um desses contos já foi
publicado num jornal em São Paulo). É um livro sobre o Junco, o meu
velho Junco. Esse livro é uma questão que tenho comigo mesmo. (Pra dizer
a verdade, eu acho o conto um intervalo, uma espécie de descanso do
cara que se mete verdadeiramente a escrever. É possível que eu leve
muito tempo para publicar um livro de contos. Minha ambição pessoal é o
romance). No fundo, o que queria mesmo era escrever um grande romance
(no sentido do tamanho e do valor) sobre o Junco. Mas não encontrei um
personagem único, que servisse de médio – apoiador. Então parti para
uma série de histórias curtas, que, no fim, dão um bloco. E, apesar de
estar com a mente e a alma bastante jogadas nesse assunto, já tenho um
romance nas tripas, Metade Homem, Metade Bode.
– O que eu que mesmo é chegar aos 40 com a minha viola afiada. Essa
viola que carrego comigo desde os oito anos, quando descobri o caminho
da escola de dona Serafina, lá no Junco (não me pergunte onde fica esse
lugar. O Junco não ocupa, nem nunca vai ocupar, um espaço decente no
mapa do mundo). Agora, aos 33 anos, se olho para trás me dá vontade de
assoviar Légua Tirana, de Luis Gonzaga. Sim, foi uma estrada muito
comprida.
Anatomicamente, o romancista Antônio Torres
passou da garganta de seu livro de estréia, “Um Cão Uivando para a Lua”,
para a elementaridade dos pés, no seu segundo romance. Literalmente,
foi um passo à frente. O que o volume inicial tinha de emotivo, de
visceral e até mesmo gástrico foi habilmente extirpado numa cirurgia de
estilo mais livre e menos adiposa.
Evidentemente, a literatura de empenho político-social é a mais
difícil armadilha para um talento que germina. Nela fracassaram
incontáveis Guevaras juvenilmente esfacelados pela falsa estratégia de
um lirismo incontido, de uma solidariedade humana panfletária, de
tristezas e revoltas que se extinguem no adjetivo e na interjeição como
rajadas suicidas de metralhadoras solitárias. Neste novo livro,
Antônio Torres depurou muito a explosão de sua primeira incursão,
refinando-a e assim atingindo melhor o alvo.
Choque de raças – O naturalismo de “Um Cão Uivando
para a Lua” era um veículo válido ou pelo menos aceitável para a
sinceridade emotiva da rebelião arrebatada de um jovem – contra um
status quo hediondo que “coisifica” o homem através do Estado, da
publicidade, da massificação. Com “Os Homens dos Pés Redondos”, a
linguagem surpreende por um veio que não existia no livro anterior e
que possivelmente é a melhor tendência latente do escritor: a
inventividade ilógica, o vôo da imaginação que não chega a ser o chavão
do “realismo mágico” de um Gabriel Garcia Marquez. Sem ter afinidade
com a metáfora densa e sutil de um J. J. Veiga, Antônio Torres, no
entanto, pelo seu arrojo ainda hesitante, situa-se perto de um Arreola,
com seu “Confabulário Total”. É excelente o episódio do homem
transformado em sapo por uma organização desumana. Menos convincentes
parecem as descrições realistas de Manuel Soares de Jesus – o homem que
planeja matar seu chefe, o “intelectual Alves”. São vivos e
interessantes os recursos de um júri de televisão dar nota ao criminoso
e da carta que este envia ao papa, pedindo justiça para o povo de um
país imaginário dominado por um governo totalitário e que combate na
África uma guerra inglória.
Falta-lhe apenas, para o terceiro livro, podar a riqueza
superabundante de temas, é demasiado ambicioso querer tratar, num mesmo
romance, os problemas da alienação da classe rica, as mazelas dos
barnabés conscientes, o choque de raças como a negra e a branca que
“têm que viver juntas”, tudo cosido com flashbacks joyceanos de
recordações sentimentais da infância. Mas também é legítimo esperar
que, se o processo de depuração continuar, Antônio Torres poderá trazer
à literatura brasileira a contenção lúcida de um Graciliano Ramos em
vez de mais um grito verborrágico e folclórico, do qual, aliás, nunca
esteve próximo.
O primeiro romance de Antônio Torres, Um cão uivando para a Lua, sem dúvida a melhor estréia de 1972, transformou-se rapidamente num dos livros mais vendidos no País. E o segundo, Os homens dos pés redondos, repete o feito – tanto em êxito como em qualidade.
Torres é, visivelmente, o anti-literato. O primeiro romance, a
estória de um nordestino criado na roça que vem para a cidade grande e
acaba transformando-se num intelectual neurotizado, não só pelo choque
de culturas quanto pela sufocante atmosfera do grande centro, é um
milagre de equilíbrio entre o urbano e o regional. Além disso, por sua
própria concepção – e apesar de pequena – a obra consegue criar um
microcosmo que representa os dois Brasis já observado por Euclides da
Cunha, mas até hoje pouco explorado pelos nossos ficcionistas. Torres
consegue pular de um gênero para outro, fundi-los, interiorizar-se na
análise da psique humana, sem cair nos cacoetes de nenhum deles. Enfim,
uma obra tão equilibrada que, levando-se em conta a parcimônia de
meios do autor, mais parece um acidente.
O segundo livro, mais ambicioso, sai do plano puramente individual
para abranger uma gama mais ampla de tipos, e também aqui o escritor
mantém o seu poder de criar personagens sólidas e convincentes, embora
prossiga na vocação confissional do primeiro. A estória, se passa num
país fictício, chamado Ibéria – fora o nome, não há nenhuma tentativa de
disfarçar a identidade de Portugal –, e nela o autor funde, mais uma
vez admiravelmente, os conflitos pessoais dos personagens com as
características opressivas do regime português recentemente liquidado,
sem jamais deixar o conteúdo político passar à frente ou mesmo ameaçar o
existencial. Não se trata de um livro político, embora seja sem
dúvida, um romance de consciência.
Outro escritor, mais literato, possivelmente não conseguiria
escrever no tom confissional de Torres sem cair no diário pessoal, sem
maior interesse como literatura, sem atingir um nível universal. E é
justamente aqui que entra a vantagem – claro que apenas em casos como o
dele – do primitivismo do autor: ele é tão sincero, tão puro, tão
isento de ismos literários, que seus livros escapam de todos os perigos
do gênero confissional e impõe-se como obras acabadas, definitivas.
Claro, há aqui e ali alguns deslizes, às vezes sérios – a começar
pela linguagem –, mas que só fazem autenticar a validez das obras. No
último livro, particularmente, parece que o sucesso demasiado fácil do
autor levou-o a uma maior autocomplacência, a desleixar-se um pouco da
autodisciplina visível no primeiro. Recursos como omitir o nome de um
personagem principal, designando-o apenas de O Estrangeiro, dificilmente
funcionam numa obra realista – e Torres apesar de todas as nuances
oníricas de seus livros, é um realista, no sentido lukacsiano do termo.
No fim do romance, o escritor leva a autoindulgência a ponto de
referir-se a si mesmo como juiz supremo de um dos personagens,
interrogando-se diante do leitor se deve matá-lo ou deixá-lo continuar
vivendo.
Mas estes são pequenos senões, até certo ponto necessários – quando
apenas senões – para dar uma dimensão humana à obra. O que parece
claro, já neste segundo livro, é que Torres veio para ficar.
“Guardamos a esperança para os que se desesperam.” Patrice de La Tour du Pin
Ulisses é um romance pertencente à classe dos romances em forma de
sonata, estruturado em tema, contra-tema, encontro, desenvolvimento,
finale, segundo as palavras de Ezra Pound acerca do muito falado e
pouco lido livro de Joyce. Ressalvadas as devidas proporções, podemos
dizer o mesmo de Os Homens dos Pés Redondos, de Antônio Torres. A
narrativa de Os Homens… se desenvolve em diversos tempos, com uma
aparente desconexão entre si, num estilo que lembra vagamente o do
“Roman-fleuve”, com episódios encadeados por intrigas diversas, mas
cujo final o leitor habituado à moderna técnica narrativa, vislumbra
logo às primeiras páginas.
Antônio Torres conta uma história (se ainda é lícito aqui, o uso do
termo), em moldes nada tradicionais, usando de uma técnica romanesca
que denuncia suas origens em Joyce, Faulkner e, numa certa medida, no
“noveau-roman”, influências talvez nem sempre conscientes, mas que o
autor já prenuncia em “Um Cão Uivando Para a Lua”, seu livro de
estréia.
Em “Os Homens…” não há ação, mas sim uma persistente análise
psicológica, interessando fundamentalmente os porquês dos atos e suas
conseqüências.
Aqui e ali uma certa insistência descritiva que não dando o tom
geral da obra, nos lembra, entretanto, alguns resquícios, propositais
ou não, de uma técnica naturalística, influência antiga, talvez, que o
autor insista em conservar.
A utilização da moderna técnica ficcional entre nós não é novidade,
como de resto, em parte alguma. Muitos dos nossos autores já a
exploraram, se bem que na maioria das vezes, de maneira pouco
satisfatória. É aí que Antônio Torres supera seus pares, quase sempre
claudicantes pela desmesurada e inconseqüente preocupação de criar
obras que possam rivalizar com suas com suas afins de outras latitudes,
naufragando num formalismo amorfo, estéril e maçante. Torres maneja
com pleno conhecimento a linguagem literária, sabe até onde pode levar
os experimentos vanguardísticos na construção de um universo ficcional,
não se deixa seduzir pelo canto de sereia de um experimentalismo
gratuito.
Os Homens… apresenta alguns pontos de contato com o romance de
André de Figueiredo, Labirinto, ganhador do Prêmio Walmap 1971.
As semelhanças são visíveis na construção e linguagem que os dois romancistas utilizam.
As diferenças, entretanto, são ainda mais visíveis e favoráveis a
Antônio Torres. O Labirinto, não propriamente uma obra autobiográfica,
situa-se mais no gênero confissional, vive mais das experiências
estritamente pessoais do seu autor.
Já o livro de Torres é o depoimento de um aqui e agora nada
animador, não se perdendo num subjetivismo auto-gratificante. Ao
estabelecer esse confronto entre as duas obras, não estou advogando,
nenhum realismo objetivista (vale aqui, a redundância), com autores que
não são artistas, mas tabeliões, ou psicopatas que reprimindo suas
emoções construam uma realidade na qual não intervenham um instante
sequer. Isso é falso. O artista só merece esse título, quando, partindo
de sua experiência pessoal, constrói uma supre-realidade que se apóia
nalguns pontos de semelhança com a experiência que todos temos do mundo
objetivo, mas nunca construindo, deste, uma réplica. O novo livro de
Antônio Torres ilustra o que estou querendo dizer.
Infelizmente, não posso achar que a minha dor é a dor do mundo e
enclausurar-me num solipsismo, julgando que a realidade sou eu e nada
mais.
Manoel Soares de Jesus, o herói ou anti-herói de Os Homens… ou
suas projeções, como Emílio, são nossos conhecidos. A porta de Ibéria,
que Antônio Torres não abre, é a de saída. Sutil. Mas Ibéria está cheia
de outras sutilezas, algumas claras como a estupidez de muita gente.