O GLOBO JORNAL DO BRASIL DIÁRIO DO NORDESTE A TARDE, Salvador, BA REVISTA PREVI RASCUNHO/CURITIBA ESTADÃO
Manhã de domingo em Tietê por Ignácio de Loyola Brandão clique aqui
Resenha em PDF - por Débora Reis, Amanda Velloso e Gabriel Alves.
Resenha por Adriana Araújo - Baú de Leituras

Pelo Fundo da
Agulha
Antônio
Torres
Editora Record
ISBN: 85-01-07658-9
Gênero: Ficção Brasileira - Romance
Páginas: 224
Formato: 14X21
Personagem principal de Essa terra, Totonhim e Junco, cidade natal do escritor Antônio Torres e de seu personagem mais célebre, surgem novamente para o público em 1997, com O cachorro e o lobo, no qual se conta o regresso do protagonista à cidade depois de ausência de 20 anos. Mas ainda faltavam coisas pra contar. O emocionante acerto de contas entre Totonhim e suas memórias de Junco acontece agora, com PELO FUNDO DA AGULHA, que fecha uma trilogia primorosamente construída na velocidade de um pau-de-arara.
São três tempos de um personagem catalisador da vida brasileira na última metade do século XX. Em Essa terra, ele aparece moço, recebendo seu irmão Nelo, que partira para São Paulo. Cultuado como alguém que deu certo, Nelo volta falido para sua Junco, no sertão baiano, e acaba cometendo suicídio por não corresponder às expectativas dos seus e por não se reencontrar mais com a cidade. 0Em O cachorro e o lobo, a narrativa ganha lentidão. Transcorridos 20 anos, Totonhim reaparece para comemorar o aniversário de 80 anos do pai. Atormenta-o o desemprego, mas ainda consegue representar o papel do homem bem-sucedido, distribuindo presentes e festejando com seus conterrâneos. Nesta viagem perigosa, seu pai teme que ele siga o exemplo do irmão, e lhe proporciona um almoço que é um elogio da vida e uma noite de amor com sua primeira namorada.
Em PELO FUNDO DA AGULHA, 10 anos depois, Totonhim está sozinho no mundo. Aposentou-se, separou-se da mulher e dos filhos, perdeu o melhor amigo e faz uma outra viagem de volta – totalmente interior. Embalado pela imagem da mãe velhinha, mas ainda com visão boa para enfiar a linha pelo fundo da agulha, sem usar óculos, ele repassa vários lances de sua vida, como se a olhasse por esse orifício. As figuras agora existem só na memória de Totonhim, que revela o lado paulista de sua história.
Ele está em uma nova encruzilhada. O homem fora de combate deita na cama e pensa no sentido de tudo. Não há ninguém para consolá-lo e ele se sente perseguido pelas histórias de amigos e parentes que se suicidaram. Quer voltar para Junco, Junco não existe mais. "Tentei, neste livro, fazer uma reflexão sobre este crepúsculo do mundo em que vivemos. Um mundo pós-utópico, pós-modernista, pós-tudo. Entendo que por trás dos impasses do personagem Totonhim não estão apenas os meus próprios. Nem apenas da minha geração. O que me parece é que de repente nos vemos todos – jovens, adultos e velhos – numa espécie de encruzilhada do tempo, em busca de uma saída para o futuro. E onde está esta saída? Eis a questão", conta o autor.
Ao som de velhas canções, Torres constrói em PELO FUNDO DA AGULHA uma narrativa musical, com idas e voltas, representando o próprio movimento desses migrantes que habitam dois tempos e dois mundos, fazendo a passagem contínua de um para o outro.
Antônio Torres nasceu em 13 de setembro de 1940 em Junco, um povoado no interior da Bahia. Estudou em Alagoinhas e Salvador, onde ingressou no Jornal da Bahia. Aos 20 anos mudou-se para São Paulo, onde foi repórter e chefe de reportagem do caderno de esportes do jornal Última Hora. Trocou o jornalismo pela publicidade, trabalhando como redator publicitário em grandes agências brasileiras. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a lua. Em 1976, publicou Essa terra, seu maior sucesso, que já foi traduzido para o francês, espanhol, italiano, alemão, hebraico e holandês. Também é autor de Balada da infância perdida, Os homens de pés redondos, Carta ao bispo, Adeus, velho, O centro das nossas desatenções, O cachorro e o lobo, O circo no Brasil, Meninos, eu conto e Meu querido canibal. Em 1998, foi condecorado pelo governo francês com o Chevalier des Arts et des Lettres. Em 1987, recebeu o prêmio Romance do Ano do Pen Clube do Brasil por Balada da infância perdida e em 1997 o prêmio hors concours de Romance da União Brasileira de Escritores por O cachorro e o lobo. Em 2000, recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Meu querido canibal lhe rendeu o Prêmio Zaffari & Bourbon da Jornada Literária de Passo Fundo, em 2001. Em 2003, lançou O nobre seqüestrador, que conta a história de René Duguay-Trouin, corsário francês e personagem de muitas aventuras cuja espada submeteu navios, seqüestrou cidades, intimidou vontades e conquistou corações.
"Antônio Torres é um escritor que construiu carreira sólida ao longo de 30 anos. Poucos autores de sua geração têm um estilo tão marcante, uma linguagem tão poética e envolvente. Em seu mais recente romance [Pelo fundo da agulha], Torres penetra nos meandros da velhice. Quando ela começa, como se manifesta, o que acontece com nossa rotina diária no momento em que nos aposentamos, o que fica de nossa auto-estima, o vazio que nos toma. Não é, em momento algum, um livro para baixo, uma história de decadência. Cheio de atitude e poesia, é uma lição de vida, um romance cheio de ternura e compaixão, a história de um homem que perde o emprego e mergulha no sertão baiano em busca do pai. O romance busca a resposta que ninguém tem: qual é o sentido da vida? Por que aqui estamos? Torres é um obstinado: low profile, despreocupado das glórias vãs, cresce a cada livro" --
Ignácio de Loyola Brandão
(Revista Vogue Brasil/ janeiro 2007)
Pelo Fundo da Agulha (2006) OGLOBO

Luciana Ackermann - O Globo
http://oglobo.globo.com/saude/terceiraidade/mat/2006/10/12/286080551.asp
RIO - A hora de pendurar as chuteiras, é um momento delicado para muitas pessoas. Este momento de mudança, com os dilemas de um homem diante da aposentadoria é o tema do novo livro de Antônio Torres , de 66 anos, "Pelo fundo da agulha". Nele, o personagem principal Totonhim refaz a trajetória de sua vida e diversas reflexões sobre a hora de parar. O livro fecha a trilogia iniciada com o romance "Essa Terra", de 1976, passando pelo "O cachorro e o lobo", lançado em 1997.
Totonhim é um nordestino, que, como muitos, para melhorar de vida mudou-se para São Paulo. Lá, estudou muito, passou em um concurso público para uma vaga no Banco do Brasil, onde fez sua carreira. Formou-se em administração de empresas. Dedicou toda a sua vida ao banco. Nos últimos dois anos, foi gerente da área de recursos urbanos do banco. Em seu dia-a-dia, já havia se acostumado a ouvir as queixas e os lamentos daqueles que estavam se desligando do banco para se aposentar. Mais tarde, Totonhim mudou de lado e também precisou deixar o banco.
É nesse contexto que Torres desenvolve as profundas reflexões de Totonhim em sua primeira noite de sua aposentadoria. Para compor o personagem e todos os seus conflitos, Torres explica que, além da própria intuição, também fez diversas pesquisas de campo com profissionais da área de recursos humanos e entre aposentados. Nelas, encontrou casos de pessoas que gostam de viajar, fazer cursos, descansar. Outros que têm a capacidade de se autogerenciar, investem em algum negócio, e, aqueles que se sentem abandonado, sem saber o que fazer com o tempo livre.
Um dos relatos mais curiosos é o de um senhor aposentado que dia sim, dia não vestia seu terno para visitar o antigo trabalho e tomar um cafezinho com os colegas. No entanto, ele não ia embora e ficava dando palpites e aborrecendo os colegas.
- Para muitos a primeira angústia é a perda do crachá, que simboliza a perda dos vínculos com a empresa. Nesse momento perde-se um mundo de referências, a vida social, as festinhas, os amigos, os puxa-sacos, as estagiárias. Enfim, há um vínculo emocional entre o homem e a empresa, afirma Torres.
Para o autor, a alternativa para não sentir tal angústia é procurar ter outras atividades além da vida profissional, como a prática de esportes, ter uma vida social cultural, como visitar exposições, ir aos cinemas, aos lançamentos de livros etc. Ele, que está viajando o país para lançar o livro, diz que vários leitores o abordam para dizer que ficaram emocionados como o assunto é abordado.
Pelo Fundo da agulha
Antônio Torres
Editora Record
224 páginas
Preço: R$ 34,90
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 85-01-07658-9
Prosa & Verso - O Globo 18/09/2006
Dor e delírio em tempo e espaços condensados
Marcelo Moutinho*
Sempre que passa pela Travessa do Ouvidor, Antônio Torres pára por alguns segundos em frente à estátua de Pixinguinha para uma singela reverência. Mais do que simplesmente um pedido de benção ao mestre do choro, o gesto de Torres encerra uma poderosa metáfora sobre a própria obra. Desde "Um cão uivando para a lua" (1972), sua estréia na ficção, o escritor baiano radicado no Rio tenta jogar luz sobre um país que parece fora de foco. Através de personagens singularíssimos e desterritorializados, ele se detém sobre o que é peculiar, no específico, na cor local. Cor que, de uma forma ou de outra, em geral se dissipa.
Vida e obra se amalgamam quase que indissoluvelmente na trajetória de Torres, cimentada em 10 romances que a Record vem reeditando e agora ganham a companhia de "Pelo fundo da agulha", com noite de autógrafos marcada para a próxima terça (19), na Livraria da Travessa. O novo título marca o realinhamento do autor com os elementos estéticos e temáticos dos trabalhos anteriores a seu recente passeio pela narrativa histórica, que rendeu "O Centro das nossas desatenções", "Meu querido canibal" e "O nobre seqüestrador". Paralelamente, o livro fecha a trilogia iniciada há 30 anos com "Essa terra" e que se seguiu com "O cachorro e o lobo", lançado em 1997.
A trilogia centra-se sobre o êxodo nordestino sob o ponto de vista do protagonista Totonhim, originário do pequeno município de Junco, no sertão da Bahia, e cujo irmão, Nelo, emigrou para São Paulo, em percurso que espelha o do próprio autor. Em "Essa terra", Totonhim relata a volta trágica do irmão ao torrão natal, que sob a pena de Torres ganha a dimensão mítica de uma Macondo, embora seja real e, tendo trocado de nome, esteja hoje inscrita no mapa como Sátiro Dias. No retorno cercado de expectativa após duas décadas vividas no "Sul Maravilha", Nelo procura tatear a identidade que fora esgarçada ao limite na megalópole - e tropeça no impasse. Se a migração não lhe reembolsara o milagre prometido, Junco agora ficara inevitavelmente para trás. Sem lugar, resta-lhe o suicídio.
Em "O cachorro e o lobo", é Totonhim, já
radicado em São
Paulo, quem pega a estrada rumo ao passado a fim de tentar desfazer, a
partir do
reencontro com o pai e com a topografia do lugar que virou lembrança, o
nó da morte do
irmão. A viagem a Junco contempla uma outra viagem, interior, e o
narrador turva sua
saudade em choros e sambas-canção que parecem fora de época,
reminiscências ainda
latejantes de um tempo que vai, apressado. "Em quatro semanas, acabara
descobrindo
que o lugar em que nascera já não lhe pertencia. Sequer lhe oferecia um
galho em que se
segurar", lamenta o narrador. A aparente imobilidade das coisas
escondia mudanças
profundas. A exemplo de Nelo, Totonhim também perdera a cidade que um
dia fora sua.
Situado mais de dez anos depois, "Pelo fundo da agulha" traz Totonhim
recolhido
a uma cama, entre o sono e a vigília, na companhia espaçosa da solidão.
Recém-aposentado e envelhecido, longe da mulher e dos filhos, ele
embarca em novo
périplo, agora inteiramente introspectivo, no qual se reencontrará com
a mãe. São
Paulo, Junco, o pai, o primeiro amor, o irmão suicida, tudo virou
apenas matéria de
memória, que remexe, movediça e fantasmagórica, em seu delírio.
"Era outra a cidade, e outro o país, o continente, o mundo deste outro personagem, um homem que já não sabia se ainda tinha sonhos próprios", anota o narrador, que atua como uma espécie de ‘consciência crítica’ do protagonista, chegando a intervir no enredo. Quanto Totonhim pretende carregar na dramaticidade para justificar a ausência da esposa, por exemplo, ele o repreende: "Vamos combinar que esta história da morte brutal da sua mulher é má literatura ou, no mínimo, uma solução fácil, senhor".
Torres mais uma vez comprova sua destreza na construção de mundos complexos em tempo e espaços condensados. Como já havia acontecido em "Balada da infância perdida" (1986), cuja trama decorre durante uma única madrugada e limita-se ao apartamento do protagonista, o desvario de Totonhim dura apenas algumas horas e se dá no exílio de seu quarto. O isolamento que a aposentadoria agravou é "uma dor que puxa os restos das outras" e o leva a concluir que numa cidade como São Paulo "é possível você suportar tudo, quase tudo, menos a falta do que fazer".
Um regresso a Junco não faz mais sentido – ele já o experimentara. Tampouco lhe apraz a dura poesia concreta das esquinas paulistanas. Na cidade natal, havia o sonho de partir. Na metrópole, o de voltar. "Agora era janeiro. De um ano qualquer, já numa década avançada do século XX, que ia inflando, inflando, como um balão de gás solto no ar, levando sua juventude dentro dele". E Totonhim esvaziou-se.
Estrangeiro onde quer que esteja, ele não vislumbra a perspectiva de reatar os fios que se romperam e flerta com a possibilidade do suicídio, personificada numa bela (porém demasiado longa) citação de "O mito de Sísifo", de Camus. Junco, e mesmo São Paulo, são agora cidades imaginárias, passíveis de existência tão-só na remontagem quase fictícia que as recordações engendram. Na tentativa de impedir sua extinção, ele se apega em desespero a tais imagens.
Torres pinta o crepúsculo de seu
personagem em tons sombrios, matizando
um Brasil que enjeita a padronização e, sob o silêncio opaco de milhões
de
testemunhas, também começa a desaparecer. Ao registrar em papel a
história de Totonhim,
o autor acaba por salvá-la do esquecimento e esculpindo a memória em
pedra bruta - como
aquela que, já lapidada, tomou a forma de Pixinguinha e parece tocar
sax em plena
Travessa do Ouvidor.
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* Marcelo Moutinho é escritor e jornalista
Revista Entrelivros, São Paulo, Maio de 2007
Renato Bittencourt Gomes
Feito de memória e de esquecimento
Ao contar história de bancário que se aposenta, Torres encerra trilogia que refaz meio século do país
Em um quarto de hotel, um homem sozinho, aposentado e separado repassa a vida, imaginando cartas e conversas, lembrando de acontecimentos, Quem é ele? “Esta é a história de um mortal comum, sobrevivente de seus próprios embates”. Onde está? “Na região sem tempo dos sonhos”, ou do limiar dessa região: o que lhe passa pela cabeça é revelado ao leitor não tem exatamente uma natureza onírica e também não traz a consistência iniludível daquilo que rotineiramente chamamos de realidade. Ele elenca seus fantasmas, um a um, “pois agora sua vida seria só isso: memória”. Mas quem é esse homem?
“Um foragido e um sobrevivente. Alguém que conseguiu escapar do anonimato, que vem do sofrimento menor, da tragédia cotidiana e obscura que se desenrola sob os tetos de minha pátria”, disse de si mesmo o poeta Ferreira Gullar em um vigoroso testemunho, Uma luz do chão (1978). O mesmo parecem dizer os protagonistas de Antônio Torres, incluindo o nosso homem no hotel: foragidos e sobreviventes. E esses romances de Torres também trazem o tom de testemunho ao narrar a saga dos sertanejos na cidade grande. Porém, isso não acontece impunemente, porque à sua volta – e mesmo neles – o que se vê é aflição, desespero, alcoolismo, loucura e morte. Desde o primeiro livro, Um Cão Uivando para a Lua (1972). Há, no entanto, espaço também para a felicidade – as alegrias amorosas, a construção de uma carreira profissional, a formação de uma mínima prole, o reencontro com os familiares que ficaram no sertão.
Com o recém-lançado Pelo Fundo da Agulha (2006), Torres fecha uma trilogia começada com Essa Terra (1976) e prosseguida com O Cachorro e o Lobo (1997). Essa é a tríade de Totonhim, que, assim como o autor, é natural do Junco, lugarejo do interior seco da Bahia. Em Essa Terra, Totonhim decide deixar o Junco depois de sofrer o impacto do suicídio do irmão primogênito, que havia retornado depois de 20 anos em “São Paulo-Paraná”. Nesse primeiro tomo, já temos os conflitos e rancores familiares: a sombra do irmão, herói da família e do lugar; o pai apegado ao modo de ser do sertanejo; a mãe que quer outra vida. Em O Cachorro e o Lobo, Totonhim volta à cidadezinha para confraternizar com o pai, que completara 80 anos de idade. Nessa visita, surpreende-se com as mudanças ocorridas e, mais que tudo, observa a vida que evitou, a existência que, migrando, deixou de levar. Nesses dois primeiros volumes, não sabemos que bagagem ele acumulou em São Paulo, recebemos apenas dados preliminares, burocráticos: casado, dois filhos, funcionário do Banco do Brasil.
Só no terceiro volume sabemos o que ele passou na metrópole: a pensão, o emprego no banco, o casamento, a convivência com o sogro, os filhos, a morte do sogro, a separação. E tudo retrospectivamente, quando tudo já não é mais, quando Antão da Cruz Filho, o Totonhim, reduziu-se a um homem em um quarto de hotel, sozinho com sua memória. É pela memória que ele repassa tudo que viveu, assim como o autor vai reescrevendo mais ou menos a mesma história do livro de estréia, na trilogia, Balada da infância perdida (1986), compondo nesses vários volumes um mesmo “romance sujo”, redigido com a mesma pegada do Poema sujo (1976) de Ferreira Gullar, a mesma evocação da infância, a memória familiar, as vivências de um homem que é habitado por uma cidade e sua gente
Isso garante uma unidade de obra até mesmo nos recentes romances históricos – Meu querido canibal (2000) e O nobre seqüestrador (2003) –, que enfocam nosso passado colonial e nos quais o autor de alguma forma se insere na narrativa, com sua vivência de sertanejo habitando o Rio de Janeiro, migrante debruçado sobre o mistério da nossa aquática metrópole tropical. Assim, ao longo dos volumes da trilogia e de toda a romanesca de Antônio Torres, vemos ser composto um painel da vida brasileira nas últimas cinco ou seis décadas, nas quais o chamado progresso mudou nossa maneira de ser de viver.
Tendo iniciado sua obra com um romance sob o signo da loucura, Torres apresenta uma escritura que muitas vezes corteja o delirante, adentrando exageros que poderíamos chamar de barrocos, no que se aproxima de José Alcides Pinto, prosador e poeta oriundo do sertão do Ceará, autor da Trilogia da maldição (1964-74). Parece que em Pelo fundo da agulha é terminada a descrição do amplo arco que vai do Junco a um quarto de hotel em terra distante. Totonhim pode finalmente entrar na “região sem tempo dos sonhos”, mas tudo indica que a obra não acaba. Se o retorno e o suicídio do irmão foram uma confissão de derrota (“É como dizem: quem volta é porque fracassou”), Totonhim seguiu em frente. Antônio Torres, também.
Caderno Idéias JB,
23/09/2006.
A angústia no fim da linha
Em romance reflexivo, Antônio Torres encerra trilogia iniciada há 30
anos
Henrique Rodrigues*
Antônio Torres escreve musicalmente. Em palestras e oficinas que
ministra pelo país,
deixa clara essa associação no seu processo criativo. O resultado é uma
prosa que traz
o embalo do jazz e a melodia na leitura. Diferente de várias tendências
da moda nas
literatices, Torres não tem intenção de asfixiar o leitor: antes,
convida-o para
dançar.
O lançamento de “Essa Terra”, em 1976, trouxe novo fôlego ao debate acerca do dualismo sertão/cidade. O romance, hoje na 21ª edição, narra o fracasso diante da migração nordestina para locais com promessa de vida melhor. Totonhim assiste à desintegração das suas referências familiares quando os pais e irmãos se mudam de Junco (hoje chamada de Sátiro Dias) para Feira de Santana, outra cidade do interior da Bahia, e acabam por mergulhar ainda mais na pobreza. Lá, o banco emprestara dinheiro ao pai sob a condição de que plantasse sisal, uma cultura que não vingara, deixando-o endividado; sem perspectiva, os irmãos fogem de casa tão logo estejam crescidos. E a tragédia mais lancinante: o suicídio do irmão mais velho Nelo que, após fracassar em São Paulo, não encontrou mais referências na cidade que deixara para trás. O personagem se tornou, na literatura brasileira, um símbolo da perda da dignidade humana perante as sucessivas derrotas sociais.
Diante desse quadro, restou a Totonhim
seguir o caminho do irmão, rumo a
São Paulo, para tentar superar o atraso em que a família se encontrava.
Ainda que
lutando com a possibilidade de repetir a história de Nelo, vinte anos
depois Totonhim
retorna à cidade natal, onde, tal como acontecera ao outro, já era um
estranho. Esse
regresso é narrado em “O cachorro e o lobo”, lançado em 1997. Ali, a
memória
constitui o caldo grosso onde flutuam, em permanente conflito, as
expectativas e
frustrações dos seus personagens, em especial no embate de Totonhim com
o pai
Espaço e tempo lhe escapam pelos dedos, construindo para o personagem
um ambiente físico
e psicológico segundo o qual a realidade é um imenso e, paradoxalmente,
exteriorizado
oco.
A consciência desse vazio imenso está em “Pelo fundo da agulha”. No desfecho da trilogia, Totonhim se vê no seu quarto, em São Paulo, abandonado pela mulher e filhos, na primeira noite após se aposentar. Financeiramente, sua jornada não foi desfavorável. No entanto, a solidão lhe preenche como a um aquário com peixes moribundos, num delírio formado por lembranças que desfilam pelas quatro paredes. Entre o sono e a vigília, o protagonista olha o próprio passado como se fosse pelo buraco de uma agulha, na qual sua mãe, idosa porém com mão firme, passava a linha.
Dentre as recordações, percebe-se um tom de auto-ironia, manejado com destreza pelo uso recorrente do discurso indireto livre, no qual a narrativa se desdobra em si mesma, dando lugar a uma segunda voz: “Agora ele avistava um sinal amarelo. Esperar. Mas atenção! Olho vivo nos semáforos. Cuidado para não ser atropelado. Como entrar na cidade e integrar-se nela? Com a ajuda de um, a mão de outro e empurrões da sorte. E prestando muita atenção aos seus sinais. Avante, camarada!”. O riso de agonia é, ainda que de forma resignada, um viés possível de compreensão que o personagem tem de si mesmo.
“Rever é perder o encanto”, já arrematou
Millôr Fernandes. Na
trilogia de Antônio Torres, rever significa trocar um desencanto por
outro. A angústia
se torna o território inexorável, onde irremediavelmente vai aportar a
trajetória
humana.
A saga de Totonhim, de certa forma, traduz a própria curva de
desencanto da sociedade
brasileira nos últimos 30 anos, representada no cidadão cujas raízes se
fragmentam,
cada vez mais destituídas de som e fúria.
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Henrique Rodrigues é escritor
| Caderno
Cultura DIÁRIO DO NORDESTE |
|
| 26 de Novembro de 2006. Fortaleza, Ceará. |
ROMANCISTA ANTÔNIO TORRES: filamentos de uma escritura [Capa do Caderno Cultura domingo] Antônio Torres ocupa, na ficção brasileira, uma posição singularíssima: tece, como poucos, um texto peculiar, posto longe das tendências ou das correntes literárias, ao mesmo tempo em que, diante do leitor mais atento à elaboração da escritura do que ao próprio desenrolar-se do enredo, constitui sempre um desafio: decifra-me ou devoro-te. E tal peleja se torna mais árdua quando o romancista trabalha com temas recorrentes, como, de modo específico, dá-se com a trilogia, iniciada com ´Essa Terra´, seguida por ´O cachorro e o lobo´ e que fecha o círculo, agora, com ´Pelo Fundo da Agulha´. (Editora Record, 220 páginas) Tais questões integram o motivo maior dessa edição, pois Antônio Torres estará em Fortaleza, na próxima terça-feira, dia 28, para, no Centro Cultural do BNB, abrir o Seminário ´Migrações: geografia das palavras´ - evento coordenado pelas professoras Sarah Diva Ipiranga e Solange Kate Araújo. Carlos Augusto Viana - Editor A linguagem é uma estrutura simbólica que comporta
a realidade. Através dos signos lingüísticos, os homens se comunicam
entre si a a respeito do mundo - mas não com o mundo. Há, portanto, uma
separação entre sujeito e objeto; os signos circulam entre os
indivíduos, comportando um sentido que exige uma investigação: ´A
linguagem reclama o pensar: a palavra é propriamente o esquema do
conceito; quem a profere vai ao conceito´. (DUFRENNE, 1969, p. 31)
´A
fronteira crepuscular entre o sono e a vigília era, neste momento,
romana: fontes salpicando e ruas estreitas com arcos. A dourada e
pródiga cidade de flores e pedra polida pelos anos. Às vezes, em sua
semiconsciência, estava outra vez em Paris, ou entre escombros de
guerra alemães, ou esquiando na Suíça e num hotel entre a neve. Algumas
vezes, também, era um barbeiro da Geógia, certa madrugada em casa. Era
Roma esta manhã, na região sem tempo dos sonhos´.
Todo
esse intróito se sedimenta numa funcionalidade: preparar o leitor para
o universo que, a partir de agora, irá palmilhar, da mesma forma como,
num lance antecipatório, mostra uma identidade entre essa escritura (a
própria escritora) e o protagonista da trama que, então, há de abrir-se
ao leitor. O protagonista da ´Trilogia do Suicídio´, de Antônio Torres,
tem o seu percurso ontológico no seguinte movimento pendular: Totonhim
- Antão Filho - Totonhim, uma vez que vive aquele mesmo impasse da
personagem lírica do teatrum mundi drummoniano:
´Você marcha, José! / José, para onde?´. (DRUMMOND, ), delineando,
assim, o desajuste entre o sujeito e o mundo - situação, aliás, que
inaugura a narrativa:
Não
o imagine um guerreiro que depois de todas as batalhas finalmente
encontrou repouso, abraçado a uma deusa consoladora dos cansados de
guerra. Esta é a história de um mortal comum, sobrevivente de seus
próprios embates cotidianos, aqui e ali bafejado por lufadas da sorte,
mais a merecer uma menção honrosa pelo seu esforço na corrida contra o
tempo do que um troféu de vencedor. Assim o vemos: deitado. Imóvel. A
olhar para o teto e paredes de um quarto. E a assustar-se com a sombra
de uma cortina em movimento, que supôs ser o fantasma de uma alma tão
penada quanto a sua. Uma alma de mulher com certeza. (p.7-8) ANTÔNIO TORRES Pelo fundo da agulha Fundindo pensamento e linguagem, e, assim, estabelecendo uma perfeita harmonia entre enunciação e enunciado, a narrativa de ´Pelo fundo da agulha´ entrelaça memória e imaginação, de tal forma que a unidade se anuncia a partir de fragmentos. O processo da tessitura textual consiste, fundamentalmente, na seguinte constatação: o que é pó em memória retornará. Trata-se, portanto, de um mundo reconstruído pelo avesso: recuperam-se as migalhas para que o pão seja refeito. Carlos Augusto Viana Talvez por isso haja, em todo o romance, um privilégio das impressões sensoriais, sobretudo das que evocam a visão, a audição e o olfato: ´Oh, memoráveis serenatas em noites enluaradas para moças sonhadoras recém-saídas do banho, cheirando a eucalipto, todas farfalhantes em suas cambraias engomadas...´ (p.45) Enumeram-se, ao longo do texto, os ruídos das descargas, dos móveis que se arrastam, dos automóveis que se chocam; quando não, os
frêmitos
atávicos, que se evolam de ´um carro de bois, vagaroso, gemedor´,
(p.111) e que hão de conduzir a personagem às ´luzes de uma cidade, que
lhe provocariam um impacto jamais igualado´. (p.111) |
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2004 Editora Verdes Mares. Todos os direitos reservados. Enviado por Laéria (laeria@terra.com.br) |
loyola
Manhã
de domingo em Tietê
Ignácio de Loyola brandão
O Estado de S.Paulo (17/11/2006)
O que posso dizer para o
Antônio Torres? Estava entre Porto
Feliz e Tietê, no sítio de Lisa, uma amiga, contemplando paisagens em
diversos tons de
verde que iam do mais claro ao quase negro, enquanto o Rio Tietê, lá
embaixo, fazia uma
curva e cintilava ao sol. As caipiroscas de framboesas, colhidas ali no
sítio, cheias de
sumo, equivaliam a uma bênção papal com indulgência plenária, nos
levando ao céu
para sempre. Alguém propôs.
- Vamos a Tietê?
- O que tem lá?
- Uma pracinha central gostosa que vale a pena ver.
Em 20 minutos chegamos e a entrada da cidade é graciosa, florida. Aqui
e ali os jardins
se sucedem, até darmos com uma grande placa: Tietê, Cidade das Flores.
Domingo,
atravessamos ruas desertas, como em qualquer cidade do mundo nesse dia.
Eu pensando: como
apresentar o Antônio Torres que não precisa de apresentação?
Então, demos com a pracinha, que se chama Elias Garcia e não é
pracinha, é praçona,
cheia de roseiras, de flores, com fontes e um coreto. Comovente a
presença de coretos.
Tietê manteve o seu intocado no centro da praça. Jatos prateados subiam
das fontes e as
águas eram azuis, límpidas. Finalmente uma cidade onde as águas das
fontes ou
chafarizes são cristalinas, transparentes. Já vínhamos gostando da
limpeza, parece que
as ruas tinham acabado de ser lavadas, varridas. Decidi comprar um
jornal, por todas as
cidades em que passo levo um ou dois locais. Entrei na banca, uma
portinhola numa esquina,
perguntei ao jornaleiro:
- Qual o melhor jornal da cidade.
- Temos cinco.
- Então? Qual o senhor me aconselha?
- Como aconselhar? Não sei o seu gosto, não conheço a sua opinião!
Indico um, o senhor
pode detestar. E como fico?
Diplomata o homem. Bela cidade que tem cinco jornais, numa era de tevê,
internet, e tudo
o mais. Um senhor se aproximou e me soprou dois títulos, comprei.
Aproveitei:
- Quantos habitantes têm a cidade?
- Trinta mil.
Agradeci, ia saindo, outro senhor me segurou pelo braço:
- Não temos 30, não. Tietê tem quase 40 mil. Corrija, 40 mil!
Estava orgulhoso e olhou feio para o outro, o que tinha diminuído a
população local.
Saímos para um volta e me apaixonei por uma velha casa em frente da
praça, a de número
52 (mas há também uma placa com o número 59), ao lado do Hotel Cuitelo.
Residência? No
hotel - um belo prédio vermelho, anos 30 ou 40 - me responderiam.
Queria perguntar, mas
não havia recepcionista, não havia ninguém. Seria um hotel
self-service? Num banco da
praça, um grupo de homens, latas de cerveja na mão, jogavam conversa
fora. Aposentados?
Seguimos pela mesma rua até chegarmos à esquina da Rua Antonio Nery,
onde há duas casas
magníficas. Uma amarela, outra de janelas vermelhas, com jeito de casa
abandonada.
Subimos a Nery e demos com outra casa linda, no meio de um terreno,
numa esquina. Fechada.
Por toda a cidade, belas casas antigas, parte restaurada e conservada
com classe e estilo.
Então, demos com um edifício comprido que pegava uma esquina inteira,
em tijolos
aparentes. Atmosfera de fábrica desativada. No térreo, havia uma
agência de turismo,
uma oficina ou borracharia e uma loja de eletrodomésticos. Daqueles
prédios que nos
deixam sem fôlego. Tombado? Vazio? Ali acontece alguma coisa? Perguntei
a duas ou três
pessoas, nada sabiam. Na padaria Duas Irmãs, onde tem uma saborosa
carolina de maçã,
também a dona não soube responder. 'Não sou daqui', nos disse.
Uma placa indicava: Oficina Cultural. Havia a placa, mas nenhum prédio
com a indicação
de Oficina Cultural. A rua virava contramão, passamos por trás da
rodoviária, voltamos
e nada da Oficina. Parecia conto do Borges. Ali perto, dominando uma
esquina, uma casa que
dava gosto, toda rosa, senhorial e altiva. Casa Rosada, pensamos. E nos
ligamos a Buenos
Aires. Borges e Buenos Aires. Fechava o clima. Rodávamos e não
queríamos partir, a
cidade tem um belo astral, a gente se sente bem nela. Ainda mais que
todos que passavam
diziam: m'dia, m'dia, m'dia. Nenhum deixou de nos cumprimentar com um
sorriso. Coisa rara
em um mundo no qual as pessoas estão cada vez mais grosseiras e
mal-educadas.
Uma pena, a igreja na praça Elias Garcia estava fechada, apesar de ser
domingo. Não
fiquei sabendo se tem um altar de Santo Antônio. Subi ao coreto,
contemplei a casa 59 (ou
52?) e, de repente, as coisas me vieram com clareza, naquele silêncio,
na tranqüilidade
de Tietê. Agora sabia o que dizer sobre Antônio Torres e seu romance
Pelo Fundo da
Agulha na noite da próxima terça-feira, dia 21, na Fnac de Pinheiros.
Um livro que
pergunta: ao nos aposentarmos, o que fazer? Tempo de ainda construir
alguma coisa? O que
é a velhice? Ao rever a vida pelo fundo da agulha, um homem pensa no
sentido de tudo. A
vida tem sentido? Torres envelhece com poesia e ternura nos textos.
Delicadeza e
compaixão. Pediram-me para falar do livro antes que ele autografe - e
quem não for não
saberá o que perdeu. Ando pela praça e raciocino: falo sobre o livro ou
falo sobre a
amizade? Torres e eu estamos envelhecendo juntos, tendo começado jovens
na Última Hora,
tendo trilhado - com João Antônio que precisou partir antes, nem se
despediu, morreu só
- este Brasil de ponta a ponta conversando com as pessoas, falando
sobre o ofício de
escrever que nos apaixona e diverte. Torres é íntegro, leal, exerce a
escritura sem
ressentimentos, sem rancores, compreendendo o êxito não merecido de um,
lamentando o
ostracismo não merecido de outro. Jamais o ouvi falar mal de um colega.
Falo do livro,
falo do autor, falo dos dois? Venham - vocês leitores -
conhecer/reconhecer Torres e
levar um dos mais belos romances sobre o tempo que passa e nos acaricia
e morde, afaga e
faz doer.
PELO FUNDO DA AGULHA, de Antônio Torres. RJ:
Record, 2006.
Gerana Damulakis
A TRILOGIA BRASIL
Sabemos que construir uma trilogia é uma tentação para muitos
romancistas, mas se o
romance em si já exige tanto como gênero, quando se quer romance e não
mero
entretenimento misturando os famosos ingredientes: um moço bonzinho e
sabichão, uma
moça linda, um crime, um bocado de cultura inútil para o leitor sentir
que tem em mãos
um livro “maravilhoso”, imagina-se, então quanto talento e quanto
fôlego são
necessários para escrever um texto que perturbe o imaginário do leitor,
revolva idéias
sobre o sentido ou a falta de sentido da vida, ou que o faça lembrar
daqueles versos de
Drummond no poema “Viver”: “Mas era apenas isso,/ era isso, mais nada?/
Era
só a batida/ numa porta fechada?”. Quantos romances suscitam esta
pergunta. E,
então, valem a pena. Melhor ainda se um romance puxa por outro e mais
outro e daí
resulta uma trilogia.
Quando Antônio Torres fechou sua trilogia com o recentemente lançado
Pelo fundo da
agulha, foi difícil resistir e deixar de colocar um título: Trilogia
Brasil. De saída
vem um paralelo com a trilogia USA, e apesar de não haver a necessidade
de recordar uma
trilogia estrangeira, já que temos na nossa literatura algumas muito
boas — e agora
vem o nome de Luis Ruffato, autor de uma delas —, cabe justificar o
título culpando
as associações, pois elas têm sempre uma razão que a própria razão
tantas vezes
desconhece e, afora este lugar-comum, é fácil achar a causa da
lembrança. A trilogia
USA, de John dos Passos, é composta por The 42nd Parallel (Paralelo 42,
Rocco, 1987)
publicado em 1930, seguido por Nineteen nineteen (1919, Rocco, 1989),
editado em 1932 e
finaliza com The big money (O grande capital, Rocco, 1999), de 1936,
quando arremata a
história de um americano vivendo na idade do progresso estadunidense,
simbolizado pelo
sacrifício; assim, um rapaz faminto e sozinho andando pelas estradas,
faz a crônica da
desilusão em relação à promessa americana, resultando na troca da sua
inocência pela
sua sobrevivência. Num trabalho sobre esta trilogia, Henry James é
citado por conta de
sua máxima: “O romancista é herdeiro do sagrado ofício do historiador.”
John
dos Passos registrou uma passagem da história norte-americana nas
andanças do
personagem, tal como faz Torres na trilogia Brasil.
Porque a trilogia de Antônio Torres não deixa de conter a nossa
história, a história
do povo brasileiro do sertão, tomando um caminho que tantos tomaram no
século 20. Quando
o autor publicou Essa terra, em 1976, o narrador contava a ida e a
volta do irmão Nelo
para São Paulo: o caminho do retirante. Mas há uma visão diferente
daquela mais usual,
encontrada nos romances que narram sobre os que deixam a terra. A
questão está na
abordagem de Torres, pois a miséria do sertão pode até ter a seca como
uma das causas
de falta de perspectiva, contudo a região centro-sul, tida e vista como
núcleo do Estado
nacional, chama as pessoas, vendendo esperança e, por fim, roubando a
força produtora do
sertão. Portanto, se não há a critica que culpa as condições climáticas
ou a
formação étnica, não há também uma glorificação do sertão, porque,
enfim, não
há momento em que o texto se queira panfleto, seja louvando a força do
sertanejo, seja
buscando a condição única e determinante de seu flagelo.
Vale repetir que a abordagem é bastante ampla, não se restringe a fazer
ou não fazer
dinheiro no sul maravilha. Torres estampa o modo como os baianos Nelo,
Zé do Pistom, seu
Caboco, Totonhim são avaliados pelos paulistas. Os baianos são
conhecidos como aqueles
que vão embora de suas terras e não voltam para buscar nem as
namoradas. A
marginalização chega ao ponto da generalização: “Todo baiano é negro, é
pobre,
é veado, acaba largando a mulher e os filhos para voltar para a Bahia.
São Paulo não é
o que se pensa”, diz o personagem.
Já supracitada é a existência do outro diferencial na história dos
retirantes do
Junco, ou seja, não há herói sertanejo, há personagens completos, com
virtudes e
defeitos, sem idealização, que buscam uma condição de vida mais
satisfatória: é só
isso. E sendo só isso, o objetivo do texto não é a denúncia, desde que
o autor não
prega revolução de qualquer tipo, reforma seja lá de qual natureza;
mas, por outro
lado, ele não chega ao conformismo, já que há a tragédia do homem que
lhe é inerente.
Antônio Torres elaborou sua história sobre o ser humano e suas tristes
condições, de
forma a usar o espaço, a ação e seus personagens concorrendo num
conflito psicológico
com raiz no contexto sertanejo. Daí a linguagem: como o narrador está
distanciando
quando resolve contar, pois já saiu do meio sertanejo, as expressões e
o vocabulário do
que ele conta são usados depois que sofreram a transformação pela
distância. Não se
pode apontar um regionalismo lingüístico, sequer estranheza na leitura.
É interessante
enfatizar que, além da presença secundária da tradicional seca, há
também a ausência
do cangaço, porque “Lampião nem quis entrar no Junco”, o que, de resto,
acaba
sendo mais um diferencial em relação a outros textos da narrativa
sertaneja.
Na trilogia, sempre a música se faz presente, levando à comparação com
Alfred Hithcock
e suas aparições nos próprios filmes; é, na verdade, a presença de
Antônio Torres,
um aficcionado por música : do bolero ao choro, aos sambas-canções, uma
história
musical corre paralela, seja para marcar o tempo, seja para incrementar
os sentimentos.
Se cabe em Essa terra o suicídio do irmão do narrador, Nelo, a loucura
da mãe, a
solidão do pai, a ida dele próprio, Totonhim, para São Paulo, mesmo que
haja o
reconhecimento de que “essa terra me chama, me enxota, me enlouquece,
me ama”,
é em O cachorro e o lobo, 20 anos depois de Essa terra, que encontramos
o narrador de
volta à terra natal: o pai completa 80 anos, Totonhim vai visitá-lo sem
levar a mulher e
os filhos, talvez por serem estereótipos doa habitantes de uma grande
cidade. Antes de
chegar ao sertão, Totonhim vai ver a mãe e, já neste segundo volume da
trilogia, o fato
de que aquela senhora enfia a linha pelo buraco fino da agulha sem
necessidade de ajuda
é-lhe surpreendente. O pai de Totonhim está instalado no alto de uma
colina a conversar
com os mortos, ou, quem sabe, remoendo as terras perdidas depois que o
Banco apareceu ali,
emprestando dinheiro e mandando plantar sisal, empreendimento que deu
errado e o levou à
ruína. Junco agora é uma cidade cheia de antenas parabólicas, mas a
única loura da
terra continua a ser “Inês, Inesita Inesinha, ou simplesmente I”, a
primeira
namorada, a dos cabelos de boneca de milho, neste momento professora
numa “terra de
filósofos e loucos”. Volta a imagem do pai fazendo o caixão do próprio
filho Nelo:
imagem que deve voltar também à memória do pai que, com a chegada de
Totonhim, faz de
tudo, no capricho, para receber bem o filho. Medo de que este tenha
voltado para repetir o
feito do outro, igualmente se enforcando? O certo é que o pai,
confabula com Inês, ambos
tratam de limpar a casa e oferecer um almoço delicioso e farto ao
visitante. Não há
como temer que a volta dele seja como a de Nelo: o almoço do filho com
o pai e com a
primeira namorada, a noite de amor com ela, a abstinência do pai que,
tido como bêbado,
ele encontra sem tocar em álcool; enfim, tudo saiu muito bem, não
haverá mais uma morte
apressada.
Pelo fundo da agulha fecha a trilogia 30 anos depois. Antão Filho, cujo
apelido já
sabemos que é Totonhim, está aposentado do banco, no qual trabalhava em
São Paulo, e a
viagem para o Junco desta feita será pelas técnicas fragmentárias da
memória humana:
há muitas vozes nas lembranças de Totonhim sozinho, separado da mulher
e dos filhos, já
tendo perdido também o melhor amigo. A mãe velhinha, mas que enfia a
linha pelo fundo da
agulha, imagem já presente no livro anterior, serve como um quadro que
ocupa o centro de
uma sala gigantesca, onde cabe uma vida. A narrativa é mais uma vez
musical e sons e
letras de músicas acompanham a primeira noite do aposentado “sem
despertador”.
Apenas no final do romance o sono vence como se fosse a linha de
chegada da viagem pela
memória neste décimo primeiro romance de Antônio Torres. As duas frases
finais dizem:
“Adormece. E, finalmente, entra na região sem tempo dos sonhos”
A jornada foi longa, são tantos mortos nesta altura da vida, são tantos
os remorsos, mas
a viagem chega ao vale dos suicidas para ser comparada sem vantagem à
vida dos
aposentados. Chegam à memória o primo Pedrinho, o amigo de infância
Gil, além do
irmão Nelo. O primo Pedrinho deu o estilingue a Totonhim no dia em que
este foi embora:
“um presente para o pior caçador de passarinho que o mundo já havia
conhecido”, ele disse. Como o homem nasce e morre só, depois do
desfalque na
Justiça do Trabalho, em Juazeiro, e para pagar dívidas da campanha
eleitoral, o amigo
Gil mergulha num copo de formicida, deixando uma carta para o bispo
“Agora estou só.
Tão desgraçadamente só quanto no dia em que nasci. Mas agora dispenso a
parteira e não
preciso mais berrar ao mundo que estou só”. Quanto a nelo, sabemos em
demasia que se
enforcou ao voltar para Junco sem trazer dinheiro de São Paulo. O vale
dos suicidas evoca
uma razão na citação de Albert Camus: “num universo subitamente privado
de
ilusões e de luzes, o homem sente-se um estrangeiro...”
Totonhim, no entanto, está não apenas lembrando, está já no mundo da
utopia e, por
isso, Oscar Wilde é chamado dentre os devaneios: “Um mapa-múndi que não
inclua a
Utopia não é digno de consulta, pois deixa de fora as terras onde a
Humanidade está
sempre aportando”. A utopia foi São Paulo, que chamou Nelo, que chamou
Totonhim. No
volume Pelo fundo da agulha, é o lado paulista da história que
prevalece na narrativa: a
chegada, os primeiros empregos, o primeiro amigo em São Paulo, o
amazonense Bira, que
acaba assassinado, assim como a esposa Sílvia, nos tempos duros da
ditadura e logo após
um encontro com Totonhim: aqui há uma cena pungente, quando Totonhim
compra duas rosas,
deita-as sobre o chão molhado do sangue do casal de amigos, benze-se e
diz: “Ite
missa est”. Continua a bela cena, com Totonhim lembrando e dizendo a si
mesmo e
chamando-se de senhor: “O senhor foi andando lentamente, a passo de
funeral, um hoje,
outro amanhã, e olhando para ontem, como se tivesse perdido o ritmo e o
rumo das horas.
Ao voltar a cabeça na direção das flores, percebeu que elas já haviam
sido esmagadas
pelos sapatos dos transeuntes. Toda a história de uma grande amizade
terminava ali,
debaixo das pisadas de quem a desconhecia,...”
Neste lado paulista da história, como foi acentuado, ficamos sabendo
que Totonhim
casou-se com Ana, que ele havia conhecido no casamento dos amigos Bira
e Sílvia. Sabemos
que Ana era colega de universidade de Sílvia. Sabemos o quanto Totonhim
foi amigo de copo
do sogro, que confiou nele deixando uma mala, quem sabe se repleta de
documentos sobre a
ditadura, porém, nem Totonhim nem nós saberemos o que continha, pois é
queimada num ato
que se traduz como lealdade e respeito pelo sogro morto. Tudo isto pode
passar a
impressão que há um afastamento da realidade sertaneja, mas não é
assim: a narrativa
é autêntica, ocorre que, se nos volumes anteriores, o narrador ainda
está perto da
caracterização do homem do sertão que se vai para o sul, agora lemos o
que sucedeu ao
sertanejo na cidade grande, embora o tom oralizante seja o mesmo, as
frases curtas estejam
igualmente ali.
Para finalizar, vale estabelecer os espaços precisos da trilogia: o
Junco, atualmente uma
cidade chamada de Sátiro Dias, Feira de Santana, para onde a mãe de
Totonhim se mudou, e
Alagoinhas, lugar do hospício para o qual a mãe foi levada por Totonhim
em completo
desatino após o suicídio do filho Nelo, e, enfim, São Paulo, para onde
foram Nelo e,
depois, Totonhim. Apenas o Junco, e apesar de tudo, é descrito
poeticamente, pois é lá
que se pode admirar “a barra do dia mais bonita do mundo e o pôr-do-sol
mais longo
do mundo”.
Vânia Pinheiro Chaves professora de literatura brasileira na faculdade
de Letras da
Universidade de Lisboa, estudando o volume Essa terra analisa as formas
e o significado
que a representação do sertão assume e que constituem a matéria da
“literatura
sertaneja”. Muito eficiente, o rótulo serve à perfeição para englobar
“um
filão que atravessa a Literatura Brasileira desde o Romantismo”, como
atenta a
professora. Manejando os espaços físicos, os aspectos sociais e
econômicos, além dos
políticos e culturais, incluindo os aspectos lingüísticos do universo
sertanejo, ora
idealizando-o, ora mirando-o criticamente, Vânia Chaves aponta quatro
modos de abordar o
sertão: o romântico de Alencar, o realista-naturalista de Os Sertões,
de Euclides da
Cunha, o neo-realista dos romances nordestinos dos anos 30 e o
pós-modernista em
Guimarães Rosa. Ela detecta influências de Grande sertão: veredas em
Essa terra. Afora
qualquer dívida, se ela existe, a trilogia de Antônio Torres é singular
dentro da
“literatura sertaneja”, como é singular cada caminho que se faz, mais
ainda
porque o autor deu expressão ao indizível e ao invisível nas
entrelinhas daquele
caminho.
Os três volumes têm um complemento sob a forma de uma pequena coletânea
com três
contos, estes últimos reunidos em Meninos, eu conto (Record, 1999). Por
sinal, o título
é uma homenagem a Gonçalves Dias, que, no poema I-juca-pirama, coloca
na boca do
narrador, um velho pajé que conta a história ao pé de uma fogueira, o
verso
“Meninos, eu vi!”. Tudo é, contas feitas, resultado da soma da memória
mais a
invenção. E o talento do escritor Antônio Torres.
jornal A Tarde, Salvador, 16 dez. 2006
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Tempo que afaga e faz doer
Com Pelo fundo da agulha, Antônio Torres encerra a trilogia
em que o suicídio é
presença marcante
Vilma Costa • Rio de Janeiro – RJ
(Jornal Rascunho / Curitiba / fevereiro de 2007)
“Venham — vocês leitores conhecer/reconhecer Torres e levar um dos mais
belos
romances sobre o tempo que passa e nos acaricia e morde, afaga e faz
doer.” Com essas
palavras, Ignácio de Loyola Brandão, em O Estado de S. Paulo, edição de
17 de novembro
de 2006, formula, talvez, uma das mais contundentes definições do
romance Pelo fundo da
agulha, de Antônio Torres.
Considerado o último de uma trilogia, é um texto complexo, ligado aos dois romances que o antecederam através de um enredo que estabelece fios de ação, personagens, espaços e problemáticas comuns. Neste aspecto, a relação dos três romances — Essa terra (1976), O cachorro e o lobo (1997) e Pelo fundo da agulha (2006) — é de continuidade e íntima relação da trama que discute idas e vindas de personagens sobre uma história de vida que, apesar de particular, traz o selo de questões bastante amplas de uma coletividade. Voltado para as dificuldades vividas por grande parcela do povo brasileiro em diferentes momentos da nossa história política e social, permite à crítica identificar marcas realistas de referencialidades espaciais e geográficas, assim como eixos autobiográficos e autorais. Apesar de ser inegável a importância dessas marcas nos textos, no contexto geral da produção a questão central de discussão é mais ampla.
Torres se liga à tradição dos grandes nomes da literatura brasileira por sua filiação de romancista preso às suas origens e compromissos com o tempo histórico que testemunha, ao mesmo tempo em que se posiciona observando as mudanças estéticas e as novas experimentações no plano da linguagem, enquanto leitor crítico e atento dos seus contemporâneos. É, provavelmente, o diálogo que estabelece com aspectos tão distintos das esferas literárias que mantém sua produção em alta cotação de público e crítica. Ou seja, não deixando de abordar velhas questões, trata de aprofundá-las dentro de novas perspectivas, atualizando-as e ressemantizando-as.
Essa terra conta a história de uma família do interior da Bahia que recebe o primogênito Nelo, depois de 20 anos de ausência, com todas as honras de um bem- sucedido cidadão vindo de São Paulo. Apesar do aparente sucesso, Nelo surpreende a todos com um suicídio, incapaz de suportar o fracasso de seus projetos e da expectativa frustrada que isso poderia causar aos seus. A narrativa desenvolvida sob o ponto de vista do irmão mais novo, Antão, Totonhim, problematiza a falta de sentido dessa tragédia familiar que atinge, com violência, todo o lugarejo e põe em discussão concepções, valores e crenças da comunidade. É na pequena cidade de Junco que tudo se inicia.
Em O cachorro e o lobo, Totonhim retorna à cidade natal para o
aniversário de 80 anos
do pai, 20 anos depois de ter partido também para São Paulo e de ter
internado a mãe em
um hospício. A pequena cidade já incorpora novas tecnologias e se
amplia nos aspectos
físico e econômico, mas do ponto de vista afetivo e cultural mantém
velhas crenças e
memórias. A lembrança de Nelo e a ameaça de suicídio de quem volta
ainda sobrevivem e
pairam no ar.
Na viagem de retorno, o protagonista revê sua gente, encontra-se e faz
amor com a
primeira namorada, Inesita, reencontra a mãe velhinha e lúcida, livre
da crise de
loucura que a levou ao hospício, depois da morte do primogênito Nelo, e
um pai sóbrio e
disposto a evitar seu desencanto e suicídio. Seus caminhos foram
diferentes dos do
irmão. A tragédia não se repete. Mas retorna de mãos vazias. Como o
outro, a pequena
cidade não lhe pertence, não lhe acolhe, é como se ele não coubesse
mais nela, não
lhe oferecesse referência de pertencimento.
Memória e hipóteses
Em Pelo fundo da agulha, dez anos depois, ainda sob o signo da viagem, Totonhim refaz o percurso de sua trajetória de vida e revisita as cidades por aonde passou dentro de um plano imaginário entre sono e vigília, fragmentos de memória e hipóteses do que foi ou poderia ter sido a sua história. Dentre essas cidade, São Paulo tem um lugar privilegiado, mas não exclusivo. Paris, Babilônia, Nova York, etc. são contrapontos que estabelecem diálogo desse mundo globalizado com a provinciana origem que não oferece qualquer garantia de territorialidade.
O narrador do romance, como seu criador Antônio Torres, é um leitor e estudioso da literatura urbana contemporânea. Calvino, com suas Cidades invisíveis, Baudelaire, Walter Benjamin e Renato Cordeiro Gomes, em Todas as cidades, a cidade, não deixam de ser citados e discutidos nas conferências pronunciadas pelo autor.
Desde a epígrafe de Carson McCullers até as últimas linhas do romance, a cidade merece um tratamento privilegiado e mais do que uma referência de espaço físico é uma alegoria que acompanha o protagonista como auxiliar indispensável para a leitura da sua própria vida. Neste sentido, dialogando entre si, as cidades concretas e as invisíveis, do desejo, da memória, dos sonhos dos personagens, funcionam como poderosas lentes.
Nos textos anteriores, São Paulo já se apresentava como um contraponto a Junco, o que não se limitava a uma simplista oposição cidade/campo. Aqui, São Paulo equaciona a grande metrópole com seus núcleos de imigrantes e seus conflitos e estabelece relação com o mundo globalizado através de outras cidades geograficamente nominadas ou simbolicamente imaginadas. No primeiro parágrafo do romance, logo após a epígrafe, o narrador já sinalizava: “Era outra a cidade, e outro o país, o continente, o mundo deste outro personagem, um homem que já não sabia se ainda tinha sonhos próprios”.
Em termos da construção narrativa, a lógica linear se esgarça, apesar de se fazer perceptível por um frágil fio discursivo no qual predomina a ação situada num tempo cronológico e num espaço físico pautado no plano de uma realidade objetiva.
A complexidade do texto ganha fôlego a partir de um narrador onisciente, que acompanha o protagonista em sua noite de vigília pelos meandros de suas impressões, sugestões, medos, memórias e delírios. Nessa viagem afetiva, o narrador se apresenta, ora como um cúmplice tão íntimo que some numa narrativa que parece se fazer por si só, na qual a introspecção do protagonista ganha a força de uma voz própria.
Outras vezes, esse mesmo narrador se impõe, estabelecendo uma
interlocução não
apenas com o leitor, mas, principalmente, com o personagem, que passa a
ser questionado e
construído em termos de hipotéticas possibilidades de ação.
Vamos combinar que esta história da morte brutal da sua mulher é má
literatura ou, no
mínimo, uma solução fácil, senhor...
Ao eliminar a sua ex-mulher brutalmente, o distinto aí
pretendeu retirá-la da sua
vida, de uma vez para sempre, não foi?
Pontos importantes de apoio, como as referências às músicas, aos filmes
e a outros
textos, tanto clássicos e literários quanto ditos populares, percorrem
todo este livro,
e a maior parte da obra do autor. Funcionam como um fio de linha, preso
pelo fundo de uma
agulha, que vai costurando os fragmentos de memória e ação, ora
atribuídos aos
personagens, ora assumidos pelo próprio narrador como elementos
constitutivos do tecido.
Algumas referências a letras de música são importantes elos de
contextualização, ou
seja, ajudam a situar os acontecimentos particulares num tempo
histórico e social,
portanto, coletivo.
Mais que citações avulsas, são recortes costurados ao texto, nele integrados, garantindo expressividade poética e ampliação de significados semânticos e contextuais. Como exemplo, podemos observar o lamento pela perda do grande amigo Bira e sua relação de amizade e amor pela cidade. “Nunca mais um chope no Jeca, na esquina da Avenida Ipiranga com a São João, imortalizada por Caetano Veloso... Sampa!”. Nada mais eficiente para criar a ambientação de uma festa popular de São Miguel Paulista do que “a voz do mesmo Luiz Gonzaga, o rei do baião, ouvida em todas as praças do sertão. Sentiu-se em Junco”.
O narrador ainda se destaca pela precisão com que se utiliza de outros textos na construção da trama, dos personagens, do tempo e do espaço narrativos. As questões temáticas levantadas ganham relevância quando acompanhadas por uma referência bibliográfica importante. Caso exemplar é a citação de trechos poéticos de Vladimir Maiakovski, quando o protagonista sugere seus medos do suicídio. “Hoje tocarei a flauta da minha própria coluna vertebral.”
O suicídio é uma questão que volta e meia entra em pauta,
desde o primeiro livro da
trilogia. As mortes do irmão Nelo e do primo Pedrinho, por
enforcamento, do amigo de
infância Gil e a do sogro, por tiro, são retomadas sob diversas formas
nas memórias do
protagonista. A referência a O mito de Sísifo, de Albert Camus, amplia
o enfoque. Mais
que um fato em si, um pecado mortal e condenado pela religião e cultura
dos personagens,
o atentado contra a própria vida é uma situação limite de perda de
perspectiva do
sujeito despatriado, sem referencial identitário, sem sonhos próprios.
“... num
universo subitamente privado de ilusões e de luzes, o homem sente-se um
estrangeiro”
(Camus). Independentemente da ação suicida se realizar ou não, o que
ela suscita no
protagonista é o mesmo sentimento que levou seus amigos, irmão e sogro
à morte, esse
sentimento de estrangeiro de si mesmo.
Totonhim agora está aposentado de um cargo importante no Banco do
Brasil e toda a sua
vida se desenrola em apenas uma noite. “Não o imagine um guerreiro que
depois de
todas as batalhas finalmente encontrou repouso... Esta é a história de
um mortal comum,
sobrevivente de seus próprios embates cotidianos...”
Seus passos, seus medos, seus sonhos, suas perdas, seus desencantos, sua solidão, seus vazios têm uma noite de vigília para serem revistos, sem esperança de algum sentido definitivo.
Situa-se como viajante sem rumo, cujo último porto só espera
seus relatos de bordo,
sua fragmentada narrativa. Sua matéria fundamental é o tempo: “É
humanamente
impossível fugir do tempo que está dentro dele, com todo um
insatisfatório acúmulo de
vivências — desejos e esperanças,... perdas e ganhos, prazer e dor,
solidão e
mágoa”. Passado e futuro, dois tempos que se cruzam na ponte incerta do
presente
narrativo, sonhos perdidos que apontam também para a atemporalidade dos
desejos
inatingíveis na angústia cotidiana.
Agora se sentia como um marinheiro que perdera o barco do tempo —olha
lá onde já
vai; acabou de sumir na linha do horizonte! —, deixando-o plantado à
beira de um
cais imaginário, sem saber que rumo tomar.
Paradoxalmente, o tempo como matéria dialoga com a “região sem tempo
dos
sonhos”, imaginário de um marinheiro que perdeu o barco a sumir na
linha do
horizonte, que constrói sua narrativa se apegando a referenciais
concretos do tempo
histórico. A partir da nossa história política dos anos de ditadura
militar, são
construídos personagens caros ao protagonista: Bira, o melhor amigo,
revolucionário
perseguido e assassinado em plena praça pública por forças policiais, e
o sogro,
militar reformado que se suicida e leva consigo segredos de Estado que
jamais serão
revelados.
Por fim, entre os mistérios e segredos que a escritura tenta
inutilmente desvendar
está a figura materna que admiravelmente sobrevive com sua visão
apurada de costureira
dos fragmentos desse tempo. “Com a mesma delicadeza com que passara a
vida a enfiar a
linha no fundo de uma agulha”, vela agora a noite de insônia do filho.
Este ainda se
inquieta e, depois de tantas perdas e vazios, tem curiosidade quanto ao
que pode ser visto
pelo fundo da agulha. Recortes de um tempo que ainda sobrevive em
ruínas do passado?
Fragmentos leves como seu corpo semi-adormecido, camelo capaz de
atravessar a fronteira do
sono e da vigília, pelo fundo da agulha? Ainda bem que essa mulher
batalhou para dar
estudo a seus filhos. Agora, quando tudo parece sem sentido e Totonhim
não sabe mais se
tem sonhos próprios, lhe resta “uma pilha de livros... para tomar de
empréstimo
sonhos alheios na esperança de vir a ter os seus...”, quem sabe, um dia.
O AUTOR
Antônio Torres nasceu em 1940 num lugarejo chamado Junco (hoje
município de Sátiro
Dias), na Bahia. Aos 20 anos, em São Paulo, foi chefe de reportagem de
esportes do jornal
Última Hora. Redator de publicidade desde 1963, trabalhou em algumas
das principais
agências do País, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sua estréia
literária ocorreu em
1972 com o romance Um cão uivando para a lua. Entre outros, é autor de
Os homens dos
pés redondos, Essa terra, Carta ao bispo, Adeus, velho, Um táxi para
Viena
D’Áustria e O cachorro e o lobo. Pelo conjunto de sua obra, recebeu o
Prêmio
Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, em 2000.
TRECHO • Pelo fundo da agulha
Daí para a frente era só se deixar ser levado. Arrastar-se de um ônibus
para outro e do
outro para o infinito. Contar as horas que faltavam para chegar. Soltar
os pensamentos na
estrada. As memórias das primeiras viagens, a pé, para visitar parentes
de muito longe,
andando em caravana, entre um bando de meninos, e seguindo a mãe e as
tias, pelas veredas
de tabuleiros que cheiravam a alecrim, murta e murici, aqui e ali dando
um beliscão
safadinho na coxa da uma priminha. Ou na garupa de um cavalo, com os
braços enlaçados no
cavaleiro, o senhor seu pai. Ou num carro de bois, vagaroso, gemedor.
Um dia inteiro de
jornada, nas sete léguas do caminho de Inhambupe, onde veria, pela
primeira vez, as luzes
de uma cidade, que lhe provocariam um impacto jamais igualado. Agora
vencia-se esse
percurso em menos de uma hora. Sem cheiro de mato e medo de onça. As
cruzes à beira da
estrada sinalizavam um outro medo: de um desastre. Rezar para São
Cristóvão, o
padroeiro dos motoristas. Fechar os olhos e tentar dormir. Sonhar.
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Domingo, 11 março de 2007 |
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CADERNO
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As memórias da morte e a fome de vida
Pelo Fundo da Agulha é a conclusão da trilogia de Antonio Torres iniciada há 30 anos com o contundente Essa Terra
Paulo Bentancur
Em
1976, Antônio Torres publicava um dos mais contundentes romances da
literatura
brasileira, Essa Terra (Record, 192 págs., 21ª edição, posfácio de
Vânia Pinheiro
Chaves, R$ 26,90): a história elíptica, num ritmo vertiginoso (apesar
de retratar o
Recôncavo Baiano, onde se suporia uma condução narrativa arrastada),
febril na sua
perturbadora condução e linguagem. Totonhim, o irmão mais moço, recebe
Nelo, vindo de
São Paulo, onde este fora tentar a vida. Parentes, amigos e vizinhos
esperam que, mala
aberta - uma só -, o filho pródigo traga fortuna. Nelo, entretanto,
foi, viu... e
perdeu. Carregando, na volta, insustentável bagagem (desemprego,
alcoolismo), não
suportando a ausência de respostas que plantem alguma esperança na
terra seca dos
conhecidos, o homem que partira em busca de êxito enforca-se no retorno
ao lar,
sentenciado pelo secreto fracasso. Isso já no primeiro capítulo. E o
romance termina com
cena mais dramática, cinema puro, Brasil puro. É o ritmo vertiginoso de
um livro que,
com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Os Ratos, de Dyonélio Machado,
está entre os
mais tristes e convincentes da literatura como espelho da nossa
realidade.
Em 1997, com O Cachorro e o Lobo (Record, 224 págs., R$ 29,90), Torres
retomaria a
história. Essa terra terminara com a decisão de Totonhim, depois de pôr
a mãe num
asilo (incapaz de assistir ao enterro do primogênito, tomada de surto
psicótico) e
deixar o pai à própria sorte em sua precária lavoura, em ir para São
Paulo, tentar o
que Nelo não conseguira. Foram necessários 21 anos para que essa
espécie de anti-saga
se impusesse ao escritor. Um monumento ao contrário, uma trajetória
feita de
impossibilidades, mas, por isso mesmo, a atingir uma intensidade de
realismo poucas vezes
presente na nossa ficção. O Cachorro e o Lobo retoma esse torturante
vaivém. Totonhim,
já passado dos 40, retorna para casa também 20 anos depois. Diferente
do emudecido e
arruinado Nelo, porém, chega apenas de visita, para comemorar, com três
meses de atraso,
o 80º aniversário do pai, Antão. Antão Filho, o Totonhim, está casado,
com filhos, e
um bom emprego no Banco do Brasil - embora a estabilidade não exista e
ele tema, sem
revelar aos que dele se orgulham, uma provável demissão em breve. Não
saberemos do
desfecho nessa parte.
Essa continuação trata da visita de 24 horas - que parecem uma semana.
Totonhim, o
cachorro (tratado assim pelo tom carinhoso do pai, que usa a mesma
palavra com os
desafetos, com significativa diferença na pronúncia) encontra uma
cidade habitada por
fantasmas, os do passado (o irmão, cuja presença se faz constante ainda
na casa paterna;
a mãe, separada, preferiu ficar noutra cidade, ainda no Recôncavo
Baiano, há uns 100
quilômetros dali) e gente viva que se arrasta no andar, no falar, no
agir, igualmente
como mortos que apenas ainda permanecem deste lado.
Totonhim redescobre a primeira namorada, Inesita, revive com ela o
encontro/desencontro,
vital e inevitável, de uma relação que não pôde dar certo. E um pai (o
lobo)
octogenário, vendendo saúde, humor, e vítima de rumores sobre vício e
esquisitices que
o filho não confirma. Ao contrário, frutos da distorção do afeto da
filha que mora
longe e da curiosidade mórbida dos vizinhos que o velho Antão não
visita, as imagens
emanadas no dia-a-dia do ancião recluso (ainda que a testemunha filial
tenha um prazo
exíguo para comprová-las) mostram uma imensa fome de vida e uma
fidelidade digna das
memórias que o progresso, lamentavelmente, atingindo terras mesmo
ermas, enterra para
sempre.
Em Pelo Fundo da Agulha, lançado há pouco, Torres afinal chega ao
desfecho de um
pesadelo que levou três livros para ser expresso. Talvez o maior
pesadelo da ficção em
língua portuguesa. Se no primeiro romance o protagonista era Totonhim
(embora o irmão
Nelo e seu suicídio, além da parte final do romance, a mais marcante, a
da mãe e sua
fuga da realidade para não viver a morte do primeiro filho, sejam a
essência do livro),
no segundo, o pai e sua personalidade voluntariosa costuram uma trama
que merece
exatamente esse nome, porque alinhavada com esmero, quase elíptica não
fossem
recorrências e ecos musicais e temáticos: constâncias do medo, da
culpa, das perdas
humanas, do choque social entre uma São Paulo que é quase uma miragem e
uma Junco -
cidade natal - que não cessa de enviar notícias, imagens, febris mas
reais (cidade
fictícia, próxima a Alagoinhas, esta real, a cerca de 100 km de
Salvador).
Uma Junco desolada, povoado fantasma nos anos 1970; 20 anos mais tarde,
uma cidadezinha
híbrida entre os costumes ainda vigentes daquele tempo (a sentenciar,
por uma moral
implacável e por falta de perspectivas econômicas, homens e mulheres),
incapaz de exumar
suas vítimas do Vale dos Suicidas, e um território suscetível aos
abusos espoliativos
da política pequena e do progresso desigual. Dez anos mais tarde, no
fecho da trilogia,
quando Totonhim se aposenta, cai numa região mais ignota ainda. Se a
mãe, com 85 anos (o
pai, vivo fosse, teria 90), é capaz de, numa visita sob a forma de
despedida
emblemática, mais desejada que realizada, fazer uma linha passar pelo
buraco da agulha
(como fazia há décadas, sem óculos), Totonhim nesse desfecho da própria
trajetória
trafega - e a linguagem evocativa do romancista contribui muito para
isso - num
não-lugar, que parece ter sido sempre o habitado pela personagem, da
juventude à
aposentadoria. Uma referência nunca cumprida, nunca legitimadora
(contra a qual é
preciso lutar; a favor da qual não se deve fugir).
Em Pelo Fundo da Agulha, sob a presença da mãe (como um Virgílio
conduzindo Dante no
Inferno), sabemos afinal um pouco dessa São Paulo e do casamento de
Totonhim, quase nada
mencionados nos volumes anteriores. E chega-se ao ápice dramático: a
confissão materna
das diferenças com o marido, da arte da persistência e de um
estratégico afastamento de
um espaço cujo solo parece servir mais para enterrar mortos que plantar
sementes. A
depressão da aposentadoria cede a uma sutil esperança. Um tempo
renovado para que as
culpas sejam substituídas por ações “indenizadoras”.
PS.: A terra - nos três volumes, sobretudo no primeiro e no segundo -
parece sempre ser a
mesma, quando a memória a evoca como ponto de partida para uma, duas,
tantas travessias
de um homem que, também, já não é o mesmo. Não, não se trata da mesma
terra. Nem a
história poderia ser o desdobramento previsível de um começo há três
décadas. Por
mais que ele sofra na ilusão de estar chegando ao fim de uma única
vida. Quantas
existências cabem em uma só? Tantas quantas forem as fendas abertas
para as saídas (ou
fugas, ou recuperações), ou as agulhas para o ingresso num novo espaço.
Paulo
Bentancur é escritor, poeta, crítico literário, autor
de Bodas de Osso e o recém-lançado A Solidão do Diabo, contos (ambos
editados pela
Bertrand Brasil)
(SERVIÇO)Pelo
Fundo da Agulha, Antonio Torres, Record, 224 págs., R$ 34,90
Publicada na revista Brasil/Brazil, da Brown University.
Cláudia Nina
Se a ficção contemporânea tem a marca da diversidade de estilos e de vozes, sendo um caldo onde convivem várias tendências, entre elas o urbano, o histórico revisitado pela invenção, a anti-linearidade e muitos outros vieses, um elemento talvez seja o elo comum – ou a linha que perpassa – a tudo isso: a temática da solidão. Afinal, eis a condição na qual está o homem, desde a modernidade, mergulhado na multidão, mas irremediavelmente só.
É também sobre a solidão um dos romances mais desconcertantes de 2006: Pelo Fundo da Agulha, de Antônio Torres, que dá seqüência a Essa Terra, de 1976, e O Cachorro e o Lobo, de 1997. Com esse último, fecha-se o cerco da trilogia, marcando três tempos na obra do autor e ainda três momentos distintos da história da ficção no País. Aqui, seu personagem mais célebre – Antão Filho, o Totonhim – está de volta à cena, agora imerso num abandono emocional que é a sua maior dor: na capital paulista, deitado na cama, começa a pensar no sem-sentido da existência.
Marinheiro à beira de um cais imaginário, como diz o texto, Totonhim empreende a mais arriscada de todas as viagens: a volta ao tempo de sua própria história, em lances fotográficos em que a memória fragmentada por excelência, vai conduzindo sua mão pelos momentos vividos. Nessa viagem, embarca sozinho. Está aposentado, separado da mulher e dos filhos, perdeu o melhor amigo. Suas raízes estão em Junco, no sertão baiano, a cidade natal, e é de onde retira a belíssima imagem que dá título ao romance: a mãe, já velinha, mas com visão suficiente para enfiar a linha pelo fundo da agulha sem usar óculos. É a clareza de quem sobreviveu a uma dor lancinante, o suicídio do filho, mas mantém-se forte a ponto de não se deixar sucumbir.
Importante fazer aqui uma breve viagem no tempo dos romances para se entender o que ocorre antes desse momento. Em Essa Terra, o personagem Totonhim ainda está jovem e recebe o irmão, Nelo, que volta a Junco com o peso nas costas da derrota na capital paulista. É ele quem comete suicídio, humilhado por não ter conseguido vencer na vida. No final da história, é Totonhim quem abandona Junco, seguindo os passos do irmão na tentativa de sobreviver onde Nelo faliu. Em O Cachorro e o Lobo, passam-se 20 anos e Totonhim volta a Junco para comemorar o aniversário de 80 anos do seu pai. Não está feliz e nem vitorioso. Pelo contrário, o desemprego é um tormento iminente. Pelo Fundo da Agulha acontece dez anos após esse retorno a Junco e traz novamente o protagonista a uma nova encruzilhada.
A viagem agora é mais emocional do que real, Junco, o lugar que o ônibus deixou pra trás, resiste com força e poder apenas do reino da memória, assim como todas as personagens que se esfumaçaram na vida real, mas insistem em retornar à lembrança, teimosas que são. Não se tem aqui um relato linear; as vozes se confundem assim como os tempos narrativos. A intenção é embolar tudo mesmo. Nem poderia ser diferente, já que o texto se faz ao sabor da memória. A lembrança e seus fantasmas são sempre perigosos.
Eis um trecho que resume bem a situação em que se encontra Totonhim, no fim da linha, sem ter o que fazer ou pra onde ir: “Era São Paulo esta noite. A cidade que contemplou os sonhos de um imigrante com emprego, mulher, sogro, sogra, filhos (onde estariam eles?), amigos (e estes também?), viagens, amantes, sim, queridas colegas de trabalho, vocês foram o sal e a pimenta do nem sempre insosso modo funcionário de viver. E agora muito disso, ou quase tudo isso, havia se esvanecido na fumaça do maior parque industrial da América do Sul – mais um forno, mais um torno, mais um Volks. Agora ele estava só. Totalmente só, na cidade onde é possível você suportar tudo, quase tudo, menos a falta do que fazer”.
Ninguém está só quando se tem algo do que se ocupar. Mas, quando o tempo vai retirando os afazeres, percebe-se que todos à volta já se foram. Esse impacto de uma realidade que não se pode modificar é um soco no estômago de Totonhim que nem sequer num “longínquo passado” consegue encontrar um sentimento para a vida. É a cilada do tempo: enquanto o presente é solidão, o passado também não lhe oferece a possibilidade de um reencontro confortável, já que as lembranças têm um sabor mais agreste do que doce.
Pelo Fundo da Agulha talvez seja um romance perigoso, como narrar é também perigoso, pois trata da volta ao que foi vivido ou ao que, a duras penas, se vive. E uma narrativa sobre a solidão traz consigo um duplo perigo: o de fazer com que as personagens do outro lado da cena, os leitores, também percebam a sua irremediável condição.