Meu Querido Canibal

Gerana Damulakis

O novo livro de Antônio Torres intitulado Meu Querido Canibal, editado pela Record, É uma homenagem ao índio brasileiro num momento em que se comemoram os 500 anos da chegada dos portugueses e quando, em contrapartida,  em meio a muita discussão sobre a nossa cultura, poucos lembram que os índios já faziam sua própria cultura nestas terras há pelo menos 50 mil anos, segundo os estudos  realizados na reserva arqueológica, no Piauí, liderados por Niède Guidon.

Antônio Torres tinha pela frente os três caminhos que constróem uma biografia: o seguimento fiel dos fatos importantes da vida do biografado, com documentos, datas etc; a biografia  romanceada, como fez Jorge Amado no livro ABC de Castro Alves, a qual se presta, à perfeição, ao livre uso da imaginação do escritor, o qual insere elementos ficcionais, descreve cenas; e, por fim, a fórmula que associa a narrativa da vida do biografado sem descrever ou formar diálogos não testemunhados pelo autor, mas, como não há uma preocupação essencialmente documental, o texto pode ganhar com a linguagem e o estilo, com um  colorido, que favorecem o fluxo narrativo como se fosse um agradável romance.

Apostando na fórmula mais sedutora, mas sem se deter a ela, Torres construiu um livro singular. Na primeira parte, alicerçada em pesquisa, ele retrata o Chefe Supremo da Confederação dos Tamoios, Cunhambebe, o querido canibal, com tamanha parcialidade, atÉ com tanta paixão —  Cunhambebe foi o “primeiro herói deste país de aventureiros, náufragos, degredados, traficantes, piratas e contrabandistas. Um tipo inesquecível.” —, que o leitor acaba sentindo uma certa intimidade com o devorador de carne humana, com preferência pelos braços e pelos dedos das mãos.

A segunda parte, “No Princípio Deus se Chamava Monan”, conta a lenda indígena da criação do mundo, traçando paralelo com a teoria cristã: É um momento pungente quando, se Deus era nomeado Monan, o rei se chamava Cunhambebe. A pungência desta parte termina dando um “AmÉm” à constatação  sobre a tal salvação que não veio nem de Deus, nem do rei nem da lei para um povo que era obrigado a rezar por cartilha alheia — “que ironia, qual destino!”.

A parte III É a “Viagem a Angra dos Reis” e É quando o leitor encontra o escritor do final deste sÉculo, vivendo  a ebulição das ruas do Rio de Janeiro mas com a cabeça nos anos 500 e no índio Cunhambebe ou em todos os índios que sequer mereceram ter seus nomes nas ruas, sequer fizeram parte, no livro do tempo dos vice-reis, entre os infames da raça como o judeu ou o mouro e, assim estupefato, o narrador chega a sonhar gritando “perós!”, sobe morros à procura de índios que possam saber algo sobre Cunhambebe.

Vê-se que há muita História no livro sendo, como se propõe, uma biografia baseada em livros e documentos, mas vê-se que a tÉcnica do romancista está presente na narração, conferindo aquele colorido supracitado. AlÉm do que, a surpresa que causa a entrada da leitura da terceira parte em outro tempo, viajados num átimo os 500 anos, confere uma originalidade que ao mesmo tempo afirma a necessidade de chegar no agora para trazer o canibal, o índio, o verdadeiro brasileiro para o presente, para o Brasil atual.

A paixão dessa escrita contagia o leitor, saímos dela talvez com um olhar mais terno para o nosso índio, senão com idolatria mas, ao menos, com respeito. A história de Cunhambebe guarda o interesse e o encanto que marcam os romances de Antônio Torres desde Um Cão Uivando Para a Lua, assegurando a solidez de sua obra literária.

Somos Índios

Gerana Damulakis

Antônio Torres retorna à sua terra por dois motivos: para lançar seu mais recente livro, Meu Querido Canibal, e para participar do V Congresso de Estudos Lingüísticos e Literários, com realização de 21 a 25 de maio, no Campus da UEFS, Feira de Santana. Na oportunidade, deu-se a entrevista cedida à Gerana Damulakis por Antonio Torres.

1 – O livro Meu Querido Canibal não transmite uma visão edênica do Brasil de então, ou melhor, de Pindorama. Isto veio naturalmente ou foi esquematizado para fugir da tal visão piegas?

-Não vou dizer que tudo neste livro É natural, mesmo em se tratando de uma história que tematiza o Brasil dos 500, quando a natureza era soberana. Parti de um personagem que me encantou, o grande guerreiro tupinambá Cunhambebe, o primeiro chefe supremo da Confederação dos Tamoios que, aí entre os anos de 1554 e 1567, uniu todas as tribos inimigas de São Vicente a Cabo Frio, e fez a terra tremer. Foi a maior organização de resistência aos colonizadores que este País teve. A partir do meu interesse por Cunhambebe, um gigante com quase dois metros de altura, exageradão em tudo, a ponto de ter 14 mulheres quando outros caciques só tinham direito a 4, cheguei à  epopÉia dos tamoios, que significavam “os mais velhos do lugar”. Procurei, então, trazer para a atualidade um pouco da dimensão de Cunhambebe como herói e da Confederação dos Tamoios como organização emblemática, me valendo, naturalmente, das minhas estratÉgias de romancista, ou seja, de contador de histórias.

O que busquei em Meu Querido Canibal foi um resgate da história do povo que estava aqui quando os europeus chegaram, e que havia sido relegada, esquecida. Na enxurrada de livros que estão na praça, tendo o aniversário do Descobrimento como pretexto, há obras admiráveis, sem dúvida, mas É tudo, ou quase tudo, coisa de branco. Se há alguma novidade em “Meu Querido Canibal” É esta: trata-se de um recorte diferenciado na onda comemorativa. Por fim, Cunhambebe liderava um povo de guerreiros. Não houve pieguismo algum na relação do europeu com o nativo – e vice-versa. Eu não poderia, de maneira alguma, me permitir uma visão piegas daquele tempo de guerra. De cobiça e fúria.

2- Dizem que todo escritor tem seus temas constantes, que definem sua obra. Como entra a biografia de Cunhambebe entre seus livros?

– Embora tenha cá minhas obsessões (o choque entre o rural e o urbano, o do Brasil arcaico com a modernidade, a solidão de um país grande etc), tenho procurado diversificar os meus temas e a minha escrita, para não me tornar uma espÉcie de sambista de uma nota só. Espero que o “Meu Querido Canibal” represente um exemplo deste meu esforço.

3 – Que relação você estabelece entre êxito de público, qualidade literária e consagração crítica?

– Eis aí uma pergunta cuja resposta valeria um punhado de dólares. Quem acertar nas três questões aí ganha a sorte grande. Quantas obras consagradas pela crítica se tornam encalhes monumentais! Quanto sucesso de público É esnobado pelos críticos e atÉ por mim! No que diz respeito à qualidade, pode ser que ela se imponha, pode ser que não. Para o tal do mercado, cada vez mais arrogante e ditatorial, livro bom É aquele que vende. Parece que em nosso tempo a qualidade É uma questão secundária. Daí haver tanto escritor, hoje, uivando para a lua, sem saber o que fazer de suas qualidades. Às vezes acontece uma zebra e a qualidade emplaca.

4 – A escrita faz leitores e assim a literatura evolui e modifica, com os grandes textos, a maneira como se lê. Qual o leitor ideal para “Meu Querido Canibal”, seria forçosamente aquele que tem empatia com o índio?

– Se houve uma coisa boa nestas comemorações dos 500 anos foi que o Brasil passou a refletir mais sobre a sua própria História. E de repente percebemos que os índios fazem parte dela. E mais: que somos índios. No fundo, no fundo, por trás de todo o oba-oba, percebemos que há algo da derrota dos nativos que serve de espelho para as nossas derrotas cotidianas. Nestes 500 anos, construímos um país, sim, multifacetado, multicultural, multitudo. E com um potencial humano e econômico fantástico. Mas cujo povo ainda não está no centro da História. Fica à margem, cada vez mais perifÉrico. Mesmo sabendo que vivemos numa nação extremamente conservadora, corri o risco de me postar, de peito aberto, às flechadas da História oficial. Hoje, me pergunto: há mulheres e homens livres neste País? Há consciências não manipuladas? A estes dedico o “Meu Querido Canibal.”

Por mais que eu olhe nunca avisto Niterói

Saint-Malo, 6 de fevereiro de 2002

Quando o mundo era dos marinheiros, eu, René, filho de Marguerite Boscher e do comandante de navios Luc Trouin, não me fiz ao mar logo de cara, assim que me dei por gente, como você poderia imaginar, você, que veio de longe, lá do Brasil – e do Rio de Janeiro! -, que atravessou o Atl’ntico e ainda rodou um bocado por aí de trem e de automóvel, aventurando-se em trilhas que supôs levarem a algum vestígio de minhas pegadas nesta França velha de guerra, Paris-Bordeaux, Bordeaux-La Rochelle, La Rochelle-Rochefort, depois Paris-Nantes, e de Nantes até aqui, aqui Saint-Malo, ponha aí um chapeuzinho no o para os brasileiros pronunciarem o nome da cidade corretamente, Saint-Malô, onde começa e termina a história deste lendário corsário de Sua Majestade Cristianíssima Luiz XIV, o Rei Sol, eu, René Duguay-Trouin, o tenente-general das Forças Armadas Navais, eternizado em bronze na passarela da glória nesta célebre muralha, a marca registrada de Saint-Malo, cá estou, no panteão ao esplendor do tempo dos marinheiros, postado de frente para o mar, de onde jamais queria ter saído desde o dia em que me acostumei com ele na marra, mas eia, você veio até aqui para seqÜestrar as minhas memórias, porque também sou um malfalado personagem da história do seu país, vamos, aproxime-se, já não mordo, olhe-me, tire suas fotos, faça como os japoneses, que chegam em bando, click-click, arigatô, rá, povinho barulhento esse, porém infinitamente menos do que os seus compatriotas brasileiros, ah, o Brasil, lá eu fui um rei, no tempo dos portugueses, lá eu tive poder e mulher para o meu divertimento, servida de bandeja na cama que conquistei a ferro e fogo, e como o poder é afrodisíaco, não?, exótico, engraçado, sacana, rico e injusto Brasil, diz-se dele aqui, e digo eu, ainda hoje a terra dos meus sonhos, tão cobiçada, coitada, estonteante exuber’ncia, muito langor e pouco rigor, a palavra esperança rimando com destemperança, oh trópicos divinos e profanos, um mundo de aventureiros, aberto a todas as pilhagens, todos os tráficos, ali até as flores e as cores enlouquecem, entre a exaltação patriótica, submissões que confrangem e anárquica rebeldia, rasteiras a cada passo, um susto a cada esquina, uma faca no peito, um cano na nuca, rajadas a esmo, o Brasil não é um país, é um exagero, em tamanho, luz, sabor, a tal da ginga e loucura, é onde a vida, vivida num fio de navalha, tem pouco ou nenhum valor, e a justiça ainda se faz com as próprias mãos, e tome clichê, terra de índio, fim do mundo, a nostalgia da Europa, o banzo da áfrica, a sedução americana, luxuriante natureza, tropical melancolia, tanto sol, mar, céu, sexo, selva, açúcar, madeira, papagaio, pimenta, frutas, folhas, ervas, raízes e grãos de encher os barcos e panelas do mundo, cachaça – embriaguemo-nos, não vai me oferecer uma caipirinha? –, megalópolis tentaculares como caixotes empilhados fazendo escada para a lua, singelos vilarejos do interior cobertos de antenas parabólicas, canções inolvidáveis, festas populares, uma vela para Deus e outra para o Diabo, cantadores, contadores de histórias, adoráveis mentirosos, dendê, café, soja, guaraná, tabaco, ouro, petróleo, maconha, escravos, mestiçagem, senhores de engenho, anedotas de português, é isso aí, Brasil, tu perdes um amigo mas não uma piada, intelectuais posudos que nem os franceses, aliás os imitam da cabeça aos pés, políticos de fala fácil, inescrupulosos, corruptos, safados – alguma novidade nisso? –, ricos charmosos, ricos ignorantes, ricos chiquérrimos, ricos tão arrogantes e alienados quanto os nossos – sei o que estou dizendo, sou filho de rico –, todos ou quase todos predatórios, só querem encher a burra ainda que para isso tenham que arrasar a terra, pobres e analfabetos de montão que se deixam enrolar pelo papo enganoso dos abonados e sabidos, e estes estão só esperando a hora de jogar uma bomba sobre eles, como solução final para limpar o país de pretos, pardos, mulatos, paraíbas e aroçoabas pobres, é, aqueles brancos podres de rico, e os arremediados que embranqueceram a sua massa cinzenta, acham que o atraso do país se deve à mistura de raças, ao que faz coro uma classe média ensanduichada entre o andar de cima e o de baixo, trancando-se a sete chaves, catatonicamente ligada na tv e nos computadores, e estudando inglês enquanto sonha em fugir de tudo isso para Miami, para o Canadá, para a Austrália, eta Brasil grandão e doidão, portentosas mulatas de deixar maluco o mais empedernido cara pálida, mulher bonita a dar com o pau, até louras, nem todas oxigenadas ou burras, futebol em ritmo de samba, travestis modelados para exportação, prostitutas que se apaixonam ou fingem isso espetacularmente, manecas deslumbrantes, mania de banho, culto ao corpo, cabeças de vento, peitões e bundões siliconados, que aprenderam a rebolar desde criancinhas e com um empurrãozinho de suas queridas mães, carne, muita carne, Carnaval (Renê, ô Renê!/ Skindô, skindô/ Quem é você?/ Skindô lê-lê/ Renê, ô Renê!Vai te fudê!!!), viu aí?, eis-me de novo ferindo suscetibilidades à flor do couro, dos gatilhos, mesmo assim ainda posso virar enredo de Escola de Samba, você não acha que já é tempo?, falou Brasil, disse batucada, barulho, som de bêbados, fúria de drogados, mas aqui os campeões da passarela são os norte-americanos, mentes numéricas de constrangedora ignor’ncia, vão logo perguntando quantos dólares esta estátua teria custado, e se ali em frente deste mar está a áfrica, vamos, aproveite, click-click você também, encare-me, você não estará vendo mais do que a estampa de um herói imóvel – ou vilão, para vocês brasileiros –, seja lá como for aqui estou, assentado em bronze neste canto desta secular muralha, exposto à visitação pública dos turistas de todo o mundo, como aquelas putas semi-nuas nas vitrines de Amsterdã, o que fazer?, concederam-me este tributo, sim, agora eu sou o herói, melhor dizendo agora eu era o herói, coisas da História que não têm muito a ver com a justiça do tempo em que vivi, avaro em reconhecimento, nem com as minhas decepções, mas é isso aí, como agora eu era o herói, me fincaram para sempre nesta pose – indelével, vá lá – de cartão postal, que à primeira vista lhe decepciona, pareço-lhe menor do que era na sua imaginação, e algo esdrúxulo nestas vestes que me eternizaram, da indefectível peruca – bastas melenas, e cacheadas! –, aos nobres sapatinhos – a gota já não me dói, que alívio –, assemelho-me mais, assim lhe parece, a um bailarino do que ao senhor das águas e das tempestades, sei, você está achando que a minha figura não tem a mesma estatura do meu histórico de arauto do medo e do terror, e está mirando as minhas mãos com um olhar galhofeiro e esteriotipado, eu, o Espada de Honra do Rei, o Cavaleiro da Ordem de São Luís, o capitão de mar-e-guerra, o comandante de navios da marinha francesa, o chefe de esquadra, o tenente-general que vomitava fogo pelas bocas dos canhões, eu, René Duguay-Trouin, não podia ter dedos tão delicados, como indicam os da minha semi-estendida mão direita, que aos seus olhos lembram os de uma fiandeira, imaginava-me um mastodonte?, pois foi com a destreza de um bailarino – melhor será dizer de um esgrimista –, que me movi nos palcos da guerra, graças à minha rapidez de raciocínio e precisão de movimentos me tornei um temível interceptador de riquezas em todas as vias navegáveis onde pudesse avistar os inimigos da França, que eram praticamente todos os países bem armados da Europa, quando eu, René Duguay-Trouin, mandei bala em portos e cidades em poder desses inimigos que tivessem o que pilhar e arrasar, em batalhas sangrentas, até levá-los à mais completa ruína, à total desmoralização, caso não se rendessem aos meus primeiros berros e petardos, em plena vigência das guerras de corso, palavra de origem italiana, anote aí, corso = correre, correr, e isso vai da Idade Média ao século XIX, logo, como você já deve ter percebido, minha carreira se desenvolveu num período capital, o das guerras da Liga de Augsburgo e da Sucessão da Espanha, entre 1689 e 1714, foi aí que eu, René Duguay-Trouin, corri mundos e fundos, no encalço dos espanhóis – até a tal da Sucessão –, e principalmente dos holandeses, dos ingleses e seus aliados portugueses, e estes, coitados, devem se sentir até hoje os mais humilhados e ofendidos da face da Terra, e por mim, porque dei neles uma corça memorável, num ataque audacioso, espetacular mesmo, sem precedentes na história das invasões francesas: o assalto e tomada do Rio de Janeiro, a mais cobiçada cidade do império colonial lusitano, no auge do fluxo do ouro das Minas Gerais que ali era embarcado. Para Lisboa.

Prefácio a uma história da História colonial portuguesa

Para a edição da Fio da Navalha –€“ Lisboa, 2004.

Dedicado a estes nobilíssimos amigos:

V’nia Pinheiro Chaves, professora da Universidade Clássica de Lisboa. Fernando Santos, da RTP. Manoel Marcelino Pena Costa, da Manpower Portuguesa. Fernando Lopes e Paulo Rocha, do Cinema. Maria do Céu Guerra e Hélder Costa, do Teatro. Almeida Faria, das Letras. Maria Aparecida ribeiro, da Universidade de Coimbra. Arnaldo Saraiva, da Universidade do Porto.

E em memória de:

Alexandre O’€™Neill, José Cardoso Pires e Irineu Garcia.

‘€œComo escrever a história de um delírio?’€- pergunta o francês Gilles Lapouge, na primeira linha do seu livro Lês pirates.

O brasileiro que agora vos escreve viria a fazer-se a mesma indagação, ao destapar o baú de históricos alfarrábios em busca das aventuras e desventuras de René Duguay-Trouin, o célebre corsário do rei Luiz XIV que, nos princípios do século XVIII, executou o primeiro seqüestro do Rio de Janeiro ‘€“ o da própria cidade -, então a mais próspera colônia portuguesa, numa invasão tão arrasadora quanto aterrorizante. E que se inscreve nos anais da História como um dos capítulos mais dramáticos de toda a era colonial lusitana.

Comandando uma esquadra de dezoito navios, com setecentos canhões, dez morteiros e cerca de seis mil homens, o general francês fez o Rio de refém durante cinqüenta dias, sob ameaça de reduzi-lo a cinzas, caso o pagamento exigido para desenvolver a cidade aos seus habitantes não fosse resgatado.

Subproduto de uma guerra ‘€“ a Sucessão da Espanha-, a tomada do Rio de Janeiro não foi só audaciosa, foi surpreendente. Porque significou uma espetacular reversão do poder de fogo entre litigantes em desigualdade de forças, quando uma coligação de oito países (Portugal era um deles) vinha deixando a França à  bout de souffle.

Encurralada nas terras e nos mares (principalmente nestes) da Europa, essa França em agonia contou com a jogada de gênio de um dos seus mais intrépidos marinheiros para reverter o mando longe do campo de batalha. Como Rio era um domínio português, chamado de A praça do rei, ao fim e ao cabo foi Portugal o seqüestrado, vindo a pagar um altíssimo preço pela sua adesão a um conflito no qual preferia ter ficado neutro, e em que entrou por imposição da Inglaterra, sua eterna aliada. O Rio de Janeiro ficou com os custos em vidas, medo, terror, depredações, depressão, revolta, estorvantes devassas, punições. Além dos prejuízos em bens privados e públicos saqueados, e da conta do resgate para a sua libertação, que foi cobrada à  população, a peso de ouro.

Passou-se isto no apogeu das explorações e fluxo transatlântico dos metais preciosos, que o Brasil possuía em abundà¢ncia nas suas Minas Gerais, descobertas pelos portugueses em 1695. Eis aí o delírio: a corrida de uma Europa cobiçosa, a ensangüentar-se nos mares nas suas disputas, pelos carregamentos das riquezas pilhadas de ilhas e terras distantes, como o ouro brasileiro. E é aqui que entra René Duguay-Trouin, o que gritava ‘€œFogo!’€ em nome de um rei cujo delírio de grandeza e conquistas tanto elevava a França ao esplendor, quanto’  a rebaixava ao rés-do-chão da ruína. A serviço de Luiz XIV, Duguay-Trouin tinha feito três tentativas, na entrada de Lisboa (1706), as costas da Espanha (1707) e ao largo do Açores (1708), para saquear os navios portugueses precedentes do rio de Janeiro. E fracassou em todas elas. Iria à  forra em 1711, ao tomar de assalto o porto de onde o ouro partia e onde Portugal não estava suficientemente guarnecido para repetir um ataque nas proporções que ele empreendeu.

A historiografia francesa avalisa essa invasão ao rio de Janeiro como o maior feito da marinha do Rei Sol. E confere a Duguay-Trouin um status de herói. Já a portuguesa achou melhor empurrar as páginas sobre o duro golpe para debaixo do tapete. à‰ compreensível: o episódio deslustra a aura heróica do vasto mundo que Portugal criou. No Brasil, hoje, busca-se uma correlação entre os seus sobressaltos do passado e os presentes ‘€“ um presente entregue a uma realidade de violência ameaçada pelos caos, sobretudo no Rio de Janeiro, sem dúvida alguma uma das belas cidades do planeta, mas a viver em estado de medo, seja por castigo, ou por um destino inescapável, ou pelos seus contrastes sociais assustadores, ou pela incúria dos seus governantes. O contraponto analógico é uma das vertentes desde O Nobre Seqüestrador, um título de conotação irônica, o que o nobilíssimo leitor a esta altura já percebeu.

Não se deduza, porém, que a sinopse dos cenários, personagem central, tempo e espaço, quer dizer, dos fundamentos da história, seja uma pretensa resenha do romance por quem o escreveu. Contanto o que se tem aqui é um interface entre Literatura e História, e que este autor se tenha esforçado à  exaustão para não trair os factos históricos que suportam o seu relato, é a dialética do discurso ficcional que se impõe neste livro, assim era o seu projecto ao escrevê-lo, e assim a crítica e os leitores brasileiros o têm apreciado. ‘€œUm romancista é aquele que, a todas as horas do dia, ou até mesmo nos seus sonhos, vive a exclamar:’€ O meu reino por uma personagem!

Este que vos escreve viveu anos e anos delirantemente obcecado pelo fantasma de Duguay-Trouin, como se verá, ao longo deste romance.

Porque Duguay-Trouin?

Por ele ser um herói da França e um bandido para o Brasil e Portugal.

Por ter sido o herói que teve um final nada heróico, a exemplo de outros grandes navegadores, como Cristovão Colombo e Pedro àlvares Cabral, de tanta glória e triste história.

Porque seu fantasma ainda deve andar pelo mundo a gritar: ‘€Fogo! Fogo!’€, em invasões outras, igualmente brutais.

E porque a História se repete se repete, se repete ‘€“ e nem sempre como farsa.

No entanto há humor neste livro. Rir não é o melhor remédio? Divirta-se um pouco nas suas páginas, antes que o mundo acabe, pá!

Saudações luso-brasileiras, do vosso,

Antônio Torres
Rio de Janeiro, 29 de Abril de 2004.

Os fios híbridos da tessitura da história em O Nobre Sequestrador de Antônio Torres

Rita Olivieri-Godet
(Université Rennes 2)

“Comme l’analyse littéraire de l’autobiographie le vérifie, l’histoire d’une vie ne cesse d’être refigurée par toutes les histoires véridiques ou fictives qu’un sujet raconte sur lui-même ; cette refiguration fait de la vie elle-même un tissu d’histoires racontées”. Paul Ricoeur, Temps et récit

Na produção literária brasileira recente, publicada a partir de 1990, a inscrição de um referencial histórico possibilitando a interrogação da formação e do destino da nação brasileira, que até então constituía uma vertente importante da narrativa, dá lugar a uma representação neo-realista dos problemas atuais das sociedades urbanas modernas. Observa-se que na nova narrativa brasileira, o espaço da cidade cosmopolita desloca o espaço nacional. Os escritores que surgem durante essa década se desviam da interrogação sobre o passado histórico para se apossarem dos fenômenos de sociedade do tempo presente. No entanto, se uma outra relação entre literatura e história desponta, a tendência para construir a intriga romanesca apoiando-se na ficcionalização da história brasileira persiste[1]. Na virada do século, a proximidade das comemorações dos 500 anos da ‘« descoberta ‘» do Brasil recolocou na ordem do dia o debate sobre a nação e despertou o interesse por uma nova exploração do passado histórico. A publicação em 2000 de Meu querido canibal de Antônio Torres, narrativa que questiona o lugar que a nação brasileira reserva ao índio, inscreve-se nesse contexto. Com a publicação de O nobre sequestrador (2003), cuja intriga toma por referencial histórico um acontecimento importante da história brasileira, este autor continua a interrogar as relações entre literatura e história. Meu trabalho propõe uma reflexão sobre a escrita da história nesse romance, questionando os limites de um modelo, o do romance histórico tradicional.

Corrigir, inventar, construir a história

Nos seus dois recentes romances, Meu querido canibal [2] e O nobre sequestrador [3], Antônio Torres manifesta de imediato o desejo de interrogar as relações entre literatura e história, ao fazer a escolha de recriar a vida de dois personagens históricos, diretamente relacionados com a cidade do Rio de Janeiro. O primeiro romance coloca em cena o índio Cunhambebe da nação indígena Tupinambá que habitava a região da Baía de Guanabara no momento da invasão francesa do Rio de Janeiro, em 1555, com o objetivo de construir uma França Antártica sob o comando de Nicolas Durand de Villegagnon. O texto romanesco mais recente inspira-se da biografia de René Dugay-Trouin, corsário do rei Luís XIV, que, em 1711, sitiou durante 50 dias a cidade do Rio de Janeiro. Para construir suas intrigas, esses dois romances inspiram-se de acontecimentos comuns à  história francesa e brasileira, cruzando olhares entre o Velho e o Novo Mundo e interrogando o sentido de um tal encontro.

As pesquisas que o autor empreendeu sobre a história do centro da cidade do Rio de Janeiro estão na origem da escrita desses dois romances que possuem inegavelmente elementos comuns e podem, num certo sentido, serem lidos como textos complementares. Eles preservam no entanto suas singularidades no processo de textualização do real. Se a história dos vencedores é o alvo comum da crítica realizada pelos dois romances, esses não a questionam da mesma maneira nem com a mesma intensidade.

Em Meu querido canibal, narrativa que recorre largamente à  intertextualidade para reconstruir, num estilo ao mesmo tempo dramático e paródico, a história do Rio de Janeiro no século XVI, centrada no episódio da conquista da cidade pelos franceses (1555-1560), trata-se claramente de produzir um texto visando “corrigir” uma imagem do índio Cunhambebe, marginal e marginalizada, omitida ou deformada pela versão oficial da história, transformando Cunhambebe em herói nacional. à‰ um narrador apaixonado e indignado que denuncia o apagamento do lugar do índio na história e na sociedade brasileiras e que empreende a construção desse herói marginal num tom polêmico e provocador que rasura as páginas da história. O romance trilha um caminho percorrido por inúmeras narrativas latino-americanas, o da resistência à s representações oficiais e muitas vezes eurocêntricas da história, uma espécie de anti-história construída a partir do ponto de vista dos vencidos. [4]

Com O nobre seqüestrador, a relação do texto à  história se afasta da denúncia explícita. Na verdade, o projeto ideólogico da obra parece menos comprometido com uma prática militante de rasura das páginas da história e mais implicado na projeção de uma “visão da História que trabalha no texto, que é trabalhada e produzida pelo texto”. [5] Mesmo se o texto sublinha a ambigüidade entre o papel de herói e o de vilão que podemos atribuir a Duguay-Trouin, variando segundo que a perspectiva adotada é a da história nacional francesa ou brasileira, o diálogo que a ficção mantém com as práticas discursivas literárias e historiográficas que constróem o retrato de Duguay-Trouin e descrevem as circunstâncias do acontecimento histórico é menos polêmico que o do Meu querido canibal com suas referências textuais. à‰ a idéia que o acontecimento só pode ser referido pelo discurso que conduz o texto a explorar as fronteiras entre as diferentes formas de narrativas sobre o fato histórico quer elas estejam ancoradas nas convenções de ficcionalidade ou fundadas nas de veracidade.[6] O questionamento da história dos vencedores não se faz mais pela simples inversão de perspectivas visando corrigir a versão oficial. Ele se afasta assim de uma estrutura dicotômica e privilegia uma organização mais atomizada da narrativa. A voz de um narrador apaixonado que o leitor podia aproximar da perspectiva do autor em Meu querido canibal desaparece em O nobre sequestrador dando lugar a uma instabilidade mais radical das instàncias narrativas, vozes e perspectivas transformando-se e multiplicando-se de um capítulo a outro. Deixarei para um próximo trabalho a comparação entre esses dois romances para analisar aqui a maneira como O nobre sequestrador inscreve o discurso da história no texto.

O nobre sequestrador e a tessitura da (H)história

Trata-se portanto de desvendar os fios híbridos, formados de elementos tomados de empréstimo a diversas fontes, que o autor teceu para construir sua história, entendida aqui ao mesmo tempo como diégese e como visão da História. Uma primeira pergunta diz respeito à  discussão em torno do gênero ‘« romance histórico ‘», etiqueta utilizada sem hesitação e sem suspeita, tanto nas entrevistas do autor como nas resenhas redigidas pelos críticos quando da publicação do livro. Eu diria que esse ‘« epitexto público ‘» revela um sentido convencional que reconhece como romance histórico toda narrativa ficcional que constrói sua intriga em torno de um personagem ou de um acontecimento do passado. A propósito, a capa do livro multiplica os indícios que remetem ao passado, superpondo imagens antigas da baía do Rio de Janeiro com caravelas e fortes, tudo isso encimado pelo retrato do capitão corsário Duguay-Trouin (1673-1736). Das entrevistas e resenhas, em que se fala do longo trabalho de pesquisa que o autor foi levado a fazer para escrever este livro, sobressai a imagem do escritor esquadrinhando documentos antigos, dedicando-se à  pesquisa de campo, como se tivesse receio de cometer erros relativos a dados do contexto histórico. Ao acrescentar ao índice e aos agradecimentos, uma bibliografia na qual a quase totalidade dos títulos citados pertencem à  historiografia, a organização material do livro evidencia a intenção de aproximar os trabalhos do escritor e do pesquisador da área de história o qual se apóia em documentos para construir sua narrativa. Nesse esforço empreendido pelo autor em busca de informação, teria ele sido vítima da ilusão realista para evocar fielmente uma época longínqua ? Ainda que, em alguns momentos, poder-se-ia desejar que essa função informativa fosse mais discreta na economia narrativa do romance, é certo que essa obra explora a relação entre ficção e história em outras bases que as do romance histórico convencional. à‰ o que tenta demonstrar minha análise do processo de textualização em O nobre seqüestrador.

Para fazê-lo, retorno à  capa do livro para dessa vez chamar a atenção sobre o texto que acompanha a ilustração. A presença de uma marca paratextual ‘€“ romance – , marca de ficcionalidade, colocada em evidência sob o título O nobre sequestrador, propõe ao leitor um pacto romanesco, não deixando nenhuma dúvida sobre o registro, o da ficção, através do qual a obra deve ser lida. Contrastando com a ilustração que reproduz uma imagem do passado, o título destaca uma palavra que está enraizada no imaginário coletivo de nossas sociedades atuais, como se anunciasse as tensões entre o passado e o presente assim como as práticas discursivas históricas e literárias que serão confrontadas ao longo da narrativa, nesse espaço de mediação que o texto literário inaugura.

Portanto, é no limiar entre narrativa factual e ficcional que o texto vai explorar as trocas recíprocas e as fronteiras entre os gêneros, ao escolher colocar em cena a história de uma vida que, como assinala Dorrit Cohn, constitui o campo genérico em que narrativas factuais e ficcionais mais se aproximam.[7] Numa primeira parte, ‘« A estátua falante ‘», o romance toma como ponto de partida a autobiografia real de Duguay-Trouin, assim como as biografias desse capitão corsário, para as investir de um novo sentido. A história da vida desse corsário e da invasão do Rio de Janeiro se desdobra em história dessa cidade tendo a violência como fio condutor e permite também evocar as ‘« cidades históricas ‘» francesas, Saint-Malo, La Rochelle e Rochefort. Mas isso não é tudo. O romance torna-se objeto de sua própria intriga, encena sua própria história e projeta no seu universo o personagem do escritor.

A complexidade da urdidura da intriga a partir desses elementos heteróclitos se acentua com a instabilidade das instàncias narrativas cujos exemplos mais representativos são por um lado, a figura do narrador que se transforma ao longo do romance e por outro lado, o jogo de perspectivas. Todos esses elementos favorecem uma composição atomizada da narrativa que exprime a impossibilidade de construir uma imagem única e coerente do mundo. Assim o texto romanesco representa o enfrentamento entre as diferentes versões do real, como denota a multiplicação das vozes narrativas: a do narrador e personagem principal Duguay-Trouin (“A estátua falante“) uma autobiografia ficcional que se afasta do modelo da autobiografia real; a de um narrador anônimo e consciente que conta o percurso do escritor seguindo as pistas de Duguay-Trouin (‘« Quando as guerras eram outras e outro era o mundo ‘», La Rochelle, 24 de janeiro de 2002); a de um narrador e personagem-testemunho da viagem de Duguay-Trouin e do seqüestro da cidade (‘« Esta viagem ‘», La Rochelle 9 de junho de 1711 e ‘« Diário do assalto ‘», Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1711) que imita uma forma de narrativa de testemunho, o diário de bordo ; enfim, a da cidade do Rio de Janeiro, narrador e personagem principal da terceira parte do livro, ‘« Quando eles forma embora ‘», uma autobiografia ficcional que segue de perto as fontes historiográficas sobre a cidade.

Assinale-se ainda o fato de que as citações dispersas no texto tornam mais complexas as mudanças da voz narrativa e da focalização. Dentre elas, duas adquirem um estatuto particular por se apresentarem como partes autônomas, ilhéus não ficcionais, para empregar a expressão utilizada por Gérard Genette.[8] Trata-se de dois extratos reproduzidos como artigos publicados no Jornal do Brasil, sobre a violência no Rio de Janeiro e o ‘« seqüestro ‘» da cidade por narcotraficantes. A reprodução desses fragmentos sublinha a permanência da marca da violência na história da cidade, reforça os laços entre o passado e o presente e permite alargar as versões e visões sobre este assunto. O primeiro extrato, ‘« Intervalo ‘», introduzido entre a primeira e a segunda parte do romance, é seguido de um poema de Alexandre O’Neill sobre o medo, aproximando assim narrativa factual e dicção poética ; o segundo fecha o romance sob a forma de um Post scriptum. Ambos exibem a atualidade dos seus relatos pela presença de marcadores temporais que reproduzem as datas de 3 de dezembro de 2002 e de 25 de fevereiro de 2003, respectivamente. O estatuto ambíguo que possuem, ilhéus não ficcionais apresentados enquanto tais, mas ao mesmo tempo englobados pelo discurso da ficção que lhes imprime um valor estético, expõe uma prática de conversão do discursivo em textual, aberta à  colagem e ao agrupamento de elementos heteróclitos. Esses extratos apontam igualmente para a tensão entre o circunstancial e o imaginário, ou ainda entre o documento e a poesia, retomando os termos utilizados por Antonio Candido num artigo célebre [9] para designar o caráter dialético do texto literário, a um só tempo fonte de informação e objeto estético. à‰ esta dupla dimensão que o romance procura dramatizar, exibindo seu sistema de referências textuais e contextuais e a liberdade delas se emancipar no seu processo de produção de sentido, uma vez que ficcionalizar pressupõe um trabalho de deslocamento e de produção de sentido capaz de instituir novas configurações do possível.[10]

Desde o início do romance, O nobre seqüestrador indica o tom e as escolhas textuais principais que dizem respeito tanto à  configuração narrativa do tempo e do espaço quanto ao questionamento sobre o gênero (romance histórico, autobiografia ficcional, biografia). Adota uma forma de representação que embora não renuncie à  uma certa função referencial, abre-se à  irrupção do fantástico e do insólito na encenação narrativa. Leiamos as primeiras linhas do capítulo de abertura :

Por mais que eu olhe nunca avisto Niterói

Quando o mundo era dos marinheiros, eu, René, filho de Marguerite Boscher e do comandante de navios Luc Trouin, não me fiz ao mar logo de cara, assim que me dei por gente, como você poderia imaginar, você, que veio de longe, lá do Brasil ‘€“ e do Rio de Janeiro ! -, que atravessou o Atlàntico e ainda rodou um bocado por aí de trem e de automóvel, aventurando-se em trilhas que supôs levarem a algum vestígio de minhas pegadas nesta França velha de guerra, Paris ‘€“ Bordeaux, Bordeaux ‘€“ La Rochelle, La Rochelle ‘€“ Rochefort, depois Paris ‘€“ Nantes, e de Nantes até aqui, aqui Saint-Malo, ponha aí um chapeuzinho no o para os brasileiros pronunciarem o nome da cidade corretamente, Saint-Malô, onde começa e termina a história deste lendário corsário de Sua Majestade Cristianíssima Luís XIV, o Rei sol, eu, René Duguay-Trouin, o tenente-general das Forças Armadas Navais, eternizado em bronze na passarela da glória nesta célebre muralha, a marca registrada de Saint-Malo, cá estou, no panteão ao esplendor do tempo dos marinheiros, postado de frente para o mar, de onde jamais queria ter saído desde o dia em que me acostumei com ele na marra, mas eia, você veio até aqui para sequestrar as minhas memórias, porque também sou um malfadado personagem da história do seu país, vamos, aproxime-se, já não mordo, olhe-me [‘€¦] (O nobre sequestrador, p. 11-12)

Como assinala Paul Ricoeur, a ruptura entre tempo do romance e tempo real constitui a lei da entrada na ficção. [11] Ora, em O nobre seqüestrador, essa entrada na ficção está deliberadamente exposta pelo recurso a um artifício que renuncia aos valores da plausibilidade e da verossimilhança, que consiste em dar voz a uma estátua. A escolha de um tal sujeito de enunciação vai tornar possível uma configuração temporal e espacial que cria pontes entre o passado e o presente, fazendo coabitar a impressão de um vivido temporal imediato (‘« vamos, aproxime-se, já não mordo, olhe-me ‘») com a memória das coisas contadas (‘« Quando o mundo era dos marinheiros ‘»). Ela vai permitir simultaneamente aproximar o espaço americano do espaço europeu. Continuidade e contigüidade fundam a configuração espaço-temporal do romance, o que confere uma densidade histórica e uma dimensão universal à  problemática da violência que concerne a cidade do Rio de Janeiro assim como qualquer outra metrópole do mundo moderno.

Constata-se que O nobre seqüestrador faz um uso singular do topos da data e do topos do lugar que, como sublinha Jean Molino, são elementos da narratica constitutivos da abertura do romance histórico. [12] O artifício da estátua falante produz assim uma configuração espaço-temporal particular que permite deslocar as características tradicionais da narrativa autobiográfica real de Duguay-Trouin, uma das múltiplas referências textuais do romance, rompendo com a representação linear do tempo. Assim, os títulos e datas que aparecem no início dos diferentes capítulos (ver as referências citadas anteriormente, em particular ‘« Esta viagem ‘», La Rochelle 9 de junho de 1711) jogam com as tensões entre contigüidade temporal e contigüidade espacial. Além do que, as alusões à s datas e aos acontecimentos históricos, que o romance toma emprestado à s suas referências textuais e que revelam uma visão anedótica e objetiva da história, são contrabalançadas seja pela irrupção do insólito na economia narrativa ‘€“ a estátua de Duguay-Trouin e a cidade do Rio de Janeiro investidas do papel de narrador, seja pelos fragmentos de comentários analíticos, muitas vezes irônicos e cheios de humor, que desvelam o jogo ideológico da perspectiva da história oficial, como é o caso por exemplo da crítica feita ao enobrecimento do papel do corsário: ‘« (As diferenças entre uns e outros, na versão popular : pirata ‘€“ aquele que assaltava, saqueava e matava por conta própria ; corsário ‘€“ fazia a mesma coisa, mas em nome do rei) ‘», (O nobre sequestrador, p. 44).

Por conseguinte, uma outra visão da história e da literatura desprende-se da autobiografia ficcional de Duguay-Trouin realizada por Antônio Torres na primeira parte do romance, afastando-se da descrição circunstancial dos acontecimentos e do caráter ornamental da linguagem que caracterizam a autobiografia real do corsário. Na leitura deste texto, observa-se a preocupação demonstrada por Duguay-Trouin em escrever suas memórias num registro de linguagem cuidado, ‘« literário ‘»: ‘« Mon style simple fera voir qu’ils sont écrits de la main d’un soldat incapable de farder la vérité, et peu instruit des rà¨gles de l’éloquence ‘».[13] Percebe-se que se trata de uma desculpa retórica que denota uma falsa modéstia além de deixar transparecer uma visão hierárquica das relações entre o real e o literário, atribuindo à  linguagem literária a função única de ornamento supérfluo da realidade.

Evidentemente, essa não é a tônica do romance que nos ocupa, mesmo se a ficcionalização do personagem histórico de Duguay-Trouin em O nobre seqüestrador pressupõe um jogo de proximidade e de distanciamento em relação à s suas referências textuais. O uso clássico que a autobiografia faz da primeira pessoa encontra-se transformado no texto do romance; aqui, o eu da enunciação narrativa assume a atualidade do ato de palavra num registro coloquial, à s vezes vulgar, impregnado de marcas de oralidade. Esta língua familiar, trivial, é um marco fundamental no processo de ficcionalização do personagem: ela o torna atual, homem do século XXI, sem deixar de ser ao mesmo tempo um personagem do século XVIII, como bem viu Paulo de Tarso Pardal.[14]

Esse anacronismo deliberadamente buscado, não somente pelo uso de uma linguagem marcadamente atual mas também pela escolha do presente como tempo narrativo, cria um efeito de irrealidade que situa o narrador-personagem fora dos limites compartimentados do tempo. Este recurso lhe confere mobilidade e liberdade crítica, tanto em relação aos acontecimentos do passado que ele está narrando, quanto em relação ao que ele está vivendo e que tem a ver com o mundo globalizado atual. à‰ o que podemos ler nessas duas páginas e meia do capítulo de abertura durante as quais se desenvolve uma longa enumeração organizada em torno do agrupamento de elementos variados oriundos da realidade brasileira.

[‘€¦] exótico, engraçado, sacana, rico e injusto Brasil, diz-se dele aqui, e digo eu, ainda hoje a terra dos meus sonhos, tão cobiçada, coitada, estonteante exuberância, muito langor e pouco rigor, a palavra esperança rimando com destemperança, oh trópicos divinos e profanos, um mundo de aventureiros, aberto a todas as pilhagens, todos os tráficos, ali até as flores e as cores enlouquecem, entre a exaltaçao patriótica, submissões que confrangem e anárquica rebeldia, rasteiras a cada passo, um susto a cada esquina, uma faca no peito, um cano na nuca, rajadas a esmo, o Brasil não é um país, é um exagero, em tamanho, luz sabor, a tal da ginga e loucura, é onde a vida, vivida num fio de navalha tem pouco ou nenhum valor, e a justiça se faz com as próprias mãos, e tome clichê [‘€¦] ‘» (O nobre sequestrador, p. 12-13)’°

Essa enumeração, da qual segue reproduzido apenas um trecho reduzido, procura produzir uma imagem kaledoscópica do Brasil justapondo frases que jogam com contrastes e com a idéia de permanência e de variação. O conjunto que constitui essa sucessão de imagens de múltiplas facetas ecoa as referências saturadas do imaginário social. [15] A exuberância da natureza, certos traços de um pretenso ‘« caráter do povo brasileiro ‘», a violência e a miséria, a festa e a inegalidade social, o carnaval, o footbal e o sexo são clichês que se superpõem aos flashs da realidade quotidiana, esses também evocados por meio de imagens formadas por contrastes, como a das cidadezinhas do interior cobertas de antenas parabólicas. Reconhece-se nessa enumeração kaleidoscópica de imagens do Brasil, a utilização bem ao jeito dos modernistas e dos tropicalistas brasileiros de um procedimento que lhes é caro. Todos esses pequenos detalhes se multiplicam para realizar uma função descritiva e para inscrever no texto o rumor social sobre o Brasil. Na sua prática de pastiche e de paródia dos discursos sociais, o escritor não se priva em utilizar a língua como material sonoro e visual para construir essa profusão de imagens e procurar tirar proveito dos efeitos rítmicos particulares, a acumulação produzindo uma aceleração e acentuando a impressão de simultaneidade. à‰ importante notar que essa construção cultiva os contrastes e se serve da hipérbole para melhor remeter à  memória discursiva sobre o Brasil. Assim, o recurso à  utilização de termos excessivos projeta uma figuração desordenada e desmedida do espaço brasileiro.

Um outro elemento importante, em relação com a oralidade, marca o discurso do narrador-personagem. Trata-se da dimensão dialogal da palavra que desloca o solilóquio como procedimento privilegiado pela autobiografia para simular a expressão direta dos pensamentos e sentimentos. A presença de um interlocutor (“como você poderia imaginar”) – o personagem do escritor e por extensão o leitor, destinatário último dessa palavra – reforça o registro da atualidade e tem a ver com o debate de idéias. Mesmo se a heterogeneidade locutiva do diálogo não se realiza plenamente, visto que é a palavra do narrador que predomina, a projeção do escritor enquanto personagem e interlocutor permite introduzir na narrativa flutuações de ponto de vista, tornando-a assim mais intensamente dramática; a estátua dirige o olhar para o escritor e seu mundo e torna-se por sua vez o objeto do olhar, nem sempre complacente, do escritor.

Essa estratégia torna o herói mais humano, mais próximo de nós, nem um vilão sanguinário (‘« Não, não eram os inocentes que eu queria atingir, embora não tivesse como poupá-los do medo e do terror”), [16] nem um herói, como o querem as narrativas biográficas que multiplicam geralmente as páginas destinadas à  fabricar uma identidade idealizada, como por exemplo a de Roger Vercel. Na sua biografia de Duguay-Trouin, Vercel coloca em destaque  as qualidades do corsário, transformando-o num modelo do herói francês. [17]

Contrastando com o discurso homogêneo de exaltação das virtudes heróicas e com a perspectiva característica de uma historiografia nacional e nacionalista, embora mantendo o contacto com a mesma, o texto do romance exibe sua desconfiança em relação à  história dos vencedores. Assim, a imagem da estátua, símbolo da comemoração reverenciosa [18] da nação, pode ser objeto de uma comparação com as prostitutas que se expõem publicamente nas vitrines de Amsterdam (p. 1). O que o romance busca é questionar a imagem que a nação projeta da história, o papel que as instituições de conservação da memória[19] (como o panteon de marinheiros onde se encontra a estátua de Duguay-Trouin) tiveram ao longo do tempo na construção da memória coletiva e o papel atual de turismo e business da memória que nossas sociedades modernas lhes reservam, onde todos os valores são suscetíveis de se transformar em mercadoria.

A inversão de perspectivas é um dos eixos que organizam a composição romanesca. A estátua pode também ser alvo do olhar zombador do escritor que o observa :

[‘€¦] me fincaram para sempre nesta pose ‘€“ indelével, vá lá ‘€“ de cartão postal, que à  primeira vista lhe decepciona, pareço-lhe menor do que era na sua imaginação, e algo esdrúxulo nestas vestes que me eternizaram, da indefectível peruca ‘€“ bastas melenas, e cacheadas ! – , aos nobres sapatinhos ‘€“ a gota já não me dói, que alívio -, assemelhando-me mais, assim lhe parece, a um bailarino do que ao senhor das águas e das tempestades, sei, você está achando que a minha figura não tem a mesma estatura do meu histórico de arauto do medo e do terror, e está mirando as minhas mãos com um olhar galhofeiro e estereotipado,[‘€¦] ‘» (O nobre seqüestrador, p. 15)

O texto funciona como uma superfície prismática onde se afrontam as diferentes facetas do passado e do presente: a estátua se vê refletida no olhar do escritor-personagem. Assim como este olhar manifesta de maneira irônica sua decepção face à  estátua, de modo análogo, ele se transforma em objeto de avaliação e tem, por conseguinte, seu sistema de valores questionado. Esse paralelismo aponta incessantemente as lacunas da história por intermédio das variações de perspectiva. O romance duvida da possibilidade de uma releitura do passado sem que esta seja contaminada pelos esquemas culturais do presente ; da mesma forma, ele exprime a impossibilidade de figurar o presente segundo os paradigmas do passado : ‘« Para onde quer que olhasse, tentava ver o Rio e o mundo, hoje, pelos olhos do corsário. Missão impossível. ‘» (O nobre sequestrador, p. 156). à‰ preciso portanto renunciar ao ideal de uma reprodução artística fiel à  era histórica concreta assim como é necessário desconfiar do ideal que consistiria a espelhar a experiência histórica imediata como queria Georges Lukacs. [20] Em O nobre seqüestrador, Antônio Torres não cai na armadilha da “ilusão histórica”[21] como certas declarações, retomadas pela imprensa, poderia nos levar a pensar. Já é coisa mais que sabida que o romance não é um simples reflexo da realidade e que a realidade não passa de um tecido de histórias contadas.

O nobre seqüestrador afasta-se de uma forma de concepção da relação entre ficção e história que se apoiaria numa correspondência imediata entre os dois e na possibilidade de representação objetiva da história. A consciência que o romancista manifesta das relações complexas entre diferentes configurações discursivas, a habilidade com que imita diferentes tipos de discurso e multiplica as vozes narrativas e os pontos de vista, a escolha que faz de um processo metadiscursivo que exibe as convenções da ficção mostram que, para esse escritor, a relação ao real não pode ser pensada fora da linguagem. à‰ por esse desejo voraz de se apropriar das diversas formas de recitar o mundo, para as fazer significar diferentemente, que o romance tece a história, que o romance faz História. Esta fatura desdobrada, própria à  prática discursiva literária, está inscrita na própria ambigüidade do título, O nobre seqüestrador podendo se referir, com um pequeno toque de ironia, tanto ao personagem histórico transformado em personagem do romance quanto ao escritor também transformado em personagem de sua história, como a estátua nos lembra: ‘« você veio até aqui para seqüestrar as minhas memórias ‘».

A instauração de uma ‘« mise en abyme ‘» do processo de criação manifesta uma autoconsciência da prática romanesca comum a uma das vertentes da ficção contemporânea. Pela figuração do escritor na cena romanesca em busca de um sentido e de uma palavra singular, a escrita mima sua fatura e faz da leitura seu análogo. Escrita e leitura realizam-se como uma atividade lúdica ; o percurso efetuado pelo escritor para dar um sentido à  suas fontes históricas aproxima-se daquele do leitor que procura deslindar a rede labiríntica do texto :

Você manuseia o monte de cartas e mais cartas à  Sua Majestade Sereníssima El-Rey Dom João V, então meu amo e senhor, enviadas por fiéis vassalos prostrados aos vossos Pés Reais, e fica tonto, com evidências de avariação no entendimento, como um cego no meio de um tiroteio verbal, o fogo cruzado das acusações, intrigas, revolta, queixas, palavrório folhetinesco.

Entendo o seu atordoamento diante deste cipoal léxico, vazado em termos de difícil decifração, em páginas empoladas e repetitivas.

(O nobre seqüestrador, p. 220)

Essa narrativa especular tende a dramatizar o processo de comunicação literária, multiplicando as máscaras do autor e do leitor. Desestabilizando os diferentes atores da narração, O nobre seqüestrador serve-se da autobiografia ficcional para construir identidades simuladas, a do corsário, mas também a da cidade do Rio de Janeiro.

Na terceira e última parte do romance, o papel de narrador-protagonista é atribuído à  cidade do Rio de Janeiro. De simples paisagem onde os acontecimentos se tramam, a cidade toma de assalto o primeiro plano da narrativa e torna-se o sujeito da enunciação. Lançando mão de uma situação enunciativa irreal, este processo de ostentação da ficção, contrariamente ao que se poderia esperar, não é seguido de uma representação fantasista da cidade. O texto romanesco, fiel à  sua escolha de explorar as fronteiras entre o ficcional e o real, projeta as tensões entre o espaço da pura ficção (evidenciado pelos procedimentos hiperficcionais que constituem a assunção da narração pela cidade e pela estátua) e uma representação realista do espaço urbano que articula as relações entre a memória do passado e os elementos da atualidade. O que está em jogo é o desejo de ultrapassar os modelos estanques de representação, fazendo coexistir a fabulação da realidade com elementos da estética realista, o fantástico e o factual. A própria noção de verossimilhança vê-se assim deslocada, dando lugar a uma nova relação com o  tempo e com a história.

O recurso ao artifício narrativo que investe a cidade do papel de sujeito da enunciação, na terceira parte do romance, pode também ser lido como um desejo de deslocar o centro de interesse da história do indivíduo para a memória histórica de uma comunidade. Assim é que, na composição polifônica do romance, a cidade se apropria da palavra para evocar o destino coletivo de um corpo social sofrido, espoliado e submisso; esta voz, que além de tudo é feminina, evoca os sofrimentos infligidos a seu corpo, recorrendo por momentos a um registro pungente que faz emergir a dimensão lírica e musical da prosa.

Se o romance segue de perto as informações de suas fontes historiográficas para reconstruir a memória da cidade, isso não o impede de manifestar uma visão singular e particularmente negativa que faz coincidir a história da cidade com a da sua degradação. Desse modo o texto percorre as múltiplas marcas de transformações inscritas no corpo da cidade, ao longo do tempo, para lançar uma ponte entre o passado e o presente, visando conferir uma densidade histórica à  violência, à  corrupção, à  injustiça social, elementos essenciais na figuração da megalópole atual. Por conseguinte, o presente aparece modelado pelo passado, sujeito à  decomposição, ao desmoronamento dos valores, a uma ordem social injusta e caótica. O término do romance revela uma atmosfera impregnada de mal-estar, de sentimento de regressão, de recuo no tempo.

O nobre seqüestrador, no seu esforço de compreensão do real, só faz acentuar paradoxalmente o sentimento, ao qual se refere o historiador Eric J. Hobsbawm, que o passado perdeu sua função no presente :

à€ la fin de ce sià¨cle, il est devenu possible pour la premià¨re fois de voir à  quoi peut ressembler un monde dans lequel le passé, y compris le ‘« passé dans le présent ‘», a perdu son rôle, o๠les cartes et les repà¨res de jadis qui guidaient les êtres humains, seuls ou collectivement, tout au long de leur vie, ne présentent plus le paysage dans lequel nous évoluons, ni les mers sur lesquels nous faisons voile : nous ne savons pas o๠notre voyage nous conduit ni même o๠il devrait nous conduire. [22]

Em O nobre seqüestrador, a experiência do real imediato surge em toda sua absurda violência, sem ter incorporado nada da experiência do passado e sem nenhuma esperança no futuro. Há muito tempo que a noção de história repeliu a idéia de um progresso da humanidade. Em seu lugar, o romance insiste numa visão imóvel da história ou projeta, na melhor das hipóteses, a imagem crepuscular de um desencanto pós-modernista que ele compartilha com outros textos contemporâneos, inclusive aqueles que figuram a violência e a miséria das metrópoles. à‰ a sua maneira de fazer História.

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[1] Ver Terra Papagalli de José Roberto Torero e Marcus Aurélius Pimenta (2000) ; Assis Brasil, Breviário das terras do Brasil : uma aventura no tempo da inquisição (1997) ; Assis Brasil (Francisco), Nassau : sangue e amor nos trópicos (1990) ; Ana Miranda, O retrato do rei (1991) entre outros.
[2] Antônio Torres, Meu querido canibal, Rio de Janeiro : Record, 2000.
[3] Antônio Torres, O nobre sequestrador, Rio de Janeiro : Record, 2003.
[4] Sobre o assunto remeto ao artigo de Vera F. de Figueiredo, ‘« Da alegria e da angústia de diluir fronteiras : o romance histórico, hoje, na América Latina ‘», in 5’° Congresso da Abralic ‘€“ Anais V. I Cà¢nones e contextos – UFRJ, 1996, p. 479-486.
[5] ‘« Sur le terrain du post-modernisme, la sociocritique, en analysant des textes aussi différents que [‘€¦], pourrait alors clarifier les vrais ou les faux débats autour du post-modernisme en mettant à  jour ce travail idéologique du texte à  propos d’un enjeu fondamental, le passé ; la vision de l’Histoire qui travaille dans le texte qui est travaillée et produite par le texte ‘». Ver Régine Robin, ‘« Pour une socio-poétique de l’imaginaire social, in Jacques Neefs et Marie Claire Ropars, La politique du texte : enjeux sociocritiques, Lille : Presses Universitaires de Lille, 1992, p. 95-121.
[6] Sobre as convenções de ficcionalidade e de veracidade, consultar o artigo de Walter Mignolo, ‘« Lógica das diferenças e política das semelhanças : da literatura que parece história ou antropologia e vice-versa ‘» in Literatura e história na América Latina, textos reunidos por Ligia Chiappini e Flávio de Aguiar, São Paulo : EDUSP, 2001, p. 115-135.
[7] Dorrit Cohn, ‘« Vies fictionnelles vs vies historiques. Limites et cas limites ‘», Le propre de la fiction, Paris : Seuil, 2001, p. 36.
[8] Gérard Genette , Fiction et diction, Paris : Seuil, 1991, p. 59.
[9] Antonio Candido, ‘« Poesia, documento e história ‘», Brigada ligeira e outros escritos, São Paulo : EDUSP, 1992, p. 45-60.
[10] Fernanda Irene Fonseca, num estudo intitulado Deixis, tempo e narração, (Porto : Fundação Engenheiro António de Almeida, 1992), insiste sobre essa capacidade que tem a linguagem de se deslocar de maneira fictícia e de configurar outros mundos possíveis.
[11] Paul Ricœur, Temps et récit II, La configuration dans le récit de fiction, Paris : Seuil, p. 43.
[12] Jean Molino, ‘« Qu’est-ce que le roman historique ? ‘», Revue d’Histoire Littéraire de la France, mars-juin 1975, n’° 2-3, p. 195-234, Paris : Armand Colin, p. 215.
[13] René Duguay-Trouin, Mémoires, Saint-Malo : Editions l’Ancre de Marine, 2000, p. 8.
[14] ‘« Primeiro, a atualização da linguagem implica a atualização do narrador. Duguay-Trouin viveu no século XVIII, mas a voz que por ele fala, no romance, é do século XXI (esta é uma das transformações do romance histórico contemporà¢neo). Isto quer dizer que a História é vista com a devida revisão temporal ‘», in Paulo de Tarso Pardal, ‘« Bom de ler ‘», Diário do Nordeste, Fortaleza, 25-01-2004. Miguel Sanches Neto também chama a atenção sobre as relações entre linguagem e configuração temporal: ‘« Mas quem fala não é o homem de carne e osso, e sim sua estátua, numa referência ao mito de Pigmaleão, rei lendário de Chipre. Por se apaixonar pela estátua esculpida por ele mesmo, faz com que ela viva e ganhe voz. à‰ assim o corsário criado pela imaginação de Torres a partir dos documentos e da imaginação. Perdendo a condição de monumento, entra em cena, já na primeira parte, a figura desabusada do seqüestrador do Rio que, de tanto conviver com os turistas, não ficou preso à  língua de seu tempo, valendo-se de termos contemporà¢neos ‘», in ‘« Corsários de ontem, bandidos de hoje ‘», Gazeta do povo, Curitiba, 19-04-2004.
[15] [‘€¦] ‘« les références saturées d’imaginaire social ‘», Régine Robin, ‘« Pour une socio-poétique de l’imaginaire social, in Jacques Neefs et Marie Claire Ropars, La politique du texte : enjeux sociocritiques, Lille : Presses Universitaires de Lille, 1992, p. 112.
[16] O nobre seqüestrador, p. 24.
[17] ‘« [Duguay-Trouin] offrait déjà , dà¨s son vivant, tous les traits du héros français, tel qu’on l’imagine chez nous quand la mort a fait son œuvre de transfiguration. Il était beau et de fià¨re tournure, courtois et galant [‘€¦]. Il avait derrià¨re lui tout un passé d’audaces téméraires, d’exploits qui tenaient du miracle ‘». Roger Vercel, Visages de corsaires, Paris : Albin Michel, 1996, p. 165, (1à¨re édition 1943).
[18] ‘« commémoration révérencieuse ‘», Paul Ricœur, Temps et récit 1, Paris : Seuil, 1983, p. 34.
[19] Gérard Namer, Mémoire et société, Méridiens/Klincksiek, 1987, p. 9.
[20] Georges Lukács, Le roman historique, Paris : Payot, 2000, p.17.
[21] ‘« Illusion historique ‘», expressão empregada por Claude Duchet no seu artigo ‘« L’illusion historique : l’enseignement des préfaces (1815-1832) ‘» : ‘« il en est de l’illusion historique comme de l’illusion réaliste. Elles sont du reste interchangeables et se relaient sans cesse dans l’évolution des formes romanesques, l’effet de l’histoire étant homologue de l’effet de réel et remplissant les mêmes fonctions dans l’économie narrative. ‘» Revue d’Histoire Littéraire de la France, mars-juin 1975, n’° 2-3, p. 245-267, Paris : Armand Colin, p. 265
[22] Eric J. Hobsbawm, L’à¢ge des extrêmes. Histoire du court XXe sià¨cle 1914-1991, Bruxelles : Editions Complexe, 1999, 2003, p. 38

Universidade do Porto

Maria de Fátima Marinho
Resenha publicada em Terceira Margem, revista de estudos brasileiros da Universidade do Porto, vol. 5, 2004.

Nas últimas décadas do século XX houve um recrudescimento do interesse pela reconstituição do passado, só semelhante ao ingénuo entusiasmo romà¢ntico do início de oitocentos. Sabemos, porém, que a preocupação didáctica tão cara aos autores dessa época, não encontra paralelismo na actualidade, dada a quebra iniludível da crença na possibilidade de reconstituições fidedignas e definitivas. Todo o romance pós-moderno se debate com essa ambiguidade e tenta, dos mais variados modos, preencher a falência do real com a legitimação do seu questionamento.

à‰ essa a aposta de António Torres que, ao publicar O Nobre Sequestrador , pretende, aparentemente, penetrar no carácter do corsário francês que invadiu a cidade do Rio de Janeiro em 1711, mas que, na realidade, parece comprazer-se na busca de identidades trans-temporais, que validem a teoria de um eterno retorno, propício à  compreensão do presente através de acontecimentos passados.

Logo no Prefácio, que tem o curioso título, ‘«Prefácio a uma história da História colonial portuguesa’», o autor empírico enuncia os princípios norteadores da obra que se segue. Não só comenta o próprio título do romance, aludindo à  ironia que lhe está subjacente, como estabelece à  partida, e para que não haja dúvidas, o teor das relações entre os dois discursos, eternamente em confronto: ‘«Conquanto o que se tem aqui é um interface entre Literatura e História, e que este autor se tenha esforçado à  exaustão para não trair os factos históricos que suportam o seu relato, é a dialéctica do discurso ficcional que se impõe neste livro (…)’» (p.9). A evidência desta afirmação que, no entanto, parece necessitar de constantes reiterações, é ainda completada com uma outra que não foi de todo alheia aos escritores românticos, mas que ganha significados inusitados na reescrita da História levada a cabo na pós-modernidade: ‘«E porque a História se repete, se repete, se repete’» (p.10).

Esta noção acaba por ser fundamental para a compreensão do universo diegético convocado e da reconstituição histórica efectuada, que se estilhaça em vários artifícios, estruturados em torno da pessoa narrativa utilizada. A primeira parte do romance cede a voz ao protagonista, o corsário René Duguay-Trouin, que, no século XVIII sequestrou a cidade do Rio de Janeiro, como pretensa represália pela morte de Duclerc, detido pelos portugueses em prisão domiciliária. Este processo que se iniciou, talvez, com Robert Grave, em I Claudius (1934), terá alguma fortuna em romances subsequentes, como o célebre Mémoires d’Hadrian de marguerite Yourcenar e outros das literaturas ocidentais. Temos, assim, a personagem a narrar a sua própria vida, interpelando frequentemente o leitor, de quem parece conhecer o íntimo e as reacções, leitor, contemporà¢neo do tempo da enunciação, mas não do herói (‘«Você já andou a investigar a minha vida amorosa. Recorreu até a um cartório de Rennes: René Duguay-Trouin teve mulher? Chegou a casar-se?’», p.63), ou pressupondo a sua presença implícita através de marcas textuais inegáveis (‘«(…) não me fiz ao mar logo de caras, assim que me dei por gente, como você poderia imaginar, você que veio de longe (…)’», p.17). Este narrador, cuja focalização é, por assim dizer, exclusiva, e que usa com alguma frequência períodos demasiado longos que podem querer indiciar a fictícia oralidade presente no discurso, recorre também a analepses para, ao dar a conhecer as suas origens e vida anterior, explicar melhor a actuação presente, seja em relação à s mulheres ou aos fenómenos políticos e sociais, seja na análise dos seus sentimos mais íntimos, como a solidão ou o desespero provocado pela doença. Aliás, o corsário assume-se como uma espécie de estátua falante, isto é, continua a narrar acontecimentos posteriores à  sua morte, afirmando a intemporalidade própria das estátuas: ‘«Eu sei. Isto foi depois da minha passagem pelo mundo.’» (p.43). E, na linha de um Machado de Assis, de Memórias Póstumas de Brás Cubas, assistimos ao relato do seu trespasse, com a ironia que é peculiar a todo o discurso: ‘«Portanto: eu, René Duguay-Trouin, corsário de Luís XIV e tenente-general de Luís XV, morri aos sessenta e três anos, três meses e 17 dias, numa imensa casa em Paris, na rua Richelieu, livrando-me de uma vez por todas das doenças que me consumiram durante quinze anos. Fui enterrado no dia seguinte numa cave da capela da Santa Virgem, na igreja paroquial de Saint Roch, até satisfeito por ter sido um marinheiro com o privilégio de um caixão.’» (p.108). A ironia, patente neste excerto, subjaz, como dissemos, ao fio narrativo, destruindo, de certa forma, a seriedade que se poderia inferir de um relato de conquista, pilhagem e resgate. Os próprios títulos de alguns capítulos (‘«Saint-Malo para principiantes’», p.110) ou a voluntária afirmação de possíveis interferências temporais, como é o caso da suposta conversa entre o protagonista e o autor empírico (‘«Espero que não esteja [um amigo inglês do autor] zangado comigo por causa daquela vez que hasteei a bandeira de Inglaterra a meia haste.’», p.121), contribuem para criar a dimensão lúdica que se actualiza também em jogos de palavras (‘«O arrasador do Rio ficou arrasado’», p.98) e nos vários juízos que vão sendo emitidos sobre o simples quotidiano ou sobre o próprio fazer da História, que se revela detentora de várias verdades e de várias leituras.

Não são raras as análises de factos e lugares do passado e seu confronto com o presente, como não é rara a alusão à  opinião dos vindouros. à‰ claro que através da narração do corsário perpassam não só os momentos factuais (batalhas, negociações, etc), como comentários, em geral certeiros e mordazes, ao Brasil, aos portugueses, à  tomada do Rio, à  conjuntura política e à  figura de Luís XIV.

A segunda parte do romance é narrada em 3’ª pessoa (a do autor empírico) que conta novamente os eventos que já conhecemos, com diferente focalização. A partir de determinado momento, a narração é feita sob a forma de diário, o que parece conferir maior credibilidade e verosimilhança ao relato, apesar da nítida consciência da relatividade da História e dos juízos opostos que, inevitavelmente, surgem.

Entre a primeira e a segunda partes, há um capítulo intitulado ‘«Intervalo’», que alude à  violência existente no Rio de Janeiro do século XXI, e que percebemos destinar-se a marcar o paralelismo entre o saque do século XVIII e a actualidade. Este pequeno texto intercalar prepara a terceira e última parte do romance, narrada novamente em primeira pessoa, mas com um narrador diferente. Agora é a vez da cidade do Rio de Janeiro se fazer ouvir, contando a sua história e tecendo comentários a conhecidas figuras do passado, como D. João VI ou Napoleão, sempre com uma ironia que, ao retirar seriedade, confere, paradoxalmente, verosimilhança: ‘«No entanto, Napoleão Bonaparte pode até ser considerado um benemérito deste país. Graças a ele devemos a vinda de D. João VI, o príncipe feio, cornudo e comedor de frango que, no entanto, mudou a minha história. E a do Brasil? (p.214). O ‘«Post-Scriptum’» tem uma função semelhante à  do ‘«Intervalo’». O título ‘«Narcotráfico ataca em várias frentes. Rio vive dia de terror’», datado de 25 de Fevereiro de 2003 (p.219), estabelece tacitamente a semelhança ou a repetição de situações que fazem jus à  condição circular da História, a que se aludia no Prefácio.

Visão desassombrada, crítica e epistemológica do passado, o presente romance não se limita a reconstituir a vida de um corsário francês de setecentos, mas serve-se de factos aparentemente terminados para fazer reflectir sobre a precariedade de uma época que só se distingue das anteriores por um verniz civilizacional.

História com humor

Estado de Minas – Sábado, 30 de agosto de 2003
Clara Arreguy

O novo presente literário do escritor Antônio Torres a seus leitores é o romance O Nobre Seqüestrador, que mescla uma série de vozes narrativa para dar vida à  saga do corsário francês René Duguay-Trouin, responsável pela invasão de uma esquadra de seus país ao Rio de Janeiro, em 1711, que resultou em pagamento de resgate em ouro, dinheiro e bens, para a libertação da cidade sitiada. Para contar as aventuras dos corsários, naquela e em outras campanhas, mais os ‘€œfeitos’€ dos portugueses do Brasil, e ainda completar com a história da própria cidade do Rio de Janeiro, entrecruzam-se no romance narradores e tempo, sempre com senso de humor especial.

Começa pela voz da estátua de Duguay-Trouin em Saint-Malo, cidade natal do marinheiro, que conta suas venturas e desventuras, da infância numa família rica à s aprontações como estudante, primeiro no seminário, depois na escola de filosofia ‘€“ mas com aprendizado, mesmo, de malandragem e brigas. Há também a presença de outro narrador, o próprio escritor brasileiro, instigado por suas pesquisas a viajar para a Europa e investigar a importância de Duguay-Trouin para aquele momento histórico do planeta.

Por fim, quem assume a narração dos fatos é o Rio de Janeiro de própria voz, que conta sua história, desde os primórdios selvagens em que vivia até a chegada dos índios, posteriormente dos portugueses, as tentativas d invasão dos franceses, depois a vinda de dom João VI com sua corte de milhares de ‘€œnobres’€, a Independência, o crescimento urbano e, hoje, como os movimentos da bandidagem promovem novos (e assustadores) cercos e seqüestros da segurança e bem-estar da população da cidade.

O bom humor de Antônio Torres faz ainda mais interessantes os episódios em torno dos envolvidos (cidades, personagens, fatos históricos). Promove momentos de reflexão sobre os interesses políticos e econômicos que moveram os corsários ‘€“ que ele explica serem piratas que agiam sob ordens de determinado país, e não por mero interesse privado ‘€“, sempre com comentários inteligentes e atualíssimos.

O Nobre Seqüestrador faz romance histórico sem se ater à s técnicas convencionais de narração, mas explorando todas as possibilidades que a escrita contemporânea permite. Dialoga com o leitor de forma a fazê-lo penetrar o universo do século XVIII sem perder o pé no XXI, com o senso crítico acentuado e a curiosidade de conhecer mais e mais as paisagens descritas: Saint-Malo (cuja história também tem vez), La Rochelle, baía de Guanabara. Um romance que se lê com rapidez e prazer redobrado.

Antônio Torres nasceu na Bahia, em 1940, e é um dos mais reconhecidos e premiados autores brasileiros de sua geração. Tem entre suas obras Um Cão Uivando para a Lua, Essa Terra, Um Táxi para Viena d’€™àustria, O Cachorro e o Lobo, Balada da Infância Perdida e Meu Querido Canibal.

O Nobre Seqüestrador, por Lídia Jorge

Lídia Jorge é uma das mais conceituadas escritoras portuguesas, autora de romances memoráveis como ‘€œA Costa dos Murmúrios’€, Lídia Jorge está publicada no Brasil pela Editora Record. 

Por que razão, escritores que iniciaram os seus percursos com livros concebidos a partir da realidade envolvente, chamando para o seu interior experiências que lhes são contemporà¢neas, em determinada altura, passam a interessar-se pelo passado e entregam suas vidas e sua criatividade a figuras históricas cujo perfil é precioso ir procurar tão atrás? ‘€“ Presume-se que pelo simples facto de que nessas figuras do passado, o autor encontra uma detonação própria que lhe ilumina o presente. Não é essa uma das formas de abarcar a poética do tempo? No caso do escritor brasileiro Antônio Torres, o prefácio que o próprio antepõe a uma das edições do seu último romance, ‘€œO Nobre Seqüestrador’€, tentando explicar a razão duma aparente distà¢ncia entre si e a personagem do livro, explicita esse tipo de ligação, referindo-se ao contraponto analógico que o motiva. E assim, no rescaldo do sucesso que o seu livro alcançou no Brasil, o autor desvenda o cerne dessa narrativa ‘€“ Isto é, o pirata francês, que em 1711 seqüestrou, saqueou, vilipendiou de todos os modos a cidade do Rio de Janeiro, segundo Antônio Torres, encontra seu sucedà¢neo interno, ainda nos dias que correm, na violência e no temor que assaltam por dentro uma das mais extraordinárias cidades da Terra.

O romance do célebre escritor brasileiro é assim uma espécie de explicação à  rebours, de como o mais célebre corsário de Luís XIV, falecido em 1736, continua a enviar bombardas sobre ruas e praças do Rio, e como os portugueses, movidos pela soma dos seus vícios endémicos, continuam presentes nas escaramuças emocionais da sociedade carioca contemporà¢nea. Como a colônia, tecida na cobiça malandra dos vários colonizadores ‘€“ os que persistiram e os que foram pagos para abandonarem o território ‘€“ engendrou casamentos genéticos que se desdobram em ondas sucessivas através da História, e cuja complexidade é preciso reconstituir na interioridade psicológica das personagens individuais para se fazer entender. Consciente disso mesmo o escritor ‘€“ uma terceira pessoa, aqui e ali disfarçada de anônimo brasileiro ‘€“ diz ter-se interessado pela figura do pirata René Duguay-Trouin, só depois de haver lido a célebre frase de George Orwell ‘€“ ‘€œAquele que tem o controle do passado tem o controle do futuro. Aquele que tem o controle do presente tem o controle do passado‘€.

Claro que ao papel do autor-personagem sobeja-lhe a avisada função de dizer que não lhe dá ‘€œpara ter o controle sobre coisa nenhuma’€. Pois não poderia ser de outra forma. Antônio Torres, como grande escritor que é, sabe que o papel da ficção consiste apenas em subverter a lógica dos domínios, e em transformar essa consciência na matéria do seu próprio discurso literário, por definição oscilante e descomprometido com a própria verdade. A história picaresca que o autor de ‘€œO Nobre Seqüestrador’€ conta a partir da boca de bronze do pirata-herói, talhado em estátua diante do mar de Saint- Malo, é apenas um eco contra a barreira do passado e da lonjura. Por alguma coisa a frase leitmotiv da narrativa, e sobretudo a primeira frase do personagem pirata, escondida na designação do primeiro capitulo, consiste em declarar a dificuldade de enxergar ao longe ‘€“ Por mais que eu olhe nunca avisto Niterói. Ou então ‘€“ ‘€œPor mais que eu olhe, só vejo torres que se tornaram monumentos, só avisto as ruínas da História…’€. Vai dizendo a personagem brasileira ao longo do texto. O que indica a impossibilidade trágica de alcançar-se o outro lado, seja ele o da geografia, seja o da carne ou do espírito dos homens.

O que significa por outro lado que Antônio Torres, com os ingredientes da sua pesquisa e da sua interpretação sobre um momento tão singular do passado, em que Brasil, França e Portugal se encontraram numa encruzilhada pestilenta da História, bem poderia ter criado uma ficção solene, radicada na vingança do julgamento e na descrição dramática em torno do caso de um duplo, o facínora de cá, o herói de lá, o triste ambicioso para todos, e para nada. E nessa linha de idéias, até que poderia ter escrito um romance carregado de dores e maldições, invectivas contra a face macabra da existência das nações, a hipocrisia e pusilanimidade portuguesas, e o seu respectivo legado, bem recebido e bem alimentado pela terra brasileira. O seu material poderia servir para tanto e tudo mais. Mas o engenho do autor desviou-o dessa eventual expectativa.

Ao contrario do que sucede com o romancista histórico comum, Antônio Torres preferiu desenxovalhar os olhos e sorrir sobre o assunto, emprestando à  narrativa um ponto de vista irônico, gracioso, e até divertido, sem cair no que poderia ser o perigo contrário ‘€“ a tentação do galhofeiro ou do grotesco. Ao invés, ultrapassando todo o tipo de convenção protocolar na matéria, ao logo deste livro, o corsário de Luís XIV e Antônio Torres, enquanto personagens, namoram-se, olhos nos olhos, e falam diante do outro, como se fossem conhecidos de há trezentos anos, e o tempo que vivem lhes fosse comum, e a vida das suas nações continuasse a ser partilhada por ambos, relatando-se reciprocamente, com a invenção e a arte bastantes para manter o leitor suspenso da primeira à  última página. E é essa intimidade que tem dois vestidos, o do bronze e o do pano puído, que sustentam a ambigüidade e a escrita. Ou por outras palavras, em ‘€œO Nobre Seqüestrador’€ fala e escuta fazem-se face a face, e voam por cima do Atlà¢ntico, como se fossem pássaros pairando sobre as convenções da decência da Literatura e dos esconderijos do tempo, e essa sensação de fusão de vozes é o grande sortilégio deste romance. Por vezes as vozes até provêm de outros corpos, como se por perto todos os seres tivessem língua, por exemplo, a língua duma própria cidade, debruçada sobre a água duma baía. Fala assim o Rio de Janeiro, a antiga Praça do Rei ‘€“ Quando eles se foram embora, eu, a Praça do Rei, olhei-me no espelho das águas e o que vi foi uma meretriz de beira de cais, desgrenhada, ofendida, estuprada, malcheirosa, abandonada. Arrombada até mais não poder por uns três mil homens suados, sujos, fedorentos. Não havia perfume no mundo capaz de tirar o cheiro que aquela soldadesca francesa deixou no ar. ‘€“ E assim por diante. Resta dizer a Antônio Torres, que para quem escava na terra com imaginação, todas as mortalhas que uma pessoa encontra estão vivas.

Ainda bem, pois, que a editora ‘€œFio da Navalha’€ apostou neste livro e lhe manteve os ícones plásticos que o preenchem, transformando-o também num objecto de sedução. Porém, o excerto escolhido para texto de contracapa, retirado do capítulo ‘€œFalemos de Mulheres’€, talvez induza o leitor que se guia pelas badanas a um certo erro de apreciação. Naturalmente que mesmo nesse domínio, o livro de Antônio Torres é alguma coisa mais interessante do que a descrição das cópulas. Neste livro, o lado lúdico da personagem é bem mais amplo do que o libidinoso. Mas o que importa ressaltar é que a ‘€œFio da Navalha’€ propõe aos leitores portugueses um escritor de grande qualidade, no que é secundado pela publicação de ‘€œMeu Querido Canibal’€, dado à  estampa em simultà¢neo pela editora ‘€œFigueirinhas’€, livro que parece construir um ensaio prévio, no sentido literal e figurado do termo, em relação a ‘€œO Nobre Seqüestrador’€. Que os dois volumes tenham aparecido quase em simultà¢neo, em Portugal, é uma feliz coincidência. Oxalá os leitores portugueses os estimem como merecem e disso dêem recado.

*Uma das mais conceituadas escritoras portuguesas, autora de romances memoráveis como ‘€œA Costa dos Murmúrios’€, Lídia Jorge está publicada no Brasil pela Editora Record.