Nem tudo é fantasia

Revista Visão, São Paulo, 29/05/1991
Álvaro Alves de Faria

Antônio Torres sabe que as saídas quase não existem mais. Dentro e fora da literatura. Isso constatado, a ironia inteligente pode ser alternativa para driblar as sombras que atravancam os caminhos. Um Táxi para Viena d’Áustria é um romance que sugere exatamente o seguinte: em tempos hilários, a ordem é ser mesmo hilariante. Conta a história de um publicitário desempregado que comete um crime e pega um táxi para fugir. Mas, hora errada: no rush. Ipanema pára. No meio do congestionamento, o fugitivo se detém na Missa em dó maior de Mozart, que candidamente flui do rádio do carro, e inicia uma viagem imaginária, na qual nem tudo é realidade, mas a fantasia está longe de ser apenas um sonho.

O romance se desenvolve com um humor dilacerante. Ladrões assaltam falando de Cervantes, Machado de Assis, Shakespeare. Salvadores da pátria da tribo ipanemense, dourados de sol, apresentam-se para resolver problemas insolúveis: “Cessa tudo enquanto a antiga musa canta, que um valor mais alto se alevanta. Suspirem, gatinhas do meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro. Aleluia! Finalmente um machoman no nosso pedaço ultra light”. A essa linguagem de deboche, Torres liga uma informação fundamental: se o tal herói abrir a boca cantando em inglês, no mais perfeito accent de Nova York, com certeza haverá muito desmaio.

Prova – Baiano nascido na cidade de Junco (hoje Sátiro Dias), Torres começou a ser editado em 1972, meio que desnorteando a crítica com Um cão uivando para a lua. Estava lá, prontíssimo, um grande escritor brasileiro que, a cada novo livro, reafirmaria um raro talento de narrador de histórias cujos personagens estão na realidade das ruas de um país infestado de gratuidades. Com livros publicados na Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos, Argentina e Israel, Torres já cedeu direitos para tradução de Um táxi para Viena d’Áustria à França e à Alemanha. Esse interesse tem razão de ser, já que sua literatura representa o que de melhor se produz no Brasil atualmente.

Este novo lançamento da Companhia das Letras é prova concreta disso, revelando um país que, apesar da pobreza terceiro-mundista, insiste em existir com seus refrões de esperteza. O personagem que ouve Mozart não quer ser acordado por ninguém. “Meu sonho até tem nome. Chama-se Spiritual’s. Sonhar em inglês dá sorte. Atrai fortuna”, comunica. O livro traz referências a trabalhos anteriores, uma espécie de registro que une toda a obra do autor, num amplo retrato fiel às contradições e dramas nacionais. “Toca pro inferno, que já estou cheio de tanto paraíso”, diz o fugitivo preso no engarrafamento. No fim, resta mesmo dançar uma valsa – até porque talvez não reste alternativa, como deixa claro esse belo romance de um grande escritor acima de qualquer suspeita.

Um clássico dos trópicos

Melchíades Cunha Júnior
especial para o Jornal da USP – Universidade de São Paulo (24 a 30/06/1991), por ocasião do lançamento de Um Táxi para Viena d’Áustria pela Companhia das Letras.

Como fazer literatura nestes trópicos em tempos de pós-modernismo; nessa terra que se afasta a galope da civilização e avança com fúria para a barbárie? Como emergir deste oceano de mediocridades, misérias, corrupção, violência, modismos e desencanto em que meteram a pátria-amada-mãe-gentil? Ah, a produção cultural desse fim de milênio, a nossa e a dos outros…

E eis que surge Um Táxi para Viena d’Áustria, do baiano-paulista-carioca Antônio Torres (Companhia das Letras). Romancista bóia no oceano, grita-se da ponte.

Antônio Torres, agarrado em sua bóia, é de uma geração que se preparou para não naufragar. E não desistiu do preparo. É preciso estar atento e forte para manter-se um cidadão competente e não encher, com seu despreparo, a paciência do próximo (no caso, o leitor). Ah, se todos os que se metem com as letras soubessem disso… Torres preservou-se, também, como um bom cordial brasileiro, desses carregados do sentimento da justiça, mas sem as chatices do militante. Desses que, já na maturidade, descobre-se em andrajos para uma festa que será cada vez mais difícil de acontecer. Oh pátria-nossa-mãe-gentil, o que fizeram (fizemos todos?) com teus filhos? Oh, um táxi para a capital austríaca! A saída é procurar a saída, mesmo que a saída se chame morte? Já não se disse que é preciso morrer para se nascer?

Com o desencanto não se faz boa arte, sabemos todos. E o desespero tampouco a garante. E o mesmo se diga do talento: insuficiente, por si só, para gerar um “clássico; um cult, como se diz nos dia de hoje. E será possível escrever nesses nossos dias alguma coisa com gosto de novo, que valha o prazer ou o esforço da leitura, que mereça, enfim, ser publicado?

Ou o melhor será continuar perdendo/ganhando o nosso tempo apenas com o que de definitivo já se escreve sobre a condição humana – a razão primeira e última da criação literária? O bom preceptor (essa profissão em desuso há décadas) aconselhava a leitura e a releitura permanente dos clássicos. Está tudo lá, em livros que não se prendem ao estilo, época ou lugar em que foram escritos. Só que está cada vez mais raro aparecer um clássico, um cult, se preferirem.

Eis que um Táxi para Viena d’Áustria nasce como um clássico. Um clássico nos novos tempos brasileiros do cólera; e é um resgate geracional. De uma geração da qual muuitos já desistiram da pátria-linda-alcatifada-de-flores: uns partindo para outras paragens onde não canta o sabiá, outros se exilando pelo interior do país-maravilha, muitos se refugiando em cidadelas de altos muros, e outros tantos aderindo ao cinismo ou recorrendo aos desinfetantes.

Os resistentes, como Antônio Torres, testemunham que ainda estão por aí, escandalizando com o verbo e o chicote, como o Filho do Homem. Mas quando o horror é tanto será possível falar do horror sem provocar o bocejo do tédio? Torres conseguiu, apesar de insistir em que não precisamos mais dormir para termos sonhos maus. O sonho mau – ele nos diz – já dispensa o sono. Basta estar desperto e deambular pelas grandes cidades da pátria-amada-brasil.

Em Um Táxi para Viena d’Áustria, um veterano publicitário desempregado mata um amigo a quem não via há mais de vinte anos. Um gesto de comiseração, uma eutanásia? Não se sabe. Um absurdo, uma alucinação, uma perfídia? Um crime de morte, certamente. O Raskolnikof, de Dostoiévski, o Mersault, de Camus, também mataram. E nós nos apiedamos deles mais do que das vítimas. Para alguns será necessária essa descida aos infernos? Não há explicações (ou há?) para os dois tiros disparados por Veltinho na barriga falante do amigo, numa tarde azul, de muito sol naquele apartamento de Ipanema. O leitor é levado a uma espécie de cumplicidade. Poderia acontecer comigo…

Este último romance (ou novela?) de Antônio Torres o coloca, definitivamente, no time dos grandes. A densidade de seu relato ganha força a cada linha, num texto impecável, com quatro anos de garimpo. É um romance de sol, como O Estrangeiro; e de brumas, como Crime e Castigo. Do sol dos tristes e alegres trópicos. Trópicos cada vez mais brumosos, onde a alegria (gosto de viver?) para uma geração, como a de Antônio Torres, só pode ser obtida com o que se produz com a própria pena. E não espere reconhecimento, nem solidariedade.

Um Táxi é um desses livros que se lê sem pausas, de uma arrancada só. E nos convida, imediatamente, a uma segunda leitura.. Aí, então, o veredicto definitivo: estamos mesmo diante de um clássico.

P.S.: Um amigo, de geração mais recente, leu o livro de Antônio Torres e o que escrevi acima. Fez-me esta ponderação: “Suas colocações não valem apenas para a sua geração. Mesmo as mais novas, como a minha, que também sonharam em fazer o homem amigo do homem, sabem na pele o que é isso”.

TRANSVERSAIS DA LINGUAGEM

Muniz Sodré *
A Tarde Cultural, Salvador, Bahia (10/08/1991)

(Primeiro) Um franco-argelino atira num árabe, sem motivo, talvez por que o sol brilhasse mais forte naquele dia; (segundo) um brasileiro atira num compatriota, velho amigo seu, também sem motivo, por mero reflexo, querendo talvez livrá-lo de uma dor de barriga.

>Os dois gestos são insensatos, claro, o primeiro já é um clássico; trata-se do ponto de partida de O Estrangeiro, de Camus. O segundo, recente, como que detona a trama de Um Taxi para Viena d’Áustria, último romance de Antônio Torres.

>Entre o francês e o baiano, há o abismo de uma filosofia voltada para a sondagem das exigências essenciais do sujeito, matizadas pelo absurdo. O romance filosófico de Camus implica simplesmente em outro projeto de literatura.

>No entanto, algo em comum: o exame da condição humana. Só que o texto de Torres dispensa a metafísica em função da crônica patética de um publicitário desempregado que tenta fugir de táxi após seu absurdo gesto assassino. Isto, em lpanema, coração da Zona Sul carioca.

O carioca bem sabe que nenhuma fuga será segura na hora do rush. Pelo mar, não há saída; na rua, o imprevisível engarrafamento; por baixo, o buraco sem metrô. Nenhum vazio metafísico, pois, nenhum rombo originário, mas o concreto buraco sem fundos do país, tematizado no caos da cidade, na falta de emprego, na modernização sem fundamentos ético-sociais.

Confinado a um táxi, que por sua vez está imobilizado num engarrafamento, o personagem de Torres – Watson Rosavelti Campos (o Veltinho) é metáfora do Brasil, de um país que parece não andar.

Para desenvolver uma temática dessas seria bem viável adotar a poética da não-ficção, à maneira de um Truman Capote ou de um Norman Mailer. Ou então seguir o gosto de um Manuel Puig e, a partir dos recortes jornalísticos e televisivos sobre o cotidiano da cidade, construir uma narração em que se pudesse perceber a fragmentação da existência na grande urbe de hoje, especialmente a urbe sul-americana.

Torres não fez nada disso. Nada disso, entenda-se, em caráter exclusivo, já que fez tudo isso ao mesmo tempo, mesclando estilos, com bossa própria. A atmosfera estilística é a do realismo, mas sem a descrição certinha de incidentes, sem a composição retoricamente ordenada de situações humanas. Torres usa o presente do indicativo (um tanto na esteira do que fazia o hoje já antigo Nouveau Roman) para expor a consciência in actu de um personagem atravessado por vozes de todos os tempos, dele mesmo e de outras pessoas, inclusive a da própria Cidade.

Assim: “Ontem à noite eu não sabia que ia matar um homem. Nem ontem à noite, nem há poucos minutos atrás. É, acho que não faz nem uma hora que matei um homem. (…) Ontem à noite até sonhei com um anjo, que me fez um estranho apelo: – Pelo amor de Deus, não se entregue. (…) Achei que era uma mensagem, que traduzi assim: – Vai trabalhar, vagabundo. Vai à luta – Coisas de sonho. E sonho de desempregado”.

Ou então, a “a voz”, o mundo, é a televisão: “Em close: rugas, estrias, bolsas aquosas, olheiras. E os famigerados cabelos brancos. Ralos. Rareando. O que foi feito da sua vasta, crespa e selvagem cabeleira, senhor? Domesticou-se, ao se encanecer? Atenção, pessoal da produção, bota aí no áudio, em bg – quer dizer, baixinho – a velha “Folhas Mortas”, que a corrente transporta, ó Deus…”

Torres encontra-se aí em pleno ato de literatura, isto é, de transformar fragmentos de frases, fórmulas, sintagmas de língua coloquial e cotidiana marcada pela mídia em enunciados de uma língua própria que, nele ao contrário do táxi fabulado, é móvel e ágil.

Não, nada da escrita moderninha, colada a autores norte-americanos, tão cara a alguns experimentalistas da chamada pós-modernidade. A língua literária de Torres transmite uma experiência de plurilinguagem, por onde se expressa a modernidade caótica ou eclética demais (já pensaram um Junco fazendo ponto em Ipanema ou Mozart acompanhando Charlie Parker ao piano?) em que vivemos.

Neste caos, às vezes, como diz o protagonista Veltinho, dá “vontade de correr, correr, correr.  Como um atleta, um louco, um bandido”.  O que é de bom alvitre, pois este país, como o táxi, não aparece achar as suas transversais.  Ou então, com a mesma vontade de O Estrangeiro, esquecer o tiro e mandar o motorista tocar assim mesmo para Viena d’Áustria.

* Muniz Sodré é professor-titular da UFRJ e escritor, autor de O monopólio da fala (ensaio) e Santugri (contos).

UM NOVO E EXCELENTE ROMANCE

José Olympio da Rocha*
Tribuna da Bahia/16.06.91

Dificilmente você poderá interromper a leitura do novo romance de Antônio Torres, Um Táxi para Viena D’Áustria. O que não é surpresa, pois desde Um Cão Uivando para a Lua (1972) o autor baiano revelou-se um dos escritores mais promissores do Brasil. Torres, ex-jornalista (“precisei abandonar o jornalismo para escrever ficção”, disse ele) transferiu-se definitivamente para o Rio de Janeiro, onde conseguiu sobreviver como publicitário. Certamente agora, depois que seus livros foram traduzidos com sucesso para vários outros idiomas, Antônio Torres poderá dedicar-se com mais tempo à literatura. E o maior exemplo de que isso é o que acontece, é este novo romance: inventivo, bem trabalhado na sua linguagem, brilhantemente irônico e mordaz, com uma dose de humor sadio, quase um hino simples aos prazeres da vida.

A inventividade do autor está cada vez mais acentuada. Aqui ele disseca o homem urbano, com sua tragédia cômica, o dia-a-dia de uma cidade como o Rio de Janeiro. Torres compõe essa sinfonia, esse perfil da cidade grande, através de um painel em que ele toma emprestado as letras da música popular, as gírias, o ritmo cotidiano de um viver que passa pelos apartamentos de classe média, sobe até os morros e explora o estranho humor dos que vivem na adversidade: “Quero um dia de luz, festa do sol, um barquinho a deslizar, no macio azul do mar/Por que esqueceram de me avisar que hoje à tarde ia ter um caminhão da Coca-Cola atrapalhando o tráfego?/É isso aí. It’s the real thing. É pau, é pedra, é o fim do caminho. É um caminhão atravessado, engarrafando o verão. Moro na zona sul. Quero o mar. E não essas ruas interrompidas, selvagens – esse beco sem saída. E também quero ver se os jornais vão ter coragem de sair amanhã com uma manchetona assim: Acidente da Coca-Cola foi provocado pela Pepsi”.

Antônio Torres é um cronista urbano, do dia-a-dia, os episódios que constituem a sua narrativa podem ser notícias tiradas de um jornal (como um acidente no carro da Coca-Cola onde os meninos do morro fizeram a festa), as letras de música que bem defi­nem o espírito carioca: “Quero um dia de luz, festa de sol, um barquinho a deslizar, no macio azul do mar”.

Torres sabe ironizar este sempre ridículo e sem rumo país que se chama Brasil: “Ela continua fiel à Santa Madre Igreja de Roma. Ainda não se japonezou na Igreja Messiânica. Não se americanizou com os evangélicos, os adventistas, as testemunhas de Jeová. Não se africanizou,na umbanda. Nem se universalizou no espiritismo. Continua uma fidelíssima católica apostólica romana. Como que minha mãe ainda não virou esotérica? Tantas seitas, tantos credos, no varejo e no atacado! Era agora que ela ia gostar de ver o mundo”.

O Brasil narrado por Antônio Torres é este que você conhece: tão confuso como o bruto engarrafamento de uma zona urbana, tão cômico e ao mesmo tempo tão ridículo e sem rumo como a própria política econômica. Não se pode negar que o leitor está diante de um livro originalíssimo, gostoso de se ler, uma prosa enxuta e poética ao mesmo tempo, irônica e atual. É assim Um Táxi para Viena D’Áustria.

Precisamente porque é um autor inventivo é que ninguém consegue largar esta narrativa, com sabores para todos os gostos, sem ser comercialmente submisso ao leitor: “Não contar nada sobre aquela vez que você ficou olhando pelo buraco da fechadura enquanto a espanhola tomava banho. Ela se ensaboando e cantando. E você chupando o dedo. Ela alisando os seios e cantando – e você alucinado. Ela esfregando as coxas e cantando – e você comendo a espanhola com o olho e vendo estrelas. Lânguida, louca, caliente, salerosa, ela transbordava em água e desejo, roçando cabelos, pele e labirintos… de ternura. Voz rouca de tanto cantar o mesmo bolero: Solamente una vez…”

A beleza da prosa de Antônio Torres é por si só um motivo muito forte para você chegar até o fim. E ter pena de acabar essa leitura.

* José Olympio da Rocha é crítico literário.

O Cachorro e o Lobo: sob o signo da leveza – Resenha de Maria Adélia Mota da Silva

Maria Adélia Mota da Silva

Pedro Páramo é uma ótima indicação para aqueles que querem pensar um pouco sobre os caminhos da narrativa de Antônio Torres. Esse famoso romance de Juan Rulfo é referido por Torres em O cachorro e o lobo , segundo de uma trilogia que tem Essa terra como primeiro livro. A odisseia mexicana do filho que vai à procura do pai ausente dá a Totonhim, personagem principal do romance de Torres, a vontade de voltar e rever sua terra.

O medo da morte do pai faz Totonhim viajar para encontrá-lo em plena comemoração dos seus oitenta anos. Entre ruas e estradas velhas, percorre o passado, deparando-se com o que chamou de admirável mundo velho. Nessa terra, de certa forma, todos são parentes ou conhecidos. As vozes antigas pertencem ao mundo da memória afetiva. O doido, a esmoler, o político, a professora, todos são arquétipos de um mundo que, metaforicamente, está morto. Aqueles que teimaram em não abandonar essa terra estão condenados à derrota e a um tempo fora dos padrões que se perde no nevoeiro das remotas lembranças do filho sensível e bem-humorado.

Letrado, funcionário de banco, morador de uma metrópole, o personagem principal também é um derrotado. Sua existência de cidadão pacato e invisível traz muitas dúvidas quanto ao futuro e às vicissitudes cotidianas. Seguro e conhecido é o passado edificado nas memórias sobre o pai, a mãe e o irmão morto. De volta ao lugar onde enterrou o umbigo, Totonhim aproveita cada minuto da rápida visita para reviver sensações que cumprem a função terapêutica de invocar a infância, a adolescência e uma parte da vida adulta.

Se, em Pedro Páramo , o filho vem cobrar o descaso paterno, em O cachorro e o lobo é o pai que sente a ausência do filho que foi seduzido pelas comodidades da vida em São Paulo. Entre uma prosa e outra, surgem velhas canções, fragmentos de poemas e referências literárias que ajudam a seduzir o leitor. Torres o pega pela mão e o conduz a um mundo do qual, em poucos anos, só haverá o registro literário. Por isso, Essa terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha são romances necessários e apontamentos de um tempo perdido. Sem esse registro, as histórias interioranas morrerão na memória dos que hoje têm mais de quarenta.

No Junco, a vida dos de fora chega pelas parabólicas nos telhados das casas em que seus moradores resistem. São, em sua maioria, velhos. Estão lá ou voltaram para morrer. Ironicamente, o pai de Totonhim é feliz em sua reclusão. Se bebe, se fuma, se fala com os mortos, há um pouco de excentricidade e muito de sabedoria na vida cotidiana do velho Antão. Esse é o elogio e o louvor que Antônio Torres faz aos homens do povo. Torna-os lobos solitários e sobreviventes em um mundo no qual a pressa não existe. O cotidiano interiorano tem seu tempo particular.

Segundo Italo Calvino, em suas Seis propostas para o próximo milênio , a Literatura tem função existencial. Para isso, há “a busca da leveza como reação ao peso de viver”. Ao voltar à sua terra, Totonhim encontra uma sucessão de personagens e recordações que o levam, de forma apaziguadora, a encontrar a si mesmo. O peso do qual falava Calvino não existe no Junco. A vida, como no poema “Cidadezinha Qualquer”, de Drummond, vai devagar e marca seu ritmo próprio. Com a simplicidade e a beleza que só grandes sensibilidades conseguem repassar para suas narrativas, Antônio Torres faz de uma existência interiorana um questionamento sobre os valores modernos, como é o caso da velocidade. Pressa para quê? A história vai sendo contada com o tom de um dedo de prosa, como uma conversa que só assimilará aquele que for capaz de desacelerar o ritmo da vida para acompanhar o da narrativa.

Milan Kundera, em A arte do romance , escreve sobre apelos aos quais o leitor deve ser sensível. Um apelo encontrado em O cachorro e o lobo é o da diversão. Há romances que são concebidos como puro diletantismo e este é um deles. A extrema leveza ao narrar a história faz de Torres um prosador de formas singelas e narrativa ágil. Ser simples em sua forma de narrar, decididamente, não é característica para muitos escritores. Torres dá a verossimilhança de presente ao leitor e este busca encontrar-se também na narrativa. A identificação entre a obra e o leitor causa uma sensação que faz do Junco o mundo da memória pessoal.

O pertencimento proporcionado pela leitura da narrativa de Torres transforma-se no prazer de reencontrar-se, de recuperar as origens, há muito perdidas sob o signo da velocidade. Para quem é leitor e já viveu em uma cidadezinha qualquer, vem a nostalgia de se reconhecer, como em um espelho. Rever-se menino ou jovem é um sortilégio muito sedutor em uma narrativa. Esse é um dos prazeres proporcionados pelos livros de Torres. Essa é uma das muitas razões para tirar Pelo fundo da agulha da estante. Que venha a próxima leitura!