BAÚ DE ESPANTOS Em Sobre pessoas, Antônio Torres mostra flagrantes e idiossincrasias de personagens, tempos e lugares marcantes

Carlos Ribeiro • Salvador – BA

Sobre pessoas
Antônio Torres
Leitura
159 págs.

Divulgação
Foto em PB
Antônio Torres: painel fragmentário da nossa história.


Sabe-se que todo texto literário se refere, em última instância, ao humano, discreto ou demasiado, sejam seus personagens pessoas, reais ou fictícias, uma pedra que houve confidências numa fazenda da Bahia, bois que narram histórias, uma jovem cadela ruiva de nome Kaschtanka ou um inseto em profundo estado de rejeição. Mas há um gênero que nos atrai por falar de pessoas reais, mensuráveis no tempo-espaço da história e dos afetos, cujos perfis localizam-se num lugar qualquer entre um esboço e uma biografia.

As linhas acima vêm a respeito de um livro singular: Sobre pessoas, do ficcionista Antônio Torres, baiano de Junco, hoje Sátiro Dias, um dos principais nomes de sua geração - a que despontou ruidosamente nos idos dos 60 -, autor de romances consolidados, quando não consagrados, em nossa história literária, a exemplo de Essa terra e Um cão uivando para a lua, aos quais se acrescem títulos mais recentes, como O nobre seqüestrador e Pelo fundo da agulha.

Misto de crônica, memórias, reminiscências e homenagens, como bem definiu André Seffrin, nas orelhas do livro, Sobre pessoas tem sabor especial por falar de personagens reais da nossa história - sejam artistas e escritores do século 20/21, sejam figuras mais ou menos nebulosas, de outros tempos, mais antigos, cujas memórias são revisitadas e redimensionadas. Exemplo: o eminente político e diplomata João Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, muito bem retratado no capítulo Vencedores e vencidos: histórias da nossa história.

Capítulo, diga-se de passagem, em que Torres, com recursos de exímio esgrimista, digo, ficcionista, procura redimir o Rei Dom João VI de sua triste e injustiçada imagem de covarde bufão. Retrata ainda personagens pusilânimes, como o governador Francisco de Castro Morais, apelidado de Vaca, condenado ao degredo por entregar covardemente os bens públicos e privados aos invasores franceses do Rio de Janeiro, em 1711.

Saltando de um século para o outro, contextualizando seus personagens e situando-os entre tantos outros do seu tempo, Antonio Torres oferece ao leitor, em textos curtos e ágeis, uma instigante rede de relações, dramas, amores, paixões, intrigas e imensos talentos, num painel fragmentário da nossa história - política, literária, afetiva - com olhar arguto e, devemos dizer, quase sempre profundamente compreensivo.

A generosidade é uma marca significativa desse livro. Nele, o autor salienta o lado mais luminoso de seus personagens, mas não hesita em expor, aqui e ali, explicitamente ou nas entrelinhas, algumas de suas idiossincrasias - ou, mesmo, infâmias. É o caso do festejado Jorge Luis Borges, cujo reacionarismo e abjeto preconceito é exposto no texto O lado infame do genial Borges. Nele, Torres, referindo-se ao livro Borges, o mesmo e o outro, publicado em 2001 pela Escritura, expõe declarações do autor de Ficções, quando se refere aos militares argentinos como "cavalheiros" e "senhores bem intencionados", que "vão salvar o país da destruição" (isto em plena ditadura militar argentina, nos anos 70, uma das mais sangrentas de todo o continente); declara desprezo aos escritores latino-americanos ("Eles não existem. Não existe nada na América Latina. O continente inteiro é um romance mal escrito") e à raça negra, segundo Borges, "inferior em tudo". "A raça negra nada fez. Se não existissem negros, a história do mundo não mudaria em nada."

Trata-se, no entanto, de uma exceção. Na maior parte do livro, o autor prefere mesmo traçar perfis brilhantes e generosos de escritores e artistas como Fernando Sabino, João Saldanha, Murilo Rubião, Dalton Trevisan, João Antônio, Rubem Braga, Tônia Carrero, Juan Rulfo, Othon Bastos, Márcio Souza, Ignácio de Loyola Brandão, Miles Davis e Tom Jobim. A partir, geralmente, de encontros fugazes, e, portanto, sem qualquer pretensão de retratar, de forma definitiva, esses autores.

Os destaques vão para quatro textos memoráveis: um já antológico, no qual rememora dois encontros com Glauber Rocha, em 1964, quando ambos estavam ainda na casa dos vinte anos (acrescido de um resumo da entrevista que fez, então, com o cineasta para uma "revisteca" paulista chamada Finesse, no dia da estréia de Deus e o diabo na terra do sol, em São Paulo); o que retrata o encontro do autor com o poeta português Alexandre O'Neill, em Lisboa (acrescido de alguns poemas do autor, morto em 1986, aos 62 anos); o Roteiro sentimental de um leitor de Jorge Amado, no qual retrata a lendária simplicidade e generosidade do romancista baiano com os escritores mais novos; e um brilhante perfil de Monteiro Lobato (Idéias de Jeca Tatu).

Primorosas, também, as escassas linhas sobre a infância do autor em Quando o Natal não tinha Papai Noel - texto emblemático do tempo mítico que alimenta a ficção de Torres e que tem no não-pertencimento a chave para a sua decifração. Eis, como diz Seffrin, citando um poeta, o "baú de espantos" deste autor que não cessa de nos surpreender.

O AUTOR
Antônio Torres nasceu em Sátiro Dias (BA), em 1940. Sua estréia literária ocorreu em 1972 com o romance Um cão uivando nas trevas. Entre outros, é autor de Os homens dos pés redondos, Essa terra, Carta ao bispo, Adeus, velho, Um táxi para Viena D'Áustria e O cachorro e o lobo. Pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, em 2000.


TRECHO • Sobre pessoas

Recordo-o como um homem afável, calmo, discreto. Já o seu acompanhante era grandalhão e espalhafatoso. Numa gesticulação desastrada, acabou por entornar o líquido quentíssimo de xícara sobre o meu ilustre e impecável visitante, passando a se auto-recriminar infinitamente. Aí começou a trovejar. Foi a deixa para o relevante maestro, com sua voz branda, pôr um fim ao constrangimento do estabanado cônsul, mudando de assunto:

- Que bonitos são os trovões do Rio - exclamou. - Parecem os de Jalisco. - Então todos relaxamos, sob as cintilações dos relâmpagos e subseqüentes estrondos. (da crônica Juan Rulfo no Rio)

 


Diário do Nordeste – Fortaleza, Ceará – Domingo, 9 de Setembro de 2007
Carlos Augusto Viana – Editor

 

Em Carne e osso e filamentos de sonhos

 

“O Antônio Torres, uma das vozes mais criativas da moderna ficção brasileira, consagrado aqui alhures, deixou em quarentena suas personagens, fragmentos de um mundo em decomposição, e, agora envereda no gênero crônica (de há muito já o cultiva em jornais), num texto doce e suave sabor.”

 

         Nos primórdios do Cristianismo, a crônica era tão-somente o relato de acontecimentos, sujeitos a uma cronologia, tomado como registro. Não havia o aprofundamento das causas, tampouco a interpretação de seus efeitos. No Brasil, a partir do século XIX, com José de Alencar e Machado de Assis, assumiu uma personalidade literária.

         Hoje, em sua moderna roupagem, a crônica (ocupa o espaço de jornais e revistas; depois, sofre uma seleção, para, então, converter-se em livro) implica, sobretudo, um acontecimento diário que chama a atenção do escritor (uma paisagem urbana, uma cena lírica qualquer, uma pessoa, um objeto, um fenômeno natural etc.), uma introspecção (o estar no mundo, aspirações, o país da infância) ou, dentre tantos outros, motivos encomiásticos (amigos, cidades).

         É, portanto, uma expressão híbrida (assume várias formas: alegoria, entrevista, confissão, diário, carta...) que percorre, naturalmente, as fronteiras entre o conto e a poesia, convertendo-se numa visão pessoal, subjetiva acerca do cotidiano.

         Em Antônio Torres, (ficcionista engenhoso, que tece suas tramas como quem emaranha fios de uma interminável teia) a singularidade do cronista reside em sua extrema simplicidade – o que não lhe tira o encantamento do literário. Ao captar instantes, às vezes fragmentos de tempo, que tanto dizem da condição humana, ao redesenhar, pela memória, encontros com artistas e personalidades – da música, do cinema, da literatura, da televisão, do esporte – pesca, com o olhar agudo, a grandeza do que se esconde sob a pele das coisas miúdas. Deparamos, então, sob a aparente banalidade, o que, dentro de nós, estava adormecido, ainda que nos inquietasse.

         Eis o Antônio Torres de “Sobre Pessoas”. Nesse livro, retoma as cadeiras de balanço dos alpendres sertanejos; isto é, deixa, no leitor, aquela sensação de conversão ao pé da orelha, conversa amena, acompanhada de um café com tapioca, quando o sol já se espetando nos espinhos do mandacaru. Jorram, portanto, as marcas de oralidade, que tanto açúcar põem nas pautas de nossa língua portuguesa do Brasil: “Sinuca de bico” (p.10); “deu uma olhar rápida” (p.13); “não era de avançar sobre o leitão assado” (p.25); “A primeira cipoada dele é na imprensa” (p.28); “não sobrou uma cabeça de índio para contar história” (p.58) – e assim vai, para não perder o ritmo.

         Sua crônica é, antes de tudo, uma cartilha de ensinamentos. Com ela o leitor aprende, a partir dos retratos alheios, a remodelar o seu próprio retrato, a este acrescentando aprendizagens, ou relendo conceitos, quando não, recuperando o que se foi nas asas do longe.

         Com despojamento verbal, explorando a polissemia das palavras, Torres nos coloca frente a frente com grandes expressões artísticas, sejam estas daqui ou d’além-mar; e, em todas elas, uma marca em comum se inscreve: a humanidade. Nesse sentido, antes de um escritor, um cineasta, de um esportista, imprime-se o ser humano – sempre na fronteira entre o paraíso e a queda.

         Assim como ocorre também em sua ficção, na crônica ele faz largo uso das intertextualidades – recurso que, para Domício Proença Filho, constitui uma das marcas da pós-modernidade. O modo por que aparecem nos textos é bastante variado: ora, são letras de música: “Era uma vez um lugar esquecido nos confins do tempo, sem rádio e sem notícia das terras civilizadas...” (p.158); ora, a citação de poemas: “Amor é fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói e não se sente...” (p.95); ora, subvertendo a forma original do texto: “Ele não foi um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones...” (p.76); ora, com procedimento híbrido: “Hoje é sábado e amanhã é domingo e a vida vem em ondas como o mar e Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar” – aqui, fundem-se versos de Vinícius e fragmentos da liturgia católica.

         Em Torres, tudo é assim muito natural, é doce música, bem como carrega um gostinho de um passado, perdido, mas tão presente em nós como uma cicatriz. São crônicas que tanto podem ser lidas na sala de espera dos sempre atrasados médicos ou na concentração de um alpendrada cadeira, sob o balanço das folhas e as flautas do vento.

 


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