Notas de um escritor nativo

Aula Inaugural do Instituto de Letras da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 28/03/2000

Queridos calouros:

Vocês estão chegando à universidade no ano em que o mundo ia acabar. Para a sorte de nós todos, as profecias não se cumpriram, embora algumas vezes me baixe a sensação de que este velho mundo já acabou mesmo e eu próprio não seja mais do que um zumbi martirizado do tempo, a contemplar na linha do horizonte a fumaça do grande incêndio anunciado desde a minha infância, quando, ao pôr-do-sol de cada dia, os homens guardavam as suas enxadas, para pitar um cigarro de palha e filosofar diante do crepúsculo. A vermelhidão do céu era sempre motivo de reflexões sobre o fim do mundo que, na crença de todo um povo, não passaria do ano dois mil. Imaginem o que é alguém ter se criado num cenário como este, onde todo dia era o dia do crepúsculo do mundo. Ou ia ficar doido, ou se tornar um romancista.

Numa carta datada de dois de julho de 1991, que guardo até hoje, o jornalista e escritor Geneton Moraes Neto relata o seguinte: “O sol uma vez parecia que ia pegar fogo de verdade no céu de uma cidade do interior, num final de tarde da minha infância. Minha mãe me dizia que aquilo podia ser o fim do mundo. O céu nunca tinha ficado tão vermelho. Fiquei esperando, naquele fim de tarde, o incêndio que nunca começou. Se eu fosse escrever um conto para jogar no fundo da gaveta, diria que a vida não pode ser um incêndio adiado. É melhor que o céu pegue fogo logo.”

Não é difícil compreendermos a angústia de uma criança diante dessa espera, a espera do fim do mundo, que o Geneton tão bem evocou naquela carta. Nossos pais creditavam-na ao lendário Antônio Conselheiro, aquele que liderou o movimento messiânico que culminou com a Guerra de Canudos, na Bahia, de 1896 a 1897, não por acaso chamada de “a guerra do fim do mundo.” Na verdade a profecia vem das Escrituras, na advertência de Deus a Noé, depois do dilúvio. Assim está escrito: “E Deus concedeu a Noé o sinal do arco-íris; não mais a água – da próxima vez, o fogo.”

Nos anos sessenta um escritor norte-americano chamado James Baldwin, tão admirável quanto duplamente discriminado, por ser negro e homossexual, transformou o versículo bíblico sobre o fim do mundo num libelo impressionante contra o racismo, ao escrever um livro intitulado”Da próxima vez, o fogo,” que virou best-seller e se tornou um documento importante para os movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos. E aqui já começamos a trazer a questão para o nosso campo – o das letras. Para propor uma releitura da história do fim do mundo que não houve. Como metáfora.

Tragamos o fogo para dentro de nós mesmos, como o James Baldwin o levou às consciências norte-americanas. Para incendiar o mundo – de idéias, arte e beleza. E esse é que é o incêndio que não pode ser adiado.

Agora, fim de mundo mesmo é morrer de sede na terra de Canaã.

É importar feijão numa terra onde, em se plantando, “nela dar-se-á tudo.”

São as desigualdades gritantes que se escancaram diante de nós.

É todo esse quadro deplorável de injustiças, crianças sem escolas, pais sem emprego, etc etc, etc, corrupções, impunidades, a geléia geral que a TV Globo anuncia, a nós todos, espectadores impotentes diante de uma realidade de violência ameaçada pelo caos.

Como dizia o finado André Gide, por favor, não me entendam depressa demais. Não é meu propósito aqui tornar-me um panfletário fora de tempo e lugar. Sei. Seria mais palatável oferecer-lhes umas abobrinhas de fácil digestão. Mas aí o espírito do finado Oduvaldo Viana Filho, o nosso Vianinha, aquele cristão que morreu antes da hora, me convoca a uma penosa reflexão: “O brasileiro precisa olhar no olho a tragédia do seu país.” Um caso a pensar, embora eu desconfie, com ou sem razão, que o pensar, hoje, é um assunto fora de moda. Mas venho de um tempo em que as pessoas pensavam. E com arte e beleza. Como o Gilberto Gil, por exemplo, quando cantava coisas assim: “Eu, brasileiro, confesso/ minha culpa, meu degredo/ meu sonho desesperado/meu irrevelado segredo/ Isto aqui é o fim do mundo/ isto aqui é o fim do mundo…/ Pão seco de cada dia/ tropical melancolia… Isto aqui é o fim do mundo/ isto aqui é o fim do mundo…”

Enquanto penso que já não mais pensamos, eis que chega um poeta do Ceará, chamado Adriano Espínola, e me entrega um poema que é um primor de síntese, intitulado “Avenida Brasil”. É, Avenida Brasil. E é assim: “Atenção, devagar: / assalto à mão armada/ a 100 m. / Atenção, não olhe: / espancamento e estupro/ a 200 m./ Atenção, não se abale: / assassinato e roubo / há 500 anos.”

Agora chegamos a outro fim de mundo: a comemoração destes 500 anos. Afinal, o que temos a comemorar? O extermínio, a cada século, de um milhão de indígenas, o povo que estava aqui quando os brancos chegaram? A escravidão dos negros, apanhados a laço em suas terras e trazidos debaixo de chicote, nos famigerados navios negreiros? A fúria extrativista dos invasores, a expropiar a flora, a fauna e o solo? Não. A conquista e colonização dessa terra não foram feitas com rosas, sabemos todos. Mas com cobiça, violência e sangue.

Ora, se até os vice-reis do Rio de Janeiro, que governaram o país de 1763 a 1808, ficavam horrorizados com a escória que encontraram aqui, por que nós também não vamos nos horrorizar, hoje, ao lermos os relatos deles à corte portuguesa? Nesses relatos, eles diziam que os homens que cá estavam não vieram para construir um país, mas para se enriquecerem o mais depressa possível – nem que para isso tivessem que arrasasar a terra. Podem conferir no livro “O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis”, do extraordinário cronista carioca Luiz Edmundo, autor também de “O Rio de Janeiro no tempo de D. João VI” e “O Rio de Janeiro do meu tempo”, obras que, entre tantas outras, nos levarão a concluir que as bandas podres vêm há muito do tempo, no país dos náufragos, piratas e aventureiros. Qualquer semelhança entre o passado e o presente, não será mera coincidência.

Ainda assim, ou seja, mesmo aos trancos e barrancos, o país se fez. Temos um país, sim, multifacetado, multiracial, multicultural, multitudo, com um potencial humano fantástico, mas ainda atado aos grilhões do seu passado colonial e subjugado, além da conta, creio eu, às reengenharias das novas dominações universais. Quinhentos anos depois do tão comemorado descobrimento, ainda não atingimos os níveis desejáveis na conquista e repasse de conhecimentos, distribuição de riquezas e tudo o mais que vocês sabem por experiência própria. O pior é que podia ser bem pior. Sempre que penso nisso – e estou sempre pensando nisso -, rezo um Pai Nosso e uma Ave-Maria pela boa alma de Napoleão Bonaparte, o que pôs D. João VI para correr, até dar com seus costados nestas bandas, e trazendo toda a corte portuguesa, que aqui, nesta cidade, se instalaria, revertendo o mando, com o Rio de Janeiro passando a ser a sede do poder, e a comandar o império português, na maior revolução administrativa da nossa história.

Se há um personagem dessa história que precisa ser olhado com respeito e, até, alguma ternura, é ele mesmo, o desafortunado D. João VI. Achincalhado no cais de Lisboa, quando até ovo podre lhe jogaram na cara, na sua fuga para o Brasil, ele viria amar verdadeiramente este País. Mas dele só nos lembramos pela beiçola, a feiúra, o seu lado grotesco beirando o ridículo, como o hábito de encher os bolsos com pedaços de frango, e pelos chifres com que a mulher enfeitava-lhe a cabeça, o que era público e notório. Com isso, esquecemos todo o bem que nos fez. Até à sua chegada, o Brasil não produzia sequer um alfinete. Na condição de colônia, dependia de Portugal para tudo. E como Portugal não produzia utilidades que pudessem atender as necessidades além-mar, havia carência de tudo: facas, tesouras, talheres etc. Como vocês sabem, D. João VI chegou à Bahia no dia 22 de janeiro de 1808. Seis dias depois, decretou a abertura dos portos às nações amigas, ou seja, à Inglaterra. Só que os ingleses se equivocaram na primeira remessa de mercadorias. Por pensarem que isto aqui ficava no Polo Norte, enviaram pesados cobertores e patins para o gelo, que ainda assim foram muito bem recebidos, tal era a carência de tudo. Os patins foram desfeitos e o seu material transformado em facas, garfos, tesouras. E os cobertores enviados para os garimpeiros em Minas Gerais. Ao se instalar no Rio, em lo. de abril de 1808, D. João VI revogou o alvará de 5 de janeiro de 1785, que proibia a instalação de manufaturas no Brasil. E foi aí que o País começou a prosperar de ano para ano, enquanto Portugal entrava em dificuldades. Não custa nada lembrar o mais que ele fez: trouxe os 14 mil livros e documentos, salvos do terremoto de Lisboa, em 1755, e que deram origem à Biblioteca Nacional; trouxe a primeira instituição de ensino superior do País, a Escola Naval, criada por sua mãe, D. Maria I, à semelhança da Escola Naval Britânica; criou o Jardim Botânico e a Escola de Astronomia; elevou o Brasil a Reino Unido de Portugal e Algarves, em 1815; em 1816, promoveu a vinda da Missão Artística Francesa, de tanta influência na arquitetura da cidade; em 1820, inaugurou a Praça do Comércio, onde hoje é a Casa França Brasil, que deu origem à Associação Comercial do Rio de Janeiro. Aqui, foi aclamado rei, em 1818, quando os comerciantes o saudaram como o libertador do comércio. Ao contrário de sua mulher, que cada vez mais odiava os brasileiros e o traía sem parar, D. João VI sentia-se bem no Rio de Janeiro. Mas Portugal, às voltas com prejuízos políticos e comerciais, exigia o seu regreso. Se ele não retornarsse a Lisboa, perderia o trono. Voltou, embora contrariado, em 1821, deixando o seu filho Pedro como regente. D. João VI morreu em 1826. Envenenado. Morreram também o médico, o cirurgião e o cozinheiro. Para não ficar testemunha. Foi uma queima de arquivo geral.

Grande personagem, esse D. João VI. Seu destino foi de uma teatralidade shakespeareana. Numa crônica comovente, o escritor português Raul Brandão pintou-lhe o seguinte retrato:

“Grotesco, feio, com a existência aos baldões, sem um bocadinho de ternura (a morte leva-lhe todos os amigos), rei ainda por cima, as suas anedotas, a sua vida, a sua figura, são ainda hoje motivo de chacota… E no fundo, sob essa capa ridícula, por baixo da barreira da papeira, da beiça, do olhar desconfiado, havia, houve sem dúvida uma ternura enorme. A mulher traiu-o; os filhos enganaram-no e mentiram-lhe; teve de fugir, de se livrar do veneno, das revoltas, da intriga… Esqueçamos-lhe a carcaça. Já hoje a figura está reduzida à sua verdadeira essência: passaram-lhe de vez as hemorróidas. É um homem simpático que fez neste mundo o bem que pôde. Foi ele quem povoou o mar do Brasil de sardinhas para os pobres comerem com pão. Plantou árvores. Amou – e foi talvez sob o grotesco uma alma delicada. Não seria uma grande inteligência nem um grande caráter – mas passou a vida a afligir-se. Por qualquer lado que encare é um motivo de chacota. É o senhor D. João VI – é o pataco – é o rapé – É a beiça… É – mas é também o melhor homem da sua época, e, sob o grotesco, encontra-se uma grande beleza escondida, sumida, escarnecida…”

Conclusão: se para Portugal a fuga de D. João VI foi o fim do mundo, para o Brasil foi o começo de um país.

Ao pensar nos grandes personagens da nossa História, ouço ao longe um hino da minha infância. Era assim:

“Glória aos homens, heróis desta pátria/ esta terra querida, que é o nosso Brasil…”

O meu herói é o maior de todos: tinha quase dois metros de altura. E seu grito de guerra fazia a terra tremer:

– PERÓS!

Meninos, eu conto: vem aí o grande chefe, trazendo um português amedrontado. E as mulheres da aldeia, muito assanhadas, já estão gritando: – Nossa comida está chegando!

Agora, com vocês, o guerreiro tupinambá Cunhambebe, o meu querido canibal.

Ele se orgulhava de ter nas veias o sangue de mais de cinco mil inimigos, muitos deles portugueses.

Estamos falando do primeiro chefe supremo da Confederação dos Tamoios que, entre os anos de 1554 e 1555, uniu todas as tribos inimigas, de São Vicente a Cabo Frio, na maior organização de resistência aos colonizadores que este país teve. Foi aí que o pau comeu, em combates sem tréguas.

Mas é preciso fazer aqui um esclarecimento: tamoio não foi nome de tribo, como muitos de nós somos levados a pensar. Tamoio significa o mais velho da terra, o mais velho do lugar. Logo, a Confederação dos Tamoios significava Confederação dos nativos.

O grande chefe Cunhambebe tinha um ódio mortal aos portugueses. Tanto, que ele podia ficar uma semana sem comer, se não tivesse um pedaço de carne lusitana para o seu repasto.

Bradava aos quatro ventos que os portugueses eram perós, ou seja, ferozes, traidores, mentirosos e covardes. Ele chamava os portugueses de covardes porque, sempre que apanhava um deles, o gajo se apressava em dizer que era francês, tentando escapar do porrete e de ser devorado. Cunhambebe era o índio amigo dos franceses, que se tornaram aliados dos tamoios, com os quais foram mais diplomáticos. Chegaram aqui para tratar de negócios e não de guerra. E, enquanto permutavam as utilidades da civilização européia – machados, foices, calções, perfumes e até os famosos espelhinhos -, por preciosidades da terra, do pau-brasil às aves e suas vistosas plumagens -, os franceses caíam na farra, enchendo a cara de cauim, a birita dos nativos, e indo às índias. Com tanta filha de Eva à solta, do jeito que Deus as havia posto no mundo, eles ficaram doidinhos. Doidões, melhor dizendo. Muitos deles não iriam voltar à França, nem amarrados.

Já os portugueses tinham outros propósitos. Queriam tomar a terra na marra e escravizar os seus donos. Foi aí que Cunhambebe enfureceu-se. E fez a terra tremer.

E onde ele pisava a terra tremia mesmo. Era um gigante, com uma força e uma coragem descomunais. O Átila da floresta. Exageradão em tudo, em tamanho e vaidade, tinha quatorze mulheres, quando aos outros caciques só eram permitidas quatro. Os franceses o tratavam como rei do Brasil. Tanto que foi hóspede de Villegaignon, o malfadado idealizador da França Antártica, ali na ilha que ainda hoje leva o seu nome, por trinta dias. E com todas as pompas de chefe de Estado. Cunhambebe foi também o primeiro brasileiro a ter a sua estampa publicada na Europa, na Galeria dos Homens Ilustres, do frade franciscano André Thevet, ainda nos anos 500. E o alemão Hans Staden, que foi seu prisioneiro, fez elogios às suas artes militares, chamando-o de chefe supremo. Ele nunca perdeu uma batalha. Mas não morreu de pé, lutando, como achava horrado morrer. Morreu na cama, em 1557, vitimado por uma estranha epidemia, que dizimou mais de trezentos membros da sua tribo. Sua morte provocou desolação e revolta. E sua aldeia, em Angra dos Reis, ficou pequena demais para receber os que compareceram ao seu funeral. Os tupinambás, assim como todos os índios confederados, acharam que a epidemia havia sido trazida pelos brancos, dentro de suas estratégias de guerra para eliminá-los.

O grande chefe Cunhambebe, que levou todo um povo a lutar até o último homem para não se deixar escravizar, não mereceu da História oficial mais do que notas de rodapés ou verbetes mínimos, como este aqui, assinado por um historiador chamado Rocha Pombo:

“Este índio foi o tipo do selvagem na sua expressão mais repelente. Tinha ele uma força e uma estatura e uma corpulência de Cíclope, uma coragem de bruto obsecado, uma dureza e ferocidade de monstro. Em outras condições daria um Átila, talvez ainda mais devastador. Devanecia-se de abalar a terra com o seu tropel. Nunca perdoou a um português.”

Pouco importa, meu querido canibal, a esta altura da peleja, como os tais historiadores o trataram. Sua estampa está no nosso imaginário não como de “um selvagem na sua expressão mais repelente”, mas como do mais temido chefe indígena brasileiro, com grandes brilhos de virtudes por trás da sua brutalidade, como um frade franciscano francês o descreveu. Você inscreveu a sua legenda como o senhor destas águas de sonho e fúria. Um herói da resistência. E de Cunhambebes bem que estamos necessitados.

A Confederação dos Tamoios foi uma utopia nativa que durou cerca de doze anos. Com a morte de Cunhambebe, o seu comando passou às mãos do bravo Aimberê, o cacique da aldeia de Uruçumirim, que ficava por ali onde hoje é o bairro do Flamengo. Foi liquidada em dois dias, 19 e 20 de março de 1567, quando Mém de Sá veio da Bahia, para dar reforço a seu sobrinho Estácio, que foi flechado no rosto e morreu um mês depois. O poder de fogo dos portugueses reduziu os tamoios confederados a cacos. Foi uma carnificina. A vitória levou as tropas de Mem de Sá à loucura. Cortaram as cabeças dos cadávares e as enfiaram nas estacas.

E era uma vez os grandes índios.

A partir daí, os brancos escreveram a história, como os seus legítimos donos.

E os índios foram transformados em alegorias de um carnaval que eles iniciaram em seus rituais canibalísticos. O carnaval que se tornou o maior espetáculo da Terra.

Meus considerados:

Já se disse que ação é personagem.

Que literatura é linguagem.

Que não existe literatura sem História, com H maiúsculo.

Literatura é tudo isso, sim senhores.

Mas é também delírio e indignação.

O primeiro poeta deste país foi um indignado. Chamava-se Bento Teixeira. Era um português do Porto e chegou a Pernambuco, no século XVI, com a idade de seis anos incompletos. Tornou-se um homem livre, boquirroto e debochado. Num certo sentido, e isso pela sua independência e personalidade briguenta, ele não deixa de ser uma espécie de precursor de Gregório de Matos. Foi tido como o primeiro livre-pensador do Brasil e “talvez o indivíduo que maior cultura possuía nas letras, tanto sagradas quanto profanas, em todo o século, em Pernambuco.” Teve ainda a seu crédito a primeira manifestação, em letra de forma, da literatura no Brasil, com a publicação de “Prosopopéia,” um poema heróico em decassílabo. Mas ele era um cristão novo. Foi perseguido, preso e condenado à prisão perpétua, em Lisboa, onde acabou por vir a ser libertado, a 30 de outubro de 1599, “pobre, só, fraco e muito doente.” Sua liberdade, porém, foi condicional: não podia sair de Lisboa. Ou seja: não teve o direito de voltar pra casa, em Pernambuco. Morreu aos 39 anos. E a História o esqueceu. Em 1995, o historiador paraibano Gilberto Vilar fez o que pôde para tirá-lo do esquecimento, ao publicar um livro intitulado O primeiro brasileiro, uma obra admirável, tanto do ponto de vista histórico quanto literário, que a TV Globo comprou para uma minisérie e engavetou. Isso para dizer que a nossa História está cheia de personagens em busca de autores. E para lembrar que as Santas Inquisições foram outro fim de mundo, como o Holocausto, o genocídio dos índios e a escravidão dos negros. Eis aí as quatro chagas do milênio.

Vida que segue, como dizia o finado João Saldanha.

Meus amigos…

Se o mundo ainda não acabou, então vamos ler.

Comecemos pela tumba de Oscar Wilde, no cemitério Père Lachaise, em Paris. Lá está escrito:

“Um mapa mundi que não inclua a Utopia não é digno de consulta, pois deixa de fora as terras onde a Humanidade está sempre aportando. Nelas aportando, sobe à gávea e, se divisa terras melhores, torna a içar velas. O progresso é a concretização de Utopias…” “O passado é o que o homem não deveria ter sido. O presente é o que o homem não deve ser. O futuro é o que os artistas são.” (…) “O Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo.”

Benvindos às letras.

Processo criativo. Ou: Como uivar para a Lua numa noite sem a menor possibilidade de estrelas

UERJ, março de 1999

Em princípio, criar e coçar é só começar. Mas como é que se faz para começar?

Se tudo depende da primeira frase, já temos uma para entrar neste tema que vem despertando muita curiosidade, principalmente para aqueles que estão se iniciando no mundo das letras. Como se o processo criativo fosse a caixinha de Pandora que cada escritor guarda dentro de si. Essa busca ao tesouro começa com outra pergunta, curta e concreta, que pode gerar respostas longas e subjetivas, pois no entender deste já velho escriba não há arte mais abstrata do que a escrita. A pergunta é: “Como nasce uma história?”

Um escritor norte-americano chamado Henri Miller, hoje em desuso mas que fez muito sentido para a minha geração, definiu o processo criativo de uma forma um tanto quanto megalômana: “Deus fez o mundo em 7 dias. Depois entrou nele. Este o segredo da criação.” Já o nosso Glauber Rocha, um cineasta de vocação literária por excelência, e que tinha fama de delirante, baixou ao terreiro dos deuses afro-baianos, ao falar da gênese de seus filmes, em entrevista ao locutor que vos fala, quando do lançamento de Deus e o Diabo na Terra do Sol, em 1964. Disse ele: “O negócio é fazer mandinga e esperar o santo descer. Aí então a gente é bem capaz de fazer um take de 4 minutos, na mão, entre luz e sombra, entre foco e fora de foco, balançando ou não. Será possível ir aos infernos de outra maneira?” Clarice Lispector também confessou que às vezes ficava dias e dias, com os olhos na folha em branco, à espera de que o texto baixasse em seu teclado. Igual a qualquer um de nós, diante da telinha do computador, até que o milagre aconteça. Ou que uma voz salvadora sopre em nossos ouvidos: “Fé em si mesmo e mãos às teclas. Com sorte, você terá uma frase, ou um parágrafo, quem sabe uma página inteira que valha a pena.” E aí, coragem. Porque outras perguntinhas perturbadoras surgirão: “E agora? Como é que se faz para continuar?” E se uma Musa Inspiradora beijar-lhe as mãos, levando você ao êxtase, ao vórtice dos iluminados, ainda assim haverá ainda uma outra pergunta, a lhe deixar perdido no tempo e no espaço, completamente desnorteado: “Como vou terminar isso?” Sim, queridos, se o começo é difícil, o meio é uma tremenda mão-de-obra e o fim o ajuste de contas, como no Dia do Juízo. Uma só palavra fora de lugar e iremos para o inferno. Os leitores não anjos, cheios de candura para nossas besteiras.

O escritor aqui levou trinta anos para começar. Foram trinta anos lendo um livro atrás do outro, obsessivamente. Trinta anos pedindo socorro a Machado de Assis, Guimarães Rosa, Drummond, João Cabral, Maiakovski, Garcia Lorca, Walt Whitman, Rimbaud, Jorge Luís Borges, Vargas Llhosa, Garcia Márquez, Joyce, Faulkner, Hemingway, Scott Fitzgerald, Truman Capote, James Baldwin, Carson McCullers. Trinta anos lendo o Almanaque Capivarol e o Biotônico Fontoura, tanto quanto bula de remédio, para ver se achava a receita, enquanto cantava: “O teclado não me ama, o teclado não me quer. O teclado não me chama, de Baudelaire.” Trinta anos lendo rostos, ruas, becos, estradas, palácios, palhoças, igrejas, bordéis, campo e cidade, mar e sertão. E escrevendo. Para a cesta do lixo. Até que uma noite…

Era uma noite escura, sem a menor possibilidade de estrelas. E foi em São Paulo, esse país amigo ao Sul do Brasil, onde um dia William Faulkner, depois de ter bebido uma parte considerável do seu Prêmio Nobel, acordou numa ressaca miserável e, ao abrir a cortina do hotel para tentar saber em que cidade se encontrava, bateu na testa e disse: “Oh, my God, Chicago again?”

Pois foi lá mesmo, na locomotiva da nação, destino de todos os baianos, que o baiano aqui, numa noite de breu sem luar, percebeu que tinha algo nas mãos para começar, e que desta vez, quem sabe, seria para valer.

Estava sozinho num quarto de hotel barato da Alameda Barão de Limeira, tocando numa vitrolinha igualmente barata um disco de   Miles Davis, e repetindo a mesma faixa, o tempo todo. E a faixa do disco era uma velha e terna balada norte-americana chamada My funny Vallentine. A música do Dia dos Namorados. Só que no trompete de Miles Davis lembrava mais um lamento, pungente, um uivo lancinante. Foi aí que me lembrei do velho Faulkner, em Luz em Agosto: “É a memória, e não a dor, que faz você se lembrar de centenas de ruas selvagens e ermas.” Como lembrança puxa lembrança, me lembrei também de Fitzgerald, quando dizia: “Numa noite escura da alma, são sempre três horas da manhã.” O trompete de Miles Davis não apenas puxava essas leituras. Parecia interpretar os tormentos da minha geração. Uma parte dela ouvia Jimmy Hendrix e se entupia de LSD, até ir parar debaixo dos choques elétricos nos manicômios; outra parte gemia nos porões da ditadura, uivando até a morte para um luar inexistente. Pronto. Miles Davis acabava de soprar nos meus ouvidos o título que eu buscava há 30 anos: Um Cão Uivando para a Lua. Era só ir para o teclado e começar a história. Para encurtá-la: começou com a idéia de um louco batendo papo consigo mesmo. E de repente, não mais que de repente, o teclado andou. Agora, sim, eu e ele parecíamos nos entender, nos aceitar, com uma certa inimidade. E já que ele, o arisco teclado de antes, agora me deixava à vontade, fui em frente. E oito meses depois tinha um romance nas mãos. E foi como se tivesse tirado uma espinha da minha garganta. E depois do primeiro vieram outros, um após outro, mas nunca mais iria escrever um livro com tanta rapidez. É bom lembrar que por trás dele havia toda uma vida marcada, obsessivamente, pela busca de um texto. Aquele primeiro livro significou uma vitória sobre muitas mortes, porque eu vivia um terrível sentimento de morte, a cada tentativa fracassada, ao longo do percurso. E no entanto o fracasso faz parte do aprendizado. É a pilha de realimentação do seu processo, o limão que você pode transformar em limonada.

Muitos anos depois daquela feíssima porém bendita noite, vejo-me diante do mesmo e torturante impasse: como começar um romance. E era o oitavo romance! Outra vez uma tela em branco. Outra vez a sensação de estar de pote vazio, sem café no bule. Desta vez eu não iria ser socorrido por um gigante do jazz, mas por um Deus da chuva. Era domingo e começou a chover. Cheguei à janela do meu apartamento em Copacabana, ao pé de um morro, e fiquei olhando a chuva cair sobre as árvores. As folhas se eriçavam. Passarinhos cantavam. Aí me lembrei de um canário belga chamado Jacques Brel, ou melhor, de um trecho de sua música mais famosa, Ne me quites pas: “Eu te oferecerei, pérolas de chuva, vindas de um país, onde nunca chove.” Isso me remeteu para o lugar em que nasci, uma terra chegada a uma seca. Quando chovia, era uma festa: os homens vestiam ternos brancos e rolavam na lama, felizes da vida, loucos de alegria. Corri para o teclado e bati lá: “Eis aí. Eis-me de regresso a essa terra de filósofos e loucos, a começar pelo meu pai, que disso tudo tem um pouco.” E assim nasceu um romance chamado O Cachorro e o Lobo.

Para terminar: eu vim de longe, e já nem sei mais de onde é que eu vim, como cantava Vinícius de Morais, num afro-samba memorável, que ele compôs com Baden Powell. Queimei muito as solas dos pés no chão quente para chegar a uma escola. Venho de um mundo rural, um lugar esquecido nos confins do tempo, onde se achar um livro era uma odisséia. Ainda assim um dia cheguei à palavra escrita. Foi a maior conquista da minha vida. Portanto, nunca achei escrever um sofrimento ou um ato solitário. Solidão é a do boi no campo e a dos homens nas ruas – já dizia Carlos Drummond de Andrade. Solidão é quando termino um romance. É quando todos aqueles personagens que estavam ali comigo, batendo um papo que varava o tempo, vão embora, sem me dizer adeus. Escrever é, para este escriba, um barato. Claro que não é fácil. Mas, se fosse fácil, que graça teria?

*Texto apresentado na aula inaugural do Projeto Escritor Visitante, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, em março de 1999.

Sinopse: Pelo Fundo da Agulha

Capas de Pelo Fundo da Agulha

Personagem principal de Essa terra, Totonhim e Junco, cidade natal do escritor Antônio Torres e de seu personagem mais célebre, surgem novamente para o público em 1997, com O cachorro e o lobo, no qual se conta o regresso do protagonista à cidade depois de ausência de 20 anos. Mas ainda faltavam coisas pra contar. O emocionante acerto de contas entre Totonhim e suas memórias de Junco acontece agora, com PELO FUNDO DA AGULHA, que fecha uma trilogia primorosamente construída na velocidade de um pau-de-arara.

São três tempos de um personagem catalisador da vida brasileira na última metade do século XX. Em Essa terra, ele aparece moço, recebendo seu irmão Nelo, que partira para São Paulo. Cultuado como alguém que deu certo, Nelo volta falido para sua Junco, no sertão baiano, e acaba cometendo suicídio por não corresponder às expectativas dos seus e por não se reencontrar mais com a cidade. 0Em O cachorro e o lobo, a narrativa ganha lentidão. Transcorridos 20 anos, Totonhim reaparece para comemorar o aniversário de 80 anos do pai. Atormenta-o o desemprego, mas ainda consegue representar o papel do homem bem-sucedido, distribuindo presentes e festejando com seus conterrâneos. Nesta viagem perigosa, seu pai teme que ele siga o exemplo do irmão, e lhe proporciona um almoço que é um elogio da vida e uma noite de amor com sua primeira namorada.

Em PELO FUNDO DA AGULHA, 10 anos depois, Totonhim está sozinho no mundo. Aposentou-se, separou-se da mulher e dos filhos, perdeu o melhor amigo e faz uma outra viagem de volta – totalmente interior. Embalado pela imagem da mãe velhinha, mas ainda com visão boa para enfiar a linha pelo fundo da agulha, sem usar óculos, ele repassa vários lances de sua vida, como se a olhasse por esse orifício. As figuras agora existem só na memória de Totonhim, que revela o lado paulista de sua história.

Ele está em uma nova encruzilhada. O homem fora de combate deita na cama e pensa no sentido de tudo. Não há ninguém para consolá-lo e ele se sente perseguido pelas histórias de amigos e parentes que se suicidaram. Quer voltar para Junco, Junco não existe mais. “Tentei, neste livro, fazer uma reflexão sobre este crepúsculo do mundo em que vivemos. Um mundo pós-utópico, pós-modernista, pós-tudo. Entendo que por trás dos impasses do personagem Totonhim não estão apenas os meus próprios. Nem apenas da minha geração. O que me parece é que de repente nos vemos todos – jovens, adultos e velhos – numa espécie de encruzilhada do tempo, em busca de uma saída para o futuro. E onde está esta saída? Eis a questão”, conta o autor.

Ao som de velhas canções, Torres constrói em PELO FUNDO DA AGULHA uma narrativa musical, com idas e voltas, representando o próprio movimento desses migrantes que habitam dois tempos e dois mundos, fazendo a passagem contínua de um para o outro.

Antônio Torres nasceu em 13 de setembro de 1940 em Junco, um povoado no interior da Bahia. Estudou em Alagoinhas e Salvador, onde ingressou no Jornal da Bahia. Aos 20 anos mudou-se para São Paulo, onde foi repórter e chefe de reportagem do caderno de esportes do jornal Última Hora. Trocou o jornalismo pela publicidade, trabalhando como redator publicitário em grandes agências brasileiras. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a lua. Em 1976, publicou Essa terra, seu maior sucesso, que já foi traduzido para o francês, espanhol, italiano, alemão, hebraico e holandês. Também é autor de Balada da infância perdida, Os homens de pés redondos, Carta ao bispo, Adeus, velho, O centro das nossas desatenções, O cachorro e o lobo, O circo no Brasil, Meninos, eu conto e Meu querido canibal. Em 1998, foi condecorado pelo governo francês com o Chevalier des Arts et des Lettres. Em 1987, recebeu o prêmio Romance do Ano do Pen Clube do Brasil por Balada da infância perdida e em 1997 o prêmio hors concours de Romance da União Brasileira de Escritores por O cachorro e o lobo. Em 2000, recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Meu querido canibal lhe rendeu o Prêmio Zaffari & Bourbon da Jornada Literária de Passo Fundo, em 2001. Em 2003, lançou O nobre seqüestrador, que conta a história de René Duguay-Trouin, corsário francês e personagem de muitas aventuras cuja espada submeteu navios, seqüestrou cidades, intimidou vontades e conquistou corações.


“Antônio Torres é um escritor que construiu carreira sólida ao longo de 30 anos. Poucos autores de sua geração têm um estilo tão marcante, uma linguagem tão poética e envolvente. Em seu mais recente romance [Pelo fundo da agulha], Torres penetra nos meandros da velhice. Quando ela começa, como se manifesta, o que acontece com nossa rotina diária no momento em que nos aposentamos, o que fica de nossa auto-estima, o vazio que nos toma. Não é, em momento algum, um livro para baixo, uma história de decadência. Cheio de atitude e poesia, é uma lição de vida, um romance cheio de ternura e compaixão, a história de um homem que perde o emprego e mergulha no sertão baiano em busca do pai. O romance busca a resposta que ninguém tem: qual é o sentido da vida? Por que aqui estamos? Torres é um obstinado: low profile, despreocupado das glórias vãs, cresce a cada livro”

Ignácio de Loyola Brandão (Revista Vogue Brasil/ janeiro 2007)

O Nobre Sequestrador – Sinopse

Algumas capas de O Nobre Sequestrador

Em O NOBRE SEQUESTRADOR, Antônio Torres conta a história de René Duguay-Trouin, corsário francês e personagem de muitas aventuras cuja espada submeteu navios, sequestrou cidades, intimidou vontades e conquistou corações.

Depois do sucesso de Meu querido canibal – vencedor do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura em 2001 –, cujo personagem principal era o emblemático Cunhambebe, Antônio Torres não resistiu pesquisar sobre a vida de outra figura importante mas muitas vezes esquecida na história do Rio de Janeiro. “Esse audaz corsário de Luiz XIV, que encheu o Rio de terror e medo. Corri mundos e fundos atrás das suas trilhas, fui duas vezes à terra dele, Saint-Malo, que fica na Bretanha francesa e também a La Rochelle, de onde Duguay-Trouin partiu.”, revela o autor.

René Duguay-Trouin, um dos mais audazes personagens de seu tempo, chegou ao Brasil numa esquadra de 18 navios, com quase 6 mil homens e 700 canhões, para saquear o ouro que era embarcado no Rio de Janeiro e seguia para Portugal. Executou o plano com sucesso e tomou a cidade como refém durante cinquenta dias, enquanto aguardava o pagamento do resgate para devolvê-la a seus habitantes, depois de encher os navios com o ouro carioca para partir, deixando-a dilapidada.

A bem-sucedida invasão de Duguay-Trouin funcionou como vingança pessoal para ele – um ano antes, um outro corsário francês, Jean-François Duclerc, tentou invadir o Rio, com cinco navios e mil homens, mas fracassou, terminando preso e assassinado misteriosamente –, além de representar um grande lucro para a França. As motivações de Duguay-Trouin eram bem mais amplas que as do corsário que o antecedeu. Pretendia deslocar o eixo da Guerra de Sucessão Espanhola da Europa, já que a França, que se batia nos mares contra uma poderosa coalizão formada por oito países, vinha sofrendo muito naquela guerra. Com a marinha agonizante, atacar o Rio seria uma maneira de eliminar os inimigos da França aos poucos, pelas beiradas, longe do seu poderio militar. Ou seja, atacar o Rio, na época a mais florescente colônia portuguesa, era atacar Portugal, eterno aliado dos ingleses e parte da coalizão européia que estava em guerra contra a França.

Com um fim nada heroico, a história de Duguay-Trouin, herói na França e vilão no Brasil, remonta a um tempo de aventuras e desventuras, de marinheiros, piratas e emoção. O NOBRE SEQUESTRADOR é um romance de deixar o leitor tonto, em meio a tantas guerras, vendavais, tempestades, naufrágios, heroísmo, sonhos e sacrifícios humanos, sobretudo na era de esplendor e miséria do Rei Sol.

Uma geração uivando para a Lua

Capas de Um cão uivando para a Lua
Algumas capas de Um cão uivando para a Lua

Jornal do Commércio, Recife
Fernando Azevedo

Antônio Torres criou um cão danado, que agride com a sua dor toda uma geração que vive (ou sobrevive?) entre sonhos e desilusões neste imenso País tropical. O seu “Um Cão Uivando Para a Lua”, magro e vigoroso como um nordestino, rosna e morde com todos os seus dentes, afiados pelas escaramuças travadas na cidade grande, onde a antropofagia ainda é praticada, apesar de 473 anos de catecismo. O seu cão, ao contrário de certa espécie de tigre, é mal comportado, escavaca velhas feridas e fuça mágoas, arranhando em cada página o equilíbrio aparente com que vivemos a nossa vidinha pequeno-burguesa, tecida ainda de sonhos que não se enquadram na realidade. A sua novela não foi escrita solitariamente, toda uma geração assina esta obra, de uma forma ou de outra.

As vezes sádico, debochado, melancólico, trágico ou irônico o seu tom lembra uma memória em processo crítico, onde cada experiência é purgada, pesada e analisada, para compor um quadro que define bem o que poderíamos chamar de uma geração de transição. Afinal, esta geração já se aproxima de uma idade em que terá de prestar contas: assinalar as suas virtudes e relatar os seus vícios e pecados, para que se avalie com exatidão a sua presença histórica e existencial. Uma geração não respira impunemente. Faça o que fizer, sempre haverá um julgamento.

Mas, a novela de Torres não pretende caçar bruxas, julgar ou avaliar quem quer que seja: apenas descreve, às vezes até próximo da crueldade, um estado de vida de uma geração perdida e maldita por diversas razões revelando os seus sonhos, suas ambições, desencontro e quedas. Suas personagens vivem a época da Transamazônica, respiram o ar poluído da metrópole e assumem todos os cacetes e neuroses do nosso tempo. Elas vieram no nordeste, romperam com o cordão umbilical do universo rural e tornaram-se pessoas urbanas, apesar das lembranças nostálgicas e por vezes odiosas da roça e da pequena cidade, onde permanece um passado tão forte que carregam nos ombros e na memória. Torres esquematiza dois tipos de comportamentos cara e coroa de uma mesma moeda, através de suas personagens. “T” enfrenta a metrópole e a máquina com uma visão fatalista (ou terrivelmente cartesiana?): a máquina existe, é forte, monolítica e nada se poderá fazer, a não ser aderir, abdicar os nossos sonhos mal elaborados na adolescência. O sonho acabou, meninos. A vida é dura, devemos enfrentá-la com o que sobrou de nossas couraças ou… nos arrebentamos. No entanto, esse comportamento é epidêmico, aparente porque envolve contradições profundas. Na medida em que “T” sobe na vida, descobre a sua imensa dor, uma dor de quem foi violentado, prostituído, engravidado por uma máquina que cada vez exige mais em troca de magras emoções e algumas gratificações sociais o “status” não é capaz de apagar o desencanto de uma vida rotineira e vazia de significados. Também pode-se uivar dentro de Dodge Dart do ano ou silenciosamente em cima dos confortáveis tapetes Tabocow que cobrem os tacos dos apartamentos da classe média. “T” venceu na vida para a máquina, três hurras para ele. “Ao vencedor, uma camisa de força”. Os tempos mudaram. Na época machadiana, os vencedores comiam batatas e Freud ainda não tinha lançado as bases da psicanálise, a magia civilizada adotada pelo nosso mundo ocidental.

O contraponto de “T” é “A”, uma personagem que esculhamba a sua estrutura nos choques da guerra diária, e vai parar num sanatório , terra de ninguém e exílio voluntário de quem não suportou a antropofagia de todos os dias. Ali, em paz de trégua, “A” realiza uma viagem de retorno às suas experiências de vida num flashback que se transforma num terrível balanço crítico, que transpõe as porteiras do drama pessoal e individual para situar-se numa amarga e desesperada análise de toda uma geração, que descobre estar os valores nus e as intenções onde sempre estiveram: apenas no nível da intencionalidade, simples potencia, nunca ato realizado. A equação está montada e é simples, exigindo uma apreensão apenas didática, como numa lição. Ou aceita-se as regras do jogo, com todos os seus riscos, ou fica-se à margem. A lógica da máquina é implacável e fria, mas exprime uma verdade que se tem de olhar de frente. Ela força, na prática, a uma tomada de posição, aceitar as regras do jogo ou rejeitá-la (jogar ou não jogar, eis a questão), ambas gerando conseqüências, uma, a dor; outra, o vazio do nada. “A” termina a viagem em torno de sua própria dor, e aprende a lição. Quebra o isolamento e deixa o exílio, retornando à vida. Afinal a máquina, possui a força do magnetismo, atrai para o seu campo de força tudo o que gravita em sua órbita, porque é ele quem dá a própria existência ao homem, apesar de limitá-la dentro de fronteiras  bem demarcadas. Fora da máquina não há vida, e isso é óbvio. “A” resolveu a equação, bem ou mal, escolheu o caminho de volta, a dor nossa de cada dia.

Esta é a forte novela de estréia de Torres. Ele destilou toda a sua experiência de baiano que foi para a cidade grande, carregando atrás de si séculos de êxodo contínuo e gerações inteiras, enfrentando uma máquina que se alimenta de homens e sonhos. Como escritor, entrou no festim antropofágico com seus dentes afiados, mostrando as suas marcas e feridas antigas e recentes. Escreveu um cão raivoso, de  peito aperto, que uivou para a lua para lembrar à sua geração as suas dores, as nossas dores. É difícil ver esse cão uivar, com som tão humano e tão verdadeiro. Seu livro é um soco na cara, daqueles que fazem o mundo rodar em nossa volta ao normal, o equilíbrio é sempre restabelecido. Só que espanamos a nossa memória, revisamos as nossas experiências e afiamos os próprios dentes. No final das contas, como disse Faulkner e Torres transcreve como epígrafe de sua novela, “entre a dor e o nada, escolho a dor”.

Orelha à primeira edição de “Um cão uivando para a lua”

A cosmologia do cão

Celso Japiassú

A tônica do livro é a de um desespero contido e que de repente, quando menos se espera, apossa-se e toma conta do leitor. Quem tiver sensibilidade e estiver fazendo uso dela para perceber o que se passa hoje com as pessoas, no mundo interior de cada uma, como reflexo do que está se passando no outro mundo, o de fora, o que cerca as pessoas, não deixará de sentir profundamente a carga de emoções trazida por cada uma das personagens deste livro.

Antônio Torres apresenta as personagens-chave por simples iniciais, revelando que voluntariamente recusa-se a nomeá-las, como a querer mostrar que por detrás deste aparente anonimato encontra-se não um homem determinado, com características bem definidas, mas o traço bem marcado de uma geração que subitamente se descobriu enganada por uma esmagadora mas bem definida escala de valores que não eram verdadeiros. A surpresa desta revelação trouxe consigo o desejo de encontrar uma saída, refletindo-se na busca caótica e desesperada que levou inclusive ao consumo de drogas e a uma perplexidade não só mal compreendida mas até mesmo reprimida com violência pelo Sistema.

O livro não critica o que apreende e que põe diante do leitor às vezes com o impacto de um soco. Nem condena ou absolve. Apenas expõe e emociona, numa linguagem clara e agressiva, mas literariamente criativa. O cão que uiva para a lua está sozinho e procura algo distante, que não sabe bem o que seja, mas que tem de ser melhor do que as amarras que o prendem.

O caminho que pode levar à libertação transforma as personagens em viajantes engajados numa peregrinação intensa e angustiante, dentro e fora de si mesmos, que só poderia se completar na compreensão da grandeza, da violência e da miséria que está presente em T. e em A., duas personagens que Antônio Torres coloca diante de nós e que assumem uma forma de espelho refletindo as nossas próprias caras.

Prefácio de Antonio Torres para a edição comemorativa dos 30 anos de lançamento do seu primeiro livro, “Um cão uivando para a lua”

Prefácio do autor.

Ou:

Como uivar para a Lua numa noite sem a menor possibilidade de estrelas

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela
loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
em busca de uma dose violenta de qualquer coisa…”

Allen Ginsberg/ Uivo – na tradução de Cláudio Willer/ LPM Pocket, 2001

Para começar, eu ainda não tinha lido o poema de Allen Ginsberg, que só caiu nas minhas mãos em 1973, numa viagem a Lisboa, um ano depois da publicação dos meus próprios uivos. Foi o poeta português Alexandre O´Neill quem me presenteou com o livro do Ginsberg que, na edição portuguesa, se não me falha a memória, começava assim: “Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura…”

Era um libelo da Geração Beat dos anos 50 – que incluía Jack Kerouac, William Bouroughs, Lawrence Ferlinghetti etc -, e da contracultura e rebeliões juvenis dos anos 60 e 70. O impressionante era que neste lado do paraíso, aqui nos subúrbios da América, estivéssemos vivendo a mesma inquietante atmosfera. Mas no tempo em que escrevi este Um Cão Uivando para a Lua – um tempo vivido entre São Paulo e o Rio de Janeiro, depois de andanças por Oropa, França e Bahia -, os meus autores preferidos eram outros, das Américas (a começar pelos brasileiros obrigatórios) e do mundo. E, onde quer que estivesse, sempre tinha à cabeceira um livro de Scott Fitzgerald, o que dizia: “Numa noite escura da alma são sempre três horas da manhã.” O que morreu dizendo: “O progresso é o desencanto contínuo.”

Vivíamos uma era de progresso – a Transamazônica, a ponte Rio-Niterói, Itaipu, o BNH, o boom imobiliário, o DDD e o DDI, PNBs fantásticos, as fachadas da ditadura militar. Em seus porões os descontentes, ou dissidentes, uivavam até a morte, se não fossem resgatados antes no rabo de um foguete para o exílio.

Nas selvas de pedra a classe média achava que finalmente havia chegado ao paraíso, enquanto seus rebentos exilavam-se num quarto, se entupindo de LSD ao som de Jimmy Hendrix e Janis Joplin, até a loucura.

Como todo mundo à minha volta, também ouvia os sons de uns e outros: Chico Buarque, Caetano & Gil, Vincius de Moraes e Tom Jobim, Milton Nascimento, Zé Kéti, Paulinho da Viola, Baden Powell – “todos os violões havidos e a haver,” na definição magistral do já citado poeta português Alexandre O´Neill -, e todo o resto do pessoal, que incluía o teatro do Zé Celso Martinez Correia, e o de Boal, Guarniéri e Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, de Plínio Marcos etc, e o cinema de Nelson Pereira dos Santos, Gláuber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade etc, etc, etc, ah, meninos, era uma era de arte, na contra-mão do enquadramento da ordem & progresso: censura, prisões, tortura, desaparecimentos, mortes, nunca é demais lembrar.

Um Cão Uivando para a Lua é desse tempo e lugar. O título me veio numa noite escura, em São Paulo, quando num quartinho de um hotel barato na Alameda Barão de Limeira, eu ouvia o tempo todo Miles Davis tocando sem parar My funny Valentine, uma terna canção americana, do dia dos namorados, que aquele trompetista, um gigante do jazz, transformara num lamento lancinante. Como os uivos vindos lá do fundo dos quartéis e dos manicômios, num dos quais eu havia visitado um amigo, que tinha a cabeça raspada e espumava loucamente. Já não se entupia de LSD, mas com as drogas que os médicos lhe davam, para acalmá-lo – e que o deixavam muito excitado. Foi aí que me veio uma idéia para um conto: um doido batendo papo consigo mesmo. Como parecia ser o de Miles Davis com o seu trompete. Oito meses depois tinha um romance nas mãos.

Bem, já havia entrado na casa dos trinta e finalmente o meu teclado engrenava. Até então vivia começando histórias que nunca passavam da segunda página. Isso me desesperava, me dava uma horrível sensação de fracasso. E de repente, como num milagre, já tinha ido além da terceira. Que maravilha. Como vivia ganhando e perdendo emprego no eixo Rio-São Paulo, coincidiu que por aqueles dias dei com os costados numa agência de publicidade carioca, onde fui contratado como redator. Entre um anúncio e outro, descubro que o gerente da empresa era um poeta, chamado Celso Japiassú, que me presenteou com um dos seus livros – e já não me lembro o que motivou tal gesto. Na verdade, naquele tempo havia até publicitários que gostavam de ler e escrever e acabamos por ter assunto para dois dedos de prosa depois do expediente. Acabei criando coragem para mostrar-lhe as minhas primeiras páginas. No dia seguinte fui chamado, pelo telefone interno, para ir à sua sala. Para minha surpresa, não se tratava de uma ordem de serviço, “uma campanha para ontem.”

— Você pode até nem saber que é um escritor – começou ele, tendo entre as mãos as páginas que eu havia lhe passado no dia anterior. Por uma questão de pudor, deixo a frase em suspenso, sem completar com o que ele disse a seguir. Mas não posso deixar de dizer que o primeiro leitor das primeiras mal-traçadas linhas deste meu primeiro livro me encorajou muito, muitíssimo, para ir em frente. Velho Japi: nunca será tarde demais para te dizer “Muito obrigado.” Sei que andas por aí a capitanear novos negócios e, espero, a escrever poemas de boa fatura literária, na calada da noite, como antigamente.

O livro iria ser lido com entusiasmo também por um pequeno editor, o Lúcio de Abreu, que me disse: “Isto tem cheiro de sucesso.” Só que no meio do caminho – já com os originais na gráfica -, ele iria revelar suas dificuldades financeiras, naquele momento, para produzi-lo. Foi uma confissão desesperadora. Olha eu de novo uivando para a Lua. O que fazer?

Foi aí que entrou em ação uma verdadeira corrente da solidariedade para que este livro viesse a ser publicado, liderada por um colega do departamento de criação da finada Denison Propaganda, chamado José Monserrat Filho, atualmente editor do Jornal da Ciência, da SBPC, e até hoje um amigo de fé. Ele arregimentou um mutirão: o produtor gráfico da Agência, o saudoso Bilé, que iria conseguir gratuitamente o fotolito da capa, que foi criada de mão beijada por um talentoso diretor de arte, o Cláudio Sendin. Carlos Estevão de Souza Filho fez a foto da contra-capa, que teve layout de Joaquim Pêcego, o velho Pá. A produção do livro acabou se tornando uma ação entre colegas de trabalho – não dá para esquecer aqui a extrema boa vontade de outros ali, como Aldyr Nunes e Federico Spitale -, que deram a sua contribuição pessoal para aliviar os custos e viabilizar a edição do livro. Celso Japiassú, o entusiasmado leitor da primeira hora, escreveu a orelha. E assim este Um Cão Uivando para a Lua foi embalado para as livrarias, no dia 14 de novembro de 1972, vindo a merecer também a solidariedade da crítica, dos leitores, dos escritores.

E estes se manifestavam através de cartas, ou por telefone. Nomes consagrados – como Jorge Amado, Marques Rebelo, José Américo de Almeida, Osman Lins e o português José Cardoso Pires – brindaram o estreante com calorosas palavras de incentivo. É preciso dizer que até então o autor destas linhas não conhecia pessoalmente aqueles escritores. Minhas – poucas – relações eram com outros. Numa curta temporada no Jornal da Bahia, trabalhara com Ariovaldo Matos e João Carlos Teixeira Gomes e, na Última Hora de São Paulo, com Ignácio de Loyola Brandão, que num começo de tarde, antes da zorra começar na Redação, me mostrou as páginas de um livro que estava escrevendo, o Depois do Sol. Naqueles primeiros tempos de São Paulo cheguei a conhecer Marcos Rey, já um autor de best-sellers e um excelente sujeito, que sempre me recebia em sua casa de copo na mão, enquanto a sua mulher, a doce Palma, se apressava em preparar um rango; e João Antônio, que me impressionara vivamente com o seu Malagueta, Perus e Bacanaço, e com quem havia perambulado uma vez pela noite paulistana, de ‘pé sujo’ em ‘pé sujo’, até o último bêbado olhar para o céu e gritar: “Não há possibilidade de estrelas!”

Mas agora eu iria saber quem eram os outros. Da Manaus de Márcio Souza à Porto Alegre de Moacyr Scliar, do Recife de Hermilo Borba Filho à Ituiutaba de Luiz Vilela, da Bahia de João Ubaldo ao Paraná de Domingos Pellegrini Júnior, eles formavam um bando, com uma enorme concentração em Minas Gerais – Murilo Rubião, Wander Piroli, Sérgio Sant`Anna, Oswaldo França Jr., Roberto Drummond etc – e no Rio de Janeiro: não tardou muito para o escriba aqui estar sendo recebido por Ana Arruda e Antônio Callado – aquele lorde que tanta falta nos faz -, e Nélida Piñon, em cuja mesa cabia sempre a verve de Rubem Fonseca. Ah, Rubem Nosso Bem, quando vamos voltar a dar umas boas risadas? Agregadores era o que não faltava. Como o casal Laura e Cícero Sandroni, com suas feijoadas concorridíssimas, nas quais Antônio Houaiss, José J. Veiga, José Louzeiro, Marcos Santarrita, Edilberto Coutinho, Eglê Malheiros e Salim Miguel, entre tantos, tinham cadeira cativa. Em São Paulo, as casas de Ivan Ângelo, Moacir Amâncio e Edla van Steen estavam sempre de portas abertas para outros. Numa volta lá, acabei conhecendo o Raduan Nassar. E ficamos amigos para sempre. Parecia que todo mundo seguia ao pé da letra os versos de Carlos Drummond de Andrade: “Como viver sem conviver/ na praça de convites?”

Depois alguns de nós – como o Loyola, o João Antônio, este aqui e muitos mais – ganhamos a estrada, falando em tudo quanto era canto deste imenso e mal administrado País, com a polícia sempre atenta ao que falávamos. Pelo caminho, fomos envelhecendo, alguns morrendo e vieram outros e já não era mais a mesma história. Mas nunca me esqueci do que uma vez me disse a adorável e inteligentíssima Nélida Piñon: “Toda essa camaradagem um dia vai acabar. Quando o tal do mercado fizer as suas escolhas.” Não deu outra.

Bom, valha o que valer o relançamento deste livro agora, não poderia deixar de dedicá-lo, ainda uma vez mais, a Sonia Torres, que não só o viu nascer – antes de nossos filhos Gabriel e Tiago – mas também resiste ao meu lado, com sua solidariedade incondicional, por toda uma vida feita de bons e maus momentos.

Tanto quanto consigno aqui os meus agradecimentos à minha agente literária Marisa Gandelman e à Editora Record, que vem reunindo todos os meus cacos deixados pelas estradas para com eles compor um belo mosaico. Sérgio e Sônia Machado, Luciana Villas-Boas e Ana Paula Costa: segurem aí o meu abraço.

Se este esforço editorial valerá a pena, é com você, caro leitor.

O percurso da memória nos romances de Antônio Torres: a constituição do eu na fronteira entre o sertão e a cidade – Rogério Gustavo Gonçalves

Tese de doutorado em PDF a seguir:

Clique para abrir maior em uma nova aba: O percurso da memória nos romances de Antônio Torres: a constituição do eu na fronteira entre o sertão e a cidade – Rogério Gustavo Gonçalves.

percurso_memoria_romances_antonio_torres_constituicao_eu_fronteira_sertao_cidade_rogerio_gustavo_goncalves