
RÉQUIEM
ÍNDIOS BRASILEIROS (english version)
Especial para a revista VOX XXI, Porto Alegre, RS,
outubro de 2001.
Título: Meu querido canibal
Autor: Antônio Torres
Editora: Record
Número de páginas: 188
Antônio Torres narra, em um romance enxuto, o processo de ocupação do Brasil pelos colonizadores portugueses. Ou, por outras vias, a luta inglória dos índios brasileiros pela manutenção de sua terra e liberdade.
Num relato ágil e bem humorado, apesar do tema trágico, o narrador concentra-se no primeiro século da colonização, mais especificamente nos anos imediatamente anteriores e posteriores a 1557, data da morte de Cunhambebe, o "querido canibal" a que se refere o título da obra. Cunhambebe, cujo nome quer dizer “língua que corre rasteira” ou, mais simplesmente, homem de fala mansa, foi chefe dos tupinambás, tribo que se aliou aos franceses e combateu ferozmente os colonizadores portugueses. Dono de impressionante força física e de uma valentia a toda prova, Cunhambebe construiu sua legenda com sangue. Dava combate sem trégua a seus inimigos, fossem eles índios de tribos vizinhas que disputavam seu território ou fossem os portugueses, que chamava de "perós" (ferozes), por quererem fazer os índios de escravos. Torres aponta-o como o maior, o mais forte e o mais temido chefe indígena brasileiro de que se tem registro, imbatível nas artes da guerra, que justiçava os inimigos com impressionante crueldade e os devorava.
Mas o herói da narrativa não é somente Cunhambebe. Some-se a ele a figura do chefe Aimberê, que reuniu vários chefes indígenas, inclusive Cunhambebe, na Confederação dos Tamoios, que tinha por objetivo resistir à invasão portuguesa e libertar os índios aprisionados. A Confederação dos Tamoios durou cerca de 12 anos, até que as tribos confederadas foram dizimadas pelo exército comandado por Mem de Sá, então governador do Brasil, em 1567. Durante esse período, entretanto, os confederados infenizaram a vida dos portugueses, e também conseguiram negociar com eles uma trégua provisória e a libertação dos índios escravizados, em troca da vida de Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, feitos reféns pelos confederados. A esta altura da narrativa, mostra-se uma face pouco conhecida de Anchieta. Ele aparece não apenas como o autor de poemas e autos religiosos e incansável catequizador dos índios, que vai corajosamente negociar com eles e acaba sendo feito prisioneiro. Quando não consegue subjugar os selvagens pelas palavras, Anchieta põe em prática a tese do dominicano Juan Ginés de Sepúlveda, apresentada em uma reunião do Concílio de Trento realizada em Valadolid, na Espanha, em 1550, segundo a qual os selvagens que não se submetessem aos colonizadores cristãos deveriam, com justiça, ser exterminados. Partindo dessa premissa, Anchieta empenhou-se em convencer Mem de Sá sobre a necessidade de dizimar os tamoios, tribo que, em suas próprias palavras, constitui uma "brava e carniceira nação, cujas queixadas ainda estão cheias de carne dos portugueses". E após os portugueses liquidarem a fatura, Anchieta exulta, ao comentar uma batalha, louvando a ação dos colonizadores: "Quem poderá contar os gestos heróicos do chefe à frente dos soldados, na imensa mata! Cento e sessenta as aldeias incendiadas, mil casas arruinadas pela chama devoradora, assolados os campos com suas riquezas, passado tudo ao fio da espada!"
A narrativa ziguezagueante de Torres entremeia os confrontos entre índios e portugueses com as lutas dos portugueses contra os holandeses e os franceses, igualmente dispostos a se apossarem do território ou das riquezas brasileiras. Nessas guerras, os índios encontram-se sempre implicados dos dois lados. Há aqueles que receberão honrarias e glória no futuro, como Araribóia, depois Martim Afonso, que soube alinhar-se do lado certo, o dos portugueses vencedores. E há os que, como Cunhambebe e Aimberê, se aliaram aos franceses, sem deixar, porém, de defender a autonomia das nações indígenas, e que foram vencidos e esquecidos pela história oficial.
Em decorrência desse esquecimento, afirma-se outro herói no romance, que não é ninguém mais que o narrador. Convertido em dublê de historiador, o narrador canibaliza antigos relatos históricos e narrativas de viagens, ou peregrina pelo Rio de Janeiro a buscar, em seus sítios históricos e na memória coletiva do povo, os indícios do passado remoto. É da ação desse narrador, que repassa a história a contrapelo, como queria Walter Benjamin, que emerge dignificada a figura dos índios brasileiros, vencidos sim, mas que morreram de pé, como Cunhambebe achava digno morrer, defendendo sua terra, seus valores e seus costumes. E, ao final do romance, é esse narrador que se ergue energicamente contra a postura cômoda das autoridades que, nos dias atuais, resolvem esquecer conscientemente os conflitos passados e as utopias fracassadas com a desculpa fajuta de que isso seria uma perda de tempo. Ante a declaração de que é inútil discutir a História, feita por certa autoridade de Lisboa em visita ao Brasil, o narrador pergunta, indignado: "Perda de tempo para quem, cara-pálida?" E replica: "Conta outra, ó pá."
Meu querido canibal surge, desde logo, com jeito de clássico. Sua releitura da história da colonização do Brasil é instigante e reveladora, e lembra, pela denúncia das selvagerias cometidas pelos colonizadores contra os supostos selvagens, textos como O paraíso destruído, do Frei Bartolomé de Las Casas, e As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. No aspecto formal, Torres também acerta em cheio, conseguindo impor um ritmo obsedante à narrativa. Sem se demorar em descrições ou em interpretações, o narrador restringe-se a apresentar, como que através de flashes, alguns fatos significativos, embora pouco conhecidos, do passado nacional. A ação progride através de sucessivos deslocamentos temporais, e encontra como constante contraponto a referência às vicissitudes da sociedade brasileira dos dias atuais. Por fim, a linguagem da obra é despojada e irreverente, marcando a distância do narrador, que se dispõe a canibalizar a História, em relação ao discurso pomposo e carrancudo da História oficial.
Para
quem quiser refletir, a partir de hoje, sobre a identidade problemática
do povo
brasileiro, Meu querido canibal passa a ser,
junto com outras obras já consagradas, como as de Euclides da Cunha,
Mário de Andrade,
Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, uma referência
obrigatória. O que não é
pouco.
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* Poeta, ensaísta, professor do curso de Letras da UPF. Fez parte da comissão julgadora do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon / 2001, que teve como vencedores Meu Querido Canibal, de Antônio Torres, e NUR na Escuridão, de Salim Miguel
In:
FONSECA, Aleilton (org.). O olhar de Castros Alves.Ensaios críticos de
Literatura Baiana. Salvador: Assembléia Legislativa do Estado da Bahia;
Academia de Letras da Bahia, 2008. 500 p., p. 322-329.
NOTAS ETNOGRÁFICAS: A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM INDÍGENA EM MEU QUERIDO CANIBAL
Correio Brasiliense, DF, 18/06/2000
Hélio Meira de Sá – Especial para o correio
Meio, Fim e Começo
Com Meu Querido Canibal, Antônio Torres abre novas perspectivas para uma literatura desconcertante
No princípio eram as matas, as montanhas, os rios, o mar e os índios. A visão do paraíso estampada na capa do último livro de Antônio Torres, Meu Querido Canibal, antecipa um pouco daquilo com o que o leitor irá se deparar. Na ilustração do artista gráfico Elcio Noguchi, um índio retesado aparece no topo do Corcovado empunhando um arco e assestando sua flecha para uma paisagem onde descortina-se a Mata Atlântica, o Pão de Açúcar sem o seu indefectível bondinho e a, ainda imaculada, baia de Guanabara.
O contraste entre esse paraíso perdido, habitado desde priscas épocas pelos índios tamoios, e o Rio de Janeiro atual é o eixo central da narrativa. O índio Cunhambebe, líder da tribo antropófaga dos tupinambás, surge como protagonista e símbolo de um Brasil hegemonicamente indígena.
O autor utiliza-se do artifício da linguagem ficcional como instrumento para narrar, em uma ponta, o período colonial do século XVI e, sobre tudo, a têmpera guerreira de Cunhambebe, “o querido canibal”, e de seu povo. Na outra ponta o narrador, provável alter-ego de Antônio Torres, debruça-se em um exercício de metalinguagem sobre livros ensebados, alfarrábios esquecidos, em busca de reconstituir “datas exatas, nomes corretos, história de batalhas perdidas, mitos e fábulas”, algo machadiano. O distanciamento temporal do narrador cria ótimas situações permitindo-lhe a interferência nos fatos narrados mediante comentários jocosos ou simulação de diálogos com os personagens retratados.
A palavra-chave empregada ao longo do livro é “presumido”, que alerta o leitor sobre a imprecisão e a subjetividade dos relatos escolhidos como suporte documental. São obras de viajantes-escritores que aqui estiveram, como o francês André Thevet ou o expedicionário calvinista, também francês, Jean de Léry, demonstrando, naturalmente uma opção do autor pela leitura francófona dos episódios. Há também o onipresente alemão Hans Staden, prisioneiro dos índios tupinambás durante nove meses, que afortunadamente escapou de ser canibalizado, nos legando os primeiros registros escritos e ilustrados de Cunhambebe. Com efeito, os relatos testemunhais tinham como objetivo despertar o imaginário europeu para uma realidade distante, exótica e selvagem, valendo-se, não raras vezes, de recursos hiperbólicos ou da inverossimilhança.
A narrativa estrutura-se em três partes entrelaçadas e complementares. A primeira – O canibal e os cristãos – gira em torno da instalação da colônia francesa de Villegagnon, a França Antártica (1555 / 1559), na baía de Guanabara, um refúgio calvinista em terras tupinambás. Talentoso contador de histórias, Antônio Torres mostra as boas relações que Cunhambebe mantinha com os franceses (calvinistas, corsários ou contrabandistas). Nosso canibal chegou a ser recebido com honras de chefe-de-Estado no enclave francês, passando em revista zsoldados regiamente perfilados. Ao contrário do “edênico bom selvagem”, vangloriava-se do sangue inimigo que corria em suas veias, após deglutir inúmeros desafetos, muitos deles portugueses, a quem tratava como mentirosos, traidores e covardes. Por outro lado, em mais um indício de suas preferências, o autor apresenta os hostilizados portugueses, como jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, que tinham como missão avangelizar e pacificar os índios, mas insidiosamente portavam a “cruz em uma mão e a espada na outra”. Refratárias aos portugueses, as diversas tribos da região fundaram a Confederação dos Tamoios para combatê-los, alçando Cunhambebe a condição de chefe supremo.
Já a segunda parte – No princípio Deus se chamava Monan – enfeixa a religião, os mitos e as crenças dos tupinambás. A mitologia pagã dos índios canibais foi supostamente transmitida por Cunhambebe ao frei Andre Thevet. De acordo com a versão de Thevet, os tupinambás acreditavam na existência de um Deus chamado Monan que criou o céu, a Terra e tudo quanto existia. Nessa cosmogonia, há referências a um dilúvio ou a dois irmãos que representam o bem e o mal. É incrível sob esse aspecto a semelhança de passagens bíblicas com os mitos indígenas, levando-se em conta o fato de viverem isolados ou de ainda não terem travado contato com os brancos.
Na ultima parte, uma espécie de making off do livro, o narrador, morador de nosso contemporâneo bairro de Copacabana, dirige-se à cidade de Angra dos Reis em busca de documentos e de antigas trilhas indígenas. É aí, porém, que a prosa fluente do autor de Essa Terra atinge sua amplitude. Em meio a lembranças suscitadas por suas pesquisas, observa um Rio de Janeiro caótico, desordenado, assentado sobre o outrora território dos tamoios, cidade cuja história de construção e desenvolvimento foi realizada às custas da exploração e submissão de negros e índios. Em sua viagem constata, in loco, que os descendentes do guerreiro Cunhambebe estão aninhados numa reserva nas cercanias de Angra dos Reis, calçando chinelas de dedo, formando uma confederação dos vencidos.
Ao estrear no gênero histórico-ficcional com Meu Querido Canibal, Antônio Torres surpreende seus leitores e aponta novos rumos para sua obra. Mantém-se fiel, no entanto, ao seu estilo de construir enredos sempre com começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem, mas numa desconcertante narrativa sinuosa. Sua linguagem flui com frases curtas e palavras precisas, recorrendo freqüentemente, nesse livro, a expressões populares que, em vez de empobrecer o texto, contribuem para agilizar a narrativa. Para tal, lança mão de reiteradas citações de outros autores ou até mesmo de canções populares. A idéia recorrente da canibalização – a antropofagia explícita – imprime uma leveza lúdica de estilo. No momento em que se comemoram os 500 anos de descobrimento do Brasil, quando os índios remanescentes são alijados dos festejos oficiais, Antônio Torres proporciona ao leitor o deleite da boa leitura e uma sincera homenagem aos nossos ancestrais.
O Escritor das Almas Retirantes
O baiano Antônio Torres é, sem medo de cometer impropriedades, um dos grandes talentos da literatura brasileira contemporânea. Sua obra tem o timbre de um distante e mítico sertão baiano. É bom não lhe creditar um viés de literatura regionalista.
Pelo contrário, ao mergulhar no cenário e em situações que lhe são familiares, o escritor o faz não apenas com o objetivo de representar a miséria da região, as condições subumanas do Brasil rural, mas para expor como um sina inarredável as mazelas da alma humana. Assim, ao migrar para a cidade grande em busca de melhores condições de vida, o nordestino defronta-se com as acachapantes frustrações urbanas.
Justamente nesse sentido a obra de Antônio Torres diferencia-se de escritores regionalistas como Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, José Lins do Rego e tantos outros. Para eles, o retirante sertanejo embalava sua caminhada na esperança de uma vida melhor. Havia um desespero que se nutria de esperança. Não por acaso, Antônio Torres afirmou em entrevista que “a seca não expulsa, é a civilização que atrai”. Atrai e depois o trai. Esse parece ser o drama de Nelo, personagem de Essa Terra, publicado em 1976, que, ao deixar a cidade de Junco no interior da Bahia ruma a São Paulo, retorna para enforcar-se nas cordas de uma rede.
Escritor engenhoso, seu estilo é marcado por uma narrativa entrecortada, formada por fragmentos desconexos, cacos de um mosaico. Ao leitor, cabe a tarefa de reordená-los, de modo a compor um todo harmonioso e lógico. O importante na sua visão do fazer literário não é uma história linear, certinha, com começo, meio e fim, “mas que, no fim, tem que acabar com começo, meio e fim”.
Jornalista e redator publicitário, seus contos e novelas foram traduzidos em diversos países. Essa Terra, a obra mais conhecida, já foi traduzida para o alemão, francês, inglês e hebraico.
Estreou em 1972 com Um Cão Uivando para a Lua, que granjeou elogios e critica e um prêmio de autor revelação. Ousado, sempre buscando novas formas de narrar, o lançamento de Meu Querido Canibal acena para novas perspectivas temáticas, talvez já antecipadas em Um táxi para Viena d’Áustria, lançado em 1991.
Université Michel de Montagne, Bordeaux III.
Cláudio Novaes
Meu Querido Canibal: ou da nossa história oculta
“O índio se chamava Cunhambebe.
Comecemos pelo seu nome, que quer dizer “língua que corre rasteira”, em alusão ao seu jeito arrastado de falar, quase gaguejante. Simplificando isto: homem de fala mansa.
Não o imagine apenas um edênico bom selvagem – e nu, ainda por cima, sem nada a lhe cobrir as vergonhas, etc. –, senhor das selvas e das águas, da caça e da pesca, a viver na era da pedra lascada, em paz com os homens da natureza, um ser contemplativo debaixo de milhões de estrelas, e a mirar o céu para adivinhar sinais de tempestade.
Era um guerreiro.”
Meu Querido Canibal sugere ao leitor uma simetria entre o mundo ficcional e a história de um povo “diferente” e por isso apagado da História. O narrador procura nas ruas do Rio de Janeiro nomes ou sinais da existência do povo guerreiro guiado por Cunhambebe, habitante daquela baía antes de ser exterminado. Ele chega a sugerir de tanta ausência a possibilidade de que todos esses índios traídos, vencidos, mortos e sacrificados tenham sido mais uma ficção. Mas é nessa ausência, paradoxalmente, que o narrador busca a importância do herói Tupinambá, o canibal Cunhambebe, apreciador de carne de portugueses. Mesmo morto seu nome vai atormentar a memória dos invasores e estimular os ânimos dos Tamoios confederados: sua voz mansa de guerreiro senhor das “águas de sonho e fúria”. Se esse índio, ao invés de devorar, tivesse colaborado, certo seria lembrado numa grande estátua no centro da cidade, conclui o narrador. Por isso ele sonha, delira e segue as pistas invisíveis desse herói para preencher um espaço vazio na história com a sua diferença dos bons europeus de alma cristã.
Em Meu Querido Canibal o narrador duvida, interroga e, segundo ele mesmo, tudo é “presumivelmente”. Essa desconfiança é o fenômeno da história e a precariedade na escolha feita por quem a conta. Mas a honestidade do narrador é decisiva para o fator ético. Nesse romance o narrador vai expondo todo o caminho traçado e percorrido para justificar sua escolha. Ele vive intensamente e apaixonadamente a história do seu herói canibal. Por isso a relação temporal distendida pela memória do tempo não é absurda quando liga o passado das flechas, das lanças e dos tacapes dos índios na resistência aos invasores portugueses ao presente dos meninos cariocas fora da escola “puxando fumo” e dando tiros nos morros vizinhos a Copacabana. E essa distância de 500 anos não quebra a lógica histórica do relato, como se o narrador dialogasse com próprio Cunhambebe para contar a “verdadeira” história de sua nação guerreira e das atrocidades do passado colonial de contrabandistas, marginais e piratas da Europa expansionista obsecada por guerras, riqueza e poder; ligando tudo isto aos problemas sociais do Brasil contemporâneo. A narrativa corre o risco da nostalgia primitivista e da incongruência temporal, mas sai ilesa, porque não há nenhum ressentimento do narrador e sim uma vontade “heróica” e positiva de reconstituir a diferença apagada. Desejo avassalador da memória, o qual leva o narrador a conversar em sonhos com o seu herói Cunhambebe, chegando a despertar em sua esposa o receio de que ele se torne também um canibal. Mas ele canibaliza a memória sangrenta da colonização removendo as poucas palavras e “notas de pé de páginas” escritas pelos soldados da fé e da guerra donos da História, para encontrar os traços dos nossos selvagens antepassados sem lei, sem fé e sem rei.
O narrador é plenamente visível nesse percurso e seus movimentos são todos abertos para o leitor: ele indica o universo bibliográfico consultado – ou melhor canibalizado – , os caminhos tortuosos da pesquisa, as datas e os alfarrábios empoeirados pelo tempo e pelo desprezo. Sejam estes dados todo verídicos ou algumas pistas “falsas” à Borges só os leitores conquistados para a confederação dos novos canibais tupiniquins saberão. Nelson Pereira fala que o Meu Querido Canibal é como um road-movie. Desde o título o livro já encontra uma solução lúdica de sugestivo sabor musical; e as imagens são cinematográficas, mas não como um filme pronto. O narrador-realizador está ainda em meio a uma série de informações – ou fala delas – e vai escolhendo a melhor locação, desenhando os planos, preparando os efeitos, imaginando as seqüências, escolhendo as personagens e preparando as montagens. E o mais importante é que cada leitor/espectador está participando de todo o trabalho, dividindo com narrador a responsabilidade dessa “nova” história precária e diferente.
O livro é uma história alternativa dos vencidos a exorcizar a História colonial sem vingança e expondo as diferenças através de uma “outra” metafísica (na história humana haverá sempre a necessidade de alguma coisa além física para chamarmos de ética), qualificando as atitudes dos povos envolvidos neste holocausto colonial. Os perós portugueses, quase todos mentirosos, traidores, falsários e ambiciosos sem limites e os franceses aculturados – ou seriam barbarizados?! – pelos índios, curtindo as carícias das índias, as amizades dos guerreiros tupinambás e as maravilhas de quando o Rio de Janeiro era mais rios, floresta e ilhas paradisíacas. Mas também há os portugueses deste holocausto colonizador que prezavam valores dignos. Entre eles o narrador aponta o próprio D. João VI em sua tumultuada passagem pelas terras brasileiras; assim como do lado de franceses e tupiniquins nem tudo era virtude. Lutas e traições entre os índios e muitos piratas e traficantes franceses não ficavam longe dos perós portugueses na prática da violência militar, econômica, étnica e sexual.
Até hoje portugueses e franceses se exibem com “indiazinhas” brasileiras na Europa: aos primeiros é orgulho na cama e na cozinha, para os últimos exotismo sexual e samba. Isso embola o meio de campo da diferença canibal, porque essas indiazinhas também gozam neles, deles e com eles... Desde as tupinambás nuas entre os branquinhos de cabelo de fogo dos tempos coloniais até as tupiniquins contemporâneas do turismo sexual.
O tema do livro de Antônio Torres torna-se local e universal. Pertence a brasileiros tupiniquins, a franceses, a portugueses; aos cariocas e baianos. Afinal as relações canibais entre “bárbaros” e “civilizados” não são apenas coisas do passado ou da ficção...
COM
INDIGNAÇÃO E TERNURA
Ruy Espinheira Filho
Meu Querido
Canibal
Um livro feito com talento, indignação, humor e ternura. A editora o classifica como História do Brasil. Sim, há nele muito de História (assim, com H maiúsculo), estudo, pesquisa, mas também muito de histórias, de relatos da tradição, assim como daquilo que faz o autor advertir com um presumivelmente. Na verdade, muito do que repetimos hoje como fato histórico, ao menos em nosso País, merece ser antecedido desta advertência.
Mesmo não fazendo, neste livro, ficção, o baiano Antônio Torres tempera tudo, por assim dizer, com seu talento de ficcionista, de narrador vibrante, caloroso, longe da frieza comum nos autores acadêmicos. Aliás, na primeira frase deste texto eu me referi a — além de talento — indignação, humor e ternura. Porque é isto: Antônio Torres não se põe distante, neutro, nessa história de índios e brancos, heróis e canalhas, inocências e sinistras astúcias. Pelo contrário: ele participa. Com indignação, pois os fatos da colonização suscitam com frequência este sentimento; com humor, embora às vezes repassado de amargura, pois também houve momentos de riso, sobretudo diante do ridículo e da estupidez do fanatismo dos europeus; e com ternura — uma imensa ternura pelos índios, pelos negros escravizados, pela terra e pelos bichos daquele admirável mundo novo, que o velho mundo vinha submeter, a ferro e fogo, a seus interesses.
Nossa “memória” foi trabalhada, por historiadores ligados às classes dominantes, para que tivéssemos uma visão parcial dos (presumivelmente...) acontecimentos. Assim, José de Anchieta, que fazia o trabalho sujo do logro, enganando os índios para preparar o terreno para os portugueses, virou entre nós uma espécie de santo (se não me engano, há até uma campanha para beatificá-lo, ou até transformá-lo em imagem de igreja), assim como o Manuel da Nóbrega, encarregado dos mesmos engodos. Anchieta, aliás, tinha orgasmos (espirituais, admitamos...) com a violência lusitana, como mostra este trecho transcrito pelo autor: “Quem poderá contar os gestos heróicos do chefe à frente dos soldados, na imensa mata! Cento e sessenta as aldeias incendiadas, mil casas arruinadas pela chama devoradora, assolando os campos com suas riquezas, passado tudo a fio da espada!” Os portugueses, conta Antônio Torres, comemoraram a vitória cortando as cabeças dos cadáveres e enfiando-as em estacas. Uma autêntica aula de civilização àqueles bárbaros canibais. Em suma, com a “memória” artificial que criaram em nós, e continuam reforçando, temos apenas uma visão grosseira da nossa história. E todos os nossos heróis são brancos — alguns deles não passando de assassinos, ladrões, farsantes internacionais e prodigiosas mediocridades. Exatamente como certos poderosos de hoje. Quanto à grande e ao heroísmo de índios e negros, nada, ou quase nada a dizer. Tanto naqueles anos 500 quanto nestes 2000.
No meio de tanto ufanismo pelo aniversário do descobrimento, de tanto orgulho pelas excelência da “colonização”, Meu Querido Canibal nos lava a alma. Porque Antônio Torres escreve com emoção — e sem ilusões. Ele sabe que foi como foi — e que as coisas não mudaram. Os negros, liberados após longa escravidão, continuam marginalizados. Os índios, dos grandes Cunhambebe e Aimberê, entre outros grandes nomes, prosseguem experimentando a vasta generosidade dos caciques brancos — como o mundo inteiro testemunhou por ocasião das recentes “comemorações” em Porto Seguro e adjacências. Para maior glória da civilização, como diria um José de Anchieta. Presumivelmente, é claro. Ruy Espinheira Filho é poeta, ficcionista, ensaísta e professor do Instituto de Letras da UFBA.
MEU
QUERIDO CANIBAL
Gerana Damulakis
gerana@atarde.com.br
O novo livro de Antônio Torres intitulado Meu Querido Canibal, editado pela Record, é uma homenagem ao índio brasileiro num momento em que se comemoram os 500 anos da chegada dos portugueses e quando, em contrapartida, em meio a muita discussão sobre a nossa cultura, poucos lembram que os índios já faziam sua própria cultura nestas terras há pelo menos 50 mil anos, segundo os estudos realizados na reserva arqueológica, no Piauí, liderados por Niède Guidon.
Antônio Torres tinha pela frente os três caminhos que constróem uma biografia: o seguimento fiel dos fatos importantes da vida do biografado, com documentos, datas etc; a biografia romanceada, como fez Jorge Amado no livro ABC de Castro Alves, a qual se presta, à perfeição, ao livre uso da imaginação do escritor, o qual insere elementos ficcionais, descreve cenas; e, por fim, a fórmula que associa a narrativa da vida do biografado sem descrever ou formar diálogos não testemunhados pelo autor, mas, como não há uma preocupação essencialmente documental, o texto pode ganhar com a linguagem e o estilo, com um colorido, que favorecem o fluxo narrativo como se fosse um agradável romance.
Apostando na fórmula mais sedutora, mas sem se deter a ela, Torres construiu um livro singular. Na primeira parte, alicerçada em pesquisa, ele retrata o Chefe Supremo da Confederação dos Tamoios, Cunhambebe, o querido canibal, com tamanha parcialidade, até com tanta paixão — Cunhambebe foi o "primeiro herói deste país de aventureiros, náufragos, degredados, traficantes, piratas e contrabandistas. Um tipo inesquecível." —, que o leitor acaba sentindo uma certa intimidade com o devorador de carne humana, com preferência pelos braços e pelos dedos das mãos.
A segunda parte, "No Princípio Deus se Chamava Monan", conta a lenda indígena da criação do mundo, traçando paralelo com a teoria cristã: é um momento pungente quando, se Deus era nomeado Monan, o rei se chamava Cunhambebe. A pungência desta parte termina dando um "Amém" à constatação sobre a tal salvação que não veio nem de Deus, nem do rei nem da lei para um povo que era obrigado a rezar por cartilha alheia — "que ironia, qual destino!".
A parte III é a "Viagem a Angra dos Reis" e é quando o leitor encontra o escritor do final deste século, vivendo a ebulição das ruas do Rio de Janeiro mas com a cabeça nos anos 500 e no índio Cunhambebe ou em todos os índios que sequer mereceram ter seus nomes nas ruas, sequer fizeram parte, no livro do tempo dos vice-reis, entre os infames da raça como o judeu ou o mouro e, assim estupefato, o narrador chega a sonhar gritando "perós!", sobe morros à procura de índios que possam saber algo sobre Cunhambebe.
Vê-se que há muita História no livro sendo, como se propõe, uma biografia baseada em livros e documentos, mas vê-se que a técnica do romancista está presente na narração, conferindo aquele colorido supracitado. Além do que, a surpresa que causa a entrada da leitura da terceira parte em outro tempo, viajados num átimo os 500 anos, confere uma originalidade que ao mesmo tempo afirma a necessidade de chegar no agora para trazer o canibal, o índio, o verdadeiro brasileiro para o presente, para o Brasil atual.
A paixão dessa escrita contagia o leitor, saímos dela talvez com um olhar mais terno para o nosso índio, senão com idolatria mas, ao menos, com respeito. A história de Cunhambebe guarda o interesse e o encanto que marcam os romances de Antônio Torres desde Um Cão Uivando Para a Lua, assegurando a solidez de sua obra literária.
SOMOS
ÍNDIOS
Gerana Damulakis
gerana@atarde.com.br
Antônio Torres retorna à sua terra por dois motivos: para lançar seu mais recente livro, Meu Querido Canibal, e para participar do V Congresso de Estudos Lingüísticos e Literários, com realização de 21 a 25 de maio, no Campus da UEFS, Feira de Santana. Na oportunidade, deu-se a entrevista cedida à Gerana Damulakis por Antonio Torres.
1 - O livro Meu Querido Canibal não transmite uma visão edênica do Brasil de então, ou melhor, de Pindorama. Isto veio naturalmente ou foi esquematizado para fugir da tal visão piegas?
- Não vou dizer que tudo neste livro é natural, mesmo em se tratando de uma história que tematiza o Brasil dos 500, quando a natureza era soberana. Parti de um personagem que me encantou, o grande guerreiro tupinambá Cunhambebe, o primeiro chefe supremo da Confederação dos Tamoios que, aí entre os anos de 1554 e 1567, uniu todas as tribos inimigas de São Vicente a Cabo Frio, e fez a terra tremer. Foi a maior organização de resistência aos colonizadores que este País teve. A partir do meu interesse por Cunhambebe, um gigante com quase dois metros de altura, exageradão em tudo, a ponto de ter 14 mulheres quando outros caciques só tinham direito a 4, cheguei à epopéia dos tamoios, que significavam “os mais velhos do lugar”. Procurei, então, trazer para a atualidade um pouco da dimensão de Cunhambebe como herói e da Confederação dos Tamoios como organização emblemática, me valendo, naturalmente, das minhas estratégias de romancista, ou seja, de contador de histórias.
O que busquei em Meu Querido Canibal foi um resgate da história do povo que estava aqui quando os europeus chegaram, e que havia sido relegada, esquecida. Na enxurrada de livros que estão na praça, tendo o aniversário do Descobrimento como pretexto, há obras admiráveis, sem dúvida, mas é tudo, ou quase tudo, coisa de branco. Se há alguma novidade em “Meu Querido Canibal” é esta: trata-se de um recorte diferenciado na onda comemorativa. Por fim, Cunhambebe liderava um povo de guerreiros. Não houve pieguismo algum na relação do europeu com o nativo – e vice-versa. Eu não poderia, de maneira alguma, me permitir uma visão piegas daquele tempo de guerra. De cobiça e fúria.
2- Dizem que todo escritor tem seus temas constantes, que definem sua obra. Como entra a biografia de Cunhambebe entre seus livros?
- Embora tenha cá minhas obsessões (o choque entre o rural e o urbano, o do Brasil arcaico com a modernidade, a solidão de um país grande etc), tenho procurado diversificar os meus temas e a minha escrita, para não me tornar uma espécie de sambista de uma nota só. Espero que o “Meu Querido Canibal” represente um exemplo deste meu esforço.
3 - Que relação você estabelece entre êxito de público, qualidade literária e consagração crítica?
- Eis aí uma pergunta cuja resposta valeria um punhado de dólares. Quem acertar nas três questões aí ganha a sorte grande. Quantas obras consagradas pela crítica se tornam encalhes monumentais! Quanto sucesso de público é esnobado pelos críticos e até por mim! No que diz respeito à qualidade, pode ser que ela se imponha, pode ser que não. Para o tal do mercado, cada vez mais arrogante e ditatorial, livro bom é aquele que vende. Parece que em nosso tempo a qualidade é uma questão secundária. Daí haver tanto escritor, hoje, uivando para a lua, sem saber o que fazer de suas qualidades. Às vezes acontece uma zebra e a qualidade emplaca.
4 - A escrita faz leitores e assim a literatura evolui e modifica, com os grandes textos, a maneira como se lê. Qual o leitor ideal para “Meu Querido Canibal”, seria forçosamente aquele que tem empatia com o índio?
- Se houve uma coisa boa nestas comemorações dos 500 anos foi que o Brasil passou a refletir mais sobre a sua própria História. E de repente percebemos que os índios fazem parte dela. E mais: que somos índios. No fundo, no fundo, por trás de todo o oba-oba, percebemos que há algo da derrota dos nativos que serve de espelho para as nossas derrotas cotidianas. Nestes 500 anos, construímos um país, sim, multifacetado, multicultural, multitudo. E com um potencial humano e econômico fantástico. Mas cujo povo ainda não está no centro da História. Fica à margem, cada vez mais periférico. Mesmo sabendo que vivemos numa nação extremamente conservadora, corri o risco de me postar, de peito aberto, às flechadas da História oficial. Hoje, me pergunto: há mulheres e homens livres neste País? Há consciências não manipuladas? A estes dedico o “Meu Querido Canibal.”