Texto de introdução às oficinas literárias Ritmos do Rio em Prosa e Verso, realizadas na Casa do Saber em janeiro e fevereiro de 2010
Em tempos imemoriais, o Rio de Janeiro foi um
arquipélago, tendo os seus morros como ilhas. No decorrer das eras,
esses morros, pela erosão natural, forneceram entulho às águas
circundantes, começando então, lentamente, e por volta de cada um
deles, a formação de uma planície de várzeas, charcos, pântanos e
mangais. Entre quatro das antigas ilhas, que se tornaram os morros do
Castelo, de Santo Antônio, de São Bento e da Conceição, formou-se a
planície correspondente ao atual centro da cidade.
Também lentamente constituiu-se um litoral recortado de enseadas,
boqueirões e sacos, entre algumas elevações costeiras e litoral
fronteiro a algumas ilhas como Villegaignon, Fiscal e das Cobras. Foi o
litoral da época do descobrimento.
A evolução urbana levou o Rio a perder vários morros, por
arrasamento, como o do Castelo e o de Santo Antônio. Até a ilha de
Villegaignon perdeu suas pequenas elevações. Com a construção da cidade
Universitária desapareceu a colina do Fundão.
Quando aqui chegaram, os portugueses e os franceses encontraram os
morros cercados por terrenos pantanosos, lagos e mangais. E também
encontraram um velho povo do qual nunca se soube a real procedência.
Esse povo era oriundo do grande tronco tupi-guarani e se chamava
tupinambá, que pode significar “filho da Terra”. Habitava o litoral
brasileiro desde a embocadura do Amazonas até o Rio da Prata.
Estabeleceu-se no Rio de Janeiro, Bahia e Maranhão, em substituição a
outras tribos, muitos séculos depois que os primeiros povos indígenas
começaram a descer em ondas o continente americano, através do Estreito
de Bering, ou, noutra hipótese, que indivíduos vindos da Austrália,
Tasmânia e Nova Zelândia povoaram a América do Sul, a partir da Terra
do Fogo, onde penetraram margeando as geleiras da Antártica, as ilhas
Shetland e o Cabo Horn.
Até os europeus chegarem, os nativos não sabiam que eram chamados de
índios. Tal denominação, que abrangia todos os silvícolas do
continente americano, deveu-se ao equívoco de Cristóvão Colombo, que,
ao pôr os pés na América, pensou haver chegado à Índia, a ambicionada
terra do ouro.
Datas
12 de outubro de 1492: Cristóvão Colombo, comandante de uma esquadra
espanhola, chega à ilha de San Salvador, nas Bahamas. E com isso a
data passa a significar, oficialmente, o Descobrimento da América,
embora desde o ano 1000 expedições de vikings tenham alcançado as
terras americanas, à procura de novas áreas pesqueiras. Tudo começou,
na verdade, com o islandês Erik Thorvaldsson, chamado de “Erik, o
Vermelho”, que em 985 aportou na Groenlândia, onde implantou várias
colônias. E da Groenlândia partiram as expedições à América
propriamente dita. Pesquisas recentes permitiram localizar vestígios de
suas vilas na ponta norte da Terra Nova, ao redor da baía de Pistolet.
Como essas expedições não chegaram ao conhecimento da Europa na Idade
Média, coube a Cristóvão Colombo a glória eterna do descobrimento do
Novo Mundo, ao qual ele retornou em 1498 e 1504, delineando o contorno
do Caribe.
Em junho de 1494, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de
Tordesilhas, dividindo o mundo em duas partes: as terras que fossem
descobertas a oeste desse meridiano pertenciam à Espanha, e as terras a
leste, a Portugal. Os dois países queriam mesmo era encontrar o caminho
marítimo para as Índias, que os portugueses tentavam achar contornando
a África. Acharam o Brasil (por acaso, diz a lenda), nas costas da
Bahia, num lugar que batizaram de Porto Seguro. Passou-se isto no dia
22 de abril de 1500.
No dia 10 de maio de 1501, partia de Lisboa uma expedição a serviço
de el-rey D. Manuel I, o Venturoso, com a missão de descobrir as
extensões das terras descobertas por Pedro Álvares Cabral. A frota, na
qual navegava o florentino Américo Vespúcio, era de três caravelas, sob
o comando de Gonçalo Coelho, que atingiu a costa brasileira em 16 de
agosto daquele ano, o dia de São Roque, nome com que batizou o cabo
onde fez sua primeira aterragem, no Rio Grande do Norte. Navegando na
direção do Sul, Gonçalo Coelho continuaria a dar aos acidentes
geográficos em que aportava, ao longo do percurso, o nome do santo do
dia: Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco (28 de agosto); Rio São
Francisco (4 de outubro); Baía de Todos os Santos (1º. de novembro);
Serra de São Tomé, atual Cabo de São Tomé, no litoral norte fluminense
(21 de dezembro). E, depois… 1º. de janeiro de 1502. O dia do Rio. E a
exceção à regra dos nomes com que Gonçalo Coelho vinha batizando os
seus achados. E por ele haver confundido a boca de entrada da baía de
Guanabara (que significa braço de mar) com a foz de um grande rio. Ou
simplesmente porque rio era, então, qualquer porção de água. Aliás, os
nomes primitivos da Guanabara – que os portugueses ignoraram – a
definiam como rio. Ei-los:
Rio de Reféns
Rio de Arrefens
Rio de Oriferis
Rio de Rama
Rio de Iaceo
Na verdade, os portugueses não viram no Rio nada que fosse digno das
atenções para os interesses lusitanos. Nenhum sinal de que sob o seu
solo escondiam-se minas de ouro. Ao primeiro olhar, só avistaram
pimenta, papagaio e índio – e isso já estavam fartos de ver. Seguiram a
viagem, que naquele mesmo mês de janeiro resultaria na descoberta da
Baía de Reis, atual baía da Ilha Grande (dia 6); e, no litoral
paulista, nas de São Sebastião (dia 20) e São Vicente (dia 22), dali
continuando até a Patagônia. (Segundo alguns pesquisadores, o último
porto tocado pela expedição de Gonçalo Coelho no litoral brasileiro foi
batizado de Cananor (atual Cananéia), em 15 de fevereiro de 1502).
Por ser um país pequeno, pobre e de população limitada, e mais
preocupado com as cobiçadas riquezas da Índia, Portugal demorou a
priorizar a colonização do Brasil. E assim o Rio ficou esquecido por um
longo período. Só em 1515 e 1519 por aqui passam João Dias de Solis e
Fernão de Magalhães. Este último ignora o nome do Rio de Janeiro e
rebatiza-o como Baía de Santa Luzia, por haver aportado no dia dela, 13
de dezembro. Em 1531, Martim Afonso de Souza também deu uma olhada no
Rio e foi embora, para fundar a povoação de São Vicente, no ano
seguinte. Além de deixar alguns homens que se atritaram com os nativos e
foram mortos, Martim Afonso de Souza marcou sua passagem por estas
bandas com a construção de uma ferraria para conserto de navios, que os
índios acharam muito engraçada, chamando-a de carioca = casa de branco. Mais tarde carioca seria o nome de um rio que desaguava no Flamengo e etc.
Com a morte dos homens deixados aqui por Martim Afonso de Souza, a
“casa de branco” ficou abandonada. O desinteresse dos portugueses pelo
Rio de Janeiro deixou o campo aberto para os franceses, que não foram
os marinheiros das primeiras viagens ao Novo Mundo, empreendidas na
virada do século 15 para o 16. Chegaram atrasados ao cais de embarque
para as grandes navegações, que já iam longe, a partir dos portos
ibéricos. Aventureiros retardatários, ainda assim os franceses
conseguiriam a proeza de roubar a cena enquanto coadjuvantes,
surpreendendo os protagonistas, que já se consideravam os legítimos
donos dos caminhos marítimos e das terras que haviam descoberto.
Interpondo suas encruzilhadas nas trilhas dos portugueses, os franceses
se desempenharam com as armas da sedução, que os levaram ao delírio.
Ou aos desatinos.
A princípio sem uma predestinação à lenda heróica, os primeiros
franceses que desembarcaram no Rio, presumivelmente aí pelo ano de
1503, eram anônimos comerciantes, interessados apenas nas transações
comerciais e não em conquistar a terra e colonizá-la. Provavelmente já
informados sobre suas riquezas em abundância, e de que era habitada por
um povo que desconhecia a propriedade, o dinheiro e o comércio,
trouxeram os seus navios carregados de apetrechos que passariam a valer
como moeda de troca. Diplomáticos desde os seus primeiros contatos,
souberam ganhar a confiança dos nativos, estabelecendo com eles as
bases de um vantajoso sistema de escambos, num mundo que desconhecia o
valor material de sua fauna e flora.
O negócio dos escambos consistia em permutas de mercadorias –
espelhos, pentes, camisas, calções -, e utilidades da civilização
européia – tesouras, anzóis, facas, enxadas, foices, pás, machados,
martelos -, pelos produtos da terra, altamente comerciáveis: madeira de
lei, pedras coloridas, pimenta, algodão, aves exóticas e suas vistosas
plumagens.
O mercado francês iria se agitar com os carregamentos o pau-brasil
(que os índios chamavam de ibirapitanga, o pau-de-tinta), tão grosso
que três homens não lhe abraçariam o tronco, e que fornecia a tinta
vermelha com que eles pintavam o corpo. E que iria beneficiar a
indústria têxtil da França, avivando as cores dos seus tecidos,
tornando-os mais alegres.
Então os seus barcos foram postos a correr, velas ao vento rumo à
terra dos canibais, dos quais os franceses se faziam amigos ao chegar,
temendo serem sacrificados e devorados. Nesse intenso ir-e-vir,
vir-e-ir, alguns deles nem quiseram regressar, preferindo a vida
tribal, com toda a sua liberdade de costumes. Nesse mundo onde, conforme
a descrição de Américo Vespúcio, todos viviam como saíam do ventre
materno, em desenfreada libidinagem, entregando-se perdidamente a todos
os excessos amorosos que desafiavam a imaginação humana, os franceses
pensaram haver descoberto um paraíso terrestre, habitado pelo povo
expulso do Gênesis.
Como se isso fosse pouco, os tupinambás, que tanto os encantaram,
eram festeiros. Quando não estavam em guerra, caíam na farra. Bebiam,
cantavam e bailavam, inclusive (ou principalmente) em seus rituais
canibalísticos, eventos realizados com uma pompa extraordinária, da
qual os prisioneiros participavam alegremente, até a hora do sacrifício,
a que se submetiam de cabeça erguida, como mandava a tradição.
Desde o início os franceses foram hábeis em convencer os tupinambás
de que não eram seus inimigos. Tanto que mais tarde vieram a se aliar a
eles nas batalhas contra os portugueses. As relações se tornaram tão
amistosas que os nativos passaram a chamá-los de maïrs, por
serem louros e tão palradores quanto os papagaios.Enquanto isso, os
navios que retornavam à França não levavam apenas produtos de valor
comercial, mas também indiozinhos para serem educados e depois se
casarem com as filhas de seus transportadores. Alguns desses meninos
silvícolas acabam sendo dados de presente ao rei francês, que sua vez
os ofertava aos magnatas, nas festas para eles em seu palácio, quando a
Coroa estava precisando de socorro financeiro. Com tanta movimentação
para lá e para cá, os franceses se tornaram, cada vez mais, peritos na
derrubada de árvores para encher os seus navios. Até o ano de 1560,
eles tiveram trânsito livre no Rio de Janeiro. Isto porque a ocupação
do país vinha sendo feita de forma lenta, em virtude da desproporção
entre os seus efetivos humanos e as vastidões do território brasileiro.
Havia também outras razões, notadamente de ordem econômica, não só
quanto aos elevados custos dos investimentos na colonização, mas também
no que dizia respeito às escolhas de regiões com melhores
possibilidades de retorno, como as que se prestavam ao cultivo da
cana-de-açúcar, a começar pelo Nordeste, da Bahia para cima, dali
pulando para Sul – Santos e São Vicente -, a partir de onde iriam
começar a exploração do planalto de Piratininga, onde foi assentada a
cidade de São Paulo, sob as bênçãos dos jesuítas Manuel da Nóbrega e
José de Anchieta. Outra prioridade era a busca de jazidas de metais
preciosos, que não sem razão pressentiram existir, mas que só foram
encontradas ao final do século 17. Enfim, tais prioridades fizeram os
portugueses esquecer o Rio de Janeiro por muito tempo. Os franceses os
fariam mudar de idéia.
Em 1553, Tomé de Souza, primeiro governador-geral da Bahia, escreveu
ao rei de Portugal aconselhando-o a enviar para a Guanabara “uma
população honrada e boa, porque nesta costa não há rio em que entre os
franceses senão neste, e tiram dele muita pimenta”.
Um pouco mais tarde, o padre José de Anchieta, pelo viés religioso,
insurgiu-se contra a presença dos franceses no Rio de Janeiro, que
haviam se afastado da religião católica, tornando-se selvagens: “Vivem
[os franceses]
conforme os índios, comendo, bebendo, bailando e
cantando com eles; pintam-se com suas tintas pretas e vermelhas,
adornando-se com as penas dos pássaros, andando nus às vezes, só com
uns calções, e finalmente matando os contrários, seguindo os ritos dos
mesmos índios, e tomando novos nomes como eles, de maneira que não lhes
falta mais do que comer carne humana, que no mais sua vida é
corruptíssima”.
A reação de Lisboa demorou. Tanto que em 1555, o vice-almirante
bretão – e cavaleiro de Malta -, Nicolau Durand de Villegaignon, pôde
instalar-se sem problemas numa ilha do Rio de Janeiro, que os indígenas
chamavam de Seregipe. (Hoje tem o seu nome, abriga a Escola Naval, e
está colada ao aeroporto Santos Dumont). Ele chegou com dois navios e
cerca de seiscentos homens, a maioria arrebanhada nas prisões de Paris e
Rouen. Logo ao se instalar na ilha onde construiria uma fortaleza,
Villegaignon denominou-a de Forte Coligny, em honra a seu protetor, o
almirante da França Gaspar de Coligny. Sua expedição tinha um duplo
propósito: encontrar um refúgio, longe da Europa, para os calvinistas,
caso a intolerância religiosa os obrigasse à expatriação. Seria uma
fuga dos conflitos provocados pela Reforma da Igreja, a partir do
momento em que Lutero (1483-1546) nega a infabilidade do papa e funda o
Protestantismo. Calvino (Jean Chauvin ou Caulvin – 1509-1564), teólogo
francês residente na Suíça, cria uma doutrina que dá ênfase à
supremacia das Escrituras na revelação da verdade, a onipresença de
Deus, a pecaminosidade do homem, a salvação só para os eleitos e um
rígido código moral. O católico Villegaignon, que depois de haver
enchido a Europa e a África com o barulho de seus feitos, caíra em
desgraça, converte-se ao calvinismo, buscando uma aliança com o já
convertido almirante Gaspar de Coligny, comandante da marinha francesa,
que deu apoio ao seu projeto de uma expedição ao Rio de Janeiro, onde
poderia fundar uma França americana, com o nome de França Antártica –
da qual se tornaria o vice-rei -, e com o Rio passando a se chamar
Henriville, em homenagem ao rei Henrique II, que afinal era quem
financiava aquela aventura.
Villegaignon, porém, misturou calvinistas e católicos em sua frota. E
com ele veio o frade franciscano André Thevet, que rezou a primeira
missa do Rio e aqui permaneceu por quatro meses. Sobre essa viagem,
Thevet escreveu dois livros, Singularidades da França Antártica e Cosmografia Universal. Deve-se a ele a publicação em Paris, na Galeria dos Homens Ilustres -e com o título Lês vrais portraits -, da
primeira estampa de um brasileiro, o morubixaba Cunhambebe, primeiro
chefe supremo da Confederação dos Tamoios, fundada por Aimberê, e que,
no ano de 1554, uniu várias tribos inimigas de Cabo Frio a São Vicente,
e fez a terra tremer.
Thevet pintou Cunhambebe como um homem muito alto e forte, com cerca
de dois metros de altura. O mais lendário guerreiro do Rio de Janeiro
foi recebido com honras militares por Villegaignon (que o tratou como
rei do Brasil), obrigando os soldados a se vestirem com seus melhores
trajes, e a ficarem compenetrados para não irritá-lo com risos e
chacotas, nos momentos em que Cunhambebe (“sem nada a lhe cobrir as
vergonhas”), caminhava agitado e falava em altos brados sobre os seus
feitos, socando o peito e as pernas, e vangloriando-se de ter nas veias
o sangue de mais de cinco mil inimigos, a maioria portugueses, que
gostava de pegar desprevenidos em seus navios, dos quais saía com um
canhão em cada ombro.
A hospitalidade de Villegaignon não era gratuita. Ele queria se
preparar para enfrentar os portugueses, e precisava da orientação de
Cunhambebe para a ocupação dos pontos estratégicos e construção de
fortins em torno da baía de Guanabara.
De acordo com o relato do frei André Thevet, na temporada em que foi
hóspede de Villegaignon o temível canibal Cunhambebe teve também seus
momentos de tranquilidade e pacificação, quando procurava ouvir,
compenetrado, as orações dos franceses: “Ele tinha tão grande prazer em
nos ver rezando que se prostrava de joelhos e alçava as mãos aos céus,
como fazíamos. E ficou tão interessado em conhecer nossas preces, que
me pediu para ensinar-lhes algumas. Procurei então, com a ajuda de um
escravo cristão, traduzir para a sua língua nossa oração dominical,
além da saudação angelical e do sinal dos apóstolos, a fim de atrair
esse grande rei e seus seguidores ao conhecimento de sua salvação e à
admiração das obras de Deus”.
Também surpreendentes são as revelações daquele capuchinho quanto às
ideias de Cunhambebe em relação ao sobrenatural, que Thevet
transcreveu dando-lhes alguma coerência, procurando relacioná-las com
as alegorias bíblicas da criação do mundo, do dilúvio e da força
vingadora de Deus etc.
(Parêntesis para os fumantes, ex-fumantes e todos os que acham os
que ainda fumam os seres mais desprezíveis da face da Terra: foi o bom
franciscano André Thevet quem, no Rio de Janeiro, descobriu o tabaco, e
o levou para a França. Mas, por um erro inexplicável, tal descoberta
foi atribuída ao embaixador francês em Portugal à época, Jean de Nicot.
Daí a palavra nicotina. Vem de Nicot).
Em 1557, Villegaignon escreveu a Calvino, pedindo-lhe o envio de
ministros da Igreja reformada. Os reforços para a sua colônia,
procedentes de Genebra e também da França, chegaram nesse mesmo ano,
num navio comandado por Bois le Comte, sobrinho do vice-almirante
bretão. Com essa segunda leva, desembarcaria no Rio de Janeiro um
sapateiro que iria se revelar outro escritor viajante. Trata-se de Jean
de Léry, autor de Viagem à terra do Brasil, contendo ataques
violentos ao católico Thevet, e graves acusações à atuação de
Villegaignon, que, ao juntar católicos e calvinistas em sua fortaleza,
viu-se em meio a violentas discussões, numa reprodução da intolerância
religiosa que vinha acontecendo na França, e da qual pensava ter
fugido. Enquanto lá os conflitos recrudesciam, num crescendo que mais
tarde culminaria no banho de sangue da Noite de São Bartolomeu, as
querelas instauradas entre os seus comandados levaram Villegaignon a
perder o controle da situação. Ele entrou em desespero. E matou três
ministros calvinistas, jogando-os ao mar.
Testemunha destes episódios dramáticos, Jean de Léry chamou
Villegaignon “o Caim da América”. Mas teve alguma coisa em comum com o
franciscano André thevet: o olhar de espanto, quando não de condenação,
para a nudez e a liberdade de costumes do “povo expulso do Gênesis”.
No seu penoso regresso, quando a fome tomou conta de um navio sem
víveres, em plena travessia do Atlântico, e todos os navegantes
estiveram ao ponto de comerem uns aos outros, Léry iria concluir que
havia mais virtudes na vida selvagem do que na civilização européia, a
seu ver decepcionante, pelo excesso de luxo e frivolidades.
O que não faltou foi frustração no projeto da França Antártica. Os
colonos de Villegaignon eram soldados que sonharam em desembarcar num
lado do paraíso terrestre, onde seus compatriotas contrabandistas de
madeira se sentiam tão à vontade, e isso por cerca de meio século.
Despertaram em outro lugar, que mais parecia o inferno. Em vez da
liberdade dos trópicos, do cio da terra, da natureza em festa, a férrea
disciplina de Villegaignon, com toda a sua austeridade e rigor;
trabalho duro no carregar de pedras e transporte de água do continente
para a ilha; vida aquartelada; escravidão; cruéis punições para os
intercursos carnais com as fogosas cunhãs.
Comprova o seu severo perfil, a decisão que tomou quando, em 1557, o
seu sobrinho Bois le Comte chegou com os calvinistas. No meio deles
vinham cindo mulheres, as primeiras brancas a pisarem o Rio de Janeiro.
Preocupado com o alvoroço dos seus homens, que havia anos não viam um
farfalhar de saias, apressou-se em escolher a dedo cinco felizardos os
casou com as moças recém-chegadas. Os outros se revoltaram. Boa parte
deles fugiu da fortaleza, em busca da vida ardente nas matas.
Villegaignon voltou à França em 1559, deixando Bois le Comte em seu
lugar. Esperava voltar com reforços. Mas nunca mais se soube dele. Em
1560, o governador-geral Mem de Sá veio da Bahia, fortemente armado,
para expulsar os que permaneciam no forte francês. Bois le Comte
rendeu-se. E pegou o barco de volta ao Velho Mundo. Mas, outra vez,
muitos de seus comandados preferiram ganhar o mato, para viver com os
índios.
Conclusão: malfada para as ambições expansionistas francesas, a
experiência de Villegaignon no Rio de Janeiro não foi, porém, uma
viagem perdida para o reino das ideias. Tornou-se uma fonte de
informações que o conhecimento convencional ignorava, abrindo as
comportas do mundo da razão ao do instinto. Michel de Montaigne
declarou, no seu ensaio sobre os canibais, que o havia escrito
baseando-se no que ouviu de um seu criado, que estivera no Brasil com
Villegaignon. O ilustre Montaigne não só confrontou as informações do
seu empregado com as de alguns marinheiros e negociantes que também
estiveram no Rio; ele leu os livros de Thevet e Léry, que levaram à
França, cada um à sua maneira, visões descentralizadoras do mundo.
E foi ele, o controvertido oficial medalhado da marinha de Henrique
II, quem fez o primeiro assentamento de europeus no Rio de Janeiro. Não
chegou a fundar a cidade, que nasceria portuguesa em 1565, mas pôs-lhe
um marco. Esse marco é a ilha que ficou com o seu nome. Os franceses
que optaram pela vida selvagem se uniriam à Confederação dos Tamoios.
Acabaram dizimados, junto com os índios confederados, pelos canhões
portugueses, nas batalhas de 1565, quando, no dia 1º. de março daquele
ano, Estácio de Sá fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, e
nas dos dias 19 e 20 de janeiro de 1567, sob o comando de Mem de Sá,
que a conquistou definitivamente.
O general Mem de Sá transferiu a cidade – na verdade uma vila
assentada no sopé do Pão de Açúcar – para o morro do Castelo,
justificando assim a sua decisão:
“Escolhi um sítio que parecia mais conveniente para edificar nele a
Cidade de São Sebastião o qual sítio era de um grande mato espesso
cheio de muitas árvores grossas em que se levou assaz de trabalho em as
cortar e a limpar o dito sítio e edificar uma cidade grande, cercada
de muros por cima, com muitos baluartes e fortes cheios de artilharia. E
fiz a igreja dos padres de Jesus, onde agora residem, telhada e bem
concertada, e a sé de três naves, também telhada e bem concertada, fiz a
casa da câmara sobradada, telhada e grande, a cadeia, as casas dos
armazéns e para a fazenda de sua alteza sobradadas e telhadas e com
varandas, dei ordem e favor com que fizessem muitas casas, telhadas e
sobradadas…”
Quer dizer, instalada no ponto mais estratégico para o controle da
entrada na baía de Guanabara, e cuja vista era simplesmente
deslumbrante, a cidade começou como uma fortaleza medieval.
Anotações do livro “Era uma vez o Morro do Castelo”, de José Antônio Nonato e Núbia Melhem Santos:
“O forte de São Sebastião era considerado o castelo
da cidade, motivo por que o Morro de São Januário ou do Descanso passou
a se chamar Castelo”.
Aníbal Barreto
“Monte do Descanso, posteriormente conhecido por
várias denominações, entre outras, da Sé, do Alto de São Sebastião,
Baluarte da Sé, São Januário, Sé, Conselho, Colégio e Sé Velha – e
finalmente do Castelo”.
Noronha Santos
“As fronteiras do morro, onde moravam 600 pessoas –
os fundadores que vieram com Estácio e Mem de Sá, jesuítas, índios
catequizados, franceses e poucas mulheres – restringiam-se aos 184 mil
metros quadrados da colina, situada na região delimitada hoje pelas
ruas São José, Santa Luzia, México e Largo da Misericórdia”.
Sérgio Garcia
“Melhor de descer que de subir”. Assim Machado de Assis resume o
questionamento do morro do ponto de vista urbano. Antes mesmo do final
do século 16, quando a população da cidade ultrapassava os três mil
habitantes, a população passou a procurar as partes planas e alagadiças,
para a expansão da cidade pela várzea. Imaginemos o quanto de
ciclópico teve esta obra, pelas dificuldades materiais da época, para o
desaterro de barreiras e aterros de pântanos. Os moradores que
passaram a se instalar teimosamente na planície legaram uma cidade de
ruas sinuosas, estreitas – para se protegerem do calor -, mal calçadas,
sujas.
“É que o Rio de Janeiro não foi edificado segundo o
estabelecido na teoria das perpendiculares e oblíquas. Ela sofreu, como
todas as cidades espontâneas, o influxo do local em que se edificou”.
Lima Barreto
Em seu livro “Memórias da Rua do Ouvidor”, Joaquim Manuel de Macedo anotou:
“Primeiramente levantaram à beira do mar casas e choupanas com uma
só linha, formando o que alguns anos mais tarde recebeu o nome de Rua
da Misericórdia; em seguida foram adiantando suas rudes construções
pela Praia de Nossa Senhora do Ó, que a mudar de denominação se foi chamando Lugar do Ferreiro da Polé, Praça do Carmo, Terreiro do Paço, Largo do Paço, e enfim Praça de D. Pedro II
. [Hoje Praça Quinze, em homenagem ao dia do golpe militar que
destituiu D. Pedro II, proclamando a República, 15 de novembro de
1889]. Da praia de Nossa Senhora do Ó (onde logo depois de
1567 um devoto erguera pequena capela com essa santa invocação), as
casas e palhoças continuaram a levantar-se mais ou menos separadas umas
das outras e ainda à beira do mar, e também em uma só linha, que muito
em breve formaram a primitiva Rua Direita, que é desde 1870 a Rua Primeiro de Março. [Referência ao final da Guerra do Paraguai].
Tudo foi obra de 1568 a 1572, e não admira, porque as primeiras casas
eram de construção muito ligeira e evidentemente provisória.
Mas em ano que ocorreu entre o de 1568 e o de 1572 alguns colonos abriram à pouca distância do começo da rua que se denominou Direita, uma entrada em ângulo reto com ela, e cada qual foi improvisando grosseiro ubi para
si e para a sua família aos lados dessa aberta feita sobre areias e
por entre mesquinha vegetação denunciadora de antigo domínio do mar.
E, curiosa, interessante, notável, notabilíssima ideia ou inspiração
daqueles colonos portugueses tão bisonhos e tão sem malícia!… como
aquela aberta ainda não era rua, e eles precisavam designá-la por algum
nome,chamaram-na Desvio do Mar. Desvio!
Eis o berço da bonita, vaidosa e pimpona Rua do Ouvidor! […]
O Desvio teve por primeiros moradores gente pobre, no
trabalho, na ativa; peões que exerciam misteres, operários, e um
cirurgião que era barbeiro dos nobres.
Mas no ano de 1590 e sem intervenção nem audiência da Câmara Municipal, o Desvio do Mar por acordo geral dos colonos subiu ao grau honorífico de rua urbana com o nome de Aleixo Manoel […] nome masculino, feio, ingrato, peão sem raiz de fidalguia, nem carta de nobreza.
[…]
Aleixo Manoel, colono português, era cirurgião e também barbeiro,
mas barbeiro só de fidalgos; morava no monte de S. Januário perto do
colégio dos padres jesuítas; como porém poucos doentes tivesse, e ainda
menos fidalgos a barbear, lembrou-se um dia de procurar fortuna,
explorando a guerra.
Neste ponto minha tradição se aproveita de uma lúgubre página da história.
Como os índios Tamoios, irreconciliáveis e odientos inimigos
dos portugueses, hostilizassem a estes constantemente, atacando e
destruindo seus estabelecimentos rurais na capitania de s. Vicente, e
ainda mais na do Rio de Janeiro, para nesta capitania levarem a ferro e
fogo o extermínio a esta tribo funesta e indomável.
Aleixo Manoel alistou-se voluntário na coluna expedicionária fluminense, que foi comandada por Cristóvão de Barros.
A história guarda a lembrança da justificada, mas horrorosa, guerra:
o incêndio devorou dezenas de aldeias de índios, e destes mais de dez
mil foram mortos, mas de sete mil prisioneiros e reduzidos à
escravidão, e os Tamoios que puderam escapar meteram-se pela floresta, emigrando para bem longe e para sempre.
Mas o que a história não diz, e a minha tradição informa, é que a tremenda expedição rendeu a Aleixo Manoel dois escravos tamoios, a
quem ele generoso e a custo salvara da medonha hecatombe de uma horda
apanhada de surpresa em sua aldeia, nas proximidades de Cabo Frio.
Os dois escravos eram um índio quase sexagenário e uma índia, sua
neta, de três anos de idade; – um homem já a envelhecer, e uma menina a
criar; mas para conseguir salvá-los da morte, Aleixo Manoel os tomou à
sua conta”.
Joaquim Manuel de Macedo nos dá conta do final feliz dessa história,
quando a menina, que se chamava Inês, aos 17 anos escapa de ser
raptada por fidalgos libertinos e se casa com o seu senhor, que então se
torna nome de uma rua, até o ano de 1659, quando perdeu a honraria
para o Padre Homem da Costa, que também de glória efêmera, pois daria
lugar à homenagem, e dessa vez permanente, a um seu morador mais
ilustre, o juiz-ouvidor Francisco Berquó da Silveira. Nas palavras de
Joaquim Manuel de Macedo, a Rua do Ouvidor foi a mais passeada e
concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora,
fútil, noveleira, poliglota e enciclopédica de todas as ruas do Rio de
Janeiro.
E Luiz Edmundo: “Foram os franceses do tempo do senhor Pedro I,
saiba-se, com as suas lojas de novidades, as suas costureiras, os seus
cabeleireiros e umas instalações completamente novas para nós, feitas à
moda de Paris, que criaram a elegância de certas casas de comércio da
Rua do Ouvidor. Quando eles aqui chegaram, o varejo local, atrasado e
mofino, criou-lhes embaraços de toda ordem, moveu-lhes uma guerra
tremenda; guerra de inveja, de ciúme e de má vontade”. Mas segundo Luiz
Edmundo, o povo lhes dava preferência. As lojas da Rua do Ouvidor
tinham nomes assim: Notre Dame de Paris, Tour Eiffel, Carnaval de
Venise, Palais Royal, L’Opera. Comparada por um escritor francês à
parisiense Rue Vivienne, pela Rua do Ouvidor desfilou todo mundo que era
notícia: Ataulfo de Paiva, “engomado e risonho, uma dedada de pó de
arroz na ponta do nariz.” João do Rio, “ainda não bafejado pela glória,
mas já gorduchote, num veston cor-de-flor-de-alecrim,
mamando um charuto de 22 centímetros. As senhoras nela desfilavam de
saias compridas. “Não há pintura de olhos, de lábios, nem de rosto. As
mulheres cariocas são figuras de marfim ou cera, visões maceradas,
evadidas de um cemitério. Quando passam em bando lembram uma procissão
de cadáveres. Diz-se pelas igrejas que é pecado pintar o rosto, que
Nossa Senhora não se pintava”. E por aí vai o corrosivo Luiz Edmundo.
Uma pausa para dois dedos da prosa amena de… João do Rio!
“Era às seis da tarde, defronte do mar. Já o sol morrera e os
espaços eram pálidos e azuis. As linhas da cidade se adoçavam na
claridade de opala da tarde maravilhosa. Ao longe, a bruma envolvia as
fortalezas, escalava os céus, cortava o horizonte numa longa barra cor
de malva e, emergindo dessa agonia de cores, mais negros ou mais vagos,
os montes, o Pão de Açúcar, São Bento, o Castelo apareciam num
tranquilo esplendor”.
Por falar no Castelo:
“Numerosos, acarretando prejuízos m ateriais e
fazendo vítimas, foram os desmoronamentos de se deram nesse morro, a
partir de 1756, podendo-se registrar dentre os maiores, os de 1759,
1811, 1833, 1845, 1858, 1860, 1872 e 1896. As célebres águas do monte,
em 1811, causaram muitas vítimas, com o desabamento de casa do morro e
das ruas adjacentes […]
Noronha Santos
No começo do século 20, o morro do Castelo começou a ser derrubado,
em função de um urbanismo inspirado na remodelação de Paris pelo barão
Haussmann. Foi posto abaixo definitivamente nos anos de 1920 e 1921,
para servir de aterro do mar na área em que se construiria o aeroporto
Santos Dumont. Mas voltemos no tempo.
O tempo do ouro
O ouro que os portugueses procuravam no Brasil desde 1500 foi
finalmente achado em 1695, nas Minas Gerais, causando o maior alvoroço
nos dois lados do Atlântico. Portugal entrou na corrida, aumentando o
movimento dos barcos e incrementando o tráfico de escravos para os
garimpos. No começo, levava três meses para o ouro chegar ao porto do
Rio, percorrendo um longo caminho, em lombo de burro, que ia das minas a
Guaratinguetá, em São Paulo, e de lá para Paraty, onde a carga era
embarcada em navios que completavam o percurso, sujeitos aos ataques
dos saqueadores, sempre a postos também na baía da Ilha Grande e Angra
dos Reis.
Em 1698, Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias, o caçador de
esmeraldas, teve a ideia de abrir uma estrada que ligasse a região
mineradora ao Rio, para reduzir o tempo do tempo do transporte do ouro a
quinze dias. Aprovado pelo rei de Portugal, o caminho novo foi
concluído em 18 meses. E o Rio passou a ser a rota do escoamento dos
metais preciosos, suplantando a Bahia e algumas vilas de São Paulo como
centro de distribuição de mercadorias e de pessoas (escravos,
principalmente) para as minas, tornando-se a mais florescente colônia
portuguesa, chamada de A Praça do Rei, cuja administração era paga a
peso de ouro. E foi então que o Rio passou a viver uma era de cobiça,
fogo, tensão e terror.
Em 1710 aconteceu a invasão francesa comandada por Jean-François
Duclerc, que chegou com cinco navios e mil homens. Atacado a pedradas e
azeite quente por estudantes e donas de casa na Rua São José, acabou
preso e confinado numa casa da Rua da Quitanda, onde foi assassinado por
quatro encapuzados.
Uma segunda invasão dos franceses em busca do ouro dos portugueses
aconteceria em 1711, quando o general René Duguay-Trouin, comandando
uma esquadra de 18 navios, com cerca de 6 mil homens, 700 canhões e 10
morteiros, fez o primeiro sequestro do Rio, o da própria cidade, que
tomou de refém por 50 dias, enquanto aguardava o pagamento do resgate
para devolvê-la a seus habitantes. Foi o episódio mais dramático de
toda a era colonial lusitana.
O tempo dos vice-reis
A efervescência da corrida ao ouro fez a população do Rio crescer,
chegando aos 50 mil habitantes em 1763, o ano da transferência da
capital do país da Bahia para cá. Era o início a um novo tempo: o dos
vice-reis. Foram eles: 1. Conde da Cunha. 2. Conde de Azambuja. 3. Dom
Luís d’Almeida Portugal, Marquês do Lavradio. 4. Luis de Vasconcelos e
Souza. 5. Conde de Resende. 6. D. Fernando Portugal. 7. Conde dos
Arcos, de governo rápido, que se destacou pelos preparativos da recepção
à corte de D. João VI, em 1808. Os mais celebrados, porém, foram o
Marquês do Lavradio, o primeiro a pensar em alargar as ruas e Luis de
Vasconcelos, que se deslumbrou com o quadro maravilhoso da natureza, a
lhe oferecer um painel de sonho, mas se horrorizou com “a mancha brutal
na paisagem radiosa”, no dizer de outro Luis, o Edmundo. As casas eram
feias. As ruas, sujas. As águas, fétidas. O conjunto exasperava. Para
piorar, Luis Vasconcelos constatou que os portugueses não tinham vindo
para fazer um país, mas para se enriquecerem rapidamente, nem que para
isso fosse preciso arrasar a terra.
A situação deplorável do Rio não o levou a tapar o nariz e dar-lhe
as costas, como fizeram quase todos os outros, que imploravam ao rei
suas transferências de cidade. Pôs-se a andar, com planos de
embelezamento do espaço urbano, abertura de avenidas e saneamento de
suas condições insalubres. Jovem, galante, dinâmico e humanitário, Luis
de Vasconcelos condoeu-se com a sorte dos escravos, que eram
castigados pelos seus senhores com exagerado rigor, e proibiu a
aplicação da justiça a domicílio, passando-a à alçada do Estado. Suas
andanças o levaram à pestilenta Lagoa do Boqueirão da Ajuda, que mandou
aterrar, para a construção do Passeio Público. O aterro foi confiado
ao Mestre Valentim (Valentim da Fonseca e Silva), que arborizou toda a
área, fez um jardim, no qual colocou pavilhões fechados, com murais e
muitas obras de arte, entre elas a Fonte dos Amores.
Luis de Vasconcelos foi sucedido pelo Conde de Resende, que ficou
com fama de mau, por ter mandado matar Tiradentes (em 21 de abril de
1792), por ordens do rei, contra as quais ele nada podia fazer.
O tempo dos vice-reis durou de 1763 a 1808.
1808!
Uma história que vem sendo recontada à exaustão, desde 2008. E não sem motivo.
“O desembarque da família real portuguesa no Rio de Janeiro, aos 8
de março de 1808, foi mais do que uma cerimônia oficial: foi uma festa
popular. Os habitantes da capital brasileira corresponderam
bizarramente às ordens do vice-rei conde dos Arcos e saudaram o
príncipe-regente, não simplesmente como o estipulavam os editais,
respeitosa e carinhosamente, mas com a mais tocante efusão. Dom João
pôde facilmente divisar a satisfação, a reverência e o amor que
animavam os seus súditos transatlânticos nos semblantes daqueles que em
aglomeração compacta se alinhavam desde a rampa do cais até a sé, que
então era a igreja do Rosário […] Não era para o Brasil menos
fundados os motivos de júbilo…”
Oliveira Lima (D. João VI no Brasil, 3ª. edição, Editora Topbooks, 1996).
A história do país passaria a ser contada assim: antes e depois desse dia.
E tudo (ou quase tudo) aconteceu no Rio:
1815 – D. João VI eleva o Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarves.
1816 – Vinda da Missão Artística Francesa, de tanta influência na arquitetura da cidade.
1818 – Passados dois anos da morte de D. Maria I, a Rainha Louca, D. João VI é aclamado rei.
1820 – Ele inaugura a Praça do Comércio – onde hoje é a Casa França
Brasil -, que deu origem à Associação Comercial do Rio de Janeiro.
1821 – Portugal exige sua volta, sob pena de perder o trono. D. João
VI retorna a Lisboa, deixando seu filho Pedro como príncipe regente.
1822 – Independência (cujo grito, porém, foi dado por D. Pedro I em
São Paulo, às margens do Ipiranga, no dia 7 de setembro; mas sua
aclamação como Imperador do Brasil aconteceu no Rio de Janeiro, em 12 de
outubro daquele ano).
1831 – no dia 7 de abril, D. Pedro I abdica do trono a favor de seu
filho Pedro II, então com apenas 5 anos, e volta a Portugal (de onde
saíra aos 9 anos), como duque de Bragança.
1888 – Abolição da Escravatura, pela princesa bisneta de D. João VI.
1889 – Proclamação da República.
No século 20, a cidade seria submetida a uma série de transformações, nesta ordem:
1. 1903-1906 – Abertura da Avenida Central que, em
1912, com a morte do Barão do Rio Branco, passou a ter o nome dele.
Extensão: 1.800m. Largura: 33m. Desapropriações: mais de 600 prédios.
“No processo de construção da Avenida Central, por
não ter havido um plano geral de conjunto, houve como consequência a
crise habitacional, em parte resolvida precariamente com o adensamento
das favelas. As construções proletárias da ocasião nem de longe
correspondiam às necessidades da população crescente da cidade e dos
desalojados”.
Donato Mello Júnior
2. 1920-1922 – Derrubada do Castelo, para os
aterros que se espraiaram do cais do Calabouço à Praça Paris. E a fazer
parte de um dos planos mais equivocados da cidade – que resultou na
Esplanada do Castelo – a contrariar o seu próprio propósito: remodelação, extensão e embelezamento.
3. 1940 – Avenida Presidente Vargas. Extensão:
quatro km. Mais de 600 casas foram abaixo. E com elas a Praça Onze,
além de um corte no Campo de Santana e a perda da igreja de São Pedro
dos Clérigos. E mais: a igreja da Candelária ficava de costas para a
avenida. Tentaram por todos os meios invertê-la. Não conseguiram. Os
poderes do Papa foram mais fortes do que os do presidente Vargas.
4. Derrubada do morro de Santo Antônio, em função
do plano urbanístico para a realização do XXXVI Congresso Eucarístico
Internacional, em 1955. A catedral da Avenida Chile foi construída como
parte da negociação para a derrubada daquele morro.
Disso tudo, ficou uma arquitetura que não apresenta uma harmonia do
ponto de vista estético, mas que oferece uma visão abrangente da
história do Rio de Janeiro, situando as três principais fases dos
poderes que a marcaram. Assim: Poder colonial – Paço Imperial. Do
Império – Campo de Santana. Republicano: Cinelândia.
Com a transferência da capital federal para Brasília, em 1960, a
cidade tornou-se estado – o estado da Guanabara, que em 15 de março de
1985 deixou de existir, com o Rio voltando a ser capital. Estadual.
Próximos capítulos: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016,
quando esta cidade voltará a ser capital de outro império – o
midiático.