Antônio Torres: Um escritor com um pé na estrada e outro na linguagem

por Ítalo Meneghetti

O nomadismo da linguagem ficcional de Antônio Torres amplia a noção de espaço na construção romanesca contemporânea da literatura brasileira fazendo o leitor viajar na fronteira entre o papel e a imaginação.

“Eis-me de regresso a essa terra de filósofos e loucos, a começar pelo meu pai, que disso tudo tem um pouco.” Com essas palavras Antônio Torres abre a cena do seu livro O cachorro e lobo, segundo romance de uma trilogia que tem início com Essa terra e, provisoriamente, termina com Pelo fundo da agulha. Ótima pegada literária para começar a página em branco, angústia de todo escritor, mas que, para o baiano do Junco é sempre o ponto de partida lúdico para mais uma viagem dentre as tantas que já empreendeu nos caminhos da linguagem, quando espaço na imaginação e convite permanente ao imaginário dos leitores.

Ítalo Meneghetti é doutorando e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com bolsa de pesquisa-doutorado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Professor universitário, atualmente responsável pelas disciplinas de Literatura Brasileira e Teoria Literária das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Trabalha como pesquisador e consultor autônomo, na interface cultura e ambiente, junto ao Terceiro Setor, atuando no projeto de criação da Fundação Mantiqueira, no sul de Minas Gerais. Escreve os blogs www.cadernosdoprofessoritalo.blogspot.com e www.lavradapalavraitalobruno.blogspot.com . Contato: < italo.meneghetti@gmail.com >.

Juan Rulfo (1917-1986), consagrado escritor mexicano em seu brilhante Pedro Páramo também desloca o seu protagonista no espaço para declarar, logo na primeira linha, o seu tom inquietante de uma escrita nômade buscando lugares e gentes para dar ambiência à narrativa, espacializando o texto, arrancando o leitor da sua cômoda poltrona ou divã, puxando-o para a estrada, no pó divagador da linguagem – “Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo. Y yo le prometí que vendría a verlo en cuanto ella muriera.”.

Em algumas entrevistas Antônio Torres declara a sua admiração por Juan Rulfo e, não por obra do acaso as suas escritas buscam processos que se assemelham. Trabalham com a complexidade do espaço local dos lugarejos, que apesar da aparente simplicidade e mesmice encerram em seu teor dramático o mundo. Daí, desde a muito, ficcionistas como Torres e Rulfo deixaram para traz as aparentes cercas da região e ganharam outras terras por força da universalização das suas narrativas.

Afirmar que tais escritores são regionalistas, no sentido reducionista, é, no mínimo, desconhecer geografia e a força do lugar como célula do mundo em seu teor humano de conflito e possibilidades. João Gumarães Rosa apostou nisso e criou uma das maiores obras do século 20, fazendo do lugar sertão todo lugar do mundo onde houver alguém no dilema do amor, da vida, da morte e da solidão na existência.

Antônio Torres, esse nômade contemporâneo das nossas letras, faz de cada criação uma viagem, levando na bagagem, feita de muita pesquisa, memória e lembrança, o seu leitor que o acompanha na poeira da sua linguagem estradeira, misto de caravana em travessia nos desertos do sertão nordestino e andanças na solidão das metrópoles do mundo.

“O mundo é um carro de boi, que vai rodando para a frente, gemendo em cima de um eixo.” O deslocamento. A inquietude do movimento. Trânsito. Idas e vindas. Travessia. O nomadismo da linguagem ficcional de Antônio Torres amplia a noção de espaço na construção romanesca contemporânea da literatura brasileira fazendo o leitor viajar na fronteira entre o papel e a imaginação.

A linguagem torresiana brota dos mananciais barthesianos, plena de sabor e saber, temperada no ludismo com que os grandes escritores preparam as suas iguarias para servir ao paladar sensível e exigente dos convidados à mesa da leitura. E ler é sempre um convite à degustação.

“E lá embaixo está a rua, como o lugar sempre foi chamado, desde os seus tempos de povoado. Virou uma cidadezinha, quieta, silenciosa, enfeitada de árvores e antenas parabólicas – à espera do fim do mundo. Não faz nem meio século que ganhou o status de cidade. Mas quantos anos de solidão?”

Aliando estética apurada de linguagem ao deslocamento quase obsessivo de seus personagens os textos de Antônio Torres são feitos de amplidão acolhendo toda a nossa ânsia essencial por andar com os pés, o olhar e a imaginação os lugares do mundo, feitos de vilarejos e metrópoles, por onde todos caminham e passeiam com o que nos faz um só e o mesmo em todos os lugares: a presença e ausência com que nos brindam a vida e a morte seja qual for a vida, qual seja a morte.

“Agora refaço o caminho com a certeza de que não é mais o mesmo. Parece intransitável, tantos são os seus buracos e regueirões. Por aqui passavam carros de bois, tropeiros, vaqueiros, cavaleiros endomingados, homens, mulheres e meninos, à pé, em bando, e também caminhantes solitários.”

A geografia do espaço em Antônio Torres é complexa demandando cuidadoso estudo teórico do seu universo construído na largueza de muito chão e afeto, sugerindo uma das mais afetivas geografias ficcionais da literatura brasileira, ao lado da produzida por João Guimarães Rosa, onde a dimensão sertaneja rompe todas as fronteiras e se humaniza em cada homem de cada lugar.

TORRES, Antônio. O cachorro e o lobo. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 133.

Rulfo, Juan. Pedro Páramo. México-Barcelona: Editorial RM, 2005.

TORRES, Antônio. Essa Terra. 15.ed. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 141.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1999.

BARTHES, Roland. Aula. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 2000.

TORRES, Antônio. O cachorro e o lobo. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 215.

Antônio Torres escreve desde 1972, com 17 livros lançados no Brasil, alguns traduzidos em diversos países, premiado no Brasil e exterior, forte candidato à ABL pela qualidade do conjunto da obra reunida nos gêneros romance, conto e crônica.

TORRES, Antônio. O cachorro e o lobo. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 7.

TORRES, Antônio. Essa terra. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. Atualmente na 23ª edição brasileira, com mais de 150 mil exemplares vendidos e traduzido para a França, Alemanha, Itália, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos e Israel.

TORRES, Antônio. Pelo fundo da agulha. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Feira de livro: Quanto menor, melhor

Texto publicado na revista Leitura, da Biblioteca Nacional, em Maio de 2008

Comecemos lembrando que feira vem do latim feria e significa dia de festa. Daí o seu caráter festivo, seja ela do que for, do gado aos livros, em local onde se faz mercado, em épocas fixas. E onde acontecem as reuniões de vendedores e compradores, estes atraídos por motivações as mais variadas, como o atendimento a necessidades básicas (produtos alimentícios e de vestuário, por exemplo), novidades, vendas a preços reduzidos, entretenimento, animação.

Suas origens remontam à Grécia Antiga, em Delfos e Delos. Mas foi na Alta Idade Média, com a renovação comercial da Europa, que as feiras se tornaram o centro da vida econômica internacional. A partir de então passaram a ser favorecidas pelos senhores e pelos reis, que concediam privilégios a seus participantes (garantia de herança, garantia contra prisão por dívida, autorização de empréstimo a juros), e se tornaram também Bolsas de Valores que aceitavam letras de câmbio e pagamentos a termo. Isso proporcionou o surgimento de grandes corredores comerciais nas cidades situadas ao longo das encruzilhadas das estradas que levavam da Itália aos Países Baixos, e nas que iam da Hansa à Île-de-France.

Sim, foi na França, e no século VII, que as feiras progrediram. Mais precisamente: em Saint-Denis e no Lendit. Chegaram ao apogeu no século XII, quando o renascimento comercial europeu e o recuo do Islã puseram em relevo as cidades de Champagne e outras próximas do Mediterrâneo, na região de Languedoc – Nîmes, Carcassone, Saint-Gilles. Do século XIII em diante, feiras como a de Beucaire, cidade situada no vale do Ródano, cresceram de importância. Instituídas em 1420, as de Lyon se tornaram ponto de encontro internacional e de concentração de bancos. Fora da França, destacaram-se as de Bruges, Antuérpia, Ypres e Torhout, nos Países Baixos; Stourbridge, na Inglaterra; Colônia, Frankfurt, Nuremberg, Leipzig, na Alemanha; Milão, Veneza ou Piacenza, na Itália. Depois do século XVII, a maior parte delas viria a desaparecer, em função da melhoria das comunicações, o que levou as companhias comerciais a distribuir os seus produtos através de uma rede de sucursais.  

Evolução mercadológica alguma, porém, seria capaz de decretar o fim das feiras. Elas haveriam de sobreviver à vertiginosa expansão dos sistemas de distribuição de mercadorias, com as facilitações dos canais de vendas (supermercados, shoppings, redes de lojas globalizadas, telemarketing, web, tudo que está aí, ao alcance das nossas mãos). Adaptaram-se aos novos tempos e diversificaram-se, de acordo com o meio e as modas. Das feirinhas semanais de cada povoado ou cidadezinha, às dos bairros nas cidades maiores, elas cresceram e se multiplicaram, em cenários ideais para lançamentos de produtos, promoções, alívio de estoques, convívio, festa. No Brasil, há até uma cidade que deve o seu nome a uma feira de gado, evocada numa música que os boiadeiros cantavam pelas estradas de uma vasta região do país: “Mundo Novo adeus/ adeus minha amada/ eu vou pra Feira de Santana/ eu vou vender minha boiada”. A história dessa feira começa em meados do século XVIII, numa fazenda chamada Santana, no estado da Bahia, que se tornou pouso para tropas de gado que vinham do Piauí, Goiás, Minas Gerais e do próprio interior baiano. O ajuntamento resultou em feira e daí à fundação, em 1873, da Cidade Comercial de Feira de Santana, que em 1938 teria o seu nome reduzido para o atual. Autoproclamada “a princesa do sertão”, Feira de Santana é hoje a maior cidade do interior baiano, com cerca de 800 mil habitantes. O seu desenvolvimento fez com que o campo do gado desse lugar à ocupação urbana e se tornasse apenas uma referência histórica.

Igualmente memorável é a feira de Caruaru, em Pernambuco, aquela que “dá gosto a gente ver”, pois “de tudo que há no mundo, nela tem pra vender”, conforme a imortalizou Luiz Gonzaga, o rei do baião. E quem não se lembra de Simon & Garfunkel cantando “I’am going to Scaborough fair?” A dupla cantante alardeava que estava indo à feira de uma cidade do estado de Nova York, que pelo visto devia ser famosa. E agora passemos ao real motivo destas linhas: as feiras de livros. Claro que estas têm propósitos idênticos aos de quaisquer outras, mas de algumas delas se diferenciando pelo histórico menos enciclopédico. Entre o célebre poema de Castro Alves, O livro e a América, declamado com grande sucesso pela atriz Eugênia Câmara em 3 de julho de 1867 (“Oh! Bendito o que semeia/ Livros… livros à mão cheia… / E manda o povo pensar! / O livro caindo n’alma/ É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar”), a fundação, em 1918, da primeira editora nacional, pelo escritor Monteiro Lobato, e o surgimento das feiras de livros no Brasil, muita água rolou debaixo das pontes. Mas onde? Quando?

Uma cidade: Porto Alegre.
Data: 16 de novembro de 1954

A cidade adentrara a década de 1950 com 400 mil habitantes. Seu local de maior movimento era a Praça da Alfândega. Diante da badalação bem ao centro da capital gaúcha, um jornalista chamado Say Marques achou que ali estava um lugar perfeito para a instalação de uma feira de livros. Sua idéia não surgira do nada. Ele se inspirara em algo do gênero que havia visto na Cinelândia, no Rio de Janeiro. E assim, no dia 16 de novembro de 1954 os gaúchos tiveram um motivo a mais para badalar na Praça da Alfândega: a inauguração da Feira do Livro de Porto Alegre, que se resumia a 14 barracas de madeira em torno do monumento ao general Osório. 

Um começo modesto, diríamos hoje, já acostumados aos mega-eventos que a indústria editorial tem promovido. No entanto não se pode dizer o mesmo do objetivo daquela feira, que se iniciava com uma conceituação ambiciosa: “Se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo”. Tal slogan encarava um problema que perdura no país através dos tempos, escancarando uma realidade irrefutável: nossas livrarias são para poucos. Se não chegamos a ter, em todo o nosso imenso território, menos pontos de venda de livros do que a cidade de Buenos Aires, como se costuma alardear, ainda não dá para nos ufanarmos dos nossos números já alcançados. Segundo a revista Panorama Editorial (no. 35/ outubro 2007), da Câmara Brasileira do Livro, um diagnóstico do setor livreiro desenvolvido pela ANL aponta a existência de 2.600 livrarias no Brasil. A maior parte (53%) está concentrada na região Sudeste e distribuída da seguinte maneira: 48% em São Paulo; 24% no Rio de Janeiro; 25% em Minas Gerais; e 3% no Espírito Santo. Os outros 47% estão assim divididos: 15% na região Sul; Nordeste, 20%; Norte, 5%. Centro-Oeste, 4%; Distrito Federal, 3%.

O quadro exposto acima não é nada favorável em relação ao acesso da população aos livros. E isto mais de meio século depois do brado porto-alegrense, que vale a pena ler de novo: “Se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo”. As estatísticas comprovam que o apelo publicitário dos livreiros, em 1955, continua atualíssimo. De acordo com recomendações da ONU (Organização das Nações Unidas), o ideal é haver uma livraria para cada 10 mil habitantes. “Estamos muito longe dessa realidade”, diz Vítor Tavares, presidente da ANL, a Associação Nacional de Livrarias, à já citada Panorama Editorial. Ele dá como exemplo o estado de São Paulo, onde há apenas 676 livrarias – o maior número do país – para uma população de mais de 40 milhões de habitantes.

Tudo isso reforça a necessidade de mais e mais feiras de livros Brasil adentro e afora, a exemplo de Porto Alegre, que entrou para a história menos pelo pioneirismo da sua iniciativa e mais pelas inovações que iria introduzir em relação às incipientes, precárias e esparsas realizações do gênero em outras praças. Já na sua segunda edição (1955), a Feira do Livro de Porto Alegre apresentava como novidade as sessões de autógrafos. Na terceira, passou a vender coleções pelo sistema de crediário. Nos anos 70, introduziu uma programação cultural que lhe deu mais abrangência. Na década de 1980, abriu espaços para livros usados. A partir de 1990 veio a ter a adesão de grandes patrocinadores. Cresceu e apareceu no calendário de eventos anuais da cidade, consagrando-se não só por se tratar de uma das mais antigas e maiores feiras de livros do país, cujo interesse se tornou nacional, mas por se manter fiel à velha praça onde foi inaugurada, com todo o seu charme histórico e colorido popular. E porque há registros de sua origem, continuidade e desenvolvimento, até em livro (do escritor gaúcho Walter Galvani), não deixa de ser um marco dos empreendimentos congêneres bem sucedidos da indústria e comércio livreiros. E, de alguma maneira, serviu (e serve) de modelo às de cidades que as realizam em praças públicas, em vez dos fechados e sombrios centros de convenções, como as de Ribeirão Preto (SP) e Caxias do Sul (RS), esta já entrando na sua 24ª. edição, significando isto que ela existe desde 1984.

Lobato ia gostar de ver isso,
ou diria que ainda é pouco?

 No eclético elenco de suas criações figura um slogan indelével: “Um país se faz com homens e livros”. Hoje há quem conteste isso. Pouco adiantará produzir-se livros e livros à mão cheia num país ágrafo. Melhor cuidar antes da formação de leitores. Seria, então, a porção editor de Monteiro Lobato que havia pesado mais, quando ele investiu em tal campanha?

Polêmicas à parte, o certo é que as idéias que mais o consumiram não foram em vão. A começar pela que ficou conhecida como “O escândalo do petróleo”. Hoje pareceria até inacreditável que um brasileiro tenha ido parar na cadeia por querer provar de todos os modos a existência de petróleo em território nacional, quando todo o aparelho do Estado, em conluio com uma empresa norte-americana chamada Standard Oil, fazia de tudo para negá-la. Por ironia do destino, o primeiro poço de petróleo aberto no Brasil surgiu no Lobato, na periferia de Salvador, Bahia, no ano de 1939. Mas era agora, ao saber que o país se prepara para entrar no cartel dos 10 maiores produtores de petróleo do mundo, que o polemista José Bento Monteiro Lobato (1882 – 1948) poderia se sentir um visionário. E também ao constatar que avançamos a passos de gigantes na indústria editorial, que é hoje a mais poderosa de toda a América Latina. E é essa indústria a maior incentivadora das feiras de livros, que funcionam como canais de escoamento de uma produção que nem sempre está ao alcance dos leitores nos limitados espaços das livrarias.

À medida em que cresceram e se multiplicaram, as feiras passaram a ter outras designações. Foi então que surgiram as bienais, a começar pela de São Paulo, inaugurada em 1968. A do Rio de Janeiro seria instalada pela primeira vez em 1981. O próprio crescimento do mercado empurrou-as para o gigantismo e para a participação internacional: países homenageados, número cada vez maior de escritores estrangeiros convidados etc, tudo isso inspirado no Salão do Livro de Paris, que homenageou o Brasil em 1987 e 1998 – a idéia dos cafés literários veio de lá -, e na Feira de Frankfurt, que o fez em 1994.

Por sua vez, as bienais do Rio e São Paulo inspiraram outras, de Campo Grande, MS, a Fortaleza, CE, de Goiânia, GO, a Maceió, AL. No rodízio geral, somam com as feiras anuais, que chegaram à marca de 150, informa a Câmara Brasileira do Livro. Segundo a CBL, as menores congregam em média 100 mil pessoas. O recorde de público ficaria com a Bienal de São Paulo de 2006: 811 mil participantes. A do Rio de Janeiro também costuma fazer bonito na passarela, pois há muito tempo vem ultrapassando os 600 mil visitantes, conforme o Sindicato Nacional dos Editores de Livros tem divulgado.

Cronologicamente, o Rio Grande do Sul volta a merecer um capítulo especial, pelas também bienais Jornadas Literárias Nacionais de Passo Fundo, criadas em 1981, com 750 participantes, que atualmente chegam a cerca de 20 mil, no espaço de maior movimentação cultural do país, aliando a formação de leitores à venda de livros, num feirão que começa dentro da UPF – a universidade que idealizou o evento e, em associação com a prefeitura local, o organiza, promove e divulga -, às mais de dez livrarias da cidade, cuja existência se deve às Jornadas Literárias, promotoras ainda de um dos maiores prêmios brasileiros (100 mil reais), que tem o nome da empresa que o patrocina, Zaffari & Bourbon. Tudo sob o comando da dinâmica professora Tânia Rösing. Resultado: uma outrora obscura cidade interiorana de 170 mil habitantes, para lá da serra gaúcha, foi guindada ao título de Capital Nacional da Literatura, sancionado pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, através da lei federal no. 11 264, de 02/01/06. É preciso dizer mais?

Na seqüência, vem o caso da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), cuja repercussão supera as das iniciativas similares européias (são mais de mil), que lhe serviram de modelo. Pelo menos essa é a avaliação de sua idealizadora, a inglesa Liz Calder. Por sua vez a Flip fez moda nos trópicos e inspirou os encontros de Ouro Preto, MG, e, mais visivelmente, a Fliporto (Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas, Pernambuco), e Brasil vai. O ano de 2007 acrescentou um ponto a essa história, com a entrada em cena da Feira do Livro de São Luís, organizada pela Fundação Municipal de Cultura e o Sesc Maranhão. Tantas feiras, bienais, salões, jornadas e festas de livros seriam inimagináveis ao tempo de Monteiro Lobato. Mas não é necessário ser um crítico tão radical quanto ele foi para dizer que ainda falta muito para chegarmos a um nível ideal. Basta fazer a conta: 150 feiras por ano, num país de mais de cinco mil municípios. Entre os não-feirantes de livros inclui-se a próspera Feira de Santana. “Mundo Novo adeus…”

Vida de viajante

Novo mesmo é isto: nunca dantes se viu tanto escritor rodando de feira em feira como nos últimos tempos. Nesse ir-e-vir cruzam-se nomes em princípio de rodagem com outros já bem quilometrados, entre eles um pop-star oitentão, o popularíssimo Ariano Suassuna, aquele cristão que, ao contrário do seu personagem João Grilo, não nasceu antes do dia. Outro da mesma faixa etária que bomba nos auditórios é Carlos Heitor Cony, tão bom de prosa escrita quanto falada. E neste exato momento deve haver uma platéia em algum lugar se divertindo muito numa palestra de Nélida Piñon, de Moacyr Scliar, de Ignácio de Loyola Brandão, de Ferreira Gullar… só para lembrar alguns dos mais falantes.

O autor destas linhas faz parte do time dos que vivem de escrever e falar sobre isso. E atesta que houve um progresso considerável quanto à exposição pública de escritores nas mais variadas regiões do país. Tudo obedece a uma estrutura com apoio logístico, quanto a transportes, hospedagem, alimentação, e algum respaldo econômico. Esse tempo de estrada, porém, vem de longe. A bem dizer, começou em 1975 com um debate no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, organizado pelo contista João Antônio e mediado pelo filólogo Antônio Houaiss. Três dos componentes da mesa passaram a ser convidados para falar em tudo quanto era canto, às vezes juntos, em outras separados. Foram eles o já citado Loyola (conferir no livro dele, Veia bailarina, de 1997), o próprio João Antônio e o locutor que vos escreve. Um dia foi Campos, outro Bauru, depois Assis, Marília, Campinas, Americana, Araraquara. Parecíamos uma trupe mambembe, a ciganear de cidade em cidade, e logo cruzando com outros escritores, de diferentes gerações e tendências, em rodoviárias, estações de trens, aeroportos, hotéis. Mas também dormíamos em casa de professor ou em alojamento de estudante, sempre correndo o risco de sermos proibidos de falar, como aconteceu na Universidade Federal de Juiz de Fora. (Na semana seguinte, a mesma proibição recairia sobre Darcy Ribeiro e Ferreira Gullar). Tudo parecia uma aventura, nem sempre confortável, mas com seus encantos.

Um deles era a descoberta dos nossos pares. Márcio Souza em Manaus; Moacyr Scliar e Tânia Faillace em Porto Alegre; João Ubaldo Ribeiro em Salvador; Benedicto Monteiro em Belém do Pará; Newton Navarro em Natal; Domingos Pellegrini Júnior em Londrina; Lygia Fagundes Telles, Edla Van Steen, Ivan Ângelo, Moacir Amâncio, Wladir Nader, Hamilton Trevisan, Márcia Denser e Raduan Nassar em São Paulo; Oswaldo França Júnior, Wander Piroli, Sérgio Sant’Anna e Roberto Drummond em Belo Horizonte; Luiz Vilela em Ituiutaba, onde no ano de 1976 houve uma feira de livros, à qual cheguei num ônibus que partira de São Paulo, e rodou por mais de mil quilômetros, quase nada, para quem havia estado na capital do estado do Amazonas poucos dias antes. Vida que segue: Curitiba, Criciúma, Itajaí, São José do Rio Preto, Mossoró, Fortaleza, Recife, Manaus e Belém outra vez, Ipatinga, Teixeira de Freitas, Jequié, Alagoinhas… de pequeno em pequeno público, acaba-se fazendo um publico, eis a esperança de quem vive de escrever e falar sobre isso.

Às vezes, de onde se espera muito não acontece nada, ou quase nada (os tais mega-eventos, por exemplo, de Rio e São Paulo), podendo-se comprovar também o contrário, como no modesto Salão do Livro do Piauí, realizado num centro de convenções de Teresina, onde um auditório com 800 lugares fica completamente lotado. E daí para mais, embora de forma previsível, em Paraty e Passo Fundo. Pois acredite: no mapa dos eventos literários nacionais, quem surpreende mesmo é Teresina, que acaba nos convencendo que  quanto menor é a feira de livro, melhor.    

No mais, é a solidão de um país grande.

Crônica / Ao Autor com Carinho por Jean Wyllys

Jean Wyllys (fonte original)

Dizem que, quando se lê um livro, um romance, o que menos importa é a intenção do autor. Isso porque cada leitor recria a obra em questão. Concordo. Mas não posso deixar de confessar que, desde que li Essa terra, de Antônio Torres, passei a alimentar a vontade de conhecê-lo pessoalmente, de trocar uma ou duas palavras com ele, mostrar meus escritos ou, se assim não fosse possível, pegar um autógrafo seu. Queria saber o que pensava aquele homem que criou história tão contundente sobre as estratégias de sobrevivência dos homens que vivem em fronteiras culturais.
.
Os livros que até então havia lido – e, conseqüentemente, seus autores – não me despertaram igual desejo. Aconteceu com Essa terra talvez porque a edição que caiu em minhas mãos trazia, como prefácio, o fac-símile de uma carta em que aparecia a palavra “Alagoinhas”, nome de minha terra natal. Talvez porque o capítulo mais inventivo e mais triste – Essa terra me enlouquece – revela fatos que se passam em Alagoinhas. A vontade de conhecer Torres surgiu do sentimento de pertença.
.
À medida que lia outros livros do escritor baiano, que é também um dos mais conhecidos e comentados escritores brasileiros fora do Brasil, via amadurecer aquele desejo. Mas havia decidido que não apressaria o rio. Se a minha vida tivesse que tropeçar na biografia de Torres, nada poderia fazer a não ser esperar. Continuei escrevendo, conclui o curso de jornalismo e passei a trabalhar como repórter. Certo dia, em meio ao burburinho da redação, recebi a notícia de que Antônio Torres voltaria à cidade de Sátiro Dias (há 20 anos ele deixou o interior da Bahia para se aventurar no eixo Rio – São Paulo) para receber homenagem da gente que lhe viu nascer. Exultei, principalmente porque o jornal me escolheu para cobrir o evento.
.
Numa manhã ensolarada de agosto de 1998, o repórter fotográfico Haroldo Abrantes e eu chegamos ao antigo Junco (hoje Sátiro Dias), lugarejo à espera do fim do mundo no agreste baiano, a 191km de Salvador. Faixas, cartazes e até uma banda de pífanos rendiam loas ao ilustre escritor que colocou o nome daquela terra nas páginas do jornal Le Monde, de Paris. Mas o que me deixou em êxtase foi perceber que os personagens e os cenários descritos em seus livros estavam materializados em minha frente. Era impossível olhar aquelas quase três mil pessoas e não enxergar aquela gente que povoa romances como Essa terra, Adeus, velho e O cachorro e o lobo, dividida entre o amor ao buraco de solidão e poeira que é o Junco e a esperança de uma vida melhor em outros cantos.
.
Depois de conversar com moradores da cidade, aproximei-me de Torres meio tenso embora estivesse exercendo a função de repórter. Ele abriu um sorriso, deixando transparecer certa surpresa em relação àquele repórter de 23 anos de idade, com cara de 17, e pediu que deixássemos a entrevista para mais tarde, quando ele estivesse sem tanta gente em volta. Concordei e segui para o cruzeiro que fica no alto de um monte, de onde se tem uma visão panorâmica de Sátiro Dias. Aos poucos a noite escura fez com que a luz das velas ao pé da cruz brilhassem mais.
.
Chegou, enfim, a grande hora. Na casa do leitor de Antônio Torres mais apaixonado por sua obra, iniciamos a entrevista. Já que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão ou por trás dos disfarces, Torres notou que meu desejo maior era falar sobre literatura, especialmente a sua. Com o mesmo sorriso de antes, propôs: “Deixe o gravador de lado e vamos conversar sobre prosa e poesia”. E, em seguida, pediu um uísque ao dono da casa.
.
Por horas seguidas conversamos sobre autores de que mais gostamos, recitamos trechos de poesias, cantamos músicas que remetem a personagens, lembramos obras adaptadas para a tevê, o cinema e o teatro, falamos mal dos vendilhões do templo, dos comerciantes travestidos de artistas, criticamos a arrogância dos que se autoproclamam intelectuais das Letras e as vaidades dos escritores e recordamos os encontros memoráveis. E rimos, rimos muito.
.
A generosidade e a grandeza de Torres me comoveram bastante. Percebi que maior que o escritor (cuja talento é reconhecido em mais de 13 países e cuja obra é discutida em diversas universidades) é o homem. Ao mesmo tempo fiquei feliz por ele ser assim, pois, mesmo que digam que a intenção do autor é o que menos importa quando se lê um livro, se Torres fosse cínico, reacionário e hipócrita, como o são muitos escritores brasileiros menores que suas obras, com certeza passaria a enxergar Essa terra com outros olhos. E certamente não convidaria Torres para escrever a orelha de meu primeiro livro, Aflitos.
.
* Jean Wyllys é jornalista e autor do livro de contos Aflitos e aluno do mestrado de letras e lingüística da Ufba
(Publicado no Correio da Bahia de 17/03/2002)

Melhor seria estar aqui para falar com ele, e não sobre ele

Antônio Torres

(Data da publicação: 27 de maio de 2017. Onde: Caderno de Sábado do Correio do Povo, de Porto Alegre. Motivo: o evento “Scliar a quatro vozes”, realizado na noite anterior no Teatro da Santa Casa de Misericórdia, com Luís Fernando Veríssimo, Ignácio de Loyola Brandão, Zuenir Ventura e o autor deste texto).

“Sou apenas um dos numerosos nomes que integram a extensa lista daqueles que fazem do estado do Rio Grande do Sul o cenário e a motivação para a sua literatura”.

Foi assim que Moacyr Scliar se definiu em seu discurso de posse à Academia Brasileira de Letras. Era a noite de 22 de outubro de 2003 e ali, tanto para o numeroso público que o assistia, quanto para os anais da Casa de Machado de Assis, Scliar levou as suas marcas de origem, oriundas de uma cultura própria expressa num vigoroso legado literário, reflexo, por sua vez, de uma história verdadeiramente épica, da qual ele fez o seguinte resumo:

“Conquistado aos espanhóis, o território rio-grandense foi cenário de ferozes lutas que resultaram em sua incorporação à coroa portuguesa. As vastas extensões territoriais foram divididas entre os conquistadores. Resultou, daí, o latifúndio, que deu à região a sua primeira riqueza: o gado, criado extensivamente no pampa. E aí surge também o gaúcho, que logo inspiraria os primeiros escritores rio-grandenses, notadamente Simões Lopes Neto”.

Moacyr Scliar foi recebido na ABL por um seu conterrâneo, o poeta e romancista Carlos Nejar, que o descreveu como um judeu aventureiro e universal, cujo reino era o Bom Fim de Porto Alegre: os habitantes de sua infância, existentes, existidos ou inventados, aos quais, aliás, o próprio Scliar havia se referido como os primeiros leitores de suas primeiras historinhas, passadas de mão em mão no bairro pelos seus pais. E todos diziam que ele era o escritorzinho do Bom Fim. “E a verdade é que nunca pretendi ser mais do que isto”.

Foi.

Ele o sabia. E sabem todos que já tiveram o prazer de lê-lo, aqui – dos leitores comuns aos especializados, a exemplo de Regina Zilberman, Luís Augusto Fischer, entre tantos outros, como o já citado Nejar, para quem o texto de Scliar encanta pelo domínio da palavra simples, humana, ágil; pela sua imaginação transfiguradora nos aspectos sutis, atônitos ou astuciosos dos seres e do mundo -; e para além das fronteiras gaúchas e do país, como o crítico do New Yo r k Ti m e s que o chamou de “mestre brasileiro”, enquanto na Suíça louvam o humor, o realismo e a poesia que permeiam a sua obra e, na França, a sua capacidade de dissecar a violência, a crueldade e a miséria com ironia e imaginação, enquanto na Alemanha destacam-lhe o talento para descrever a trajetória daqueles que escapam à norma.

Pronto.

O autor destas linhas chegou aonde queria. Pois foi uma alemã quem o apresentou ao protagonista deste relato. Passou-se isto no aeroporto de Frankfurt, onde o locutor que vos escreve e o escritor Silviano Santiago desembarcaram, na manhã do dia 11 de novembro de 1985, para um circuito de palestras por várias cidades da Alemanha. E lá estava, a espera-los, a dinâmica agente literária e tradutora Ray-Güde Mertin, que os pediu para aguardar o desembarque, dali a pouco, de dois outros convidados brasileiros: Antonio Callado e… Moacyr Scliar.

Até então eu só o conhecia das páginas literárias da imprensa. Esse conhecimento à distância começara por uma página-dupla de uma importante publicação semanal paulistaque circulou nas bancas nacionais de 1952 a 1993. Em sua edição de 14 de maio de 1973, a revista Visão fez um balanço da “jovem produção literária brasileira”, com uma análise nada indulgente do crítico Carlos Nelson Coutinho – um baiano radicado no Rio, onde era professor universitário -, na qual o recém-lançado romance A guerra no Bom Fim é saudado como uma das mais importantes criações narrativas brasileiras dos últimos anos:

“Tomando como ponto de partida a problemática humana dos judeus num bairro de Porto Alegre, Scliar generaliza essa problemática a ponto de aproximar-se de uma ampla reflexão estética sobre as contradições e o judaísmo no mundo de hoje. As misérias e grandezas do povo judeu, seus sonhos e seus desencantos, são apresentados com distanciamento auto-irônico, num estilo maduro e bem articulado”, escreve Carlos Nelson, destacando ainda que o primeiro romance de Scliar aborda uma temática de real significado para o ser humano, e o faz com um profundo domínio da técnica literária.

Eram cinco os jovens autores analisados, mas apenas dois deles passavam com louvores pelo crivo daquele crítico – o outro foi o que sobreviveu para agora contar a história, que se resume a um recorte amarelecido pelo tempo, a estampar as fotos daquele par de romancistas em começo de carreira, e que deviam ter sido puxadas dos arquivos da revista por Vladimir Herzog, o seu editor de Cultura de 1968 a 1973, dois anos antes de ser assassinado em um porão militar.

A partir dali Scliar iria demarcar o seu lugar na história da literatura de forma tão unânime quanto a votação que viria a ter ao ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, num eloquente reconhecimento a um expoente da geração literária que começou a publicar em fins dos anos 60 e começo dos 70, no auge de uma ferrenha ditadura. “Naquela época escrever era uma forma de resistência. Resistência a que Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio e tantos outros se engajaram de maneira admirável, percorrendo o país e falando para jovens nos mais remotos lugares”, escreveu ele em crônica publicada na Zero Hora de 9 de novembro de 2002.

Conquanto fizéssemos parte dessa geração, não tivemos qualquer tipo de contato, fosse pelo correio ou por telefone, antes de nos encontrarmos na Alemanha. Lá, palestramos juntos em universidades e bibliotecas públicas de Frankfurt, Colônia e Bielefeld, o que representava metade do roteiro organizado pela Ray-Güde. A outra metade levou Scliar com Callado para Hamburgo, enquanto Silviano e eu seguíamos para Bonn, Munique e Berlim.

Voltaríamos a nos encontrar no Rio de Janeiro, onde, a cada vez que ele me procurava, eu o levava a bater perna de Copacabana ao final do Leblon. Não demoraríamos a voltar às mesas literárias do Brasil e do mundo: Rio de Janeiro, Paris, Porto Alegre, Guadalajara, Porto de Galinhas (Pernambuco). E voltamos à Alemanha, na primeira vez em que o Brasil foi o país homenageado da Feira do Livro de Frankfurt (1994). Com este timaço: Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Ana Maria Machado, Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, Chico Buarque, Zuenir Ventura, Darcy Ribeiro, Ferreira Gullar, Roberto Drummond, Ziraldo, Josué Montello, Cícero Sandroni, Paulo Coelho. Primeiro a falar num painel intitulado “Brasil, um mosaico de províncias”, do qual Ubaldo e eu fazíamos parte, Scliar soltou a verve que lhe era peculiar: “Isto é uma covardia” – começou ele. “Botaram dois baianos contra um pobre de um gaúcho. Depois reclamam que o Rio Grande do Sul queira se separar do resto do Brasil”.

Assim era o Moacyr Scliar que conheci: rápido no gatilho. Tanto falando quanto escrevendo, como comprovam os mais de 80 livros que publicou em 40 anos de batente, passeando com a mesma desenvoltura pelo conto, o romance, a crônica e o ensaio. Mas, convenhamos: voltar a Porto Alegre para tecer-lhe loas póstumas não tem a mesma graça das vezes em que vim aqui para falar com ele. Já que a vida quis assim, só me resta fechar este curto tributo com 80 longos abraços em sua memória.

O Porto bebido e revivido

In: “Terceira Margem” no. 3/ 2002 – Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal

Esta história começa na Regaleira, na rua Bonjardim, numa noitede verão do ano de 1965.

Personagens à mesa: o Sr. Coelho, um homem elegante, empertigado, calvo e poderoso; um irmão dele – talvez se chamasse José -, de aparência modesta, como se a sua falta de capricho na maneira de vestir-se fosse uma estratégia, para não ofuscar o brilho do outro, notoriamente mais importante e vaidoso; os demais, num grupo de seis pessoas, eram da mesma família, moças e rapazes que pareciam só ter olhos e ouvidos para o digníssimo cavalheiro que, naturalmente, iria pagar a conta.

Havia, porém, um corpo estranho nesse quadro familiar: um brasileiro de 24 anos, recém-chegado de São Paulo, para trabalhar como redactor de tuna agência de publicidade em Lisboa, chamada Belarte, uma empresa que, como o seu dono, tinha a sua origem no Porto, onde mantinha a sua sede ou casamatriz, O Sr. Coelho – eis o homem -, achou que era pelo Porto mesmo que o brasileiro faria o seu baptismo de fogo. Os dois, o patrão e o empregado, chegaram por via aérea, no final de uma bela tarde de domingo. Quando o avião começou a descer, o Sr. Coelho fez o brasileiro olhar pela janela, dizendo-lhe: “O senhor está a chegar a uma cidade de heróis.” Ao dizer isso, esboçou um sorriso, não apenas satisfeito por haver produzido uma frase de impacto (não fora ele o dono de uma agência de publicidade), mas por estar prestes a pôr os pés no chão onde havia nascido. Em seguida, tirou do bolso um espelhinho e um pente. Mirou-se no espelho, que segurava com a mão esquerda e, com adireita, ajeitou cuidadosamente os cabelos que ainda lhe restavam, nas laterais da cabeça. Voltou a sorrir. O brasileiro achou que era bom trabalhar para um homem feliz, que, com toda a certeza, devia se considerar um herói, por ser um filho do Porto. Só não entendia porque esse homem tão feliz o chamava de “senhor” Que infelicidade! No Brasil, isto era uma consideração para com os mais velhos ou uma formalidade para com os superiores hierárquicos. Lá não era costume chamar-se um jovem de “senhor”. Tratando-o assim, o Sr. Coelho fazia-osentir-se um ancião, aos 24 anos.

Em terra, uma caravana os aguardava. O irmão do Sr. Coelho parecia indócil, ao perguntar, várias vezes, pelo brazuca,que se sentiu uma ave exótica ao ser chamado desta maneira. Mas logo percebeu o tom afetuoso do tratamento. Foi recebido com efusivos votos de boas-vindas. Nada mal, para começar.

Do aeroporto seguiram todos para o Grande Hotel do Império, na Praça da Batalha. O Sr. Coelho e o seu redactor importado de São Paulo subiram aos seus quartos, que ficavam lado a lado, lá deixaram as suas malas e voltaram imediatamente ao saguão, para juntarem-se novamente àcomitiva e seguirem com ela até à Regaleira, onde o brasileiro seria batizado com vinho verde na sua opípara primeira noite no Porto.

A mesa regalava-se a cada garrafa comandada pelo Sr. Coelho. “Embriagai-vos! De vinho, de poesia ou de virtudes!”, pensava o brasileiro, já um leitor de Charles Baudelaire. Mas o irnão do Sr. Coelho tinha pensamentos mais prosaicos. Queria saber se era verdade que os papagaios do Brasil falavam. Ao ser informado que alguns até cantavam o Hino Nacional, ele entrou em êxtase, como se acabasse de ouvir a coisa mais extraordinária que alguém já tivesse lhe contado. E, revirando os olhos, com o enlevo de uma criança, confessou o maior sonho de sua vida: “Ali, gostava muito de ter um papagaio. E dos mais faladores!”

O brasileiro, embora sensibilizado com o desejo do seu afável interlocutor, o senhor portuense que o recebera tão efusivamente, temeu pelo rumo da conversa. E não sem razão. Não demorou muito para o irmão do Sr. Coelho dar a cartada definitiva, ao perguntar se ele por acaso tinha prestígio suficiente no Brasil para mandar vir de lá um papagaio. E agora? Papagaio! (No Brasil, essa exclamação significava: Caraças!). Como sair dessa, sem deixá-lo desapontado? A situação não era das mais fáceis, até porque o homem era irmão do patrão. Naquele momento ele, o brasileiro, deu voltas à cabeça. Finalmente entendia a razão da ansiedade daquele que tanto havia perguntado, no aeroporto, se o brazucaviera, e de todos os salamaleques da recepção. Tudo por um papagaio!

– Ternos problemas em relação a isso – disse o brasileiro. – A fiscalização da Sociedade Protetora dos Animais é muito rigorosa com a saída de aves e pássaros do Brasil. Há uma lei que proibe isto. Ufa! Foi duro dar essa resposta àquele que tanto sonhava ter um papagaio.

O homem murchou. E emudeceu, num deplorável estado de desilusão. Não seria de estranhar se, mais tarde, na calada da noite, ele viesse a dizer para o irmão que a vinda do brasileiro não tinha valido a pena. Uma providencial voz feminina quebrou o silêncio, que já se tornava tenebroso:

– Tem piada! Ele é brasileiro mas não se parece com os outros.

– Como assim?

– Ele não tem os cabelos encaracolados como os outros.

O estranhamento tinha a sua razão de ser. De brasileiros ela só conhecia os jogadores que atuavam no Futebol Clube do Porto, a cada temporada, pelo visto todos negros. Ele aproveitou a oportunidade para esclarecer que seu país era multifacetado, multiracial, multicultural, multitudo. O Sr. Coelho, que o ouvia com atenção e interesse, de repente se deu conta de que algo errado havia acontecido à mesa: o brasileiro havia deixado muita comida em seu prato. Num tom de voz exasperado, perguntou:

– Por que o senhor come tão pouco? É para não perder a elegância?

O brasileiro assustou-se com a pergunta, para a qual não tinha uma resposta convincente. Distraira-se com a conversa, com o vinho, com o brande depois do café… sabia lá por quê! Ou, vai ver, a Regaleira o deixara com saudades de um bar paulistano chamado Baiúca,onde, àquelas horas, o Zimbo Trio podia estar tocando: “Esta noite / quando eu vi Nanã / vi a minha deusa / ao luar…” E onde, no fim da madrugada, o último pianista tocaria Round About Midnight,a música dos músicos, a trilha sonora das noites das cidades grandes, São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Paris. Qual seria a música do Porto?, ele se perguntava, enquanto a voz do Sr. Coelho interferia em seus pensamentos, superpondo-se aos sons transatlânticos que vinham em camadas, na sua memória auditiva – o piano, a bateria, o contrabaixo, Tom Jobim e Baden Powell, o sax de John Coltrane, o trompete de Miles Davis.

– Imagine se coméssemos tão pouco como o senhor! Como poderíamos ter dado um Dom Afonso Henriques, aquele que, com uma única mão, sustentava uma espada de oitenta quilos?! – disse-lhe o Sr. Coelho, visivelmente contrariado.

Todos riram às bandeiras despregadas, como se o patrão tivesse contado uma anedota impagável. E quem é doido de não rir de anedota contada por um patrão??? O brasileiro também riu. Aquela história de Dom Afonso sustentar uma espada de 80 quilos, com uma única mão, tinha piada, sim senhor. Não disse, mas pensou: “Caro Sr. Coelho: vim aqui para escrever os seus anúncios. E não para levantar espadas.”

E assim tenninou a primeira noite dos meus I5 dias no Porto, daquela vez. Houve outras. A penúltima durou 1 ano e 6 meses. E cá estou novamente.

2.

28 de Janeiro de 2000.

O brasileiro voltou e já está à porta da Regaleira, depois de um bordejo de reconhecimento da cidade, capitaneado pelo professor Arnaldo Saraiva, que o levou primeiramente a revê-la de cima, para a reconstituição de sua memória visual, como num feixe de imagens do tempo a ser reconquistado. Tudo como dantes: há 35 anos também não faltou quem o levasse a contemplá-la das alturas, no outro lado do rio. É vendo-a de cima que se percebe que esta cidade foi uma fortaleza que não facilitava a entrada dos seus invasores d’antanho. Percebe-se mais: que o seu casario, tão esplendidamente fotogénico, sobe a encosta na mais perfeita harmonia, como se cada casa tivesse sido montada por um artesão, que depois a encaixou à mão, tomando todo o cuidado para não destoar dos demais, que por sua vez haviam-se desempenhado com o mesmo critério e rigor. É de cima que se vê melhor o quanto o rio é baixo: suas águas ficam muito aquém das ribanceiras. Foi lá de cima, de um deslumbrante posto de observação, que, por um breve momento, tentei rever a mim mesmo, ou, pelo menos, um pedaço da minha juventude, quando perambulava no sobe-e-desce do lado histórico da cidade, que tanto fez parte da história de um pedestre anônimo, sem eira nem beira, no entanto a sonhar todos os sonhos do mundo, e que a um só se resumiam: tornar-se um escritor.

E nisto o Porto não me negou fogo, nas noites e dias gelados de seus longos invernos, nas suas chuvas de granizo a chicotear-me a cara, nos seus nevoeiros a fazer-me andar às cegas, nos seus verões de São Martinho em pleno novembro, quando a cidade sombria multicoloria-se, levando todos às tascas, na mais fantástica e compreensível das comemorações, em homenagem àquele que, por um período que em geral durava três dias, governava o Porto, fazendo jus a seu epíteto de astro-rei.

Havia sol também nessa tarde de Janeiro. Um sol esmaecido a produzir um efeito especial sobre o colorido das pontes, monumentos, paredes, portas e janelas. Como as águas do rio, tudo se doura, sob a luz tênue do entardecer. Suaviza-se a cidade granítica, que um dia a mim pareceu ter gerado homens empedernidos, que, subconscientemeute, viviam a levantar espadas de 80 quilos, e com uma única mão! Ora viva: este brasileiro tem que reconhecer a sua dívida de gratidão para com esta cidade que um dia lhe pareceu de pedra até a alma, naqueles idos dos 60, nos estertores do reinado de Dom António de Oliveira Salazar, diga-se. Como no título de Alexandre O’Neill, “Feira Cabisbaixa”, os homens aqui pareciam viver encastelados num círculo de desesperança, a darem voltas em torno da sua melancolia, como em todo o País. Nestas circunstâncias, espaço e tempo, o Porto franqueou-me umlaboratório para o meu processo criativo: aqui encontrei o cenário e os personagens de um romance chamado Os Homens dos Pés Redondos. São estes personagens e este cenário o que tento reencontrar agora, ao chegar à Regaleira,embora já sabendo que a cidade já não é a mesma de trinta e cinco anos atrás: repaginou-se, cedendo às pressões do inescapável destino da modernização, aqui, registre-se, encontrando soluções arquitetônicas surpreendentes, ao estabelecer umvisível equilíbrio entre passado e presente, tradição e modernidade. Mas vamos à Regaleira,que, trinta e cinco anos depois, continua no mesmo lugar. Com a sua mesma porta escura e o mesmo cartazete nela afixado: “Tripas à moda do Podo.”

Lá dentro, porém, já não parece mais a mesma. Entro e páro. O balcão, onde o ator João Guedes – que morava em Matosinhos – e eu bebíamos cerveja acompanhada de tremoços, às vezes contando com a alegria da presença da actriz Isabel de Castro, em temporada no Teatro Experimental do Porto, bem, o balcão da Regaleira parece mudado. Ficou maior e pior. Há agora um certo aspecto de decadência e vulgaridade num ambiente que antigamente assemelhava-se a um santuário, de tão intimista e aconchegante. No balcão, onde o João Guedes citava de memória trechos e mais trechos do Grande Sertão: Veredas, o romance monumental do brasileiro João Guimarães Rosa, para os seus amigos que aqui vinham reencontrá-lo sempre, o que há agora é tão somente um solitário leitor de um jornal desportivo. É uma noite de sexta-feira e, estranhamente, só uma mesa do restaurante está ocupada, por um casal de idade avançada. Pelo visto, a Regaleira jáconheceu noites mais felizes. Saudades do Sr. Coelho e seus familiares. Muito mais ainda do João Guedes. Tempus fugit. Como na música do pianista norte-americano Bud Powell.

Deixo a Regaleira e me ponho a andar. Vou até a esquina, à procura de uma tasca chamada Maria Rita. Ali, um desenhador chamado De Jesus, sempre com uma tesoura ao bolso e dizendo que iria enfiá-la na barriga do seu chefe, no dia seguinte, e o cabo Emílio, que toda noite contava a mesma história, na qual se via como um herói, quando, ao prestar serviço militar em Macau, deu um murro num tenente que lhe roubara a namorada, e fora posto num navio de volta, para amargar 5anos de prisão – pois estes dois memoráveis personagens do Porto já não estão entornando um copo atrás do outro, na Maria Rita, pela simples razão de que aquela tasca não existe mais. E eles? Ainda estarão vivos? E o que fizeram ou fazem de si mesmos?

Vagueio pela Bonjardim em sentido contrário. Dou de cara com o luzidio edifício de 5 andares, que era um dos pilares do dinheiro do Porto. Ostentava na fachada um logotipo formado por 3 letras: BPM. Um artifício, que transformou uma casa bancária em “Banqueiros.” Era isso o que dizia o “B” do logotipo, fazendo-se passar por “Banco.” O PM significava Pinto de Magalhães, quem não sabe? Cá estou a ver o Sr. Afonso, um homem muito simples, de origem humilde, que começou como cambista de moedas na fronteira da Espanha, ao tempo da guerra: ele está atendendo a várias chamadas telefónicas ao mesmo tempo, do Brasil, de Paris, de Nova York. Ao seu lado, de pé, o seu genro Rodrigo segura-lhe os fones, fazendo as trocas de instante a instante, para que o sogro converse um bocadinho com um, depois com outro, volte àquele cuja conversa foi interrompida e assim vai. Bom e obediente rapaz, esse seu Rodrigo. Sogro e genro já não pertencem a este nosso mundo.

O BPM também já morreu, O seu edifício ostenta agora o logotipo de outro banco.

Logo por ali, na Sá da Bandeira, 56, último andar, ficava a Pali – Publicidade Artística Ltda. Laborei lá durante um ano e meio, trazido de Lisboa por um brasileiro, que por sua vez foi importado da Mac-Cann Erickson do Rio de Janeiro pelo banqueiro Afonso Pinto de Magalhães. E assim o carioca Eugénio Lyra Filho transformou um departamento de publicidade em agência, e a agência em mais uma empresa do conglomerado BPM. O bom Lyra também já se foi, lá no Rio. E onde estariam os outros camaradas desse tempo, como o belga René Cooinans e o velho Mário Frazão? Foi dele que ouvi uma sábia declaração, sacramentada por um brande: “Escuta-me, rapaz. Bom não é ser pai. Bom é ser avô. O pai reprime. O avô deixa o neto fazer o que quiser.” Ele acabava de ganhar um neto. Estava em estado de graça. Impossível recordar o Frazão sem um bocado de afeto.

Ninguém mais precisa me dizer que A Brasileira está fechada. Meninos, eu vi. Era em tomo dela que homens soturnos gravitavam, até ficarem de pés redondos. Mas o Majestic continua vivo e ainda aqui, com toda a sua majestade, na rua de Santa Catarina, onde morei, lá mais para cima, dividindo um apartamento com o ator Luiz Alberto. Lembranças de um médico chamado Jorge Tunhas, que aqui lia um livro atrás do outro, enquanto aguardava ser chamado para a guerra. Uma noite, à véspera do embarque, tomou um pifa daqueles! Saiu urrando pelas ruas. Urros lancinantes, como uma fera ferida. O horror da guerra. O Majestic me recorda também uma moça que, nos fins de tarde, entre um café e outro, me ensinava inglês. No Majestic começo a leitura do Primeiro de Janeiro pelo expediente. Quero ver se o Manuel Dias ainda está lá e se já é o seu Director de Redacção, Editor-Chefe, qualquer coisa assim. Importante! Lembro-me dele como um gajo esperto, rápido, criativo e… bom de copo! Se talento vale alguma coisa neste inundo, Manuel Dias já deve  ser o dono do Primeiro de Janeiro. Decepção: o nome dele sequer figura no expediente, Deixo o jornal de lado. Não tem Manuel Dias? Não vai ter este leitor.

Falta-me coragem para subir a rua de Santa Catarina até o prédio onde morei. Saudades do Sr. Soares, o zelador. Ele adorava uma bagaceira, que bebia escondido da dona Angelina, nos fundos de uma pequena mercearia, no outro lado da rua. Depois da terceira dose, puxava a carteira do bolso e dela retirava um retrato de dona Angelina quando jovem: “Ela é bonita, não é?” – dizia, embevecido. Não dava para discordar dele. Mesmo entrada em anos, dona Angelina continuava uma mulher muito bonita. Todo domingo, religiosamente, ele assava um bacalhau, que cobria com imensas rodelas de cebola. E eu que não fizesse a desfeita de faltar ao seu almoço, servido sempre na sua pequena área de serviço. Jamais alguém neste mundo assou um bacalhau tão bom quanto o do Sr. Soares. Uma noite, dona Angelina me chamou à sua casa. Ele estava de cama e queria que eu fosse visitá-lo. Fui imediatamente. Sentei-me ao seu lado, perguntando se queria que chamasse um médico. Disse que não. Já estava entupido de remédios. De pé no quarto, dona Angelina reclamava: o marido não podia continuar bebendo do jeito que bebia, diariamente. Pediu-me para lhe dar uns conselhos, enfim, que o fizesse parar de beber. Enquanto ela saía resmungando, o Sr. Soares ordenou-me que levasse a mão por debaixo da cama, depressa, antes que a sua mulher voltasse. Obedeci-lhe. E fiz a caça ao tesouro escondido. Entreguei-lhe a garrafa. Com uma sofreguidão infantil, o Sr, Soares destampou-a e sorveu um trago. Depois estalou os beiços e sorriu, contente da vida.

Ao se recuperar da doença, procurou-me para dizer que dona Angelina o havia proibido de beber. Estava muito infeliz por causa disso, numa desolação de dar dó. Dei-lhe uma cópia da chave do meu apartamento, dizendo-lhe que quando sentisse vontade de um copo, era só ir lá e procurar um garrafão que estava na cozinha. Seus olhos brilharam. Ele voltava a ser uma alma deste mundo. Eu não podia negar esse favor ao homem que fizera de tudo para impedir os moradores – todos os moradores! – de me expulsarem do prédio, por causa da música que eu ouvia e de uma festa que promovi, para as bailarinas e bailarinos da Gulbenkian, em apresentação na cidade. O Sr. Soares conseguiu impedir a minha expulsão com um argumento tirado da manga, como o jogador que puxa a última carta, ainda que seja um blefe: “O senhor doutor não conhece bem os seus inquilinos”- disse ele ao proprietário do prédio, acrescentando: “Dia destes, às duas horas da manhã, uma moradora do segundo andar me acordou para fazer calar um cachorro que latia na rua. Isso é lá trabalho para um zelador?” O Sr. Proprietário sorriu e respondeu-lle que podia ir-se, mas que recomendasse ao brasileiro para nãomais fazer barulho. Estava farto de reclamações. Grande Sr. Soares. Nenhum advogado teria feito melhor. “A partir de agora, abaixe um pouco a música, senão vou ficar desmoralizado”- sentenciou o meu competentíssimo defensor.

No dia em que fui embora ele não apareceu. Dona Angelina chegou até a porta do edifício para um abraço de despedida. “E o Sr. Soares?” Ela então esclareceu que ele se recusara a se despedir de mim. Na verdade, estava de cama. Havia adoecido, ao saber que eu ia partir. Que porra. Ele doente e eu não iria estar mais ali, para caçar o tesouro debaixo da cama, o único remédio que seria capaz de curá-lo, junto com o meu afeto, quem sabe.

Recordações à mesa do Majestic,observando um cavalheiro de seus trinta e poucos anos, impecavelmente vestido, que pede café e água, depois abre o seu laptop, colocado sobre o sofá, e começa a trabalhar, como se estivesse em casa ou no seu escritório. De repente o seu telemóvel toca. Ele leva a mão ao bolso, pega o aparelho e atende a ligação telefónica. Depois, recoloca o telemóvel no bolso e volta à sua lida, em frente do computador. Passado algum tempo, desliga-o. Quando volto a observá-lo, vejo que ele tem uma mão sobre o laptop e a outra está a mexer e remexer com a colherzinha no açucareiro, e a olhar fixamente para a parede de vidro na frente do café. Penso ter finalmente reencontrado um remanescente – ou herdeiro – dos homens dos pés redondos, por este olhar tão parado e penetrante, como se fosse furar a parede. Era uma cena típica da Brasileira. Mas as minhas recordações dizem menos respeito ao cidadão com todo o jeito de executivo da era yuppie, do que de amigos de um outro tempo: onde estará e o que faz hoje o publicitário Carlos Guimarães, que me deu guarida, enquanto eu procurava um lugar para morar? Foi na casa dele que eu vi, pela TV, o Brasil levar urna surra de Portugal, na Inglaterra, na Copa do Mundo de 1966, o ano do Euzébio. E o lisboeta Manuel Pena Costa, director da Manpower Portuguesa, ainda passa temporadas por aqui, na condução de seus negócios, e a sorver uma ginginha, depois do expediente, para espantar o frio? E a actriz Mina Vaz, que papel andará desempenhando? A ex-Miss Objectiva de Portugal Lydia Franco terá voltado a apresentar-se aqui com o balé da Gulbenkian? Em que palco o Luiz Alberto será encontrado? E Isabel Ruth, teria voltado ao Porto, depois daquele ano em que actuou no filme Mudar de Vida, de Paulo Rocha, rodado ali perto, em Furadouro-Ovar? E Pauliniia Guedes, que conheci criança e se tornou uma bela actriz, alguma vez revisitou Matosinhos? O realizador de cinema José Fonseca e Costa ainda se lembrará que foi ele quem me trouxe de carro, num belo dia ensolarado, quando vim para morar, deixando-me na Brasileira, aos cuidados do Carlos Guimarães?

Essa peregrinação memorialística vai levar a uma noticia triste: amanhã o Manuel Dias nos informará, a mim e ao professor Saraiva, que o nosso grande amigo Alberto Sérgio, o bancário e jornalista esportivo, já não poderá mais, nunca mais, ser convidado para o almoço, como nos velhos tempos. Faz umano que ele mudou-se do Porto para a cidade dos pés juntos. E assim, o meu Porto revivido não deixou também de ter uma nota de melancolia, como que saída de uma página de Scott Fitzgerald, num de seus textos mais candentes, intitulado Minha Cidade Perdida.

3.

O meu centro de gravitação no Porto era esse mesmo que é chamado de “cidade histórica.” Das sombras do BPM à rua de Santa Catarina, almoço e jantar no Rei dos Fritos, na Praça de São Lázaro, onde havia um reservado para a malta da Escola de Belas Artes, a do Teatro Experimental e este redactor. Ao final das refeições, uma moça chamada Izilda, filha do dono da casa, trazia as contas e um livro comprido, no qual cada um procurava o seu nome e anotava a sua despeza do dia, para pagar no fim do mês. Especialidades do Rei dos Fritos: tripas á moda do Porto (naturalmente) e papas de sarrabulho. Mas o cardápio era bem variado. Ali comia-se a gosto, fartamenle, e barato. E ainda com a vantagem do pendura. Depois do almoço, café com brande no Belas Artes, na outra ponta da Praça de São Lázaro. Quando o dinheiro dava, íamos ao Chez Lapin, na Ribeira, agora o point da moda, da muvuca (tradução: agito, barulho, ajuntamento de pessoas, para beber, namorar, divertir-se), com todas as incoveniências disto, não certamente para os negócios.

Fora deste polígono, fico perdido, ainda mais agora, com as mudanças que a cidade sofreu, principalmente para além do seu perímetro histórico. Talvez precisasse morar mais um ano e meio no Porto, para adaptar-me às exigências que a contemporaneidade lhe impôs, e aceitá-las sem traumas, como o fazem seus habitantes, com um indisfarçável orgulho. A questão é simples e compreensível: se revivi o seu lado antigo e pouco ou nada vivi o novo, é porque foi no Porto histórico que tive uma história. Seja como for, “Biba o Puerto, carago!!!

Tributo a dois poetas: um de Lisboa e outro de Feira de Santana, Bahia

1.

Relações transatlânticas

Em homenagem a Alexandre O’Neill, “um poeta bestial, pá!”, neto de irlandês e parente de Santo Antônio

(Do livro Sobre Pessoas – Editora Leitura, Belo Horizonte, 2007)

AUTO-RETRATO

O’Neill (Alexandre), moreno português,
Cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
Nariguete que sobrepuja de través
A ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui uma frase censurada…)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a somovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se
Do que neste soneto sobre si mesmo disse…

Lisboa, 25 de junho de 1965.

Ontem desembarcou aqui um brasileiro sem passagem de volta. E com apenas 600 dólares no bolso. Ele tem 24 anos, nasceu na Bahia, mas veio de São Paulo. Viera na classe turística de um navio italiano bonitão, o Augustus — que fazia a linha Buenos Aires-Gênova — no qual embarcara no porto de Santos, ao anoitecer de um dia cinzento. Chegou a Lisboa nesse domingo, num fim de tarde ensolarado, oito dias depois.

À primeira vista, a cidade de casario senhorial, coberto de telhas, a admirar-se no espelho das águas do Tejo, era mesmo cheia de encanto e beleza, como a cantavam, nos dois lados do Atlântico. “Se o que vês não é apenas um monte de casas velhas, tu a mereces”, ele se disse. Bela porta de entrada à Europa! Mas haja expectativa, ansiedade, incerteza diante de seu novo mundo, dali por diante.

De mala à mão, desceu do navio, despachou-se na alfândega sem problemas, recebeu e leu um telegrama, assinado por um desconhecido, que lhe desejava boas vindas e se desculpava por não poder recepcioná-lo, em virtude de um compromisso de última hora, intransferível. Grata surpresa. Sentiu-se a adentrar um território hospitaleiro. E pegou um táxi, que o levou para uma pensão na Praceta João do Rio. Precisava ficar perto da Praça de Londres, onde havia um emprego à sua espera, numa agência de publicidade, garantido pelo próprio dono dela – o senhor Coelho -, numa carta que ele portava, e à qual respondera informando o mês e o dia em que chegaria, daí o telegrama que lhe entregaram, ao desembarcar.

Instalou-se na pensão, onde a mesa era farta e o quarto confortável. Respirou os ares da praceta frondosamente arborizada, mergulhou numa banheira de água quente e dormiu o sono dos viajantes. Hoje acordou cedo, bem dormido, mas ansioso para apresentar-se à empresa que, logo descobrirá, fica num belo endereço. Marinheiro de primeira viagem, ele se regozija pelo mar de almirante em que navega até agora. Aguardemos, porém, a sua primeira tormenta, logo ao chegar ao que julgava o seu porto seguro, e ser recebido por um gerente que, do alto da sua franqueza gerencial, disse-lhe, de cara, na lata, sem mais delongas, que ele, o brasileiro, não devia ter vindo. Sua mudança para Portugal havia sido um equívoco: “Pensávamos que o senhor fosse um desenhador e não redactor”.

Imagine o pânico. Os seus 600 dólares mal dariam para uma passagem de volta. Irredutível, o gerente esclarecia-lhe que Portugal não precisava importar redactores publicitários brasileiros, pois os tinha de sobra, a maioria romancistas e poetas famosos, como José Cardoso Pires e Alexandre O’Neill, já os havia lido?

Nada a fazer. Só lhe restava (a ele, o senhor gerente), desculpar-se pelo mal-entendido e… “Passar bem”.

O brasileiro não se deu por vencido: “Quer dizer que a assinatura do seu patrão não significa nada para o senhor?” A pergunta desestabilizou toda a convicção com que o até então empedernido gerente o despachava. Percebeu isso pelos seus visíveis sinais de hesitação, ao vê-lo pegar um lenço e passá-lo na testa, a dizer:

– Deixemos que ele próprio decida.

E telefonou para o senhor Coelho, que se encontrava em casa, a cuidar de assuntos pessoais, informou. O patrão não hesitou em honrar o compromisso assumido através de uma carta transatlântica. E pediu ao gerente para passar o telefone ao redactor brasileiro. Para lhe dar as boas-vindas, desta vez de viva voz. Ufa!

Começará amanhã. Portanto, hoje terá tempo para flanar pela cidade. Desceu e engraxou os sapatos em frente ao Café de Londres, enquanto se refazia do transe vivido nas primeiras horas do dia. Aquela situação embaraçosa poderia ter sido evitada, se o tal gerente, ao agir como um cão de guarda patronal, tivesse raciocinado com rapidez, e consultado o patrão, antes de atacá-lo (a ele, o recém-chegado), com todas as unhas e dentes. Que cara, quer dizer, gajo, de raciocínio lento! Seriam todos os portugueses assim, e cheios de má vontade com um brasileiro? Mas não. Pela diligência e simpatia do senhor Coelho não podia botá-los num mesmo saco.

Ficou um tempo observando os homens que iam e vinham pela calçada, todos muito velhos, tristes, cabisbaixos, pesadões, um passo hoje, outro anteontem, a dar voltas em torno de si mesmos, num círculo de desesperança. Como se carregassem nas costas e na alma o fardo de quatro décadas de totalitarismo – na era de Dom António de Oliveira Salazar -, três séculos de inquisições, dois mil anos de cristianismo. Parecia não haver nesta cidade uma só viv’alma da sua idade. Os jovens estavam na guerra na África ou haviam fugido Europa adentro. Perguntou-se o que tinha vindo fazer aqui. Daí a pouco perceberia que a viagem havia começado a valer a pena.

Foi assim:

No Café de Londres, ainda a remoer um resto de angústia, pelo impasse que o tal gerente criara, lembrou-se de que precisava telefonar para um certo Galveias Rodrigues, o dono da Telecine-Moro, a maior produtora de filmes publicitários de Portugal. O motivo da ligação era um presentinho que ele trazia do Brasil – um boizinho de barro do mestre Vitalino -, enviado por um diretor de arte de São Paulo chamado Laerte Agnelli, que havia trabalhado seis meses em Lisboa. Desenhador podia, claro!

Apressou-se em comprar ficha e se valer de um telefone público. Galveias Rodrigues o atendeu prontamente. Em menos de uma hora já estava em seu gabinete. E dele sendo levado a conhecer os estúdios de filmagem, sala de projeção, filmes produzidos, story-boards de comerciais em produção e, por fim, a ala dos criativos. Foi aí que o nome de Alexandre O’Neill lhe foi mencionado pela segunda vez, nessa manhã. Logo, quase que o conhecia, antes de a ele ser apresentado.

O poderoso Galveias Rodrigues despediu-se, deixando-o aos cuidados do seu próprio redactor, “um poeta bestial, pá”, que adorava o Brasil, sem nunca lá ter ido. Deu para notar isso logo à entrada da sua sala, que tinha uma das paredes decorada com crônicas de Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Vinícius de Moraes e Rachel de Queirós.

— Com que então és brasileiro! – ele exclamou. – Nasceste num país grande e por isso andas pelo mundo como se estivesses atravessando um quintal.

– E o que dizer dos portugueses, que nasceram num país pequeno e se meteram em quase todos os cantos do planeta?

– Ó pá! Agora me destes uma volta.

Ato contínuo, Alexandre O’Neill levou sua inesperada visita à parede, na qual colara também poemas de João Cabral de Melo Neto. Ao mostrá-los, disse ter sido o organizador da primeira antologia de João Cabral publicada pela Portugália Editora, em 1963. E que era amigo dele. Costumava visitá-lo em Sevilha, onde o poeta brasileiro da sua maior admiração diplomaciava, como cônsul do Brasil. Encerrando esse capítulo, comentou o rigor de João Cabral com as palavras, que lhe parecia obsessivo:

– Ele afia tanto a ponta do lápis que ainda vai acabar cortando os dedos.

Antes de partirem para almoçar, ele pegou o seu paletó, que estava pendurado nas costas de uma cadeira. Enquanto o vestia, surpreendeu o brasileiro com uma observação prosaica:

– É bonito este teu casaco.

– O teu também é bacana.

– Mas não tem o corte e o caimento deste teu.

– Foi feito sob medida, para a viagem. No entanto, não tem lá essas diferenças do teu. A não ser na cor.

– Queres trocar?

Então o brasileiro passou-lhe o seu paletó azul e vestiu um marrom. Os dois encaminharam-se para um espelho. E concordaram que a permuta havia caído bem em cada um. Além de selar o começo de uma amizade, que atravessaria os tempos. Foi na casa de Alexandre O’Neill que o brasileiro encontrou guarida, ao ficar desempregado em Lisboa – e por quatro meses! –, sendo assim recebido, à Rua da Saudade, 23:

– Não precisas de emprego, mas escrever. Vou te tratar a pão e água, para que escrevas.

– E por que achas que tenho que escrever.

– Porque um dia, logo ao chegares, recitastes para mim, de memória, trechos e mais trechos de Scott Fitzgerald. Então eu pensei: “Tenho que levar esse gajo a sério”.

Amigo

Mal nos conhecemos

Inauguramos a palavra “amigo”

“Amigo” é um sorriso

De boca em boca,

Um olhar bem limpo,

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,

Um coração pronto a pulsar

Na nossa mão!

“Amigo” (recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)

“Amigo” é o contrário de inimigo!

“Amigo” é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,

É a verdade partilhada, praticada.

“Amigo” é a solidão derrotada!

“Amigo” é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

“Amigo” vai ser, é já uma grande festa!

Claro está que aquele brasileiro ainda não havia lido isto. E que, até o dia 25 de junho de 1965, não fazia a menor idéia de quem era Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões – por um lado, neto de um irlandês, e, por outro, parente de Santo Antônio, que também era um Bulhões. Portanto, não sabia que ele, aos 40 anos, era um dos maiores nomes das letras portuguesas do século 20, às quais legou páginas memoráveis, sobretudo em versos, como os de “Um adeus português”, “A pluma caprichosa”, “O poema pouco original do medo”, “O país relativo”, “Portugal”.

Sua obra poética está toda reunida num só volume, de mais de 500 páginas. Publicou livros de crônicas, com títulos curiosos, como “As horas já de números vestidas” e “Uma coisa em forma de assim”. Amou muitas mulheres (o brasileiro desta história conheceu algumas delas: Noêmia, a mãe de seu filho Xaninha, Pâmela e Teresa, com quem teve outro filho). Mudou de endereço uma vez, para a Rua da Escola Politécnica, 48. Teve um programa de TV, coluna em jornal, e muitos patrões, até não achar mais quem lhe desse emprego. Entre os altos e baixos, viveu à rasca, ou seja, com problemas de dinheiro. Viajou ao Brasil em 1983, quando conheceu o Rio, São Paulo, Salvador e Fortaleza, fazendo parte de uma delegação de escritores, que incluía José Saramago, Lídia Jorge, José Cardoso Pires e Lobo Antunes. (Ao embarcar de volta a Lisboa, no Galeão, disse: – Quem chega por este aeroporto pela primeira vez, fica a achar que está a chegar num dos países mais ricos do mundo.).

Alexandre O’Neill bebeu e fumou demais. Sofreu o primeiro enfarto aos 52 anos. Morreu no dia 21 de agosto de 1986, aos 62.

Em 6 de julho de 82, ele havia publicado no Jornal de Letras, de Lisboa, a seguinte crônica:

“Quando se está com pane cardíaca o universo míngua e um sujeito ‘desliga’. Passa para a categoria de ‘bom doente’ para ver se salva o canastro, mas não tem propriamente medo. Só tem medo que se enganem nos remédios e lhe enfiem os que são para algum vizinho… De resto, nada mais, a não ser que, quando se volta para casa, se sente tudo fora do sítio e não se acredita que o canastro volte à normalidade. Nem com um jornal na mão se pode andar. Nem se pode caminhar contra o vento. Nem… Nem… Nem… Até que um dia um sujeito se sente de repente melhor que novo e recomeça a fazer asneiras…”

*
Lisboa, 6 de novembro de 1995.
“Numa noite escura da alma são sempre três horas da manhã”.

Alexandre O’Neill: esta frase aí é de Scott Fitzgerald (lembra?) e serve à perfeição para revestir as horas já de números vestidas, sem que eu consiga pegar no sono. Vem um motorista me buscar aqui no hotel, às sete, para me levar ao aeroporto, onde devo embarcar para Roma, se sobreviver até lá. Que coisa estranha: rodei, rodei, rodei para, afinal, vir morrer em Lisboa. Estou com medo. E achando que desta noite não escapo. Não adianta mudar de posição na cama, deitar de lado até o ombro doer, esperando que o sono chegue. Já fui ao banheiro várias vezes, me olhei no espelho, pra ver se há algum sinal de morte na minha cara, que parece normal. Já bebi potes de água, e nada do sono baixar. É estranho mesmo. Muito estranho. Para piorar as coisas, vêm-me à memória uns versos da sua lavra:

Eu estava bom pra morrer

nesse dia.

Não tinha fome nem sede,

nem alarme ou agonia.

Comigo me desavenho nas horas que vão se vestindo de branco.

Estou no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade. Ainda há pouco cheguei à janela e vi as árvores negras, peladas, desvestidas de folhas, como em todos os outonos de Lisboa. E pensei: “Provavelmente um dia eu já tenha vivido aqui. Mas isso faz muito tempo. Foi no tempo de Alexandre O’Neill”. O que escreveu:

Subamos e desçamos a Avenida,

Enquanto esperamos por uma outra

(ou pela outra) vida.

Estou aqui como jurado do Prêmio Camões, ora veja. E vim com o romancista Márcio Souza e o poeta Affonso Romano de Sant’Anna. O prêmio saiu para José Saramago, aquele que me deu uma carona da casa do nosso amigo Fernando Santos para a sua, numa noite de fevereiro de 1984, em que fui seu hóspede (outra vez!), por cinco dias.

Àquela altura, você estava passando a pão e água, eu me recordo. A ponto de catar tostões para uma refeição por dia, como me contou. E remoia-se em atribulações pelo fracasso de um casamento; um filho com problemas (parece que veio a se suicidar); nenhuma perspectiva de trabalho. Ainda assim, você se contorcia em dúvidas: se devia ou não aceitar uma bolsa mensal do Instituto Português do Livro, oferecida pelo presidente daquela instituição, António Alçada Baptista, seu amigo de todas as horas, até a última. (Foi ele quem me telefonou um dia, para me dizer, desolado, que você havia entrado em coma).

– Não achas que essa bolsa é uma espécie de esmola? – você me perguntou, num daqueles cinco dias em que me oferecia a sua casa, pela última vez.

– Aceite-a como um direito. Autoral. Como um pagamento do que os editores lhe devem. E isso está vindo em boa hora, não é? – foi o que lhe respondi, incitando-o a não vacilar mais, para não continuar se martirizando com a falta de dinheiro, até para o pão de cada dia.

Fui encontrá-lo no Instituto, depois dos seus acertos burocráticos com o Alçada Baptista, conforme o combinado. Quando cheguei lá, vocês dois conversavam animadamente. Você sorria. Gostei de vê-lo de novo ânimo, de uma hora para outra. O Alçada levou-me a um passeio entre ruas de livros. Estava orgulhoso do trabalho que vinha fazendo ali. E eu dele, pelo bem que lhe fizera. A você, Alexandre O’Neill, que por um momento voltava a sorrir.

Dali fomos almoçar com o bom Irineu Garcia, o brasileiro dos discos de poesia, amigo de toda a gente do meio literário nos dois lados do Atlântico, e que já havia se tornado um lisboeta. No entanto, confessou-nos estar em dúvida se deveria ou não voltar para o Brasil. Não teve muito tempo para se decidir. Acabou sendo encontrado sem vida, pelo Cardoso Pires, num dia em que marcara um almoço com ele.

Ainda há pouco o José Carlos de Vasconcelos, o do JL, em que você tanto colaborou, veio buscar o Affonso Romano de Sant’Anna e eu para um jantar de lordes. No caminho para o restaurante, o carro em que nos levava cruzou a Rua da Escola Politécnica. Olhei à direita tentando localizar o prédio onde você morava, mas não deu para vê-lo. Depois a jornalista brasileira Norma Couri me levou ao teatro, para assistirmos a uma peça de Hélder Costa.

Findo o espetáculo, o Hélder me deu uma carona para o Procópio, onde a atriz (e que atriz!) Maria do Céu Guerra nos aguardava. E, como sempre, para cobrar as minhas memórias de você, que são as do meu tempo de Lisboa, de Portugal, àquele tempo definido pelo Fernando Santos como “um doce país fascista”, então a atravessar uma das ditaduras mais longevas do mundo. E é esse o país que está ao fundo de seus poemas.

Agora, Lisboa já não parece a cidade de homens dos pés redondos, a dar voltas em torno de si mesmos, tal qual parecia ao meu primeiro olhar, naquela manhã em que engraxei os sapatos na calçada do Café de Londres, no dia 25 de junho de 1965. Agora a cidade está chiquezinha, engraçadinha, internetadazinha, globalizadazinha. Agora, sim, é que ela desfila no “luxo blindado dos seus automóveis”. Importados, pois, pois! Percebe-se uma nova classe nesse desfile. Resta saber de onde veio, o que faz e para aonde vai.

Hoje à tarde parei diante de uma vitrine aqui ao lado do hotel, atraído por um paletó bacanérrimo. Recordei-me do nosso primeiro encontro, na Telecine-Moro. Entrei na loja e perguntei o preço. 500 dólares! Ora, viva: Lisboa não era a cidade mais barata da Europa? Pensei: esse não vou poder permutar com o O’Neill. Desta vez fico-lhe devendo um novo paletó.

No Procópio, a Maria do Céu estava cercada de amigos, como o Raul Solnado, o comediante lendário. De repente me chamam ao telefone. Era a Leonor Xavier, que amanhã estará lançando um livro muito bem editado sobre Maria Barroso, a senhora Mário Soares. Falando nisso, me contaram uma história… engraçada? Vá lá. Consta por aqui que, quando você agonizava na cama de um hospital, disse que queria a presença, ao pé dela, do presidente da República, que não era outro senão Mário Soares. Ao saber disso, ele foi visitá-lo. Mas deixou o hospital sem entender nada. Você o teria enxotado, aos berros: “Tirem esse homem daqui! Quem o chamou? Não quero falar com ele!”

Feita essa digressão (para você rir aí um pouquinho de si mesmo), volto ao telefonema da Leonor Xavier: “Tu aqui e o O’Neill cá já não está”. Desligou e veio correndo, não sei se para me ver ou ao Raul Solnado, com quem andava estremecida, mas pelo que pude perceber acabaram voltando às boas.

Seja como for, gostei de revê-la. A última vez que a havia visto foi numa festa no Rio de Janeiro, patrocinada por ela, há muitos anos — para José Saramago! O que acaba de levar o Prêmio Camões. A propósito, estranhei um cidadão que me interpelou no Procópio. Ele havia me visto na televisão, a dizer bem do premiado. Disse-me, na lata, ao jeito lusitano sem peias, que não entendia o fascínio brasileiro pelo Saramago.

– Esse gajo é um chatarrudo, um antipático, que vive a dizer mal de Portugal — e continuou desatando uma data de impropérios nada glorificantes a respeito do velho Zé, que está famoso como um corno, e com toda pinta de Prêmio Nobel. Mas aqui lhe sovam. Imagine os estilhaços verbais que sobraram para mim, por ter participado do júri e dito na televisão que o prêmio era justo etc. Chiça! Tudo como dantes. Dizer mal de toda a gente é uma tradição portuguesa, com certeza.

Também diziam muito mal de você, eu me lembro. Quando você fazia um programa na televisão e tinha uma coluna no Diário de Lisboa. Deviam pensar que você estava de tripa forra, com dinheiro saindo pelo ladrão. Sem terem antes o cuidado de verificar o seu saldo bancário. A vida é assim. Ou será uma coisa em forma de assim?

Se sobreviver a esta madrugada que avança com as horas cada vez mais se vestindo de números, escreverei umas linhas a seu respeito, nem que seja apenas para dizer que você foi um amigo como poucos.

E não foi?

*
Rio de Janeiro, 6 de fevereiro de 2007.
Pois, pois. Cá estou, sobrevivendo às minhas próprias “mós de baixo”. E condenado ao seu auto-de-fé:
Folha de terra ou papel,
Tudo é viver, escrever…

2.

Eurico em Alagoinhas.

Uma temporada entre luz e sombra

(No centenário de nascimento do poeta Eurico Alves Boaventura – 1909 – 2009)

Todos os crepúsculos agora estão em mim…
Almas estranguladas passeiam com a minha alma de confidências,
pelas escuras alamedas do passado…
Porque vens, agora, sombra amiga,
quando esta longa noite do tempo veio para esquecer,
porque vens aflorar no meu caminho a sinfonia do meu tormento?
Perdi sonhos, perdi desejos infecundos, perdi de ouvir a música do tempo.

É como se fosse a vida que imitasse a arte. Assim pensa o autor destas linhas num dia do mês de março de 2009, ao ler um poema que Eurico Alves Boaventura escreveu em 1951. Trata-se do belo e melancólico Rondó das sombras consoladoras, cujo trecho acima ilustra à perfeição a memória de uma tarde de 1970, quando o poeta recebeu em sua casa, numa ensolarada e solitária rua que se chamava Manuel Bandeira, uma alma estrangulada pelo excesso de horas presa à poltrona de um ônibus comum, do Rio de Janeiro a Feira de Santana.

Foi uma breve visita. E de surpresa. Nada além de uma pausa a meio do caminho para outros nortes, e para acorçoar-se ao sabor de um café e dois dedos de prosa, que resultariam num passeio de confidências pela longa noite do tempo em alamedas escuras do passado, e que, revisitadas agora, desembocam na página de Luz em agosto na qual William Faulkner escreveu: É o conhecimento – e não a dor – que faz você se lembrar de centenas de ruas selvagens e ermas.

Erma, sim. Selvagem, não – poderia ter concluído o recém-chegado à ruazinha àquela hora deserta, e ao ser recebido com a fidalguia peculiar a um homem de letras citadino de reconhecível herança aristocrática rural. E Juiz de Direito, ainda por cima, embora já a viver os crepúsculos da aposentadoria na sossegada Rua Manuel Bandeira, a quem o autor da Estrela da vida inteira devia a homenagem, por razões que a esta altura, imagina-se, poeta algum ignora, pelo menos na Bahia.

Recorda-se aqui a entrada da casa por uma varanda lateral, onde havia uma cadeira de balanço. Acrescente-se ao impacto visual das singelezas à chegada, portas e janelas azuis, e paredes brancas, tudo a trazer para a arquitetura urbana do século XX uma evocação da era das mansões coloniais, se é que não se delira nessa recordação.

De certeza é que àquela hora o sol amenizava-se, já em queda para o poente. E que um vento morno regia a música do tempo, numa orquestra a farfalhar em memorável concerto a sua Antífona para depois de amanhã: O vento marca o tempo, o tempo que ouço uivando/ nas marchas dos moços sem rumo.

Elegantemente trajado, como de hábito, o doutor Eurico Alves Boaventura encaminhou o seu visitante a uma mesa senhorial ao centro da sala, na qual reinava o silêncio, quebrado apenas quando surgiu uma senhora (parente sua, talvez) para cumprir o sagrado ritual da hospitalidade sertaneja, ao portar uma bandeja com um bule e duas xícaras de café. O que faltava ali? Os convivas de outra sala há onze anos atrás, numa cidade chamada Alagoinhas, onde o anfitrião era o mesmo dessa tarde que parecia mais propícia a uma soneca do que a recepções não programadas.

Mas não. O protagonista desta história era, antes de tudo, um ser gregário, um mestre na arte do convívio. Recebeu a inesperada visita de braços abertos, e de forma tão calorosa que preenchia o vazio das ausências, a começar pela dos familiares, àquela hora cuidando de seus afazeres fora das instâncias domésticas. E de que cuidava ele, agora, à sombra dos seus sessenta e um anos? Dos retoques finais num livro de mais de mil páginas datilografadas, que lhe havia consumido, em pesquisas e elaboração, a maior parte dos anos já vividos. Com o calhamaço à mesa, de repente a sala povoou-se dos vaqueiros que traçaram a rota primitiva dos destinos da Colônia que Portugal criou neste lado do Atlântico, na saga que levaria à civilização do pastoreio. Ler em voz alta era para ele uma praxe que vinha há muito do tempo, certamente bem anterior às tertúlias na biblioteca de sua casa de Alagoinhas, em noites em que cintilava uma nova constelação da poesia brasileira, que em sua voz descia redonda em ouvidos até então mais afinados com a lírica d’antanho, que os anos não traziam mais, numa cidade que ainda se movia ao ritmo dos boleros, embora já a ensaiar os primeiros passos de Rock’n roll.

Se foi um privilégio privar dos saraus na intimidade do seu lar alagoinhense, a partir do que seus convivas não mais leriam poesia da mesma maneira, imagine o que dizer da honra de ser brindado com as primeiras páginas de uma obra inédita, cuja envergadura sociológica e histórica transcendia a dimensão do volume e o esforço ciclópico do autor para realizá-la. Mas de repente ele parou. E não por cansaço ou para fazer algum comentário. Com uma mão sobre a página (devia ser a quinta ou a sexta), cuja leitura interrompera, e, abaixando ainda mais os olhos, que se apertavam por trás dos óculos, disse, em tom sussurrante, como se falasse para si mesmo:

– Quando eu me lembro…

Perturbado pelos sinais de desgosto que a repentina lembrança estampava num rosto àquele instante visivelmente sulcado de mágoas, o eterno ouvinte do poeta, ensaísta etc. e mestre informal Eurico Alves Boaventura eclipsou-se entre a luz externa, porta e janelas afora, e a sombra interna em uma alma martirizada do tempo. Restava saber que martírio era esse.

– Você sabe o que aconteceu comigo?

A cena congela aqui, no retrospecto que se tenta fazer agora. Porque a memória só alcança até aquela pergunta, diante da qual o seu ouvinte não se sentiu uma sombra consoladora, mas uma presença incômoda, desassossegadora, que trazia para aquela sala a lembrança da cidade onde o que acontecera fora abominável demais para ter consolo ou remissão, embora não saiba, agora, se já chegara àquela mesa, naquela casa de Feira de Santana, e naquela tarde de 1970, sabendo o que se passara com o Meritíssimo Juiz de Direito da Comarca de Alagoinhas no terrífico ano de 1964, na sequência das arbitrariedades militares, cuja dolorosa lembrança o tornava (a ele, o Juiz) refém do estribilho do rondó que escrevera vinte e três anos antes: Todos os crepúsculos agora estão em mim… Pois agora, e por ironia do destino, ele devia estar sentindo deveras a dor que poderia então ter sido apenas um fingimento.

O que foi mesmo que lhe aconteceu?

– Sim, eu me lembro – diz Valdemar Paraguassu, que há muitos anos vive em Salvador, mas em 1964 morava em Alagoinhas, e a poucos passos da casa do doutor Eurico, como o chamam todos daquela cidade que o conheceram. – Fomos presos num mesmo dia. Assim que me soltaram, fui embora, para assumir um emprego no Banco do Brasil em outro lugar. Por isso não soube o que aconteceu com ele depois da sua prisão. O que me lembro é do clima de terror daqueles dias, quando um comerciante encrenqueiro de lá passou a acusar de subversivo todo aquele com quem ele tinha alguma contrariedade, ou simplesmente a quem não simpatizava. Foram tantas as prisões por denúncias desse tipo, que elas viraram uma esculhambação, a ponto de o comando local das repressões ter de exigir que só fossem feitas por escrito. E com firma reconhecida!

O que dizer disso agora? Que teria sido cômico se não fosse trágico?

No caso específico do doutor Eurico, porém, a maledicência fora engendrada por um Oficial de Justiça. É o que recorda Aristóteles Freitas Costa, que àquela época era um dos alunos que mais se destacava no Ginásio de Alagoinhas, e que, como outros estudantes intelectualmente inquietos, tinha em doutor Eurico um mentor extra-classe. Costumava visita-lo no Fórum, às vezes acompanhando-o a caminho de casa, parando numa esquina e outra, em conversações que podiam ultrapassar uma boa meia hora. Formado em Direito, o velho Arica hoje mora no bairro de Icaraí, em Niterói, RJ. O que lembrou mais, ao telefone:

– Ele me aconselhava a não parar de estudar. E me indicava autores, me incentivava a ler muito. E bem. Uma vez me emprestou um livro de poesias traduzido por Manuel Bandeira, que não devolvi, porque não o vi mais, depois da sua prisão.

– E por que você não o viu mais?

– Eu trabalhava numa sorveteria do meu pai e um dia vi o policial que prendeu o doutor Eurico parado na porta, me encarando. Deduzindo que ele estava de olho em mim, fui me esconder numa fazenda que a gente tinha, e por lá fiquei um tempo, esperando a poeira baixar. Quando voltei, o doutor Eurico já não morava mais na cidade. Os comentários eram de que ele havia sido transferido para Vitória da Conquista.

Foi o que aconteceu, confirma Juraci Dórea em seu ensaio Eurico Alves e a Feira de Santana. Está no livro A poesia de Eurico Alves – Imagens da cidade e do sertão, organizado por Rita Olivieri-Godet, e publicado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia em 1999. Amigo de Eurico de longa data, o artista plástico, arquiteto e também poeta Juraci Dórea esclarece: “[…] com exceção dos períodos de férias, Eurico pouco viveu em Feira de Santana. Aos 14 anos de idade (1923) ele já se encontrava em Salvador, matriculado no Ginásio N. S. da Vitória […] Em 1934, recém-formado, estava em Feira de Santana, porém logo no ano seguinte transferiu-se para Capivari, hoje Macajuba”… E daí em diante: Tucano, Riachão de Jacuipe, Poções, Canavieiras, Alagoinhas, Vitória da Conquista “e, finalmente, Salvador”. O que significa que o doutor Eurico Alves Boaventura só voltou a viver na capital já perto de aposentar-se, e isto pouco ou nada influiria mais em seu destino literário.

Voltemos à sua temporada de Alagoinhas (1959-1964), não necessariamente Une Saison en Enfer, mas que só não se tornou uma página em branco na história de Eurico graças às incansáveis buscas biobibliográficas de Juraci Dórea e à memória de Maria Eugênia Boaventura, que era bem pequena naquele tempo, mas ainda se lembra que a casa ficava à Rua Carlos Gomes, 63, com a biblioteca na sala de visitas, e que era frequentada pela professora Normândia Azi Lacerda, o advogado Murilo Cavalcanti, um funcionário da Justiça do Trabalho chamado Giése (José Giése da Cruz, primo do autor destas linhas), o alfaiate que fazia os blazers do seu sempre elegante pai, que por sua vez fundou o Lyon’s Clube da cidade, tendo sido o seu primeiro presidente. Maria Eugênia recorda-se ainda que o doutor Eurico foi professor do Ginásio de Alagoinhas, onde dava aulas pautadas pela pluralidade de conhecimentos.

Entre as pessoas lembradas pela professora Maria Eugênia, há uma que poderia emergir das sombras reivindicando este epitáfio:

Tropeço, dentro da noite em cadáveres de sonhos…

Porém, mãos de suicidas,

As dolorosas e augustas mãos dos suicidas,

Vêem ensombrar a minha fronte para eu sonhar…

Todos os crepúsculos agora estão em mim…

No contexto destas memórias, esses versos evocam o trágico fim de um dos convivas das tertúlias à Rua Carlos Gomes, 63, Alagoinhas, Bahia. Nascido num distrito de Inhambupe chamado Junco (hoje a cidade de Sátiro Dias), onde fora batizado e registrado com um sobrenome de origem alemã como nome próprio, aposto ao de José, Giése cometeu o tresloucado gesto na casa do bispo de Juazeiro da Bahia, aí pelo ano de 1971, deixando uma carta cujo conteúdo o bispo jamais revelaria, por considerá-lo um segredo de confissão. Para que não se avente premonições do poeta, lembremos que o Rondó das sombras consoladoras é de 1951, e, também, que Eurico e Giése só vieram a se conhecer em 1959. Mas como evitar a tentação de dizer outra vez que foi a vida que imitou a arte?

1959-2009: Memórias, Sonhos…

Assim se passaram cinquenta anos: envoltos em sombras [que] abafaram os passos das distâncias/ para que não perturbassem o sono do silêncio…

– Atirador 22, sentido! Marche, marche! Do Tiro de Guerra 110 ao Ginásio de Alagoinhas, e de lá ao Fórum ou à Rua Carlos Gomes, 63 – em 1959!

Há um fabuloso tempo a ser reencontrado nessa marcha de volta.

Chegou a hora de fazer-se a luz sobre a sombra dolorosa e inexpressiva como um sonho morto que até aqui pairava na sua memória, porque você, por mais que se esforçasse, não conseguia enxergar com nitidez todo o impacto causado pela chegada do juiz-poeta Eurico Alves Boaventura àquela cidade das luzes verdes nas fachadas, em um ano de sonhos dourados de uma juventude que ele mesmo faria crer-se promissora. “Memória! Junta na sala do cérebro…” Sobre o que vocês conversavam? Nas tertúlias que promovia, ele lia seus próprios poemas? E que poetas lidos ou recomendados por ele foram verdadeiras revelações? Alguns deles chegaram a ser tão decisivos para sua formação literária, quanto os ficcionistas – Jorge Amado e Graciliano Ramos, por exemplo -, que o professor Carloman Carlos Borges levou você a conhecer, dois anos antes? Enfim, qual foi o seu real legado?

Resposta: só agora, e graças à memória do caro colega do Ginásio de Alagoinhas Aristóteles Freitas Costa, me dou conta de quem pode ter me levado a ler um poema de Federico Garcia Lorca traduzido por Manuel Bandeira, e que começa assim:

Cantam os meninos

na noite quieta;

arroio claro,

fonte serena.

OS MENINOS:

Que tem teu divino

coração em festa?

EU:

Um dobrar de sinos

perdido na névoa.

A lembrança desses versos, muitos anos depois de os haver lido em algum lugar do passado, e certamente num livro emprestado pelo doutor Eurico, levou-me a escrever o romance Balada da infância perdida, cuja primeira edição é de 1986, e que foi traduzido para o inglês com o melódico título Blues for a lost childhood. E agora também me lembro do meu segundo dia de trabalho como aprendiz de repórter policial no Jornal da Bahia, ao desembarcar de Alagoinhas em dezembro de 1959. Como no dia anterior eu havia fracassado na cobertura do movimento do porto de Salvador, onde não fui capaz de farejar uma manchete espetacular – um tiroteio cinematográfico entre policiais e contrabandistas -, me empurraram para o Necrotério Nina Rodrigues. Dali não iria voltar sem assunto. Logo à entrada via-se, estirado num estrado, o cadáver de um rapaz que se matara.

Corri para o jornal e comecei a matéria com um poema de Godofredo Filho que falava do absurdo de se morrer aos 20 anos, entregando-a em seguida, e com a ansiedade imaginável, ao chefe de reportagem, o poeta João Carlos Teixeira Gomes, que a passou ao chefe da reportagem policial, o também poeta Jeová de Carvalho, que por sua vez mostrou-a ao editor-chefe, o ficcionista Ariovaldo Matos que, de dedo em riste, disse ao aprendiz de repórter que ele estava ali para fazer jornalismo e não literatura, que poesia era coisa de… Bom, felizmente não perdi o emprego. Mas o que importa aqui é que com certeza foi Eurico quem me levou a ler Godofredo Filho. E Cassiano Ricardo. E Jorge de Lima – com quem se correspondia – de cuja obra hoje se diz que “permanece robusta e poderosa como um penhasco, na solidão incomparável do gênio”.

… Reflexões

Não dá para imaginar que Eurico um dia tenha tido pretensões de ser posto pela posteridade nas mesmas alturas de seus mais festejados (e fraternos) pares Manuel Bandeira e Jorge de Lima. Ele não era, como Gilberto Freyre – que reconhecia como grande escritor – “uma pessoa feita para se ver no espelho”. E sua obra continua “restrita a um pequeno círculo de amigos e especialistas”, como constata Juraci Dórea, mesmo em se tratando de “uma figura de proa nos primórdios do modernismo na Bahia”, no dizer do consagrado poeta Florisvaldo Mattos.

Tiremo-lo das sombras. Para que este não seja um tributo a cem anos de solidão.

Dois encontros com Glauber

Gênio ou doido? Agora que o transformaram em personagem mitológico, recordo que o vi de perto (e por duas vezes) e ele se comportou como uma pessoa normal. Foi em São Paulo, no lançamento lá de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ano: 1964.

Confesso, porém, que quando o ator Geraldo Del Rey me disse que Glauber Rocha havia marcado a entrevista para as 8 da manhã (e de um sábado!), achei que a sua fama de doido tinha algum fundamento. Madruguei para chegar pontualmente à casa do Geraldo, onde ele estava hospedado. Nem acreditava que Glauber, a figura mais discutida daquele momento (um crítico carioca chegara a escrever 25 dias seguidos sobre o seu filme), tão endeusado quanto detratado, e assim atingindo todas as colunas da glória, fosse receber um dos editores (o outro era o Franco Paulino) de uma revisteca chamada Finesse, que lembrava uma marca de papel higiênico. E que ainda por cima fora herdada de um colunista social falido, pelo gerente do hotel em que ele morava, como pagamento da sua hospedagem.

Uma sucessão de acasos fez com que fôssemos convocados por um  repórter – de O Cruzeiro -, e poeta que admirávamos, o gaúcho de Rosário do Sul Carlos de Freitas, para tocá-la adiante. O nome da revista era ruim, ele disse, mas podíamos fazer do legado do mosquito de bunda de grã-fino uma folha de rosto da cidade. O hotel garantia os custos da gráfica, pelo direito a um anúncio permanente na quarta capa. O resto era conosco. Mas sem salário. Tudo pela arte.

Topamos.

E fizemos com que a Finessepassasse a circular no eixo boêmio entre o Teatro Oficina, de José Celso Martinez Correia, ao Arena, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri – estendendo-se um pouco mais dali até o Juão Sebastião Bar, de Paulo Cotrim, que comprava uma centena de cada edição, para oferecer a seus clientes mais ilustrados. A tiragem, porém, era modestíssima: mil exemplares. O que isso poderia interessar a um Glauber Rocha, cuja carreira subia como um rojão de São João, em todas as páginas?

Pois acredite. Glauber já estava de pé às 8 horas da manhã daquele sábado. E, pelo visto, era a única pessoa acordada naquele prédio da Rua Santo Antônio, logo ao final, à direita, do Viaduto Maria Paula, e bem próximo do Ferro´s Bar, onde Geraldo Del Rey e sua bela Tânia deviam ter varado a madrugada. Com certeza ainda estavam em sono profundo. Eles e toda a vizinhança. Sinais de gente ali só os das minhas pisadas ao deixar o elevador e me encaminhar à porta do apartamento. E os passos de Glauber Rocha atrás dela. O silêncio permitia perceber que ele rondava na sala, à espera do toque da campainha. Recebeu-me com um formal aperto de mão. E não fez qualquer menção para nos sentarmos. Vai ver uma conversa ali iria acordar os donos da casa, pensei. Então puxei do bolso duas laudas com as perguntas que pretendia lhe fazer.

– Posso deixar isto, para você responder depois? – perguntei-lhe, falando baixo. Ele tinha 25 anos, apenas um a mais do que eu. Daí não chamá-lo de senhor.

Com um gesto de assentimento, acompanhado de um “Hum-hum”, deu uma olhada rápida no questionário datilografado, colocou-o sobre um móvel ao nosso lado, logo à entrada do apartamento, e me convidou para tomar um café com pão e manteiga, no botequim da esquina. Seu mal era a fome, voltei a pensar. Se não, o que havia sido feito da voz daquele cabra que tinha fama de ser falador como o cão? Às 8 horas da manhã, Glauber Rocha não combinava com a lenda noturna a seu respeito, que circulava nos bares de São Paulo. Nem parecia o autor de um texto exuberante– Memórias de Deus e do Diabo em terras de Monte Santo e Cocorobó –,que me provocara um impacto tão forte quanto um conto de João Antônio, o Malagueta, Perus e Bacanaço, publicado na mesma revista, a Senhor, que era editada no Rio, e que todo paulistano “por dentro” lia. Hoje, traduz-se esse “por dentro” como cult, ai! Meus sais!

Mas ora! Ele ia se dar ao luxo de sentar-se diante de uma máquina de escrever para trabalhar de graça para uma revista nanica! E ainda tendo de pagar do próprio bolso o desjejum do seu entrevistador! Era pouco ou queria mais?

Sim, ia ter mais.

De pé, mal-ajambrado nas vestes matinais, a barba por fazer, o cabelo desgrenhado e o umbigo no balcão do botequim, já matando quem o matava, Glauber soltou o verbo. E disse que havia lido todo o último número da tal revistinha. Elogiou o projeto gráfico (também, era de Valdi Ercolani, um diretor de arte top– meus sais de novo! – de linha). Quanto ao conteúdo editorial, tinha críticas a fazer, com um pedido de desculpa por estar se metendo em meu trabalho. “Tenho alguma experiência em jornalismo”, ele disse, modestamente. “Editei cadernos culturais na imprensa baiana e agora colaboro regularmente com a revista Senhor, que é muito bem feita, como você deve saber”. Sim, sabia. Agradeci-lhe pelo interesse, leitura de tudo, comentários que quisesse fazer. Aí ele se sentiu à vontade para criticar os textos da revista, deixando-me embasbacado com sua capacidade de citar de memória trechos e mais trechos deles, não poupando os que considerava bobos.

– Veja se isso é lá uma boa maneira de começar uma frase: “Em sã consciência…”  Você devia ter copidescado essa bobagem!

Expliquei-lhe que o autor era uma estrela da imprensa paulista, assim como os demais, todos grandes nomes do jornalismo, das letras e do teatro, que escreviam de graça. A revista era apenas uma curtição, para quem escrevia nela. Nós, os editores, Franco Paulino e eu, não nos sentíamos no direito de mexer nos textos de uma turma com tanto espírito de colaboração.

Foi aí que ele disse:

– Sendo assim, o negócio fica complicado. Mas como paulista escreve mal, hein? Você não acha?

Não. Não achava. Mas o jeito que ele falou isso foi engraçado. Encerramos o nosso café da manhã com pão e manteiga e uma boa risada. De pé. Será que ele nunca se sentava?

Na despedida, Glauber prometeu entregar a entrevista na segunda-feira seguinte, à noite, na porta do cinema, onde me enfiaria para a estréia paulistana de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

O segundo encontro

Cheguei lá à hora combinada. E lá estava ele, de barba feita, banhado, escovado e vestido com um paletó azul. E a entrevista num bolso. Fez a entrega dela, em mãos. E me empurrou para dentro cinema.

Vi o seu filme com os pés em suspenso, sem conseguir mantê-los no chão. Grande filho da mãe. Como havia chegado a tanto, mais ou menos na minha idade? Quando os aplausos cessaram, um homem começou a discursar, com a voz inflamada, no mais altissonante estilo revolucionário. Saio. E reencontro o Glauber, andando de um lado para o outro, na ante-sala do cinema. Parece que ele nunca se cansa de ficar de pé, pensei.

Ao me ver, parou. E perguntou:

– O que você achou?

– É o seu filme definitivo.

– Não diga isso. Ainda vou fazer muitos.

Ali fora, dava para se ouvir uma nova saraivada de palmas, em meio a assovios e apupos. Glauber balançou a cabeça de um lado para outro, visivelmente contrariado. Disse:

– Estou preocupado com essa assembléia aí dentro. Pode dar encrenca com os militares.

Então me contou que, naquele ano do golpe militar, ele fora obrigado a exibir o Deus e o Diabo na Terra do Sol para um grupo de oficiais do Exército, para obter a liberação da fita. Numa fala do “capitão” Corisco, interpretada por Othon Bastos – “Homem, nessa terra, só tem validade quando pega nas armas para mudar o destino. Não é com rosário, não, Satanás! É no rifle e no punhal!” -, ele sentiu uma mão bater-lhe no ombro. Apavorado, olhou para trás. E viu um major alagoano, que lhe disse: “Pode botar esse filme nos cinemas, cabra. É um filme de macho!”

Nunca mais o vi, em pessoa. Nunca mais ele teve 25 anos e eu 24. Nunca mais foi tão fácil chegar perto de um homem tão talentoso, já a caminho de tornar-se uma celebridade internacional, com tanta atenção para um qualquer, que tomava o seu tempo a troco de nada, sem que ele se sentisse assim. Glauber Rocha me entregou, numa segunda-feira, as respostas ao questionário que lhe passei, no sábado anterior. E isso num momento em que ele estava envolvido com o lançamento do seu célebre filme, ou seja, em que estava no centro das atenções. Visto isso agora, em retrospectiva, me impressiona tanto a disposição dele em responder a todas as minhas perguntas, quanto a epígrafe que escreveu para a entrevista, que vai abaixo, do jeito que ele fez, entre parêntesis e em letras minúsculas:

(se eu morrê nasce outro,
porque ninguém nunca pode
matar são jorge, santo do
povo – capitão corisco, plano
265, seqüência 446, de um fil-
me rodado em monte santo
e cocorobó, sertão brabo)

Epílogo

A entrevista de Glauber foi endeusada e detratada, como era previsível. Um sucesso! Mas, depois da sua publicação, a revisteca iria ficar com os seus dias contados. Só teve mais uma edição, com destaque para uma reportagem de Eurico Andrade, intitulada “Chapéu de Couro, o Cangaceiro Bossa Nova”.

A última reunião com o patrocinador:

– Um leitor da revista esteve aqui e me fez muitas perguntas – disse o gerente do hotel que bancava as faturas da gráfica. – E nenhum elogio ao trabalho de vocês.

Era um coronel.

Mesmo tendo o seu nome no expediente como diretor-proprietário, aquele gerente (chamava-se Pio) nunca se metera no que estávamos fazendo ou deixando de fazer. Agora estava se metendo, de uma vez por todas. Por medo, o mais humano dos sentimentos, já o disse o sábio Millôr Fernandes.

E assunto encerrado.

A entrevista de Glauber Rocha, aos 25 anos

(Com os devidos agradecimentos ao cineasta Eduardo Escorel, que a guardou, e a Anabela Paiva, que selecionou os trechos que vão aqui, republicados por elae Regina Zappa, na capa do Caderno B do Jornal do Brasil, em 27 de dezembro de 1997. Não menos: a Franco Paulino).

“Eu esnobo a técnica: não sei mexer em moviola, não manjo nada de som. E acho que câmera tem alma”.

Sobre Deus e o Diabo na Terra do Sol:

“Não tem nada de novo. Desde a criação do mundo que Deus anda de mãos dadas com o diabo. Apenas o velho fica sempre esquecido e por isso quando é redescoberto aparece com ar de novidade. O filme é tão novo como as baladas romanescas da Idade Média, como o Apocalipse, como a tragédia, como o latifúndio que só é novidade (mesmo) no nosso sertão”.

Técnica

“Segundo Alberto Cavalcanti, a técnica esconde o lixo. Eu esnobo a técnica. Pra seu governo, não sei pegar em fotômetro, não sei mexer em moviola, conheço mal o jogo de lentes, não manjo nada de som. Mas sei que a melhor técnica é aquela que expõe aquilo que a gente quer dizer. Assim, eu e o meu parceiro de fotografia, Waldemar Lima, estamos sempre em expectativa, observando os atores, a paisagem, a luz, buscando o clima. O clima vem quando a câmera fica mágica. Câmera tem alma. O negócio é fazer mandinga e esperar o santo descer. Aí então a gente é bem capaz de fazer um takede quatro minutos, na mão, entre luz e sombra, entre foco e fora de foco, balançando ou não. Será possível ir aos infernos de outra maneira?”

Repercussão no exterior

“Esse negócio de repercussão na Europa é conversa típica de gente subdesenvolvida e colonizada. Pra mim, fama na Europa não significa nada. É verdade, falando sério. A crítica francesa, falando bem ou mal, não muda nada. Eu não topo aqueles caras dos Cahiers – um bando de literatos, que vive na superestrutura, falando bobagem. Os italianos são melhores, mas são radicais, historicistas demais. Os ingleses são quadrados e frios. Assim, pouco me interessa o que me digam. Falaram bem de Deus e o diabo mas se tivessem falado mal eu juro que não me abalaria. A única opinião válida para mim é a da juventude e do público. A juventude gostou pra valer, e o público gostou e desgostou. Assim eu acho que vinguei 75% e isto já é muito, e isto me enche de vontade pra jogar pra frente e botar pra jambrar na próxima fita”.

O que Glauber quer?

“Fazer onda. Abrir bate-papo sobre assuntos sagrados. Demolir os figurões, os produtores boçais, os diretores comerciais, os exibidores ladrões. Discutir e achar que o cinema novo, o cinema de autor, é o que vale. Tudo o que digo pode não ter importância um mês depois, mas na hora funciona. Sempre. É por isso que eu tenho muitos inimigos. Mas tem colegas que compreendem e continuam meus amigos. Veja o (Walter Hugo) Khoury, por exemplo. É um autor, um artista sério, pesquisador, firme nos seus propósitos. Eu discordo do cinema dele, mas apenas no plano das idéias. E no fundo admiro a obsessão de um cineasta que procura um objeto difícil mas que, hoje acredito, será alcançado. Digo isso para esclarecer a quem pensa que eu combato o Khoury”.

Arte brasileira

“Não existe ainda a verdadeira arte brasileira. Estamos procurando. O Tom (Jobim) na música, o (Jorge) Mautner no romance, o (Lindolfo) Bell na poesia, o (Gianfrancesco) Guarnieri no teatro e muitos outros – todo mundo procurando, cavando a terra e a angústia, cavando a alma e o sistema social, cavando a estética e a linguagem. Todo mundo está atrás, trabalhando em várias veredas – como no sertão. Acho que a arte brasileira está nascendo desde o teatro de Anchieta – é um processo que vai levar mais 600 anos. A raça, a terra, a natureza – o nacionalismo vem desde aquele horroroso Basílio da Gama. José de Alencar, Lima Barreto, os poetas românticos, Augusto dos Anjos, Machado de Assis, Raul Pompéia, Nepomuceno, Mário de Andrade, Portinari, Volpi, Villa-Lobos, Niemeyer, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, o poeta Vinicíus, Nelson Pereira dos Santos e Zé Kéti – estão todos na jogada. É preciso ter abertura, abertura mesmo, porque todo grande artista é um revolucionário. Arte e liberdade é um corpo só, cangaceiro de duas cabeças, como dizia o capitão Cristino, vulgo Corisco”.

O sertão

“Eu sou do sertão. No sertão tem muitas veredas, como diz o mestre Guima. No sertão, afinal de contas, a gente bebe uma selvagem metafísica. Aliás, sou do sertão, modéstia à parte, como também o mestre Villa-Lobos. Esta é a mistura – o resto é coisa do cão, do demo, do sol, do amor. Está por dentro?”

Público

“O povo entende na medida do possível. Não entendo direito de público. Acho que o negócio é não ser quadrado, isto é, dar chance para todos pensarem. Ser intelectual ou não ser é besteira. Intelectual, pra mim, é um camarada que fica falando em mesa de bar e pichando todo mundo”.

Influências

“Faulkner, Buñuel, Eistein e Joyce, Graciliano Ramos e bate-papo de esquina, a Bíblia e sobretudo Villa-Lobos, Kurosawa e os westerns americanos, Rosselini e Paulo Saraceni, a Bahia e a luz atlântica, o amor, o meu poeta Vinícius, Guimarães Rosa e música do Nordeste e Carlos Drummond, São Jorge, Sebastião, Parsifal, Visconti, Romeu e Julieta, Aquiles e Salomão, Didi, Pelé e Garrincha – sem os quais é difícil fazer com classe, eficiência dramática e malícia improvisadora que destrói os esquemas e transforma a tela em projeção da vida. Eu sou produto da minha vida mesmo e da minha razão que tenta emergir do caos, caos com K, se é que o Mautner aceita”.

Resistência cultural

“Acho que o melhor negócio agora é resistência cultural. O povo precisa de resistência cultural. Muita coisa está errada, os artistas pensavam mas não estavam com o povo. Só deve existir a estrutura pessoal, libertária, rebelde, incomodativa, revolucionária e transformadora do artista falando numa linguagem tão profundamente humana que todos entendam. Se não tivermos resistência intelectual vamos cair na mais negra miséria, vamos cair no fascismo, vamos ver a democracia ser apenas um rótulo demagógico. Quando um povo começa a ser amordaçado, o artista deve abrir a boca bem alto e falar tudo, denunciar. O inimigo da política é a Arte. Você veja na Espanha, veja na Rússia, veja nos Estados Unidos. Quando os caras engrossam de um lado, os artistas engrossam do outro”.

Gênio ou doido?

“Não sou nada disso. Talvez eu seja apenas inconseqüente. Deixa a maturidade chegar para eu ver direito. O que eu acho, como diz o poeta Vinícius, meu irmão mais velho, é que quem de dentro de si não sai entra direto pelos canos. O negócio é câmara na mão e idéia na cabeça”.

Entrevistas

“A gente deve falar pouco, porém firme. Agora, se é para falar mesmo, tem que ser como mestre Villa: os violoncelos tudo doido, as trompas tudo alucinada, os tambores tudo correndo, os travelling, tudo montado sem continuidade. Geraldo Del Rey e (Antônio) Pitanga gritando, Waldemarno rodopio, o mar atlântico rebolando – de uma forma que quando a razão recusa o coração aceita e perdoa. Não é assim no amor?”

Roteiro sentimental de um leitor de Jorge Amado

Para Myriam Fraga, a bela poeta que dirige a Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, em Salvador da Bahia

Rio de Janeiro, 23 de julho de 2006.

Quando, na tarde desse domingo, uma voz ao telefone disse de quem se tratava, o seu ouvinte viu-se de volta a uma cidade de luzes verdes, cercada de laranjais. E aos sonhos dourados de uma juventude que “os anos não [lhe] trazem mais”. Ele, o senhor que em Copacabana atendia, tão surpreso quanto emocionado, a uma ligação de São Gonçalo dos Campos, onde nunca pusera os pés, tentou reconstituir os traços fisionômicos do dono da voz, sem êxito. Pelo seguinte motivo: lá se iam quase meio século desde que vira o seu rosto pela última vez. Mas como esquecer a figura de um sujeito esquisitão que apareceu em Alagoinhas, a festeira terra da laranja, da Micareta e das folias juninas, vestido como quem ia à missa?

À maneira de Frederico Fellini, amarcord. Eu me recordo. Era um dia qualquer, sem nenhuma solenidade religiosa ou social programada. Nenhuma posse de um prefeito ou um evento no Lyons e no Rotary, uma noite de gala nos seus clubes dançantes, coisas assim, que exigiam apuro nos trajes. Com toda probabilidade, ele, o tal transeunte enfatiotado, havia desembarcado na Estação da Leste, ou seja, da Viação Férrea Federal do Leste Brasileiro. Devia até ter chegado no “Marta Rocha”, o trem que ganhara esse nome, na boca do povo, por ser o mais bonito de todos que circulavam de Salvador para Alagoinhas e vice-versa. Seja lá qual tenha sido o meio de transporte que o trouxera, sua presença só iria ser notada no momento em que ele atravessou a bela praça J. J. Seabra – a das árvores artisticamente podadas em forma de pássaros -, em uma hora de pouco movimento, sem cumprimentar ninguém nem ser cumprimentado.

Seria aquele estranho personagem um caixeiro-viajante? – perguntavam-se os hoteleiros, cada qual ansiando, secretamente, por merecer a preferência da hospedagem. Não demorou muito para todos o perderem de vista, ao dobrar de uma esquina. Também logo se saberia que ele vinha do Rio, de mala e cuia, para passar a morar ali, junto a seus familiares, originários de Sergipe.

Isso dava asas às confabulações: por que o distinto cavalheiro trocava a efervescência da capital federal pela vida pacata de uma cidade do interior baiano? Coisa boa não devia ter arrumado no Rio de Janeiro. Vai ver era um comunista, em busca de refúgio num lugar que a polícia nem sonhasse onde ficava.

Mas não. Naquele ano de 1958, em plena era JK, respirávamos os bons ares da liberdade política. Tivesse ou não um passado nebuloso, o homem misterioso que, ao chegar, provocara interrogações, tinha em seu destino um emprego no único ginásio da cidade. Era um professor de Geografia, que surpreenderia os seus alunos pela intimidade com que falava de serras como a do Mar, da Mantiqueira, dos Órgãos, e do Pico da Bandeira. Aos poucos, revelaria outros domínios, que abrangiam da Matemática à Literatura. Cada vez mais surpreendente, esse professor! Não fiquei lhe devendo apenas a descoberta de rios, lagos, mares, continentes, capitais e países do mundo. Nem lhe sou grato somente pelo seu esforço para que eu não fosse derrubado, na prova final, por equações e figuras geométricas. Mais que tudo, devo-lhe a minha formação de leitor, ou, melhor dizendo, a minha descoberta da modernidade literária brasileira. No que ele se empenhou com um prazer inenarrável, fora das salas de aula. Agora, por trás da voz que vinha de longe, vejo-o trazendo Jorge Amado para o centro das minhas atenções.

Pois sim. Enquanto falava ao telefone, motivado por rememorações que lhe tenho feito na imprensa, como o responsável pela minha iniciação à obra de Jorge Amado – e para dizer que agora está morando em São Gonçalo dos Campos, e também que, mesmo depois de completar 50 anos de magistério, continua lecionando Matemática na pós-graduação da Universidade Estadual de Feira de Santana -, o professor doutor Carloman Carlos Borges fez mais do que dar sinais de vida. Aquele que um dia me ajudou a escrever um discurso, parecia ter adivinhado que este seu ex-aluno estava enrascado de novo. Por ter de escrever outro e não saber como começar.

Se lhe tivesse dito isso, o mestre de outros tempos certamente teria me apontado o mais antigo dos caminhos: “Comece pelo princípio”, diria ele, sabiamente. Outra, porém, foi a sua lição. O matemático, hoje também psicanalista e acima de tudo homem de letras Carloman Carlos Borges, encerrou aquela conversa telefônica recitando uns versos de T. S. Eliott, que podem ter alguma pertinência neste tributo ao imortal autor de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua:

Morremos com os mortos.
Eles partem e com eles nos levam.
Nascemos com os mortos.
Eles retornam e consigo nos trazem.

O que retornou, e vivamente, na tarde de 23 de julho deste 2006, foi a memória do dia em que li Jorge Amado pela primeira vez. “Para começar a gostar da obra dele, leia este”, disse-me o professor Carloman, ao me emprestar o Mar morto, concedendo-me o prazo de uma semana para devolvê-lo. “Quando se começa a ler Jorge Amado, não se pára mais”, ele acrescentou. Dito e feito. Sim, ali estava um romancista encantador, cujo poder de sedução se exercia já na primeira frase de um breve prólogo do seu romance: “Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia”. E, por começar deste jeito, em tom de conversa pessoal, íntima, de pé de ouvido, ele foi me levando em ondas nas quais eu me envolvia, entre a dor das labutas e sofrimentos dos seus marinheiros, e o prazer da leitura de um texto amoroso, memorável. No segundo parágrafo daquela mesma página inicial, este leitor encontrava-se completamente enfeitiçado pelo convite à navegação em frente.

“Vinde ouvir estas histórias e estas canções. Vinde ouvir a história de Guma e Lívia que é a história da vida e do amor no mar. E se ela não vos parecer bela, a culpa não é dos homens rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um homem da terra, e, dificilmente, um homem da terra entende o coração dos marinheiros. Mesmo quando esse homem ama essas histórias e essas canções e vai às festas de dona Janaína, mesmo assim ele não conhece todos os segredos do mar. Pois o mar é mistério que nem os velhos marinheiros entendem”.

Imaginem o encantamento que isso causou em quem nasceu num lugar onde nem rio havia. Nunca dantes tinha lido nada, em prosa, que me provocasse tamanho arrebatamento. O texto de Jorge Amado parecia uma versão contemporânea da poesia de Castro Alves, o que até então eu queria ser, quando crescesse – até porque o nosso mais querido vate era bonito como um corno e dava muita sorte com as mulheres.

Mas agora outro imenso valor se alevantava diante dos meus olhos. Alguém que escrevia num idioma do nosso tempo, sem os floreios gongóricos tão ao gosto do romantismo, portanto acessível ao mais comum dos mortais. E o que fazia (e faz) o encanto desse idioma era (e é) a sua humaníssima fala baiana, tão cheia de musicalidade, lirismo, malemolência, tempero, sensualidade. E que dizer da sua vasta galeria de tipos humanos?  

Neste particular, Jorge Amado parece contradizer Scott Fitzgerald, o laureado ficcionista norte-americano das décadas de 20 e 30 do século passado, que iniciou um conto (O moço rico) assim: “Começa-se com um indivíduo e, antes de se dar conta disso, descobre-se que se criou um tipo; começa-se com um tipo e descobre-se que não se criou coisa nenhuma”. Além de todos os seus predicados, Jorge Amado tinha um dom especial para criar personagens – e tipificá-los. Fossem eles marinheiros, vagabundos, prostitutas, retirantes, pastores da noite, coronéis truculentos, meninos de rua, ou sem-teto (diríamos hoje), que, como sabemos, vieram a se multiplicar nas cidades brasileiras do século 21, de forma preocupante, numa franca exposição e denúncia do quadro social deplorável que estamos vivendo.

Numa coisa ele podia dar razão a Fitzgerald, um escritor que floresceu em outro meio, outra cultura, outros patamares sociais e econômicos, enfim, na realidade do capitalismo já avançado dos Estados Unidos da América, após a Primeira Guerra Mundial. Refiro-me ao Fitzgerald que dizia: “Ação é personagem”. Ele, o São Jorge dos Ilhéus e da Baía de Todos os Santos, sempre soube pôr em movimento personagens de carne e osso, sentimento e consciência, instinto e razão. E muitos outros que se enquadram em outros perfis.

“Poucos ficcionistas dominaram tão completamente quanto Jorge Amado a arte de inventar gente” – escreveu Augusto Nunes, diretor de jornalismo do Jornal do Brasil, no Caderno Idéias de 5 de agosto de 2006. Ele prossegue: “Os personagens do escritor baiano, inspiradores de ilustrações magníficas, transformaram o leitor em diretor de elenco. Além de nome, têm cores e cheiro. Têm até corpo e rosto. Às vezes, existem. Gabriela, por exemplo, tem cor de canela, cheiro de cravo e virou gente com o nome de Sônia Braga. A fusão começou na novela da TV Globo. Consumou-se no filme de Bruno Barreto…”

Dir-se-ia ainda que poucos ficcionistas brasileiros dominaram tão bem a arte de escrever diálogos. Os criados por Jorge Amado são de uma naturalidade espantosa, dando-nos a impressão de que ele tinha os ouvidos afinadíssimos para a linguagem coloquial, o que o distinguia da maioria dos escritores brasileiros surgidos antes dele, e mesmo de muitos da sua própria geração. Nos seus romances, narração e diálogo têm marcas de origem e carimbo de autenticidade nacional. Ao ler um deles pela primeira vez (o já mencionado Mar Morto), a minha impressão foi a de que, finalmente, eu havia descoberto um autor nosso, ali à beira do litoral, a apenas 108 quilômetros de distância de onde eu o lia, que rompera com os modos e usos do fazer literário lusitano. Tanto quanto com a retórica barroca tropical.

Costuma-se dividir a sua literatura em duas fases: na primeira, ela é engajada, de marcante compromisso sócio-político, com prioridades regionalistas e nos valores do proletariado negro da cidade de Salvador. Na segunda, a partir da publicação de Gabriela, Cravo e Canela, em 1958, suas preocupações politicamente revolucionárias desaparecem, dando lugar a um comprometimento com a cultura popular, com ênfase na brasilidade negra e mestiça, em oposição à moral burguesa.

Verbetes reducionistas assim não estariam obliterando o repertório multifacetado, multirracial e multicultural da sua obra?

Não faltou quem o acusasse (notadamente na crítica universitária, digamos, chique, do eixo Rio-São Paulo), de explorar os aspectos pitorescos da vida baiana, mais predisposto a retratar estereótipos do que em ilustrar as verdadeiras causas e conseqüências das tensões sociais. Em contraposição à severidade de tais interpretações da sua obra, e refletindo a recepção dela pelos seus leitores, Augusto Nunes, em seu já citado artigo no Jornal do Brasil, traz à luz o que até um cego, lendo em braile, enxergará: “Na metade do século passado, a galeria de tipos inesquecíveis já informava a multidões de brasileiros que leitura pode ser puro prazer. O caso de amor de Jorge Amado e sua gente não foi interrompido pela morte. A homenagem da festa em Paraty [acontecida no mês de agosto de 2006] permite acreditar que nunca será”.

Bem, muito do que foi exposto nestas linhas é público e notório. Agora, tratemos de voltar ao princípio, para retomar o fio da minha meada.

Alagoinhas, Bahia, 1958.

Em êxtase, passei duas noites em claro, para, ao amanhecer de um dia, salvar a estrela matutina:

Estrela matutina. No cais o velho Francisco
  balança a cabeça. Uma vez, quando fez o que nenhum mestre de saveiro 
faria, ele  viu Iemanjá, a dona do mar. E não é ela quem vai agora de pé
 no Paquete Voador?  Não é ela? É ela, sim. É Iemanjá quem vai ali. E o 
velho Francisco grita para  os outros no cais:
- Vejam! Vejam! É Janaína.
Olharam e viram. Dona Dulce olhou também da janela da escola. Viu uma mulher forte que lutava. A luta era seu milagre. Começava a se realizar. No cais os marítimos viam Iemanjá, a dos cinco nomes. O velho Francisco gritava, era a segunda vez que ele a via.
Assim contam na beira do cais.

Fim do Mar Morto.

O professor Carloman iria ficar surpreso com a devolução tão rápida do livro que ele me emprestou. E logo passaria a um segundo empréstimo: Capitães da areia, também lido sem pestanejar e devolvido num piscar de olhos. E, com os devidos agradecimentos, o dispensei de me passar outro, pois, ao ver que a única livraria da cidade (chamava-se São Jorge) tinha todos, ou quase todos os livros de Jorge Amado, até o que fora publicado naquele ano (Gabriela Cravo e Canela). Então criei coragem e pedi crédito ao seu proprietário, um amável senhor chamado Teófilo Maciel. Meu desejo serviu-me de fiador. E, no ato, me tornei o feliz proprietário de uma imensa livraiada, carregada em duas viagens – e a ser paga em suaves prestações, tão a perder de vista que o primeiro pagamento só foi feito mais de três meses depois, quando voltei das férias escolares.

Todos aqueles livros foram lidos numa rede de uma casa de roça, lá no Junco, digo, Sátiro Dias, a quinze léguas de distância de Alagoinhas. Ainda ouço ao longe a voz da minha mãe, dona Durvalice, a mostrar-se preocupada com a minha aparente inatividade, pois eu parecia estar ali apenas para ler, ler, ler Jorge Amado sem parar, dia e noite, enquanto não era vencido pelo sono, levantando-me da rede somente de vez em quando, para atender a necessidades incontornáveis, comer, beber água (e as outras decorrentes dessas), ou, muito mais de vez em quando ainda, para ir prosear com João Escrivão na coletoria do lugar, por este simples motivo: ele conhecia, de cor e salteado, todas as histórias que eu estava lendo. E aí trocávamos figurinhas – as figuras de Jorge Amado.

A bem da verdade, minha mãe sempre fora uma incentivadora da leitura. E olhem que ela pertencia a uma geração de mulheres da roça, cujos pais as proibiam de estudar, para não aprenderem a escrever cartas aos pretendentes a um namoro, e sabe-se lá o que mais, imaginavam eles, os senhores que as geraram. Ainda assim, dona Durvalice, graças às suas artimanhas, teve aulas particulares, clandestinamente, com um professor chamado Laudelino Mendonça, o “Pai Lau”, que veio a dar nome a uma rua de Sátiro Dias.

Ela, aquela menina Durvalice, que ao se tornar uma mocinha me traria ao mundo, pagava essas aulas em trabalho, numa plantaçãozinha de fumo que o professor Laudelino tinha, num pasto ao fundo da casa de um certo senhor chamado Adelino, que viria a ser o meu avô. E, também às escondidas, com a ajuda da luz da lua ou de um candeeiro, aquela menina chamada Durvalice sacrificou-se em silêncio para um dia poder ensinar os filhos a ler, antes que eles fossem para a escola.

Minha mãe me contou isso recentemente, como se erguesse um troféu guardado em segredo por toda uma vida, e que agora lhe ergo, lembrando-me do dia em que ela me mostrou um abêcê e me disse os nomes de todas aquelas letras, sem as quais eu não estaria aqui, para contar esta história.

Por que então ela se preocupava, ao ver o seu filho mais velho a ler Jorge Amado, o tempo todo? Ainda ouço a sua voz ao longe, a dizer-me:

– Menino, vou lhe dar um conselho. Leia só de dia. Lendo tanto de noite, com essa luz fraquinha de candeeiro, logo, logo você vai ficar ruim das vistas.

Felizmente seus temores não se confirmaram. Ler Jorge Amado, e compulsivamente, à tênue luz de um candeeiro, não causou danos aos meus olhos.

Houve outros, porém. À minha reputação, sob o ponto de vista religioso, pronto a apontar um cordeiro de Deus que poderia estar se desviando do rebanho. Foi no regresso ao Junco (digo, Sátiro Dias), de um homem que antes eu nunca tinha visto por lá. Era um filho daquela terra que a ela regressava coberto de glórias, por ter participado da Segunda Guerra Mundial. Reformado como tenente da Marinha, ele vinha a ser meu primo em segundo grau. Recordo-o a adentrar a igreja, inesperadamente, na hora da missa, chamando a atenção de todos não só pelo seu porte musculoso, mas, principalmente, por apresentar-se em uniforme de gala, cheio de medalhas no peito. E por ali ficou bestando durante uns tempos, a beber cerveja, a jogar dama, a contar suas proezas nos mares, sem, no entanto, perder a sua empertigada postura monumental, diante da qual até minha mãe batia-lhe continências:

– Mô fio, por que você não vai para a Marinha? Vá perguntar ao primo Tenente como é que se faz para entrar lá.

Fui. E foi fácil encontrá-lo, no seu posto de comando: a venda de um bom homem chamado Antônio Lopes, onde o nosso herói combatia à sombra, derrubando uma garrafa atrás da outra. Conversa vai, cerveja vem, toco no assunto Escola de Aprendizes de Marinheiros. Interessou-se. E quis saber do meu desempenho nas atividades físicas. Respondi-lhe que era mais chegado à leitura do que aos exercícios. Também se mostrou interessado em saber o que eu gostava de ler. Contei-lhe.

Resultado: delação. Conseqüência: inquérito familiar. Quer dizer que estes livros que você anda lendo são de um comunista? E dos mais descarados, conforme o Tenente garante, jurando por essa luz que nos alumia?

Com a boca cheia de autoridade, não necessariamente literária, ele, o glorificado Tenente, havia garantido mais: que Jorge Amado, além de não ter fé em Deus, como todos os comunistas, era um despudorado, que enchia as suas páginas de palavrões cabeludos, de fazer corar até os mais safados dos adultos. Xibio pra lá, embocetar pra cá… E com certeza nunca tinha sido visto na missa. A religião dele era o candomblé, cruz, credo! Em resumo: eu estava indo por um mau caminho, seguindo um mau exemplo. Só restou à minha mãe me botar contra a parede: aqueles livros estavam mesmo me afastando das leis de Deus?

Naquele momento eu tinha o ABC de Castro Alves nas mãos. Pensei que a única coisa que podia fazer em minha própria defesa era ler um trecho daquele livro para ela, que um dia havia se orgulhado, até às lágrimas, ao ver e ouvir aquele mesmo filho recitar em praça pública, diante de uma multidão: Auriverde pendão da minha terra/ Que a brisa do Brasil beija e balança/ Estandarte que a luz do Sol encerra/ As divinas promessas da esperança. Eu me recordava: fora num palanque em frente da porta da escola da professora Serafina, num dia Sete de Setembro. Dia da Pátria. Todo um velho povo viu pérolas de chuva a descer-lhe dos olhos, ao ouvir estes versos de Castro Alves. E mais ainda a mãe do menino que os recitava.

Voltei à página de Jorge Amado em que havia parado, e li um parágrafo para ela, que pode ter sido este: “Amiga, mais forte, mais poderosa e mais bela que a voz maviosa do poeta que canta em São Paulo é a voz que chora nas senzalas do Recife. Porque não há nada mais belo que a voz do povo. E o gênio é aquele que a interpreta, que lhe dá forma, o que vai na frente de todos os que clamam. No Sul cantavam, no Norte ele ia começar a clamar o seu clamor, gritos e apóstrofes de vingança, ameaça e profecia, seria o mais lindo canto do seu tempo”.      

É assim que Jorge Amado escreve, mamãe. A senhora achou que  alguma dessas palavras que acabei de ler, é contra as leis de Deus?

– O que achei é que ele escreve bonito como um corno – ela disse, me premiando com uma boa risada. E nunca mais tocou no assunto.

Tempus fugit.

Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1972.

Já estava aprontando a mala, para uma rápida ida a São Paulo.

O telefone tocou. Ao atendê-lo, reconheci a voz de um amigo paulista chamado Oswaldo Assef.

– Fala, turco!

– Tenho duas notícias para você. Uma boa e uma ruim.

– Já posso adivinhar qual é a ruim. Está chovendo aí!

– Para a nossa sorte, hoje o sol brilha na Paulicéia. Mas, para o seu azar, Jorge Amado vai fazer uma noite de autógrafos no mesmo horário da sua. Como qualquer lançamento dele dá enchente, o seu pode ficar às moscas.

Achei que o Assef tinha razão. A coincidência dos dois lançamentos, no mesmo horário, ia me ferrar.

– Agora conta a boa, turco!

– Leia o “Estadão” de hoje.

Fui em frente, à cata da boa notícia.

Comprei o jornal O Estado de S. Paulo na livraria do aeroporto Santos Dumont. E lá estava, na página 10 do seu primeiro caderno, uma matéria supimpa sobre os dois lançamentos, o do baiano universalmente consagrado e o do seu conterrâneo estreante, ilustrada com as capas de Tereza Batista cansada de guerra e de Um cão uivando para a Lua, este, do tal já devidamente avisado de que ia se ferrar. E que, ao se encaminhar para o avião, achou que de modo algum aquela seria uma viagem perdida. A julgar pelo espaço que lhe coubera no poderoso “Estadão”, e junto logo de quem, a ganhara, por antecipação.

São Paulo, mesmo dia.

Cheguei à Francisco Alves, no Largo do Arouche, às cinco e trinta da tarde. Já estava tudo pronto para a inauguração da livraria, com a noite de autógrafos de Um cão uivando para a Lua. Havia pilhas dele bem à entrada da loja, que tinia de nova. Dirijo-me a um balcão e me apresento. Um rapaz me cumprimenta, se desmanchando em sorrisos e salamaleques, como se tivesse acabado de apertar a mão de uma estrela. E logo descubro a razão de tanto entusiasmo com a minha chegada: Jorge Amado acabara de sair dali. Antes de ir para a livraria onde estaria autografando, na Rua Barão de Itapetininga, também no centro da cidade, passara naquela outra, naturalmente movido pela matéria do “Estadão”. O mais surpreendente: ele havia comprado o meu livro, que deixou com o vendedor, pedindo-lhe para enviá-lo naquela noite mesmo ao hotel onde estava hospedado, assim que eu o autografasse. Também deixou um bilhete para mim, dando o seu endereço em Salvador, e dizendo para   procurá-lo, quando fosse lá.

Ainda de pé em frente do balcão, vejo uma moça chegar, para o segundo autógrafo, antes da festa começar.

– Meu pai me telefonou de Feira de Santana recomendando que eu não deixasse de comprar o seu livro – ela disse.

– Quem é o seu pai?

– Eurico Boaventura.

Meu Deus! Era a Maria Eugênia, que conheci em Alagoinhas, quando ela era ainda uma criança. Agora, já estava na universidade. E logo faria uma respeitável carreira acadêmica, na Unicamp, a Universidade de Campinas.

Freqüentara muito a sua casa. O pai dela, o poeta e ensaísta Eurico Alves Boaventura, fora juiz de Direito da Comarca de Alagoinhas, até ser preso, depois do golpe militar, em 1964. Acusado de subversão, ele foi brutalmente torturado, como um cão sem dono, nas desertas areias do Cachorro Magro, que todo alagoinhense sabe onde ficam. Depois disto, aposentou-se. Juntou a família a seu desgosto e voltou para Feira de Santana, sua cidade natal. Ali, ele morava numa pequena rua, que batizou com o nome de Manuel Bandeira, seu amigo. Quais teriam sido os atos subversivos do doutor Eurico Boaventura, que poderiam ter atentado contra as instituições, os valores estabelecidos, e a segurança nacional? Saraus de poesia, na biblioteca da sua casa, quando jovens estudantes o ouviam recitar o que havia de melhor na poesia modernista. Sei disso porque fui um dos mais assíduos participantes desses saraus, tendo o privilégio de privar da intimidade do seu lar – e da sua amizade.

Histórico fim de tarde paulistano! Com o generoso gesto de Jorge Amado, e o aparecimento de Maria Eugênia Boaventura, ali representando o seu pai, e o meu próprio tempo numa cidade que jamais esqueceria, eu podia dar o assunto por encerrado. E pegar o avião de volta de coração ao alto, podendo até gritar no saguão do aeroporto de Congonhas, para quantos quisessem ouvir: “Orra meu, foi porreta!”

Poucos meses depois, o telefone toca e era o próprio Jorge Amado no outro lado da linha, me convidando para dois dedos de prosa em seu apartamento de Copacabana, onde eu, de uma vez só, conheceria pessoalmente ele, dona Zélia e Calazans Neto, o também já finado Calá, o artista plástico que ilustrou alguns de seus livros.

Naquela tarde, nossa conversa não evoluiu muito, por causa das ligações telefônicas, a todo instante. Dos jornais, das TVs, dos embaixadores de diversos países, da Academia Brasileira de Letras.

– Eu queria mesmo era ficar conversando contigo. Mas não me deixam. Vá à Bahia. Quem sabe lá dê para a gente conversar?

Fui. Só que quando cheguei à sua casa, na Rua Alagoinhas, 33, no Rio Vermelho, ela mais parecia uma estação de televisão. Sua ampla sala de visitas estava totalmente tomada por câmaras, cabos, refletores. Uma equipe da TV argentina o entrevistava longamente, invadindo quartos, escritório, cozinha, tudo. E ainda pedindo-lhe para mudar de camisa, nas mudanças dos sets de gravação. E pior: a toda hora ele era interrompido, pelos toques na sua porta. E lá ia ele para ser fotografado. Ora por bandos de japoneses, ou de paulistas. Não sei como agüentava esse tranco. E ainda conseguia escrever.

Voltaria a visitá-lo mais algumas vezes, em Salvador e no Rio. E também esbarrei nele em algumas esquinas de Paris. E dele guardo duas lembranças que me fazem rir. Uma, é a do que ele disse, ao me levar à porta do elevador, na primeira vez em que nos encontramos:

– Mire-se no exemplo de Glauber Rocha, que nunca perdeu o sotaque baiano.

A outra, é a das vezes em que ele me telefonava, às sete horas da manhã, perguntando:

– Te acordei?

Claro que este seu ouvinte jurava que não, de pés juntos. Eu era lá besta de deixar alguém que se chamava Jorge Amado contrariado?

Por ter feito o bem que pôde a seus pares, ao país, ao mundo. Porque ele era, antes de tudo, um ser utópico. E o capitão de longo curso do barco de um tempo que naufragou, convenhamos. Deixando-nos a mirar a linha do horizonte, na fronteira da melancolia.

Segundo Nego de Roseno

– Patrãozinho, me dê uma prata?

– Pra que você quer dinheiro, homem? – disse o menino.

– Me dê uma prata para eu tomar uma.

– Não vai trabalhar? Papai está te esperando.

– Eu vou mas é tomar uma.

– Tome duas e caia logo de vez – disse o menino, pondo as duas moedas na mão do homem e se retirando.

– Deus te ajude, patrãozinho.

Era terça-feira e era o fim de tudo – e o último ser vivo do mundo estava caindo de bêbado, nem bem o sol havia raiado.

Agora não havia mais missa nem feira nem barraca nem pão-de-ló e a rua voltou a ser o que sempre foi: uma solidão única.

O menino percebeu isso ao acordar. Estava sozinho. Como o padre, todos haviam retornado a suas casas de verdade, fazendolas e casebres miseráveis das redondezas que, se somadas, davam mai de nove léguas. Até tio Ascendino, o último dos beatos (o bêbado não contava), tinha abandonado o seu posto e retornado à sua marcenaria. Agora só lhe restava o caminho da roça. O pior não era a solidão. Era a fome. E assim, com as tripas roncando e esfregando os dedos nos olhos para limpar a remela, o menino foi descendo para a venda de Josias Cardoso. Ia comprar um pão de milho. Agora podia comprar o que quisesse, porque as três notas que o padre lhe dera compravam muitas coisas. Mas ia devagar. Lá na roça seu pai o aguardava com uma enxada.

Felizmente não sobraram apenas o menino, o bêbado e o dono da venda. Também havia Nego de Roseno e sua fubica parada na porta do armarinho. A fubica era um pouco mais que o veículo que transportava uma pança negra cheia de níqueis dos roceiros. Era o único orgulho motorizado do Junco – e o prêmio justo para um homem que passara toda uma vida carregando mercadorias no lombo de um burro. O menino também estava fascinado com o progresso desse homem e chegava mesmo a invejar-lhe a liberdade de poder rodar para cima e para baixo na boleia daquele caminhãozinho que, mesmo quebrando e atolando nas estradas, acabava sempre chegando a algum destino. E talvez fosse isso que ele estivesse querendo dizer, nesse momento. Imóvel dentro do armarinho, como se fosse mais um dos caixotes que Nego de Roseno tentava mudar de posição, o menino agora admirava a maneira delicada como ele, um homenzarrão desengonçado, arrumava os frascos de cheiro nas prateleiras. E foi que Nego de Roseno falou. Queria alguma coisa? Queria sim. Aquela camisa ali, quanto é?

Custava mais do que o dinheiro que ele tinha, mas Nego de Roseno deixou pelo dinheiro que ele tinha.

–  Seu pai é um bom freguês – disse – Vou lhe fazer um desconto.

Seu pai. Agora precisava inventar uma boa mentira para contar em casa. Por que você demorou tanto? Porque…

Talvez levasse uma surra.

Mas tinha dois pães numa mão e uma camisa na outra – e isso, por enquanto, era o que importava. Uma camiseta branca, de mangas cavadas (diferente, moderna), a primeira coisa na vida que comprava com o seu próprio dinheiro. Também não mandou pôr os pães na conta do pai, como das outras vezes. O problema é que sua alegria não estava sendo maior que o seu medo. Quem mandou demorar tanto?

Quando chegou à marcenaria, tio Ascendino ainda cantava benditos. Era um velho muito só que vivia rezando e praguejando contra as maldades do mundo. Tio Ascendino parou de cantar, parou a enxó, ajeitou os suspensórios e mostrou um caminhão azul para o menino.

–  Fiz esse para você. Gosta da cor azul?

O menino ofereceu um dos seus pães para o tio e tio Ascendino aproveitou para fazer um café. Enquanto esperava, e agora com uma alegria redobrada, por causa do presente, trocou de camisa.

– Só está é um pouco folgada – disse tio Ascendino – Mas não faz mal. Quando lavar, ela encolhe. E você está crescendo.

Esquecido do tempo e da enxada e da possibilidade de uma surra, o menino conversou muito, como se fosse um bom companheiro para o tio.

– Essa terra só se alegra quando tem missa, não é?

– É a pura verdade – disse tio Ascendino – È uma pena só ter missa de tempos em tempos. Já estamos precisando de um padre que more aqui e que celebre missa pelo menos todos os domingos.

– Também acho – disse o menino.

– E você, quando vai para o seminário?

– Não sei não, tio.

– Quando vejo você ajudando o padre, tão bonito, fico pedindo a Deus para ver você um dia metido numa batina. Ia ser o maior orgulho deste lugar. Mas talvez eu não viva tanto para ver isso.

Há uma certa hora no Junco que dá para se ouvir um carro de bois cantando do outro lado do universo. Entre 11 da manhã e 3 da tarde o sol treme e até as cigarras param de piar. O menino ia pela estrada atento aos buracos. Atento ao barulho das rodas de seu caminhãozinho, que ele empurrava com uma forquilha.

O presente do tio também serviu de perdão para a sua demora. O que não lhe perdoaram foi o fato de ele ter dado o seu dinheiro numa camisa que não valia nada. Burro. Burro e besta. Seu pai ordenou:

– Volte lá e devolva isso. Traga o dinheiro de volta.

Tinha que voltar à rua. Não havia outro jeito. No caminho, pedia a Deus que lhe jogasse na frente as três notas que ganhara do padre e que agora se encontravam nas mãos de Nego de Roseno. Se isso acontecesse, ele poria a camisa fora e voltava para casa sem ter que enfrentar o dono do armarinho. Era uma humilhação ter que se desfazer de um negócio que fizera por sua livre vontade.  Mas se Deus não o iria socorrer, muito menos Nego de Roseno. Pediu o apoio de Dirce, com os olhos molhados. Dirce não se moveu. Pediu o apoio de Neguinho, que um dia havia caído a seus pés, no meio da rua, durante um ataque de epilepsia. Neguinho também não disse nada. Que espécie de homem era ele?, perguntava Nego de Roseno. Comprava uma coisa e depois se arrependia? Além do mais, a camisa estava melada de suor. Em casa, além de enxada, agora aguardava uma nova bateria de ameaças e descomposturas. E esse incidente iria perturbar-lhe o sono durante largo tempo da sua vida.

Como no dia que Neguinho se jogou no tanque velho e morreu afogado, para se vingar de um tapa que levara do pai. Em seus sonhos, o menino via Neguinho se debatendo e espumando no chão, com os olhos arregalados e suplicantes, como se estivesse lhe pedindo socorro. Essa cena iria se repetir noites a fio, por mais que menino pela alma de Neguinho.

Só muito depois, quando a camisa já estava rasgada e não servia mais para nada, foi que ele deu o caso por encerrado.

Uma noite seu pai voltou um pouco tarde da rua e ficou conversando com sua mãe. Estava contado a respeito do que ouvira uns homens dizer sobre o menino.

– Estava eu, Josias, compadre Zeca e Nego de Roseno.

O menino ficou de orelha em pé. Ainda não haviam se esquecido daquela coisa.

– Aí Nego de Roseno disse: dá gosto ouvir aquele menino falar. Aquele menino é um homem – contava o velho – Os outros, todos, disseram a mesma coisa.

Agora, sim. Seu pai estava orgulhoso.

O filho dele era um homem, segundo Nego de Roseno.

Atrás da cerca

(Um conto do tempo dos militares, sobre uma marcha dura, vazia e inútil pelo sertão, em busca de coisa alguma).

Não adianta dizer que não existe guerra alguma por aqui. Ninguém acredita. Pelo menos estes homens que me cercam, a pleno sol. Eles vieram de longe à procura dessa guerra que dizem existir nas nossas barbas — se não a vemos é porque estamos cegos ou sonolentos demais para enxergar o que quer que seja. Insisto no meu ponto, juro pela alma da minha mãe: tudo não passa de um engano. Confusão de notícias atrapalhadas que chegaram aos ouvidos da capital? Eles vieram de lá, não vieram?

Digo que estou de férias, estou de passagem. E não posso seguir os rastos de uma guerra de que não sei. Não posso contar o que não ouvi, não posso falar do que não vi. Portanto, espero poder continuar comendo as minhas goiabinhas sossegado, para matar o tempo e a saudade deste lugar onde nasci um dia. Quem a inventou, que a desinvente.

Belo e inútil discurso. Quantas palavras em vão.

Eles não podem admitir o meu ócio, aquilo que a lei nos permite uma vez por ano, a velha compensação. Precisam de mim. Eu conheço o caminho da cerca e a guerra está lá. Daqui a pouco acabarão por me convencer de que a cerca sou eu, de que a guerra sou eu, de que eu sou o inimigo que estão procurando.

Não vou negar: a cerca existe. Fica na fronteira, delimitando os nossos domínios, umas magras léguas de terra nestas solidões sem fim, o cerrado batido sem o consolo das águas, onde o pio da cigarra dói mais do que o espinho do serra-goela. Um mundo que não vale nada para estes homens. E no entanto eles querem tocar fogo em tudo, sem que ninguém saiba por quê.

Estes homens têm um chefe, a quem devem obediência. Importa se gostam disso ou não? É o que tento adivinhar. Eles se calam no consentimento, a voz do comandante é a de todos. Impossível saber o que pensam, o que sentem. São comandados. O chefe é quem está com a palavra, ponto final. Não vou descrevê-lo: ainda não o conheço o bastante. Adianto, porém, não parecer o tipo que, ao sair de casa para uma viagem tão longa e tão árdua (da qual nem sequer sabe se vai voltar), tenha dado um beijo comovido na mulher e nos filhos. Se o sentisse capaz disso, lhe diria com um sorriso amigo, de alma lavada, que esquecesse essa guerra e viesse dar uma volta comigo, para ver como esse lugar dorme em paz, só despertando de vez em quando de sua velha preguiça para fazer o sinal da cruz e rezar o “Pai Nosso”.

Alheio ao que penso, o chefe me apresenta a improvável guerra como um mapa real. Ele está seguro que fomos nós (o povo daqui) que a provocamos, nós atiçamos a lenha contra o povo de lá — um vago lá além da cerca. Fantástico. Na minha cara, na luz do dia, no meio da rua, com tanta certeza? Pelo amor de Deus, que guerra é essa?

O chefe:
— Você já trabalhou no poço de petróleo, não é verdade?

Eu:
— Sim, senhor. É verdade. Mas já faz muito tempo.

O chefe:
— Pouco importa quando você trabalhou lá. O poço continua no mesmo lugar.

Eu:
— Isso também é verdade.

O chefe:
— Como se diz, muitos são os chamados, poucos os escolhidos.

Eu:
— Não estou entendendo. O senhor me desculpe.

O chefe:
— O poço de petróleo fica depois da cerca. Poucos sabem disso. Você sabe. Por isso foi o escolhido para ser o nosso guia, neste sertão desgraçado, com léguas e léguas sem uma viv’alma para dar uma informação.

Eu:
— Como já disse ao senhor, não trabalho mais no poço de petróleo. Agora trabalho num banco da capital. Estudo à noite. Quer ver os meus documentos?

O chefe:
— Isso não vem ao caso. O que importa é que você conhece o caminho. Está em condições de nos ajudar. Qual é a sua categoria?

Eu:
— Terceira categoria. Não servi nem no Tiro de Guerra. Fui dispensado do serviço militar, por ter os pés chatos.

O chefe:
— Pois agora você está convocado, aqui e agora, tenha você os pés chatos, redondos, compridos ou quadrados. Soldado, sentido! Marche-marche!

Empertiguei-me. E simulei uma marcha, quase a morrer de vergonha daquela patacoada, que certamente estava deixando toda a tropa a abafar um riso.    

— Des-can-sar! – bradou o chefe. E sentenciou: – Não há problema algum com os seus pés. Eles andam. E isso é tudo o que me interessa. 

Eu:
— Quer dizer que tenho mesmo de ir… 

O chefe:
— Isso mesmo. Seguiremos esta noite. Leve comida, que a nossa está pouca. E um cantil com água.

Eu:
— Para quantos dias?

O chefe:
— Creio que poucos dias. Eles não resistirão por muito tempo.

Eu:
— Chefe, posso saber quem são eles?

O chefe (um tanto irritado):
— O povo daqui e o povo de lá. Quantas vezes tenho que lhe dizer isso?

Eu:
— Mas chefe, o que é mesmo que está acontecendo?

Diante deste homem que se cala no momento que lhe parece o mais exato, aprendo que ainda não vivi muito. Aprendo, por exemplo, que o medo se situa na fronteira do imprevisível, aquilo que faz de nossas vidas simples abstrações nestas paisagens ensolaradas, em terras ignotas, desérticas, sertão brabo. “Este capitão, ou major, ou coronel, ou general, ou lá que patente tenha, só pode ter é ficado doido varrido”, penso, já me sentindo um condenado pelos pensamentos. Tanto que quando o chefe chamou um de seus homens para seguir os meus passos até a hora da partida, me vi oferecendo a minha vida a um pelotão de fuzilamento.

Tudo se passa em campo aberto, à sombra de uma árvore. No entanto, estranho a ausência de testemunhas. Como se todo o povo deste lugar tivesse desertado. Os meus parentes não vão partilhar do meu destino: estes homens não vieram aqui para ouvir pedidos de clemência, lenga-lenga, choro, reclamações.

O que me acompanha, simplesmente me acompanha. Observa minhas providências. Somos mudos um para o outro. Basta a sua presença para que eu minta para a minha avó. Para ela não falei de guerra. Falei numa caçada. Iríamos partir esta noite, “eu e este amigo aqui”. Ela me olhou de um jeito estranho e disse que eu estava muito esquisito, muito desinquieto. Digo inquieto e ela responde desinquieto, “você e seu amigo”. O melhor lugar desta casa sempre foi a mesa da cozinha, onde nos encontramos, mas neste momento está muito longe de significar alguma coisa. Minha avó nos oferece café com leite e cuscuz de milho e pergunta ao “meu amigo” se ele gosta de cuscuz de milho. Ele diz que sim com um balançar de cabeça. Ela diz então que vai fazer outro para a nossa viagem. Peço-lhe que faça dois, ainda temos bastante tempo. Uma coisa minha avó não entende e confessa em tom de recriminação: como alguém que dispõe de comida precisa sair pelo mato matando passarinho. Tento tranqüilizá-la: seria mais um divertimento do que uma caçada a sério. Talvez por isso ela tenha preparado com tanta alegria os dois frangos e a farofa que eu lhe pedi, embora quisesse antes saber para que tanta comida, se a minha intenção era voltar logo. Metade desta comida é para um homem que conheci no mato, durante o tempo em que trabalhei no poço. Minha avó me pergunta quem é esse homem e eu respondo que é alguém que ela não conhece.

— Apenas um sujeito que vive no mato há muitos anos. A senhora não deve se lembrar dele.

— E por que você está preocupado com ele?

— Porque é um bom sujeito.

Mas não era isto o que verdadeiramente a incomodava. Era outra coisa.

— Vocês vêm e vão, passam por aqui como um relâmpago. Às vezes eu penso que nenhum de vocês tem a menor consideração por esta pobre velha.

Quantos netos, vovó? Todos na guerra, em qualquer guerra real ou inventada, como esta para onde estou indo. É um mundo doido, não é, vovó? Talvez ela jamais o compreenda — então é melhor não lhe dizer nada. Apenas retribuo-lhe o trabalho com uma nota graúda, que ponho dobrada em sua mão e ela me diz “Deus que te ajude, meu filho, Deus que te dê muitas dessas”, enquanto com a outra mão me entrega o saco quentinho, cheio de comida. E penso: talvez eu nunca mais precise que Deus me abençoe com um salário mensal porque, para precisar disso, é preciso que ele me abençoe duas vezes e me faça voltar são e salvo desta viagem.

E assim me fui. Pensando que vovó podia ser o último ente querido a me ver com vida. Por isso guardava bem as suas palavras, como se antes eu nunca tivesse prestado atenção em conversa alguma. Havia algo de novo em tudo isso: eu gostava muito dela e ainda não sabia. Quando a notícia chegasse, contando a verdade, seu testemunho seria irrefutável.

— Ele sabia que estava indo para a morte, mas ainda assim se lembrou de fazer um bem. Levou comida, um par de calças e uma camisa para um homem que mal conhecia e que precisava disso.

A bênção, vovó?

E aqui nos vamos: neste silêncio que espanta mais do que a própria morte.

O chefe:
— Não fumem e não falem para não chamar a atenção do inimigo.

Aqui, nesta caatinga, nestes ermos?

Ele só se esqueceu de dizer que não era para rir. Falava a sério. E eu me esqueci que nem tudo precisa ser dito com todas as palavras.

O chefe:
— Quem foi o engraçadinho?

E eu:
— Eu.

O chefe:
— Onde está a graça?

— Me lembrei de uma piada. Desculpe.

O chefe:
— Qual é a piada?

Eu:
— Não posso contar.

O chefe:
— Por quê?

Eu:
— Para não chamar a atenção do inimigo.

Mesmo com este escuro, posso adivinhar o riso que se abre e se fecha no rosto de cada homem. Eles o sufocam, abafando as suas bocas com as suas próprias mãos. Com a ajuda de uma minúscula lanterna, o chefe anota qualquer coisa num caderninho que tira do bolso. Pressinto que é um ponto negativo sobre a minha conduta.

Dois a dois, como bois de canga, os homens marcham, trôpegos e desanimados, numa estrada batida por cascos de cavalos e carros de bois, à luz das estrelas e dos pirilampos, sons de grilos e pássaros noturnos, cheiro de mato, sujeitos às espetadas de galhos, topadas em pedras, tropeços em paus e buracos, medo de cobra. Com toda certeza vamos chegar lá cansados e inúteis. Derrotados.

Estes homens parecem saber disso há muito tempo: matar ou morrer é uma questão de rotina. Já não há surpresa nesta caminhada.

Mas ainda me resta muita curiosidade, eis a minha espécie de maldição. Por isso tento cochichar alguma coisa para o homem que me acompanha, “meu amigo” mudo. Perguntas banais. Coisas da vida.

— Você tem mulher?
— Gosta dela?
— Você tem filhos?
— Eles se dão bem com você? Você se dá bem com eles?
— Você tem amigos
— Seus pais ainda estão vivos?
— Gosta deles?
— O que fazem?
— O que você fazia antes?
— Você pensa em sair disso um dia?
— Tem planos para o futuro?
— Gosta do que está fazendo agora?
— É bem pago por isso?
— Você é feliz?

Nunca mais poderia esquecer o que ouvi do homem que parecia mudo e não era mudo. Digamos que neste instante ele teve um momento de extrema boa-vontade para comigo, e talvez até desconhecendo a extensão do favor que estava me fazendo, revelou o timbre da sua voz. Falou baixinho, é certo, mas falou:

— Vou lhe dar um conselho. Você é muito novo ainda. Se quiser viver muito, não faça perguntas.

E assim continuamos indo: calados.

Quantas léguas já teríamos palmilhado? Difícil saber. Se encontrarmos alguém nesta estrada e perguntarmos quantas ainda faltam, a resposta será: — É logo ali.

Se você passar por mim, mesmo que eu não lhe veja, faça-me um obséquio: avise a todos os meus que não chorem se eu não voltar. O choro não me devolverá, são e salvo.

Nesta estrada não sou vaqueiro. Sou gado. Aqui rumino. Com a paciência dos bois.

À minha frente um homem pensa em voz alta. Reclama:

Perdi. Perdi.

E o outro, o que vai a seu lado, ombro a ombro:

O que foi que você perdeu?

Perdi o jogo de hoje. Meu time ia jogar.

— Pior fui eu, que perdi uma namorada. Uma semana inteira neste fim de mundo. Sem mulher, sem nada.

Você só pensa nisso.

Acontece que não sou capado.

O homem à minha frente, o primeiro a se queixar, vira-se para trás e me entrega o seu companheiro:

— Cuidado com este, que está a perigo. Ele olha para uma árvore e vê as coxas de uma mulher. Vê uma pedra e enxerga um seio.

Estávamos quase colados um no outro, cara a cara. Foi por isso que o seu corpo encardido e pesado desabou sobre mim. Com a cabeça virada para trás, ele não viu quando o outro tirou a lâmina do bolso e fez um risco profundo em sua barriga. Lá na frente, o chefe desperta. O silvo do seu apito rasga a noite em duas. Depressa, me desprego do fardo do homem praticamente rasgado em dois e o empurro para o chão. O apito do chefe era a ordem para que parássemos. Ele vem aos berros:

— Que esculhambação é essa? Que esculhambação é essa? — Aponta a sua lanterninha acesa na cara de cada homem, até parar junto de nós, quer dizer, no pequeno círculo que formamos em torno do corpo do homem caído, de onde jorrava uma cachoeira de sangue.

— Está aqui, chefe, a prova do crime — disse o assassino. — Ele se matou com esta arma.

— Como foi isso? — disse o chefe, já com o seu caderninho na mão.

— Ele cochichou para mim: Não me conformo. Perder o jogo do meu time esta noite, não me conformo. Aí tirou a navalha do bolso e se cortou.

— Por que você não tomou a navalha da mão dele?

— Não deu tempo, chefe. E, mesmo que desse, ele teria me matado. Estava fora de si.

Nos entreolhamos, eu e o homem a meu lado, o que está tomando conta de mim. Ele balança a cabeça, em sinal de aprovação. Não digo nada.

— Era um torcedor doente — disse o chefe. — Já que queria morrer, que fique aí. Não podemos perder mais tempo.

E assim nos vamos: pulando por cima de um morto, sem poder olhar para trás. Ainda temos muitas léguas pela frente.

Mas será que eu vi o que vi? Falando sério, não creio muito no que vejo, como se uma névoa espessa me turvasse as vistas. Inebriado, aos poucos vou perdendo a confiança que sempre tive nos meus próprios olhos e isto talvez se deva à poeira que nós todos vamos levantando a cada passo. Sinto-me confuso, muito mal mesmo: meus pés já estão inchados e doloridos e minha barriga começa a doer, enquanto a minha cabeça roda e eu me esforço para deter o vômito que já vem perto da boca — não, pelo amor de Deus agora não, ainda, não, agüente mais um pouco, agüente até o sol raiar, a brisa da manhã certamente te trará um grande alívio, não podes fraquejar, não tens esse direito, pelo menos agora, pelo menos por enquanto, Deus me ajude, Deus que me ajude, Deus, Deus, Deus, em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo.

E o cheiro do vômito vem das minhas próprias tripas; primeiro foi uma tosse, depois um bocejo, depois uma cusparada e o gosto do vômito na saliva e esse cheiro e esse gosto vêm também de um homem mais à frente, que logo a seguir tropeçou e caiu e era como se tivesse escarrado um jato podre dentro da minha boca, a podridão se espalha por onde vamos passando, e vamos passando por cima de mais um e agora eu tenho uma pergunta, uma simples pergunta: quantos seremos ao chegarmos lá? e outra — e se eu cair? e mais outra — passarão por cima de mim, do mesmo jeito que estamos passando por cima dos outros?

A resposta está em mim e está em ti, meu irmão, que caminhas ao meu lado e não me olhas nem me dizes nada porque tens medo de ver a tua própria suspeita refletida nos meus olhos, a minha e a tua suspeita de que nos fizemos inimigos. Sabemos que temos que chegar a algum lugar, mas não sabemos se o queremos, porque desconhecemos o verdadeiro sentido da nossa marcha. Marcha noturna, seis léguas. A pé. Talvez nem sejamos merecedores de uma cova funda, lá no fim, no ponto final — uma cova em que coubesse tudo aquilo que ambicionamos e que deixamos de ambicionar. Seguimos no escuro, como cavalos dopados, mas seguimos, porque nos disseram que tínhamos que ganhar esta corrida e nos fizeram crer nisso. Avante, irmão. Marche, marche.

Mas tenho que me dominar e o consigo, eis o meu milagre pessoal, meu milagre possível, pelo menos neste momento. Em questão de minutos chapinhei no lodaçal de meus próprios abismos, bati na porta de uma fronteira, varei muitas noites e nenhuma delas tinha encanto algum. Agora que voltei, posso lhes contar que já não sou o mesmo. Estou possuído por uma estranha espécie de exaltação — agora eu quero o êxtase e o êxtase que procuro está na guerra. Eu quero a guerra — eu que até aqui neguei a sua existência e que só aceitei esta missão porque a ela fui condenado. Não, já não me conformo com o meu modesto lugar de guia. Marchar simplesmente, sem me envolver com o jogo da marcha, nem com as ambições destes homens e as minhas próprias? Deixar de lado toda essa comichão que se apossa de mim como uma nova corrente sangüinea, toda essa febre, esse desejo? Direi isto ao homem que anda a meu lado, o carrasco que me vigia? Deliro? Com toda certeza. Não há outro remédio. Existirá algo mais monótono do que uma marcha noturna, a pé? Marchemos, porém. O dia já vem raiando.

À exceção de mais alguns homens que fraquejaram — e dos quais ninguém se lembra mais — tudo transcorreu sem incidentes. Avistamos a cerca aí pelas cinco da manhã, de acordo com o sol, que já se levantava. O terreno é plano, descampado, como as nossas próprias cabeças. Os homens parecem bastante animados com a chegada, como se isso, por si só, já fosse a vitória. O chefe os distribui estrategicamente, por zonas de ataque e defesa. Podemos nos movimentar à vontade porque, pelos cálculos do chefe, a guerra ainda está dormindo e tivemos muita sorte em chegar agora, sem aviso. Assim que ela acordar, será apanhada de surpresa. Perguntei-lhe se a minha função terminava ali, já que a mim cabia apenas ensinar-lhes o caminho. Ele disse que não e me deu uma arma.

Não sei atirar, nunca peguei numa arma — mas a sensação de estar agora com uma nas mãos jamais poderá ser descrita. Sinto-me outro: talvez um rei, talvez um bandido. De qualquer forma, outro. E esse outro é diferente do que já fui, mais poderoso e mais perigoso, mais homem e mais animal.

E assim, passamos o dia: deitados no chão, com as nossas miras apontadas para a cerca.

— Se eu dormir você me acorda, quando a coisa começar — pediu um homem a meu lado.

Respondi:

— Se eu dormir você me acorda, quando a coisa começar?

— Combinado — ele disse e fechou os olhos.

Cochilávamos e acordávamos, acordávamos e cochilávamos. Parecia que a verdadeira guerra a ser travada era contra o sono de cada um, como de fato o foi, nesse primeiro dia. A outra guerra, a que procurávamos, não apareceu. À noite nos revezamos em dois turnos e no dia seguinte e no outro. Cansado de esperar, o homem a meu lado voltou a falar:

— Acho que devíamos começar a atirar contra o sol. Está de doer.

— E de noite a gente atira contra a lua.

— Contra a lua, não. Ela é até boazinha.

— Você só se esqueceu que a lua está custando a aparecer.

— Mas vai aparecer. Não estamos aqui para esperar?

No terceiro dia o chefe disse:

— Amanhã vamos para o outro lado.

No dia seguinte fomos para o outro lado.

E do outro lado também não havia guerra.

E como a guerra não aparecia, perguntei ao chefe se eu podia dar uma busca em volta. Ele disse que sim, desde que eu fosse acompanhado.

Então me levantei e o meu carrasco me acompanhou. Numa mão eu segurava a arma e na outra um par de calças e uma camisa — eu ia mesmo procurar o meu amigo que andava escondido pelo mato. Não levava o frango que minha avó fez para ele porque eu já havia devorado tudo quanto foi coisa de comer.

— Só me pergunto que diabo viemos fazer aqui — disse o carrasco.

— Isso é que eu queria saber.

— Esse chefe é maluco — continuou o carrasco.

— Parece que está todo mundo maluco.

— Você sabia a verdade. Por que não disse?

— Eu disse. Mas ele falava dessa guerra com tanta certeza que acabei acreditando. E se ela for em outro lugar?

— Com certeza vamos ter que ir para outro lugar.

Não foi difícil encontrá-lo. Ele continuava debaixo da mesma árvore em que o deixei, alguns anos antes. Vestia-se com os mesmos farrapos e seus cabelos, como tranças de cordas, estavam quase se arrastando pelo chão. A barba vinha até metade da barriga. Parecia um pouco mais velho, mas só um pouco. Quando o avistou, o homem que me acompanhava levantou a arma em sua direção. Empurrei-lhe o cano para um lado e disse-lhe que não havia necessidade disso. Tratava-se de um amigo, gente de paz.

Entreguei-lhe a roupa e falei da comida. Pedi-lhe desculpas: com todo esse tempo no mato não houve comida que chegasse. Ele disse que não me preocupasse. Não lhe faltava o que comer. O homem a meu lado começou a interrogá-lo:

— Por que você vive assim, que nem bicho?

— Porque quero, ora. 

— Há quantos anos você vive assim?

– Desde a última vez que cortei os cabelos. Não sei quanto tempo faz isso, nem me interessa saber. Para quê?

— Esse cabelo não lhe incomoda?

— Isso foi uma coisa que descobri. Nenhum homem precisa cortar o cabelo.

— E de roupa no corpo?

— Também não.

— E comida?

— Isso foi outra coisa que descobri. Ninguém precisa se matar de trabalhar, e às vezes até roubar, para ter o que comer. Sempre tive comida aqui neste mato. E de graça.

— E mulher?

— Foi outra coisa que descobri. Nenhum homem precisa de mulher. Tem muita fêmea de quatro pernas à solta.

— Você é feliz assim?

— Cada um vive como pode. O meu jeito é esse. Não tenho de que reclamar. Aqui ninguém me aporrinha. Quer dizer, não me aporrinhava.

Então o homem, sem ter mais o que interrogar, disse:

— Você vai ter que vir conosco, para falar com o chefe.

— Eu não tenho chefe — disse o outro.

— Mas nós temos. E ele quer ver você.

— Tenho que ir por bem ou por mal?

— Por bem ou por mal.

— Já sei. Vocês querem me prender.

— Não. Ninguém vai lhe prender. Estamos aqui por causa da guerra.

— Que guerra?

— Você vai saber daqui a pouco.

Meu amigo me olha. Não posso fazer nada. Digo-lhe:

— É melhor você ir.

E ele não precisa me dizer, para que eu entenda o que está escrito na sua cara. — Foi você, não foi? Você contou pra eles que eu estava aqui, não foi?

Preciso lhe dizer: foi um engano. Minha intenção era outra. Deu tudo errado. Um desastre. Será que ele ainda acreditaria em mim?

O chefe também o interroga:

— Cadê a guerra?

— Não vi guerra nenhuma.

— É melhor você confessar logo — diz o carrasco.

Ele, o selvagem, me olha, como se me interrogasse: “Por que você me meteu nisso? Que canalhice é essa?”

O chefe:
— Então você não viu a guerra…

Ele:
— Não vi, não senhor.

O chefe:
— E você sempre morou aqui?

Ele:
— Sim, senhor.

O chefe:
— Você sabe montar a cavalo?

Ele:
— Não, senhor.

O chefe:
— Como é que um homem do mato não sabe montar a cavalo?

Ele:
— Porque nunca tive um cavalo. E quem tinha nunca me deixou montar no seu cavalo.

O chefe:
— Mas você sabe lavar cavalo?

Ele:
— Isso todo mundo sabe. É só jogar água, esfregar o sabão e jogar água de novo, não é?

O chefe:
— Então você agora vai ter uma profissão. Você vai passar a lavar os cavalos do Exército. Nós vamos te levar. Vamos dar uma boa esfrega em você, tosar esse cabelo e essa barba, vamos te dar uma roupa de gente. Você vai voltar a ser gente. Ninguém pode viver assim, que nem bicho do mato.

Nesse momento ele olhava para o chão. Não sei se estava indignado, se estava pensando, ou se estava fazendo algum plano. Eu tinha que lhe dizer, de alguma maneira, que estava muito constrangido por toda aquela encrenca. Mas em que isso ia adiantar?

O chefe deu a ordem para levantarmos acampamento.

— Nossa missão aqui está terminada — disse. — Agora temos de partir à procura de outra guerra. Avante, camaradas!

Em sua voz não havia a mais leve ponta de decepção, arrependimento ou dúvida. Com certeza apresentaria um relatório ao quartel-general, informando que a marcha não servira apenas como treinamento, ou para levantar o moral da tropa que, com bravura e heroísmo, havia penetrado numa mata indevassável, capturando em seus recônditos um perigoso líder de um movimento insurrecional, jamais suspeitado.     

E assim ele garantiria mais uma medalha no peito. Por que não?