Aula inaugural, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, março de 1999.
Aula inaugural do Instituto de Letras da UERJ - março de 2000.
Antônio Torres
(Conferência proferida no seminário “Da Chegada da Família Real à República no Brasil”, realizado no Sesc-Iracema, de Fortaleza, Ceará, em 12/05/08).
“Não corram tanto! Assim vão pensar que estamos fugindo...”
A voz que fazia esse apelo era a de quem menos se poderia esperar prudência em circunstâncias tão dramáticas. Tratava-se de uma pobre demente, que voltava a respirar o ar das ruas, depois de 16 anos de reclusão. Mas, se ainda lhe restava lucidez para temer a repercussão daquela correria, faltava-lhe a percepção da sua imperiosa necessidade. A cidade estava na iminência de ser invadida por um exército inimigo tão poderoso, que podia reduzi-la a cacos.
Impossível reconstituir imaginariamente tal cena sem um bocadinho de ternura. Dentro de um coche a toda velocidade, D. Maria I emerge das profundezas de sua alienação preocupada com a imagem pública que a família real ia deixar. “Não corram tanto! Assim vão pensar que estamos fugindo...” Coitada! Mal sabia o que a aguardava, e à sua numerosa corte, no cais do porto. Loucura mesmo era aquilo. Gritaria. Apupos. Empurrões. Cenas dilacerantes. Muita gente querendo embarcar à força. Senhoras distintas se atiravam na água, tentando alcançar botes que as transportassem para bordo dos navios de guerra - já abarrotados de fidalgos – e se afogavam. O filho de dona Maria, Dom João Carlos de Bragança, o Príncipe Regente - que mais tarde seria coroado rei como D. João VI - disfarçou-se de fugitivo anônimo, ao chegar num carro fechado e sem o libré da corte, para escapar das hostilidades de uma população indignada. Não teve ninguém a recebê-lo, protocolarmente. Como chovia muito, só não patinhou na lama, ao atravessar o charco sobre pranchas mal postas, porque foi sustentado por dois cabos da polícia.
Coube à duquesa de Abrantes descrever os acontecimentos como um “estado de frenesi popular”. Com a palavra, a duquesa: “O muito nobre e sempre leal povo de Lisboa, não podia familiarizar-se com a idéia da saída d’El-Rei para os Domínios Ultramarinos... Vagando tumultuariamente pelas praças, e ruas, sem acreditar o mesmo, que via, desafogava em lágrimas, e imprecações a opressão dolorosa, que lhe abafava na arca do peito o coração inchado de suspirar: tudo para ele era horror; tudo mágoa; tudo saudade; e aquele nobre caráter de sofrimento, em que tanto tem alçado acima dos outros povos, quase degenerava em desesperação”.
Esse breve relato é de uma testemunha ocular da história. E por ele pode-se deduzir que aos excluídos das embarcações pouco importava se o que estava em causa era uma estratégia para a salvação de um reino, muito bem sucedida, o que, finalmente, já se reconhece, ao reavaliar-se de forma menos emocionalizada o que antes era tido como uma fuga, e havido como uma decisão covarde de um príncipe regente frouxo, pusilânime, bufão.
Nessa reavaliação, gastam-se muito papel e tinta em cadernos especiais dos jornais, revistas e livros que vão para as listas de best-sellers; lotam-se os auditórios das universidades, da Academia Brasileira de Letras, dos espaços culturais os mais variados; dobram os sinos, rufam os tambores e o plim-plim da Rede Globo. Em meio a isso tudo, um historiador chamado Jurandir Malerba, autor de A corte no exílio, em longo artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 6 de abril último, fez as seguintes reflexões:
“Numa época como a nossa, em que tudo, até mesmo a história e a identidade coletiva de um povo, virou mercadoria, não é de estranhar o estardalhaço mercadológico em torno da efeméride. Da noite para o dia, ilustres desconhecidos tornam-se celebridades e posam de sábios e eruditos; leitores de meia dúzia de livros se acotovelam para ‘entrar no debate’; publicações de qualidade suspeitíssima ganham espaço na mídia. Uns se apropriam do fato como guardiões da história; outros vaticinam contra ela, acusando os abusos e as manipulações da memória” etc, etc, etc, até ele próprio admitir que a transferência da corte e do império ultramarino portugueses sempre foi alvo de interpelações apaixonadas. E propõe que nós, os leitores de meia dúzia de livros sobre o assunto, façamos um dever de casa, respondendo às seguintes perguntas:
Essa transferência terá sido uma fuga ou uma sábia decisão do regente? Foi atropelada ou “um alvitre amadurecido”? Qual o tamanho da comitiva? D. João foi um hábil estadista ou um tolo manipulado por seus homens de Estado? A vinda da corte acelerou ou protelou a independência do Brasil na era das revoluções? Foi benéfica para o Brasil ao garantir a sua integridade territorial – a América hispânica se esfacelou em pequenas repúblicas – ou foi prejudicial ao induzir a uma transição conservadora e centralizadora? Quais suas eventuais marcas na sociedade e no Estado que se construíram no Brasil ao longo do século 19 e mesmo depois?
Por
mais conhecidos que sejam
os antecedentes dessa história, permitam-me recorrer a eles em busca de
elementos que possam ajudar nas respostas pelo menos de parte das
perguntas
aqui propostas.
Tudo
começou quando os ingleses
e os franceses ambicionaram repartir o mundo entre si, nos primórdios
do
século 19. Como cada lado pretendia mais capital e mais mercado, as
disputas
os empurraram para a guerra. A Inglaterra impôs um bloqueio marítimo à
França,
e esta revidou com o bloqueio continental que deixava o Reino Unido
isolado e
proibido de comerciar com a Europa dominada pelo imperador francês,
Napoleão
Bonaparte. Ilhado, o comércio inglês só podia se expandir através de
Portugal,
dono de um caminho marítimo para o continente americano.
Naquele grave momento europeu, o príncipe regente D. João (que governava Portugal desde 1792, em virtude da enfermidade mental da sua mãe, D. Maria I), tentava uma neutralidade impossível no conflito das duas potências. Unida à Espanha, a França tinha as mesmas ambições da Inglaterra. E invadiu Portugal em novembro de 1807. Sem condições de enfrentar as tropas napoleônicas, D. João não teve outra saída senão se valer do plano inglês de transferir a sede da monarquia portuguesa para o Brasil, numa esquadra escoltada pela marinha britânica. Não nos esqueçamos que por trás de tudo estava uma guerra mercadológica. Logo, a escolta não seria nenhum gesto magnânimo de uma velha aliada. Portugal se comprometia a dar plena liberdade comercial aos ingleses, mas regateando para não ceder a todas as exigências deles, como as de tarifas alfandegárias irrisórias. Exige-se de cá, barganha-se de lá, o certo é que o acordo foi fechado ao soar do gongo, no dia 29 do mesmo mês de novembro daquele mesmíssimo ano de 1807. E então, ao amanhecer do dia seguinte, quando o exército de Napoleão Bonaparte, comandado pelo general Andoche Junot, entrou em Lisboa, só avistou as últimas velas dos barcos portugueses sumindo na linha do horizonte, levando uma nobreza que em poucas horas saqueara os cofres, e embarcara com milhões de cruzados em ouro e diamantes e mais da metade do dinheiro em circulação no país. Imaginem a cara dos que ficaram lá, a ver navios.
Depois de suportar todas as pressões da França e da Inglaterra, as traições dentro de seu próprio governo, e as tensões no cais do porto, D. João partiu debaixo de um temporal. O seu navio, o Príncipe Real, carregava cerca de mil passageiros, ou mais, que se amontoavam em total desconforto, com muita gente tendo de dormir no tombadilho. E o pior de tudo: poucos víveres a bordo. D. João, porém, se manteve calmo durante toda a viagem, como se dissesse a si mesmo, o tempo todo, que o pior já havia passado.
Alguns dias depois da partida, um temporal dispersou o comboio formado por cerca de 40 navios, que conduziam milhares de refugiados. No dia 22 de janeiro de 1808 – portanto, depois de quase dois meses de viagem -, D. João aportou em Salvador, com parte da esquadra, sendo recebido festivamente pelo povo baiano, tendo à frente o conde da Ponte, governador e capitão-geral da Bahia.
Os primeiros dias do príncipe em Salvador foram de júbilo e reivindicações. Motivos de queixas não faltavam contra a administração portuguesa em nosso país. O Brasil-Colônia sofria com a opressão dos monopólios, as proibições e os impostos, que tinham estagnado o comércio, impedido o desenvolvimento da agricultura e destruído o espírito de iniciativa. A insatisfação com o vulto dos encargos e restrições já havia levado à Inconfidência Mineira, quando se discutia a possibilidade da independência do Brasil, mirando-se no exemplo dos Estados Unidos. E isso não fazia muito tempo. Como sabemos todos, a Conjuração em Minas Gerais resultou no enforcamento de Tiradentes, em 21 de abril de 1792. Em 28 de janeiro de 1808, por sugestão do futuro visconde de Cairu, José da Silva Lisboa, o governador da Bahia conseguiu que D. João decretasse a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, “a benefício do Comércio e Agricultura, que tanto desejo promover”.
A Carta Régia firmada por D. João em Salvador, além de inaugurar sua regência itinerante, tinha um duplo alcance: ao mesmo tempo em que atendia a uma solicitação local, honrava o seu compromisso de permitir total liberdade comercial aos ingleses em todo o território brasileiro. Em pleno bloqueio continental na Europa, a abertura dos portos às nações amigas era uma figura de retórica, pois beneficiava unicamente a singularíssima Inglaterra.
A comitiva real ainda se encontrava na Bahia quando os comerciantes locais enviaram ao príncipe uma representação, pedindo-lhe que não permitisse que os ingleses se estabelecessem com casas de negócios nos domínios do Brasil, para não os prejudicar. Os termos do documento:
“O Comércio para ser igual deve ser gênero por gênero, mas ele é vantajoso para aquela Nação que tira algum numerário. Os ingleses não querem comércio igual; querem tirar dele toda a vantagem, recebendo ainda menos de um milhão em gêneros quando introduzem dez em fazenda, querendo tudo o mais em ouro. A Nação que contribui depaupera-se e quando passa um século a riqueza fruto da Indústria Nacional foge toda para a Inglaterra e a vantagem está de sua parte”.
E assim, entre festividades e reivindicações, D. João não teve pressa em deixar a Bahia, para o desgosto de sua mulher, dona Carlota Joaquina, que detestou a cidade, por achar que ela tinha negros demais. Em relação à demora do príncipe na Bahia, bem mais aceitável foi a apreensão do grupo que se desgarrou do restante da esquadra que aportou em Salvador, e, durante mais de um mês, ficou a bordo no porto do Rio, à espera de notícias tranqüilizadoras. Maior ainda foi o tempo de ansiedade da capital do país, que no dia 14 de janeiro de 1808 entrou em grande alvoroço, com a chegada de um brigue de guerra chamado Voador, trazendo a boa nova de que toda a corte portuguesa podia a qualquer momento singrar nas águas da Guanabara.
Então a pacata cidade do Rio de Janeiro, com apenas 50 mil habitantes, agitou-se. Não era para menos. Afinal, ela ia receber os mais augustos hóspedes de toda a sua história. Mas como acomodar, confortavelmente, tão ilustres figuras, e que, de acordo com as informações recebidas, vinham acompanhadas de numerosíssima corte?
Foi aí que o último vice-rei
do Rio de Janeiro, Dom Marcos de Noronha e Brito, o conde dos Arcos,
pôs toda
a sua capacidade administrativa à prova. Para começar, decidiu que a
família
real ficaria hospedada no palácio que era a sede do governo e sua
residência
(e hoje é o Paço Imperial, na Praça XV, de frente para a rua Primeiro
de
Março). Ele, o conde dos Arcos, removeu dali o Tribunal da Relação e a
Casa da
Moeda, mandando fazer reparos em todo o edifício, com enriquecimento da
ornamentação interna e a substituição do mobiliário.
Na
seqüência de suas
iniciativas, enviou mensageiros a São Paulo e Minas Gerais, não só para
levarem a novidade, mas também para conseguirem mantimentos e outras
utilidades. A demora de D. João na Bahia acabou sendo benéfica para o
Rio, que
teve mais tempo para preparar-lhe uma recepção retumbante, com pomposas
luminárias, coretos engalanados, e uma alegoria com um monumental
retrato do
príncipe sendo homenageado por um índio. O desembarque festivo da
família real
e sua corte aconteceu no dia 8 de março. Mas já na véspera, a população
da
cidade se apinhou nos altos dos morros para aguardar o instante em que
a
esquadra lusa atravessasse a barra. No dia seguinte, todos acorreram em
delírio ao cais e se deslumbraram logo ao primeiro olhar para aquelas
personagens metidas em roupagens tão luxuosas que pareciam divinas.
Suas
Altezas pisaram em terra aos pés de um altar levantado para as bênçãos
do
Chantre (o cantor litúrgico) da cidade, solenemente rodeado pelo cabido
da
catedral. Depois do desembarque triunfal, D. João e seu séquito
adentraram a
cidade em magnífico cortejo, ao som de sinos e salvas entre alas de
militares
e sobre um chão juncado de folhas e de flores. O desfile seguiu pela
rua
Direita (hoje Primeiro de Março) até a igreja da Sé, na rua do Rosário,
onde
se celebraram grandes cerimônias religiosas e o príncipe e a princesa
concederam o primeiro beija-mão real no Rio de Janeiro.
O que surpreendeu a todos, porém, foi o tamanho da corte, calculada em mais de 15 mil pessoas. Gente demais para uma cidadezinha ainda modesta, cujo perímetro urbano continha apenas 75 logradouros públicos, sendo eles de 46 ruas, 4 travessas, 6 becos e 19 campos ou largos. Espantado com as proporções da imigração da nobreza e seus acólitos que ele teria de alojar, D. Marcos de Noronha, o conde dos Arcos, providenciou rapidamente a anexação ao palácio dos vice-reis dos dois edifícios maiores que ficavam mais próximos: a Cadeia e o Convento do Carmo, onde, no pavimento mais nobre, foram instalados os aposentos de D. Maria I, a Rainha Louca, que ali passou os últimos anos de sua triste vida, que expirou no dia 20 de março de 1816.
Continuemos na questão crucial para o Rio de Janeiro, à chegada da corte, assim definida por Gastão Cruls: “Se a família real trazia nas suas arcas muitos milhões de cruzados em valores públicos e privados, se muitos fidalgos não se tinham separado de mobiliário e de alfaias, se as repartições se transferiam acompanhadas do respectivo papelório, se íamos ter biblioteca e tipografia, maior ainda o embaraço para dar alojamento a tudo isso”.
A desocupação compulsória de muitas residências em benefício dos fidalgos portugueses trouxe sobressalto aos proprietários e inquilinos, que logo viam pregado a uma de suas portas um sumário edital do governo, com as iniciais P. R. (de Príncipe Regente), que a maledicência popular dizia ser a abreviatura de “ponha-se na rua”. Pois era para a rua mesmo que os antigos moradores tinham de ir, de mala e cuia, à procura de um lugar para encostar a carcaça, longe da fidalguia. Tanto transtorno acabou por provocar a necessidade de se intensificar a construção civil, para moradias e repartições públicas.
Enquanto isso, o reino se instalava, provocando no país uma revolução administrativa sem precedentes em toda a sua história, que já chegava aos 308 anos. Mais que depressa, foram criadas repartições civis, militares, judiciais e eclesiásticas destinadas aos órgãos governamentais de profundas e seculares raízes na cidade de Lisboa. E assim se invertia a estrutura orgânica na relação entre a metrópole e a sua principal colônia. O Império português passava a ter o seu comando no Brasil. Os primeiros decretos de impacto assinados por D. João, aqui, foram, sem dúvida, o da abertura dos portos - que apesar do favorecimento à Inglaterra, viria a incrementar a navegação com os Estados Unidos da América e com as principais nações da Europa -, e a revogação, em 1º. de abril de 1808, do alvará de 5 de janeiro de 1785, que proibira a instalação de indústrias e manufaturas em nosso país, exceção feita à construção naval, que sempre fora estimulada pelos reis de Portugal desde o século XVI. Bem a propósito, escreveu o padre Luís Gonçalves dos Santos (Padre “Perereca”), em suas Memórias para Servir ao Reino do Brasil: “Se na cidade da Bahia, o Príncipe Regente Nosso Senhor, pela sua memorável carta régia de 28 de janeiro lançou a primeira pedra fundamental no alicerce do grande Império que veio criar no Brasil, pela concessão da franqueza do comércio, nesta Corte do Rio de Janeiro pôs a segunda pedra fundamental pelo alvará de 1º. de abril, permitindo aos brasileiros toda e qualquer qualidade de indústria”.
Até a chegada de D.
João, a Colônia vivia na maior
carência. Sem indústria própria, dependia do que Portugal podia e
queria lhe
abastecer. Faltava tudo por aqui. Não havia sequer copos, tesouras e
talhares
para todos. Com a abertura dos portos, a Inglaterra, desconhecendo
totalmente
o nosso clima, enviou para cá um carregamento de patins para a neve,
fogões
para calefação interna, bacias de cobre para aquecimento de camas, e
grossos
cobertores. O mais incrível é que nada foi devolvido. Compraram tudo.
As
bacias foram aproveitadas como escumadeiras nos engenhos de açúcar; as
lâminas
de patins transformaram-se em trincos de porta, facas e até ferraduras;
os
cobertores de lã seguiram para as zonas de mineração, onde seriam
usados para
reter as partículas de ouro nas águas dos rios. Ao serem informados das
necessidades brasileiras, os ingleses passaram a enviar tecidos de
Manchester,
porcelanas, ferro, chumbo, cobre, zinco, pólvora, queijos, manteiga,
cerveja.
E quando o comércio com os franceses passou a ser permitido, estes nos
enviaram jóias, móveis, velas de cera, medicamentos, relógios, licores,
e,
principalmente, artigos de toalete, coisas da moda, quinquilharias
finas,
todos os perfumes de Paris.
Conquanto sejam por demais conhecidos os benefícios que D. João trouxe ao país, não custa nada rememorar suas principais contribuições para o nosso processo civilizatório, como a Biblioteca Nacional, com mais de 14 mil livros, além dos documentos salvos do terremoto de Lisboa, em 1755; a nossa primeira instituição de ensino superior, a Escola Naval, criada por D. Maria I, à semelhança da Escola Naval Britânica; a Impressão Régia, de cujos prelos sairia, em 10 de setembro de 1808, o primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro, um pequeno jornal que publicava na última página o movimento de chegada e partida de navios no porto do Rio; o Jardim Botânico; o Banco do Brasil; A Escola de Astronomia; a elevação do Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarves, em 1815; a promoção da vinda da Missão Artística Francesa, em 1816; a inauguração da Praça do Comércio, em 1820, que deu origem à Associação Comercial do Rio de Janeiro.
Com a morte de D. Maria I, em 1816, ele viria a ser aclamado rei, o que, no entanto, só aconteceria em 1818, pelos seguintes motivos: 1º. – seu desejo de observar o luto de 10 meses; 2º. – a campanha militar luso-brasileira no Sul, contra os uruguaios; 3º. – a revolução de Pernambuco, em 1817; 4º. – conspiração em Portugal. Na aclamação, os comerciantes do Rio de Janeiro o saudaram como o Libertador do Comércio. Ele se sentia satisfeito pela decisão tomada naquele tumultuoso mês de novembro de 1807. No Brasil, era olhado com uma ternura que não tinha em casa, nem no seu país. Dona Carlota Joaquina, porém, não escondia o seu ódio aos brasileiros. E traía o marido cada vez mais. Ela não parava quieta em lugar algum. Nem acompanhava D. João, que vivia entre o Paço de São Cristóvão, onde passou a morar, e o Paço da Cidade, que deixara de ser a sua residência, por ele não suportar o barulho do comércio e dos cascos dos cavalos na rua Direita, durante o dia, e das bebedeiras e batuques noturnos na quitanda dos escravos. Se, em Portugal, D. João era um comodista, capaz de ficar quase um ano sem sair do palácio de Mafra, o que ia lhe valendo a fama de doido, no Rio ele se tornou um andarilho. No seu roteiro de passeios, estavam a Chácara de Botafogo, o Jardim Botânico – onde lhe construíram até uma casinhola -, a Ilha do Governador - ali se hospedando com os monges beneditinos -, a Ilha de Bom Jesus - a convite dos frades franciscanos -, a Ilha de Paquetá - na qual dispunha de uma casa particular -, a Fazenda de Santa Cruz.
Em A Pequena-Grande História de D. João, texto de apoio a uma peça teatral que escreveu para o Teatro A Barraca no ano de 1979, o dramaturgo português Helder Costa lhe reputa “uma vida trágica, de uma teatralidade Shakespeariana”. E traça-lhe um perfil irretocável: “A loucura da mãe empurra-o para o trono, o casamento com Carlota Joaquina para a infelicidade, a diplomacia internacional para o compromisso, a hesitação, a indefinição. O Brasil será o Paraíso onde o Rei irá descansar. Longe do campo de batalha em que se transformou a Europa, sente-se tranqüilo e seguro, próspero e compensado. Mas em Portugal, o povo agita-se e derrota o ditador inglês. Em pânico, as velhas famílias recordam-se do seu país de origem, das terras e dos palácios abandonados, e obrigam o Rei a voltar. Para que tudo regresse à ordem, para que o país não caia em excessos”.
Ele regressou a Lisboa em 1821, deixando em seu lugar o filho Pedro, que no ano seguinte iria reger a independência do Brasil. Junto com a comitiva real, seguiu, em suntuoso sarcófago, o corpo de D. Maria I (“Não corram tanto! Vão pensar que estamos fugindo...”), que esperou 5 anos para ser levado à sua última morada, uma sepultura no Convento do Coração de Jesus, o reino do silêncio que a soberana havia fundado, e de cujo trono loucura alguma a destituiria mais.
D. João VI morreu em 1826... envenenado! Final da história, nas exatas palavras de Helder Costa: “Morreram também o médico, o cirurgião e o cozinheiro. Para não ficar testemunha”.
Epílogo
Se, por um lado, D. João VI é reconhecido como um vulto excepcional da História do Brasil, à qual deu um grande impulso, por outro nunca se livrou inteiramente do estigma de fujão, covarde, feio, apalermado, sovina, ridículo, mal-amanhado em suas vestes remendadas, curto de inteligência, precário de caráter, filho de mãe demente, um porco que devorava 9 frangos por dia, estraçalhados à mão, jogando os ossos ao chão; e que não tomou um único banho nos 13 anos que reinou no Brasil. E chifrudo, ainda por cima. Ave Maria, Majestade! Mas consolai-vos. Enquanto o mundo girou e a lusitana rodou, vossa alteza agora era o herói. Alvíssaras, pois, pois.
Leitura e história em Hans Staden:
diálogos entre culturas no Sítio*
Antônio Torres
A leitura
Um livro de Monteiro Lobato, no qual, em seus serões no Sítio do Picapau Amarelo, Dona Benta conta aos netos Narizinho e Pedrinho as aventuras de Hans Staden, o alemão que um dia, no ano de 1547, saiu de casa, na pequena cidade de Homberg, no estado de Hessen, “para ver o mundo, viajar, cortar os mares”. No seu caminho estavam as cidades de Bremen, ainda na Alemanha, Campon, na Holanda, Setúbal e Lisboa, em Portugal, onde esperava embarcar rumo às Índias. Não encontrando navio em tal direção, engajou-se como artilheiro em outro, que estava de partida para o Brasil, com quarenta marinheiros. Depois de oitenta e oito dias de mar, eles chegaram a Pernambuco, colônia governada por Duarte Coelho, que pediu ao capitão do navio recém-chegado que o ajudasse, com os seus homens, a deter uma revolta dos nativos.
(Vejamos como Dona Benta explica aos seus netinhos os motivos dessa revolta:
-... Os colonos haviam capturado e escravizado alguns selvagens. A raça vermelha, ou índia, nunca suportou a escravidão. Preferia a morte, e se não fosse a ganância dos brancos, quer portugueses, quer espanhóis, ganância que os levou a insistir na escravidão dos índios, não teria havido nas Américas os horrores que houve).
Como viajava a serviço de Portugal, logo ao chegar à terra brasileira, o alemão teve que virar caçador de índios, e ajudar os colonos portugueses de Pernambuco a derrotá-los, depois de mais de um mês de batalhas. Aliás, nessa viagem não faltou campo de treinamento de guerra a Hans Staden. Pra cá e pra lá, houve muito tiroteio, nas caças a navios corsários, entre eles um de contrabandistas franceses de pau-brasil. Mas, batalha dura mesmo foi a do regresso a Lisboa, com 108 dias de calmaria. Os mantimentos escassearam e todos os marinheiros passaram fome. Para evitar a morte, tiveram de comer um carregamento de couro de cabrito que traziam a bordo. Só puderam tirar a barriga da miséria quando piratearam um barco inimigo, carregado de farinha, vinho e outras iguarias.
(Ao ser contado por Dona Benta, esse episódio suscitou o seguinte comentário do seu neto Pedrinho:
- Que boa vida! – exclamou o menino. – Bem diz vovó que a história da humanidade é uma pirataria sem fim...
Ao que Dona Benta respondeu:
- Infelizmente é verdade, meu filho. Com este ou aquele disfarce de pretexto, o mais forte tem sempre razão e vai pilhando o mais fraco.
Narizinho entrou na conversa:
- É a fábula do lobo e do cordeiro... lembrou a menina).
Bem, Hans Staden voltou a Lisboa são e salvo, depois de 16 meses de viagem. Descansou por uns tempos, já pensando em ir mais longe. Em 1549, ele partiu de Sevilha com uns espanhóis que queriam chegar ao Rio da Prata, e de lá seguir até o Peru, de onde esperavam voltar cobertos de ouro. O navio espanhol naufragou nas proximidades de uma praia chamada Itanhaém, no litoral de São Paulo, quando tentavam alcançar São Vicente. Todos se salvaram, a nado. Hans Staden resolveu ficar por ali, vindo a ser contratado pelos portugueses para combater os indígenas que lhes eram hostis. Em 1554, foi capturado e feito prisioneiro dos tupinambás por nove meses, sob o terror de ser devorado pelos temíveis canibais.
Para Monteiro Lobato, as memórias de Hans Staden representavam o melhor documento daquela época (século XVI), quanto aos costumes e mentalidade dos índios. Em vista disso, dizia ele, dona Benta não poderia deixar de contá-las aos seus queridos netos – como não poderiam as outras avós e mães deixar de repeti-las aos netos e filhos. E acrescentou: “Para facilitar-lhes a tarefa damos a público este apanhado, em linguagem bem simples, no qual seguimos fielmente a obra original”.
Lobato achava também que as aventuras de Hans Staden se equivaliam às de Robinson Crusoé, do livro de Defoe, que chegou a se tornar talvez o mais popular do mundo, graças exatamente às suas muitas adaptações para crianças, “remoçadas no estilo, de acordo com os tempos”. Foi o que ele fez em As aventuras de Hans Staden: uma adaptação com linguagem atualizada, emparelhando-as às de Robinson Crusoé em pitoresco, interesse humano e lição de moral. Sem se falar na capacidade de fabulação que ele emprestou à sua narradora de sempre, que bastava se sentar numa velha cadeirinha de pernas surradas para pôr as crianças à roda, cada uma mais interessada do que a outra em ouvi-la. E tome perguntas. Com paciência de avô, dona Benta dá verdadeiras aulas de português, história, geografia etc. Explica as divergências entre tupinambás e tupiniquins, e as dos portugueses com os franceses, trazendo para o Sítio do Picapau Amarelo os choques entre povos de culturas diferentes. E tudo com o poder de sedução da velha e boa contadora de histórias.
Numa nota biográfica sobre Monteiro Lobato lê-se que ele fez de dona Benta o personagem adulto que aceita a imaginação criadora das crianças, admitindo as novidades que vão modificando o mundo. E que seus personagens infantis são crianças abertas a tudo, querendo ser felizes, confrontando suas experiências com o que os mais velhos dizem, mas sempre acreditando no futuro. E nisso, acrescentemos agora, ele estabelecia um diálogo entre gerações. E também com o remoto passado, como em As aventuras de Hans Staden.
A história por trás do livro que Lobato reescreveu
No ano de 1557 era publicado na Alemanha um relato que instantaneamente causou um grande estardalhaço. Título: Descrição verdadeira de um país de selvagens nus, ferozes e canibais, situado no novo mundo América, desconhecido na terra de Hessen antes e depois do nascimento de Cristo, até que, há dois anos, Hans Staden de Homberg, em Hessen, por sua própria experiência, os conheceu e agora publica, aumentada e melhorada diligentemente pela segunda vez. Ou seja: a capa do livro era um resumo da obra, assombrosa, para os padrões da época. Foi um arraso, comparável ao que Hans Staden presenciou, ao ver o grande guerreiro Cunhambebe comandar uma batalha dos tupinambás contra os tupiniquins, concluindo que caíra nas mãos de um gênio militar. E o chamou de “chefe supremo”. Foi sua salvação. Naquele ano de 1554, o mais temido, respeitado e odiado dos morubixabas andava com a vaidade à flor da pele, por ter sido o cacique escolhido unanimemente para chefiar a Confederação dos Tamoios, que uniu várias tribos amigas e inimigas num só exército, de São Vicente a Cabo Frio. Por que Confederação dos Tamoios? Porque significava a união dos mais velhos do lugar (tamoio quer dizer isso), que viria a dar combates sem trégua aos invasores dos territórios indígenas, que amarelavam quando o grito de guerra de Cunhambebe fazia a terra tremer. PERÓS! Maneira de ele dizer: Ferozes. Era o que dizia dos portugueses, que também chamava de traiçoeiros e covardes. Vingava-se esfregando as mãos, lambendo os beiços e arregalando os olhos diante de um pedaço de português pronto para ser degustado, de preferência um braço e os dedos das mãos.
Quando foi apanhado, Hans Staden lutava com os tupiniquins, aliados dos portugueses, portanto inimigos dos tupinambás e de todos os confederados. Cunhambebe pensou que ele fosse português, o que o condenava à execução. O alemão insistia em dizer que era francês, pois sabia da aliança dos franceses com os nativos, contra os portugueses. Tenha sido pelo exercício da dúvida, ou pela lisonja, o certo é que Cunhambebe desistiu de devorá-lo, dando-o de presente a um cacique de uma aldeia amiga. O que não significou o fim do apavoramento de Hans Staden, que rezava o tempo todo. Conforme narrou em seu livro, Deus ouvia suas preces e o socorria, detendo tempestades, que tanto apavoravam os índios. Por suas graças recebidas dos céus, ia tendo o seu sacrifício protelado. Acabou escapando de ser o personagem principal de um ritual antropofágico, para contar a história. O episódio do seu embarque num navio francês é simplesmente eletrizante, envolvendo artimanha, diplomacia, sangue-frio.
Mesmo sendo considerada fantasiosa demais – logo, não tão verdadeira assim -, essa história provocou pesadelos nos seus leitores, que se viam digeridos por seres demoníacos, a lhes chuparem os ossos até o tutano. Nas peripécias de Hans Staden, não faltavam ação, suspense, perigo, exotismo, azares, golpes de sorte e... milagres! Foi, portanto, com essa infalível receita de best-seller, que surgiu numa pequena cidade chamada Marpurgo, a primeira edição do primeiro livro sobre o Brasil, cuja existência, conforme se lia no próprio título, os alemães desconheciam, ainda que a cobiça por novos mundos já tivesse tomado conta da Europa, sob a capa da sedução da aventura nos mares (“nunca dantes navegados”), que levavam às riquezas desconhecidas em terras e ilhas distantes. Tal avidez havia se intensificado já nos inícios das grandes navegações, a partir de uma carta do navegante florentino Américo Vespúcio, publicada em Paris como um folheto, em fins de 1503 ou inícios de 1504. Nessa carta, endereçada ao financista de Florença Lorenzo di Pierfrancesco dei Médici, seu patrão e amigo, a quem chamava de “magnífico”, Vespúcio relatava a viagem que fizera em 1501-1502 às “novas regiões que – por mando desse sereníssimo rei de Portugal, às suas custas e com sua frota – procuramos e encontramos, às quais é lícito chamar de Novo Mundo, porque nenhuma delas era conhecida dos maiores; porque é coisa novíssima para todos que ouvira [falar] delas...” Fechemos as aspas para lembrar que ele estava a reportar-se à expedição lusitana às costas brasileiras, no ano seguinte à de Pedro Álvares Cabral, numa longa jornada comandada por Gonçalo Coelho, que resultou nos batismos do Cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte, Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, Baía de Todos os Santos, Rio de Janeiro, Angra dos Reis, Santos e São Vicente, dali seguindo até a Patagônia. O Novo Mundo descrito por Américo Vespúcio dava asas à imaginação do velho continente: era sem rei nem lei, com uma população imensa, impressionável pela sua total liberdade de costumes – social e moral -, pois desconhecia o pecado; todos viviam como saíam do ventre materno, em despudorada libidinagem, entregando-se perdidamente aos excessos amorosos; doença era raridade – e facilmente curável, com ervas; vivia-se 150 anos, caso não se morresse antes, nas guerras tribais; os homens eram fisicamente perfeitos e as mulheres formosíssimas, inclusive “nas partes que não podem honestamente ser nomeadas”; além disso, os homens podiam possuir quantas mulheres desejassem; e elas, em sua luxúria que excedia a imaginação humana, inventavam artifícios que tornavam o ato do amor mais excitante. Acrescentemos a isso as referências aos rituais canibalísticos e imaginemos o impacto causado aos corações e mentes do Velho Mundo.
Lida avidamente, a carta de Vespúcio contabilizou em pouco tempo vinte e cinco edições em latim, italiano, alemão, holandês e tcheco. Esse sucesso retumbante foi esquentado por uma edição em Veneza, quando apareceu na capa, pela primeira vez, o título Novus Mundus. A sua repercussão se tornou mais espetacular ainda quando um editor de Augsburgo, em uma cartada genial, inseriu ilustrações que amplificaram o interesse pelo documento. E depois vieram outras cartas, algumas tidas como falsas, o que pouco importava. Àquela altura, o navegante florentino já tinha se tornado a personagem mais lendária dos descobrimentos.
Para além do seu alcance popular, os escritos de Américo Vespúcio viriam a ter influência na construção teórica do estado natural do homem, iniciada pelo humanismo filosófico do século XVI. Foram lidos por Michel de Montaigne, Erasmo de Roterddam, Thomas Morus, Rabelais, Nicolau Maquiavel – e também por Leonardo da Vinci e Boticelli. E empanaram a aura heróica de Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral. Tanto quanto o brilho do escrivão da frota de Cabral, Pero Vaz de Caminha, autor da carta a el-rei Dom Manuel, datada de primeiro de maio de 1500, que o tempo consagraria como a certidão de nascimento do Brasil, e também como uma crônica admirável, pela riqueza de informações sobre a terra, que lhe pareceu bela e rica, e seus habitantes, que descreveu como se os pintasse: “A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar as vergonhas; e nisto têm tanta inocência quanto em mostrar o rosto”, Caminha escreveu, daqui da Bahia, dali, de Porto Seguro. Com tanta agudeza de percepções, por que sua carta, e a de Colombo, não repercutiram tanto quanto a de Américo Vespúcio?
No caso do genovês, provavelmente por ele não haver localizado corretamente as Antilhas caribenhas aonde os ventos o levaram. Situou-as no Oriente, ou seja, na cobiçada Índia, chamando os seus habitantes de índios, designação que se tornaria comum a todos os povos do continente. Mesmo tendo garantido haver entre eles homens que nasciam providos de rabo, como os macacos, a carta de Colombo não produziu uma fascinação comparável às aventuras de Marco Pólo, no século XIII, nem às do seu contemporâneo Américo Vespúcio.
Quanto à carta de Caminha, passou em branco. Nem sequer foi aberta por Dom Manuel I, que a largou sobre um móvel, onde não despertou a curiosidade de ninguém, durante muito tempo. Deveu-se isto à política do sigilo de Portugal, em decorrência de sua rivalidade com a Espanha, que vigiava todos os seus projetos marítimos, através de um bem montado serviço de espionagem. Mas, pelo visto, Américo Vespúcio não se via obrigado a silenciar sobre suas idas e vindas nos caminhos marítimos dos portugueses, os quais seguira menos a mando de D. Manuel I e mais a convite de um banqueiro seu compatriota chamado Bartolomeu Marchionni, que vivia em Lisboa. Personalista, sedento de fama, nada o deteria em sua busca de notoriedade. Tanto que passou por cima de Colombo, Cabral, Caminha e Gonçalo Coelho - de quem era comandado e ao qual jamais fez a menor referência – e acabou patenteando para si próprio o que chamou de “a quarta parte do mundo”, que a partir de então passaria, pelos séculos afora, a ser a América do Américo, apenas por haver escrito uma carta na qual batizou um continente, e com ela, e mais algumas outras prováveis ou improváveis, se tornou o mais lido cronista dos descobrimentos, deixando a Europa aturdida ao ver que havia no mundo um outro rosto além do seu. Um rosto selvagem, porém belo, com uma boca que comia carne humana, para se refazer das energias gastas nas batalhas. Pois assim vivia o velho povo do Novo Mundo: em festa ou em guerra.
Marinheiro que pegou o barco quando as grandes navegações já haviam avançado em mais de 40 anos, Hans Staden não se destinava à lenda dos navegantes epopéicos. Era um anônimo em busca de horizontes fora do limitado Velho Mundo. Entre as aventuras transatlânticas e as desventuras de um naufrágio e da vida de prisioneiro sob a ameaça de ser devorado pelos canibais, sentiu na pele o que os outros escritores viajantes viram apenas de passagem. Por isso ele fez o relato mais impressionante daquela época, que teve numerosas edições em alemão, flamengo, latim, inglês e francês. Mas só apareceria em língua portuguesa no finzinho do século XIX, no quarto volume da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Para Lobato, com o passar do tempo o livro de Hans Staden se tornara incompreensível e indigesto, só interessando aos eruditos. Daí, conforme suas próprias palavras, ele, o criador do Sítio do Picapau Amarelo, o haver traduzido em linguagem acessível às crianças, “em harmonia moderna, troante com o gosto do momento”, para o encanto e espanto dos meninos de antigamente, entre os quais se incluía este que vos fala.
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*Trabalho apresentado no II Enllij/ UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, na cidade de Jequié, em 2 de maio de 2008.
salvador
Uma Salvador sem farofa e sem dendê
Antônio Torres
(Conferência proferida na Fundação Casa de Jorge Amado, em 15 de maio de 2003, na abertura do curso A cidade de Salvador na literatura).
Situação geográfica privilegiada. Topografia acidentada. Uma história que começa nos anos 500 e segue pelas ruas - nas ruas que ainda mantêm as marcas da sua origem. 365 igrejas, uma para cada dia do ano. O passado europeu. Sincretismo religioso. O presente africano. Sacra e profana. Festeira o ano inteiro. Popular e erudita. Usos e costumes peculiares. Sete cores em sua cor. E todos os seus caminhos dão no mar.
Foi com imagens assim, tipo exportação, que Salvador se tornou uma das cidades mais sedutoras do planeta.
Sim, não há como negar que ela tem sido uma fonte inesgotável de inspiração para poetas, prosadores, pintores, escultores, dramaturgos, cineastas, compositores. Teve um até que fez uma das músicas mais tocadas e cantadas do país, sem nunca ter posto os pés aqui, ao que dizem. Trata-se do mineiro Ari Barroso, o autor de Na Baixa do Sapateiro. Quem não se lembra?
Na literatura, a sua imagem está indissoluvelmente ligada aos cenários e à galeria de tipos humanos criados por Jorge Amado, que tanto encantaram o mundo, como sabemos todos. Jorge Amado! Aquele que fez do regional, nacional. E do particular, universal. Quem não sabe?
Mas, na contemporaneidade, quais são os seus pintores? E como os novos ficcionistas baianos estão pintando e bordando esta cidade?
Ora, é possível que, quando a maioria deles nasceu, Salvador já não era mais a doce província do tempo dos seus pais, aqueles que andavam de bonde sem maiores atropelos. Quando se deram por gente, perceberam que eram pedestres cheios de temor em meio a "uma realidade de violência ameaçada pelo caos," para usar uma expressão do nosso Hélio Pólvora sobre o Brasil das últimas décadas. Sua explosão demográfica instaura a instabilidade no percurso de seus habitantes, provoca o redesenhamento da urbe, amplifica o desnivelamento social, cria novas tensões, tudo a se refletir nas cores com que os pintores irão esboçar os seus quadros. Há algo de novo na paisagem. Se a moldura da cidade continua reconhecível, o que está dentro dela terá que ser visto com outros olhos.
Vocês poderão contra-argumentar que este palestrante não mora aqui e portanto não sabe o que está dizendo.
Antes de continuarmos, é bom deixar claro que o exposto acima é o resultado de impressões de leitura das reileituras da cidade através do olhar de seus escritores, na atualidade. E também que não pretendemos estabelecer um confronto entre o que se escreveu no passado, tendo Salvador como cenário, e os textos dos contemporâneos. Não se trata de comparação ou juízo de valor. A literatura que antecede à que iremos destacar tornou-se patrimônio da cidade e do país. A que prossegue, ainda está em processo. Se terá progresso, só o futuro poderá responder.
O presente, porém, indica que as novas pulsações da cidade estão sendo captadas, por exemplo, pela prosa de um autor como Ildásio Tavares. Por uma questão de ajuste ao seu argumento, porém, este palestrante tecerá algumas considerações em torno de um ficcionista mais novo do que Ildásio Tavares e ele próprio, o Aramis Ribeiro Costa, e dos novíssimos Carlos Ribeiro e Jean Wyllys.
Comecemos por Aramis Ribeiro Costa, que descreve à perfeição o que Salvador representa no imaginário do próprio estado da Bahia, ou seja, qual é a sua imagem para consumo interno, em A história de Joselita, a segunda novela do seu livro O fogo dos infernos, publicado em 2002 pela Editora Iluminuras, de São Paulo. É um caso exemplar.
Vejamos:
"Joselita só não era igual às outras meninas da roça porque tinha um sonho: morar na Bahia. A Bahia, para ela, era a cidade grande das compridas avenidas, dos largos e das ladeiras, dos bondes, dos ônibus, dos lotações e dos automóveis, dos elegantes magazines, do Elevador Lacerda, dos cinemas e da Rua Chile. Era a cidade das festas de largo, do Carnaval dos carros alegóricos, dos homens ricos e bonitos que podiam gostar dela. Era a capital. Salvador. Mas que, para Joselita e os da roça, a perdida rocinha entranhada nos matos, perto de Saubara, era a Bahia."
Esta história, que começa com o sonho de Cinderela de uma pobrezinha tabaroa, termina de forma cruel.
Foram as imagens sedutoras da festeira, consumista, divertida, rica, civilizada Salvador que fizeram a interiorana Joselita sonhar em mudar de vida, desde o dia em que uma boa senhora mostrou uns postais da cidade para a menina franzina vendedora de legumes e verduras. Por um golpe da sorte, aquela santa senhora iria receber uma carta de uma sobrinha que morava na capital, pedindo-lhe uma babá. Pronto, estava selado o destino de Joselita, que iria embarcar na sua "viagem inventada no feliz," como o menino do conto de João Guimarães Rosa, As margens da alegria. Afinal, ela estava realizando o maior dos seus desejos: trocar a solidão da roça pela animação da cidade grande. O que ela ainda não sabia: que estava trocando um mundo de feições reconhecíveis por um outro, no qual seria apenas mais um rosto na multidão. Na capital, Joselita verá o seu sonho se transformar em pesadelo. Pior: chafurdará nas profundas de um inferno que a levará à loucura. Não lhes contarei o final. É trágico mesmo. E de altíssima voltagem literária.
Já nas primeiras linhas desta novela de Aramis Ribeiro Costa o leitor aqui se reviu, lá na roça onde nasceu. Na verdade, primeiro ouviu ao longe a voz do seu pai, que sempre acordava cantando, no caminho entre o seu quarto e a cozinha, onde começava o seu dia fazendo um café, antes de ir tirar o leite das vacas, no curral bem ao lado da casa. Uma das músicas que ele gostava de cantar começava assim:
"Bahia,
quem pintou tua aquarela,
eu vi farofa amarela,
vatapá e cangerê..."
A novela do Aramis fez também com que este leitor se lembrasse das tantas vezes em que o seu pai lhe contava e recontava a história de uma epopéica viagem à Bahia, para pagar uma promessa ao Senhor do Bonfim: sete léguas a cavalo do povoado do Junco até a sede do município, a cidade de Inhambupe; a longa espera por um transporte motorizado de Inhambupe para Alagoinhas; o trem de Alagoinhas para Salvador, onde quis apenas achar a igreja do Bonfim, entrar nela tirando o chapéu, se ajoelhar, rezar e ir embora. Com a vagareza dos transportes e o tempo perdido nas baldeações, levou sete dias para vir e voltar. Contando o seguinte:
- De sete em sete léguas cheguei lá. E vi que a cidade tem sete léguas de ruas. É tão grande que é como ir daqui a Inhambupe. Lá, é como na guerra, onde filho chora e pai não vê.
O filho dele iria vê-la pela primeira vez aos 15 anos, trazido por um tio. Vieram num trem tão bonito que todos chamavam de Marta Rocha. Saltaram na estação da Calçada, pegaram um ônibus para a praça Cayru, subiram para a Cidade Alta pelo Elevador Lacerda, depois entraram num lotação e saltaram no Farol da Barra, cara a cara com o mar. Imagine o deslumbramento. Era uma tarde de sereias ao sol. O rapazola interiorano já não sabia o que mais o estonteava: se a imensidão das águas com suas ondas de espumas flutuantes, a luminosidade às vezes azulada, às vezes esverdeada, de franzir os olhos, ou a esplêndida visão de uma beldade em trajes sumários. Era como se acabasse de adentrar o paraíso. E lá estava Eva, quase como viera ao mundo. Um pouquinho mais recatada, talvez por temor de um novo castigo de Deus. Ainda assim, aos olhos de um capiau, aquela Eva de maiô era de provocar desmaios.
E a partir de então, como a Joselita da história de Aramis Ribeiro Costa, ele passaria a sonhar em viver na capital. Onde só aos dezenove anos viria a morar. Instalou-se num cubículo da rua João de Deus, a dois ou três passos do Terreiro de Jesus. O prédio tinha uma plaquinha na porta: "Família." Em frente dele, havia um cabaré com uma vitrola que toda noite tocava a música da Dolores Sierra, a que havia nascido na roça e sonhava em viver na cidade e agora morava em Barcelona, na beira do cais.
Ele também, o rapazola interiorano recém-chegado à capital, foi parar na beira do cais. Mas como repórter de setor do Jornal da Bahia. Quis a sorte que o seu destino fosse diferente do das Joselitas e Dolores Sierras. E chega de reminiscências.
Bahia: olha só como o contista Carlos Ribeiro está pintando a tua aquarela:
"Dez horas da noite. Marcos espera o ônibus no ponto próximo ao Clube do Bahia, na Boca do Rio. Horário ruim aquele para Marcos esperar o ônibus. Você sabe, Salvador não é mais aquela cidadezinha provinciana dos anos 60/70. Somente no último final de semana, nada mais, nada menos que 12 coletivos foram assaltados. Em um deles, o cobrador foi morto com um tiro na cara. Em outro, um tiroteio entre os assaltantes e um policial civil resultou em 7 pessoas feridas, incluindo um bebê e uma anciã que saltou do veículo em movimento, quebrando as duas pernas e sofrendo rachaduras na bacia. Outra mulher, mais gorda, ficou entalada na janela e só pôde ser libertada cinco horas mais tarde, graças à ajuda de um maçarico.
Só rindo, pensa Marcos. O diabo é que, em muitas dessas tragédias cotidianas, há quase sempre uma nota humorística que torna a coisa toda inverossímil: anciãos que encontram forças para saltar de um ônibus em movimento, maridos que fogem às pressas deixando mulheres e filhos para trás, gente correndo para um lado, gente gritando para o outro, uns se espremendo em janelas, outros se esbarrando em cercas, outros ainda metendo os pés em poças de lama. Só rindo."
Isto é só o começo de um conto intitulado O assalto, esquete noturno de uma Salvador em bad trip, no sentido literal da expressão. Está no livro O visitante noturno, publicado em 2000 pela Empresa Gráfica da Bahia. Já pelo título podemos prever que essa não será uma história de fritar bolinhos. Aqui são os passageiros dos ônibus urbanos, em trânsito ou parados nos pontos, que são fritados. Como um cego no meio do tiroteio, um deles, chamado Marcos, chega a ter vontade de rir, diante da violência banalizada, que o deixa à beira da imbecilização.
Vencedor, em 1988, do concurso de contos da Academia de Letras da Bahia, Carlos Ribeiro é um dos mais talentosos representantes da geração 90, marcadamente de contistas. A maior concentração de nomes dessa geração parece estar em São Paulo. Entre o baiano que escreveu O assalto e o paulista Marçal Aquino, autor do livro Faroestes e do roteiro do filme O invasor, há algo em comum: a visão das suas cidades sem utopias. O personagem de Carlos Ribeiro pensa nos políticos como "um monte de bosta, que não faz nada de concreto para melhorar a vida do povo." E pensa em si mesmo "como um pária." E assim marcha a cidade na literatura: dominada pela demagogia e a corrupção, ela vai, cada vez mais, entregando os seus cidadãos à própria sorte. E nisso Salvador não está sozinha, dirão os personagens do Rio, de Recife, de Belo Horizonte etc.
São Salvador da Bahia: se não gostou do duro retrato que Carlos Ribeiro fez de você, aguarde o próximo capítulo. E vá desviando os seus olhos dengosos que aí vem o aflito Jean Wyllys.
Não esperneie, não, nega. O escritor escreve o que vê, o que sente, o que percebe, sabe disso, não sabe?
Entonces, encoste a sua cabecinha no meu ombro que eu vou lhe contar um causo que me contou esse menino de Alagoinhas de nome meio francês e meio inglês ou holandês, sei lá. Jean Wyllys, veja vosmecê. Très chic!
O título do conto dele é: Caça e caçador. É do seu livro Aflitos, um dos vencedores do Prêmio Copene de Cultura e Arte - Literatura, de 2001, e publicado pela Editora Casa de Palavras, da Fundação Casa de Jorge Amado.
Vamos lá:
"As luzes de vapor de sódio e os prédios cinzas da Avenida Sete deslizavam sobre o pára-brisa do carro. Da janela, Miguel observava cada esquina ou poste. Poucas pessoas transitavam e havia alguns miseráveis nas calçadas. Já era a terceira vez que ele passava pelo local, depois de ter contornado o edifício Sulacap e subido pela Carlos Gomes, à procura de alguma companhia. Na altura do Palácio da Aclimação, só havia os travestis - aquelas criaturas vivas, que costumam colorir a noite com sua arte radical. Mas, próximo à Praça da Piedade, apareciam, de vez em quando, alguns garotos de programa - meninos da periferia que, não raro, prostituíam-se por um jantar. "Com um pouco de paciência," pensava Miguel, "consigo um interessante."
Depois de mais duas voltas, ele encontrou alguém que correspondia aos seus sonhos. Parou o carro e perguntou: "E aí, tá na batalha?" O garoto - branco e bonito, apesar do vísivil maltrato - consentiu com a cabeça. Miguel abriu a porta do carro e ele entrou. "Ponha o cinto. Como você se chama?" "Gabriel," respondeu o garoto. "Nós temos nomes de anjos. Você acredita em anjos?" Gabriel contou que fora assim batizado porque sua mãe sonhara com um anjo de asa quebrada, afogando em um mar de sangue. Miguel olhou, por alguns segundos, as águas escuras da Baía de Todos os Santos, vigiadas pelas luzes solitárias das embarcações, e disse "É um sonho triste."
Quando chegaram em casa, Miguel pediu a Gabriel que se abaixasse, pois não queria chamar a atenção do porteiro. A garagem estava silenciosa. Subiram pelo elevador de serviço. Ao entrar em casa, a primeira coisa que Gabriel fez foi comer um pedaço de bolo que estava sobre a mesa. "Calma, você vai ter tempo para comer o que você quiser. Antes, vamos ao serviço." Dirigiram-se para o quarto. Gabriel prestava atenção nos móveis, eletrodomésticos, nos quadros... Nunca vira apartamento tão bonito. Miguel ligou o som de cabeceira. A música Menino Deus, de Caetano Veloso, encheu o aposento. Em seguida, começou a se despir. Só depois de tirar toda a roupa, foi que ele percebeu que Gabriel empunhava uma faca de lâmina larga. "Quieto. Não grite. Eu não vou lhe matar. Só quero a sua grana, o relógio e os Cds.," sussurrou. Miguel, com as mãos para cima, tentava articular algumas palavras enquanto se aproximava do criado-mudo. "Não se meta a besta, desgraçado, senão eu ranco suas tripas fora," ameaçou. Miguel abaixou-se para abrir a gaveta, no momento em que Gabriel avançou sobre ele com a faca em posição de ataque. Seis estampidos abafados pelo silenciador interrompeu, em frações de segundo, a melodia da canção. Semi-abertos, os olhos de Gabriel refletiram a face pálida de Miguel, ao passo que seu corpo parecia mergulhar num mar de sangue."
Está contado o conto de Jean Wyllys, um que anda por aí como um repórter da vida, a espreitar as zonas de sombra, onde a solidão faz esquina com a violência, e por onde perambulam peregrinos urbanos de almas aflitas, mendigantes do amor mal soletrado, no lado avesso da cidade que, nos impasses de sua caótica pós-modernidade, já não nos oferece uma aquarela, mas um laboratório de experiências humanas perturbadoras que, pelo visto, estão engendrando uma nova literatura baiana. Que pode ser tão infernalmente cruel e tão assustadoramente violenta quanto a realidade que nos cerca. Mas, com certeza, é de alta qualidade.
assino
Que mediações e
processos traduzem experiências de vida em
textos literários?
Conferência pronunciada no seminário Eu assino embaixo - biografia, memória e cultura, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, em 22 de abril de 2003. Tema: Escutas do Eu e do Outro, Escritas da Vida).
Eis aí uma pergunta para a qual o escriba aqui não tem uma resposta definitiva. E se tivesse apenas 30 segundos para respondê-la, certamente diria: "Não sei." Mas tive alguns dias e muitas horas para buscar os fios que ligam os autores a seus personagens, o vivido ao narrado, enfim, os substratos autobiográficos que embasam certas obras de ficção, e não só as de minha (modesta, vá lá) autoria, o que imagino seja a expectativa de vocês, uma vez que esta é a tarefa que me cabe, neste seminário. Agora tenho 29 minutos para lhes apresentar o resultado dessa busca.
Comecei pegando um livro cujo título é outra pergunta: "Por que escrevo? Ao abri-lo, dei de cara com umas linhas de um escritor contemporâneo, o paulistano Bernardo Ajzenberg, autor, entre outros, de um romance admirável, o Variações Goldman. "Como a pedra e suas camadas, tudo aquilo que funda o gesto criador é fruto de acumulação" - diz ele. E completa: "Nada surge do nada." Eis aí, eis aí: nada surge do nada. Elementar, meu caro Watson. Isto vem bem a calhar, pensei eu, já não mais me sentindo no grau zero deste texto.
Naquele mesmo livro - Por que escrevo? -, Glauber Rocha referiu-se ao processo de acumulação da seguinte maneira: "O escritor escreve o que vê, o que lê, o que percebe, o que sofre." Pelo visto, ele não escrevia tendo apenas uma idéia na cabeça e uma câmara na mão. Estou falando do baiano que fez um filme que é um romance que eu gostaria de ter escrito, o Deus e o diabo na terra do sol, que não deixa de ser um produto de suas errâncias pelos sertões e de suas leituras de Euclides da Cunha, Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa, somadas à estética e ética de um John Ford, o clássico dos faroestes, do japonês Akira Kurosawa, do italiano Roberto Rosselini e às narrativas dos cegos cantadores nas feiras do Nordeste. Quer dizer: de tudo que leu, viu, ouviu, percebeu, sentiu e sofreu, como homem do sertão antenado com esse mundo de Deus e do diabo.
Portanto: nenhum texto literário surge do nada, mas de uma soma de vivências e leituras. E tudo isso filtrado pela memória e embalado pela dialética do discurso ficcional.
Ao escrever aqui a palavra memória, uma lembrança me acode. A de uma frase de William Faulkner, o Prêmio Nobel de Literatura de 1950, em seu livro Luz de agosto. Esta frase: "É a memória, e não a dor, que faz você se lembrar de centenas de ruas selvagens e ermas." Lembrança puxa lembrança: uma vez li em algum lugar que Faulkner escreveu o seu monumental O som e a fúria ao se lembrar dos lamacentos fundilhos das calças de uma menina numa árvore, da qual ela podia ver, através de uma janela, onde os funerais da sua avó estavam sendo realizados. O título do romance surgiu de outra lembrança: uma fala de um dos personagens de Shakespeare, o Macbeth, quando este monologa sobre a vida e conclui que ela é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada. E assim temos um caso exemplar da fusão de memória e leitura, que resultou num dos romances mais criativos e mais fascinantes de todos os tempos, uma saga familiar que começa com um personagem idiota de 33 anos que parou de evoluir mentalmente aos três. É arrebatador. Dou-lhes aqui um pequeno exemplo de como em O Som e a fúria ele atingiu a culminância da arte de escrever, quando dá voz a um personagem suicida chamado Quentin. Enquanto se prepara para cometer o tresloucado gesto, esse seu personagem rememora:
"Quando a sombra do caixilho apareceu nas cortinas era entre sete e oito horas da manhã e então eu já estava no tempo outra vez, ouvindo o relógio. Ele era do meu avô, e quando o meu pai o deu para mim disse: Quentin, eu lhe dou o mausuléu de toda esperança e de todo desejo; é mais do que penosamente possível que você irá usá-lo para adquirir o reducto absurdum de toda experiência humana, mas não satisfará as suas necessidades individuais, como não satisfez as dele ou as de seu pai. Eu o dou a você não para que se lembre do tempo, mas para que possa esquecê-lo por alguns momentos e não gaste todo o seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque as batalhas nunca se ganham, ele disse. Nem sequer são travadas. O campo de batalha só revela ao homem a sua própria loucura e desespero, e a vitória não é mais do que uma ilusão de filósofos e loucos."
Não. Não é a primeira vez que o espírito do finado Faulkner baixa nas teclas do escritor que vos fala. O meu primeiro livro, Um cão uivando para a Lua, tem a seguinte epígrafe: "Entre a dor e o nada, eu escolho a dor." É a frase final de uma bela e trágica história de amor, o romance Palmeiras Selvagens, e da qual ele iria fazer blague. Assim: "Entre o uísque e nada, eu escolho o uísque." Bem, o velho Faulkner era tão bom de letras quanto de copo, tanto que, no ano de 1954, ao acordar de ressaca, no quarto de um hotel em São Paulo, onde participava de um congresso de escritores, não fazia a menor idéia em que cidade do planeta se encontrava. Tentando se situar, puxou as cortinas. Ao dar de cara com os arranha-céus paulistanos, exclamou, cheio de horror: "Oh, my God, Chicago again!"
Pronto. No capítulo das leituras, Willliam Faulkner passou pelas mediações e processos que têm permeado as experiências de vida nos textos literários do palestrante aqui, posto que as leituras fazem parte dessas experiências. Elas acabam se tornando uma segunda natureza do escritor. Este aqui, em tudo que escreve, por vezes se sente homenageando todos aqueles que contribuiram para povoar a sua mente com fabulações que deram asas à sua imaginação, a começar pelos narradores anônimos de sua infância que, para espantar o medo da noite, reuniam-se ao pé de um fogão, contando histórias de arrepiar, cujos enredos envolviam almas penadas a arderem no fogo-fátuo, gralhas mal-assombradas, mulas sem-cabeça, lobsomens, zumbis, personagens apavorantes que o levavam a perder o sono. Qualquer ranger de porta, farfalhar de uma árvore ou o pio de uma ave noturna passavam a ser uma assombração.
Mas o mais fantástico foi quando apareceu ali, naquele lugar esquecido nos confins do tempo, no sertão da Bahia, uma professora para dar aulas na Escola Rural. Ela trazia um livrinho chamado Seleta Escolar. Tratava-se de uma pequena antologia de textos de autores como Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar, Castro Alves e Gonçalves Dias. Foi como se, antes daquele livrinho, o mundo não existisse para mim. E logo descobri o que queria ser quando crescesse: Castro Alves! Aquele que tinha uma cabeleira à altura de seus poemas e dava muita sorte com as mulheres.
Moça de fino trato, a professora percebeu o meu encanto pelos textos daquele livrinho, que me pôs a ler em voz alta, todo dia. Gaguejando, tropeçando nas palavras, fui aos poucos pegando desenvoltura. E então a professora passou aos exercícios de redação, com temas da nossa realidade cotidiana: a minha casa, a minha escola, as estações do ano (bom, lá só tinha duas: inverno e verão; escrever sobre as outras exigia imaginação. Mais ainda sobre um dia de chuva. Como o lugar era chegado a uma seca, acho que foi esse tema que fez de mim um romancista).
A notícia de que havia um menino da roça que ia bem na escola, a ponto de já estar lendo e escrevendo mais até do que muita gente grande, correu solta pelas baixadas, tabuleiros e taperas. Foi aí que aquele menino acabou se tornando uma espécie de leitor e escriba público.
Tudo começou num dia de feira, quando eu ia chegando ao povoado, vindo da roça em que vivia. E logo à entrada, estava um rapaz à minha espera, num beco, com uma folha de papel e um lápis na mão. Ele me pediu para escrever uma carta para uma moça, da qual estava apaixonado, mas não tinha coragem de lhe dizer isso pessoalmente. E não sabia escrever. Compadecido com a sua confissão e lisonjeado por ter sido o escolhido para uma função de tamanha importância, tentei fazer minha a sua paixão, embora sentindo o peso da responsabilidade. Se não encontrasse palavras convincentes, poderia pôr tudo a perder. O certo é que não foi tão difícil assim passar para o papel os sentimentos de uma outra pessoa. Eu, menino, estava era aprendendo alguma coisa sobre o que um apaixonado sentia. Ele sabia o que queria dizer. Como expressar isso na ponta do lápis era comigo. Na segunda-feira seguinte lá estava a moça, naquele mesmo lugar, para me pedir que lesse para ela a carta que eu mesmo havia escrito e... escrever a resposta!
A partir daí, ia ser assim: o menino passava a ser procurado por todos aqueles que não haviam chegado à palavra escrita, como as mulheres da roça, quando recebiam cartas de seus maridos que tinham ido embora, em busca de trabalho nas terras ricas do cacau, no sul da Bahia. Cheias de saudades, ansiosas por notícias dos seus maridos, aquelas senhoras se penduravam no ombro do menino e derramavam sobre ele uma chuva de lágrimas a cada linha lida e a cada palavra dita em resposta aos seus entes queridos, desaparecidos em terras longínquas. Ler e responder aquelas cartas era de cortar o coração.
Mais triste do que isto era quando o chamavam à casa de alguém que estava morrendo. Nessas horas, ele tinha que ler um livro de rezas diante do moribundo e da platéia que o velava. Prepare-se para o pior: como o doente já estava nas últimas, não ia haver oração que o salvasse. E aí o menino iria viver suas piores noites de terror, achando que a alma penada do falecido viria pegar no seu pé, acusando-o de não ter lido as rezas com a fé necessária para salvá-lo.
Eu iria me lembrar disso no dia em que escrevi num de meus livros: "Não é a fé que remove montanhas, mas o complexo de culpa."
E aí já está um exemplo de como as experiências de vida permeiam a minha escrita.
Dou-lhes outros.
Um cão uivando para a lua.
Primeiro: devo esse título a um gigante do jazz. De tanto ouví-lo, achei que a sonoridade do trompete de Miles Davis se assemelha a de um cão uivando para a lua, ainda que seja para um luar inexistente. Essa associação de idéias me veio ao visitar um amigo carioca que estava internado num manicômio, onde passava uma temporada no inferno dos eletrochoques. O consumo de drogas o levara a isso. E assim o encontrei: com a cabeça raspada e espumando loucamente. Os calmantes que os médicos lhe davam o deixavam ainda mais excitado. Voltei para casa chocado. E com uma pergunta na cabeça: onde estará a fronteira entre sanidade e loucura? Telefonei para um psicanalista amigo, o doutor Alexandre Kahtalian, contando-lhe o sucedido. Ele conhecia o meu amigo. E me disse que provalmente se tratava de um processo esquizofrênico que as drogas fizeram vir à tona. E que, ao que tudo indicava, aquele meu amigo iria passar o resto da vida entrando e saindo dos surtos. E o pior seria nos momentos, digamos, de normalidade. Nesses, ele iria perceber o quanto estava estigmatizado. Uma vez catalogado como louco, nunca mais iria se livrar do rótulo. O preconceito à sua volta iria fazê-lo sofrer tanto quanto os eletrochoques. Desliguei o telefone com a frase de Faulkner na cabeça: "Entre a dor e o nada, eu escolho a dor." E fui para o teclado. E bati isto:
Passei o dia todo subindo e descendo escada. Preciso me cansar. Que saco. Não, não sou eu quem está louco. São esses médicos incríveis. Sim, os loucos são eles. Eu simplesmente os odeio. Estou te chateando. Estou te enchendo, não estou? Desculpa, é por causa dos remédios. Acho que já não tenho sangue nenhum nas veias. Tenho drogas.
Segui escrevendo. Como um louco.
Oito meses depois tinha um romance nas mãos.
Um cão uivando para a lua! Se era uma fabulação permeada pela minha visita àquele meu amigo internado, ou pelo trompete de Miles Davis, ou por uma frase de Faulkner, ou pelo leitura de Hospício é Deus, de Maura Lopes Cansado, ou se aquele cão era eu mesmo, pouco importava. Era só um romance, do qual a crítica disse ser de toda uma geração. Mas houve quem achasse que o seu autor devia ser um louco mesmo. Recebi cartas assim: "Se você é como o seu personagem, não queria estar na sua pele." E: "Você pôs na mão da gente, você ferrou a gente com esse livro doido." Numa viagem a Curitiba com um colega de trabalho aqui do Rio, ele convidou uma amiga para jantar conosco. Foi uma noite muito agradável. Contamos piadas e demos muitas risadas. Na despedida, porém, ela confessou que teve medo de aceitar o convite para aquele jantar.
- Mas que bom que você é bem diferente do que eu imaginava! - ela disse.
Intrigrado, perguntei-lhe:
- Como você imaginava que eu era?
E ela:
- Doidão! Como no seu livro.
Voltei de lá com dois consolos. O primeiro: aquela moça, lá no distante Paraná, havia me lido. O segundo: e agora ela me achava uma pessoa normal.
Bom, isso se passou há 30 anos. Um cão uivando para a lua acaba de ser relançado pela Editora Record, numa edição comemorativa, que já não espanta ninguém. Loucura mesmo é o que estamos vivendo hoje, não? Mas ainda há quem diga: é tão atual... Felizmente, não há mais quem tema se aproximar do seu autor, achando que ele é um louco furioso.
Depois do primeiro livro vieram os outros, de enfiada. Críticos e leitores iriam ver algo de autobiográfico em todos, ou quase todos, principalmente em Os homens dos pés redondos, Essa terra, Um táxi para Viena d’Áustria e O cachorro e o lobo. É que nesses livros alterno um narrador em primeira pessoa com um outro, onisciente. Isso faz parte de uma estratégia. Escrevendo em primeira pessoa do singular, tento me plasmar no personagem, entrar mais fundo nele. Na terceira, busco um distanciamento crítico do narrado. Como se fosse um dramaturgo que usasse as técnicas de Konstantin Stanislavski e de Bertold Brecht ao mesmo tempo - e me perdoem por tão altas pretensões.
Mas se o narrador em primeira pessoa me deixa mais próximo do personagem, fazendo com que me sinta na sua pele, isto não significa que ele e eu sejamos a mesma pessoa. Entre mim e ele haverá sempre a permeação da ficção. Esse eu poderá conter algo do autor, mas não é necessariamente o autor, ainda que haja identificação entre um e o outro. Quando Gustave Flaubert dizia "Madame Bovary sou eu," estava falando do quanto ele se identificava com a sua personagem, do quanto ele partilhava os seus sentimentos. E assim foi entendido no seu tempo e na posteridade. Ninguém passou a chamá-lo de Madame Flaubert.
Até aqui falei, em rápidas pinceladas, dos meus processos narrativos. Como seriam os de meus companheiros de geração?
Para começar, nunca lhes perguntei isso. Sei que Ignácio de Loyola Brandão costuma andar com um caderninho no bolso, fazendo anotações que depois usa em seus livros. Por minha própria conta e risco, deduzo que a sua condição de editor da revista Vogue venha lhe servindo de posto de observação sobre a tal sociedade do espetáculo em que vivemos. O seu mais recente romance, O anônimo célebre, aponta nessa direção. O livro tem até ingredientes de auto-ajuda para quem busca desesperadamente a notoriedade. Só que, ao contrário dos autores salvacionistas prêt-à-porter, O anônimo célebre é prêt-à-laisser, ou seja, a ser deixado de lado pela clientela de papagaios de piratas e alpinistas sociais, em razão da sua crítica acerba a esse mundo vidiotizado de sucesso a qualquer preço. Não estou querendo dizer que o Loyola, meu amigo de toda uma vida, tenha fracassado em seu projeto. Muito pelo contrário: o autor de Zero e Não verás país nenhum, só para citar dois de seus títulos mais contundentes, outra vez acertou na mosca. É saudável ver um escritor postar-se na contra-mão das ilusões do seu tempo, como esse camarada chamado Ignácio de Loyola Brandão.
Ele e eu fazemos parte de uma tribo numerosa, de Moacyr Scliar em Porto Alegre a Márcio Souza, em Manaus. E mais, e mais: João Ubaldo Ribeiro, Nélida Piñon, Oswaldo França Júnior, Wander Piroli, Roberto Drummond, Ivan Ângelo, Raduan Nassar, Domingos Pellegrini Jr, Flávio Moreira da Costa, Sérgio Sant’Anna, João Gilberto Noll, etc, etc, etc. Impossível não lembrar aqui do finado João Antônio, nascido nas bandas de Osasco e que fez do Rio de Janeiro o seu campo de batalha, e onde morreu, sozinho, como um cão sem dono. Um homem com uma vivência enorme entre os que chamava de "a patuléia, a ratatuia, os que comiam o pão que o diabo amassou com o rabo." O seu amor pelos deserdados da sorte era tão grande quanto o seu desprezo pela classe-mérdia, como dizia. Identificava-se até os ossos com Lima Barreto. Aclamado pelo crítico Leo Gilson Ribeiro como "clássico velhaco," bravejava contra os brilharecos e pós de vaidades de seus pares e desancava os "doutores e sambudos da universidade." E nos legou dois livros de contos memoráveis: Malagueta, Perus e Bacanaço e Leão de Chácara, frutos do seu corpo-a-corpo com a vida, de suas vivências pela sua galeria de tipos inesquecíveis da patuléia, da ratutaia.
E toda essa geração de João Antônio, que é a do Loyola e a minha, só existe por causa de outras, desde Machado de Assis e Lima Barreto, e que se difurcaram em Guimarães Rosa, Fernando Sabino e Clarice Lispector, nos quais entroncaram Autran Dourado, Antônio Callado, José J. Veiga, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Carlos Heitor Cony etc, grandes e admiráveis escritores brasileiros.
E agora novos e instigantes ficcionistas pululam na minha estante: Carlos Herculano Lopes, Rubens Figueiredo, Luiz Rufatto, Arnaldo Bloch, Bernardo Carvalho, Raimundo Carrero, Milton Hatoom, o já citado Bernardo Ajzenberg, Godofredo de Oliveira Neto, Adriana Lisboa, Flávio Carneiro, Ruy Tapioca, Marçal Aquino, Tony Bellotto, Antônio Carlos Tettamanzi, Gustavo Bernardo, Mauro Pinheiro, Cyntia Moscovith, Cláudia Lage, Gisela Campos, Carlos Ribeiro, Aleilton Fonseca, isto para citar apenas alguns nomes da safra mais recente que tenho lido, com prazer e entusiasmo.
Nunca dantes se escreveu tanto no Brasil.
Resta-nos esperar a permeação dos textos destes autores com os leitores.
Termino com dois versos de um poeta português chamado Alexandre O’Neill, que também vêm a calhar:
Folha de terra ou papel,
tudo é viver, escrever.
Eu assino embaixo.
Notas de um escritor nativo
Antônio Torres
(Aula Inaugural do Instituto de Letras da UERJ -
Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, em 28/03/2000)
Queridos calouros:
Vocês estão chegando à universidade no ano em que o mundo ia acabar. Para a sorte de nós todos, as profecias não se cumpriram, embora algumas vezes me baixe a sensação de que este velho mundo já acabou mesmo e eu próprio não seja mais do que um zumbi martirizado do tempo, a contemplar na linha do horizonte a fumaça do grande incêndio anunciado desde a minha infância, quando, ao pôr-do-sol de cada dia, os homens guardavam as suas enxadas, para pitar um cigarro de palha e filosofar diante do crepúsculo. A vermelhidão do céu era sempre motivo de reflexões sobre o fim do mundo que, na crença de todo um povo, não passaria do ano dois mil. Imaginem o que é alguém ter se criado num cenário como este, onde todo dia era o dia do crepúsculo do mundo. Ou ia ficar doido, ou se tornar um romancista.
Numa carta datada de dois de julho de 1991, que guardo até hoje, o jornalista e escritor Geneton Moraes Neto relata o seguinte: "O sol uma vez parecia que ia pegar fogo de verdade no céu de uma cidade do interior, num final de tarde da minha infância. Minha mãe me dizia que aquilo podia ser o fim do mundo. O céu nunca tinha ficado tão vermelho. Fiquei esperando, naquele fim de tarde, o incêndio que nunca começou. Se eu fosse escrever um conto para jogar no fundo da gaveta, diria que a vida não pode ser um incêndio adiado. É melhor que o céu pegue fogo logo."
Não é difícil compreendermos a angústia de uma criança diante dessa espera, a espera do fim do mundo, que o Geneton tão bem evocou naquela carta. Nossos pais creditavam-na ao lendário Antônio Conselheiro, aquele que liderou o movimento messiânico que culminou com a Guerra de Canudos, na Bahia, de 1896 a 1897, não por acaso chamada de "a guerra do fim do mundo." Na verdade a profecia vem das Escrituras, na advertência de Deus a Noé, depois do dilúvio. Assim está escrito: "E Deus concedeu a Noé o sinal do arco-íris; não mais a água - da próxima vez, o fogo."
Nos anos sessenta um escritor norte-americano chamado James Baldwin, tão admirável quanto duplamente discriminado, por ser negro e homossexual, transformou o versículo bíblico sobre o fim do mundo num libelo impressionante contra o racismo, ao escrever um livro intitulado "Da próxima vez, o fogo," que virou best-seller e se tornou um documento importante para os movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos. E aqui já começamos a trazer a questão para o nosso campo - o das letras. Para propor uma releitura da história do fim do mundo que não houve. Como metáfora.
Tragamos o fogo para dentro de nós mesmos, como o James Baldwin o levou às consciências norte-americanas. Para incendiar o mundo - de idéias, arte e beleza. E esse é que é o incêndio que não pode ser adiado.
Agora, fim de mundo mesmo é morrer de sede na terra de Canaã.
É importar feijão numa terra onde, em se plantando, "nela dar-se-á tudo."
São as desigualdades gritantes que se escancaram diante de nós.
É todo esse quadro deplorável de injustiças, crianças sem escolas, pais sem emprego, etc etc, etc, corrupções, impunidades, a geléia geral que a TV Globo anuncia, a nós todos, espectadores impotentes diante de uma realidade de violência ameaçada pelo caos.
Como dizia o finado André Gide, por favor, não me entendam depressa demais. Não é meu propósito aqui tornar-me um panfletário fora de tempo e lugar. Sei. Seria mais palatável oferecer-lhes umas abobrinhas de fácil digestão. Mas aí o espírito do finado Oduvaldo Viana Filho, o nosso Vianinha, aquele cristão que morreu antes da hora, me convoca a uma penosa reflexão: "O brasileiro precisa olhar no olho a tragédia do seu país." Um caso a pensar, embora eu desconfie, com ou sem razão, que o pensar, hoje, é um assunto fora de moda. Mas venho de um tempo em que as pessoas pensavam. E com arte e beleza. Como o Gilberto Gil, por exemplo, quando cantava coisas assim: "Eu, brasileiro, confesso/ minha culpa, meu degredo/ meu sonho desesperado/meu irrevelado segredo/ Isto aqui é o fim do mundo/ isto aqui é o fim do mundo.../ Pão seco de cada dia/ tropical melancolia... Isto aqui é o fim do mundo/ isto aqui é o fim do mundo..."
Enquanto penso que já não mais pensamos, eis que chega um poeta do Ceará, chamado Adriano Espínola, e me entrega um poema que é um primor de síntese, intitulado "Avenida Brasil". É, Avenida Brasil. E é assim: "Atenção, devagar: / assalto à mão armada/ a 100 m. / Atenção, não olhe: / espancamento e estupro/ a 200 m./ Atenção, não se abale: / assassinato e roubo / há 500 anos."
Agora chegamos a outro fim de mundo: a comemoração destes 500 anos. Afinal, o que temos a comemorar? O extermínio, a cada século, de um milhão de indígenas, o povo que estava aqui quando os brancos chegaram? A escravidão dos negros, apanhados a laço em suas terras e trazidos debaixo de chicote, nos famigerados navios negreiros? A fúria extrativista dos invasores, a expropiar a flora, a fauna e o solo? Não. A conquista e colonização dessa terra não foram feitas com rosas, sabemos todos. Mas com cobiça, violência e sangue.
Ora, se até os vice-reis do Rio de Janeiro, que governaram o país de 1763 a 1808, ficavam horrorizados com a escória que encontraram aqui, por que nós também não vamos nos horrorizar, hoje, ao lermos os relatos deles à corte portuguesa? Nesses relatos, eles diziam que os homens que cá estavam não vieram para construir um país, mas para se enriquecerem o mais depressa possível - nem que para isso tivessem que arrasasar a terra. Podem conferir no livro "O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis", do extraordinário cronista carioca Luiz Edmundo, autor também de "O Rio de Janeiro no tempo de D. João VI" e "O Rio de Janeiro do meu tempo", obras que, entre tantas outras, nos levarão a concluir que as bandas podres vêm há muito do tempo, no país dos náufragos, piratas e aventureiros. Qualquer semelhança entre o passado e o presente, não será mera coincidência.
Ainda assim, ou seja, mesmo aos trancos e barrancos, o país se fez. Temos um país, sim, multifacetado, multiracial, multicultural, multitudo, com um potencial humano fantástico, mas ainda atado aos grilhões do seu passado colonial e subjugado, além da conta, creio eu, às reengenharias das novas dominações universais. Quinhentos anos depois do tão comemorado descobrimento, ainda não atingimos os níveis desejáveis na conquista e repasse de conhecimentos, distribuição de riquezas e tudo o mais que vocês sabem por experiência própria. O pior é que podia ser bem pior. Sempre que penso nisso - e estou sempre pensando nisso -, rezo um Pai Nosso e uma Ave-Maria pela boa alma de Napoleão Bonaparte, o que pôs D. João VI para correr, até dar com seus costados nestas bandas, e trazendo toda a corte portuguesa, que aqui, nesta cidade, se instalaria, revertendo o mando, com o Rio de Janeiro passando a ser a sede do poder, e a comandar o império português, na maior revolução administrativa da nossa história.
Se há um personagem dessa história que precisa ser olhado com respeito e, até, alguma ternura, é ele mesmo, o desafortunado D. João VI. Achincalhado no cais de Lisboa, quando até ovo podre lhe jogaram na cara, na sua fuga para o Brasil, ele viria amar verdadeiramente este País. Mas dele só nos lembramos pela beiçola, a feiúra, o seu lado grotesco beirando o ridículo, como o hábito de encher os bolsos com pedaços de frango, e pelos chifres com que a mulher enfeitava-lhe a cabeça, o que era público e notório. Com isso, esquecemos todo o bem que nos fez. Até à sua chegada, o Brasil não produzia sequer um alfinete. Na condição de colônia, dependia de Portugal para tudo. E como Portugal não produzia utilidades que pudessem atender as necessidades além-mar, havia carência de tudo: facas, tesouras, talheres etc. Como vocês sabem, D. João VI chegou à Bahia no dia 22 de janeiro de 1808. Seis dias depois, decretou a abertura dos portos às nações amigas, ou seja, à Inglaterra. Só que os ingleses se equivocaram na primeira remessa de mercadorias. Por pensarem que isto aqui ficava no Polo Norte, enviaram pesados cobertores e patins para o gelo, que ainda assim foram muito bem recebidos, tal era a carência de tudo. Os patins foram desfeitos e o seu material transformado em facas, garfos, tesouras. E os cobertores enviados para os garimpeiros em Minas Gerais. Ao se instalar no Rio, em lo. de abril de 1808, D. João VI revogou o alvará de 5 de janeiro de 1785, que proibia a instalação de manufaturas no Brasil. E foi aí que o País começou a prosperar de ano para ano, enquanto Portugal entrava em dificuldades. Não custa nada lembrar o mais que ele fez: trouxe os 14 mil livros e documentos, salvos do terremoto de Lisboa, em 1755, e que deram origem à Biblioteca Nacional; trouxe a primeira instituição de ensino superior do País, a Escola Naval, criada por sua mãe, D. Maria I, à semelhança da Escola Naval Britânica; criou o Jardim Botânico e a Escola de Astronomia; elevou o Brasil a Reino Unido de Portugal e Algarves, em 1815; em 1816, promoveu a vinda da Missão Artística Francesa, de tanta influência na arquitetura da cidade; em 1820, inaugurou a Praça do Comércio, onde hoje é a Casa França Brasil, que deu origem à Associação Comercial do Rio de Janeiro. Aqui, foi aclamado rei, em 1818, quando os comerciantes o saudaram como o libertador do comércio. Ao contrário de sua mulher, que cada vez mais odiava os brasileiros e o traía sem parar, D. João VI sentia-se bem no Rio de Janeiro. Mas Portugal, às voltas com prejuízos políticos e comerciais, exigia o seu regreso. Se ele não retornarsse a Lisboa, perderia o trono. Voltou, embora contrariado, em 1821, deixando o seu filho Pedro como regente. D. João VI morreu em 1826. Envenenado. Morreram também o médico, o cirurgião e o cozinheiro. Para não ficar testemunha. Foi uma queima de arquivo geral.
Grande personagem, esse D. João VI. Seu destino foi de uma teatralidade shakespeareana. Numa crônica comovente, o escritor português Raul Brandão pintou-lhe o seguinte retrato:
"Grotesco, feio, com a existência aos baldões, sem um bocadinho de ternura (a morte leva-lhe todos os amigos), rei ainda por cima, as suas anedotas, a sua vida, a sua figura, são ainda hoje motivo de chacota... E no fundo, sob essa capa ridícula, por baixo da barreira da papeira, da beiça, do olhar desconfiado, havia, houve sem dúvida uma ternura enorme. A mulher traiu-o; os filhos enganaram-no e mentiram-lhe; teve de fugir, de se livrar do veneno, das revoltas, da intriga... Esqueçamos-lhe a carcaça. Já hoje a figura está reduzida à sua verdadeira essência: passaram-lhe de vez as hemorróidas. É um homem simpático que fez neste mundo o bem que pôde. Foi ele quem povoou o mar do Brasil de sardinhas para os pobres comerem com pão. Plantou árvores. Amou - e foi talvez sob o grotesco uma alma delicada. Não seria uma grande inteligência nem um grande caráter - mas passou a vida a afligir-se. Por qualquer lado que encare é um motivo de chacota. É o senhor D. João VI - é o pataco - é o rapé - É a beiça... É - mas é também o melhor homem da sua época, e, sob o grotesco, encontra-se uma grande beleza escondida, sumida, escarnecida..."
Conclusão: se para Portugal a fuga de D. João VI foi o fim do mundo, para o Brasil foi o começo de um país.
Ao pensar nos grandes personagens da nossa História, ouço ao longe um hino da minha infância. Era assim:
"Glória aos homens, heróis desta pátria/ esta terra querida, que é o nosso Brasil..."
O meu herói é o maior de todos: tinha quase dois metros de altura. E seu grito de guerra fazia a terra tremer:
- PERÓS!
Meninos, eu conto: vem aí o grande chefe, trazendo um português amedrontado. E as mulheres da aldeia, muito assanhadas, já estão gritando: - Nossa comida está chegando!
Agora, com vocês, o guerreiro tupinambá Cunhambebe, o meu querido canibal.
Ele se orgulhava de ter nas veias o sangue de mais de cinco mil inimigos, muitos deles portugueses.
Estamos falando do primeiro chefe supremo da Confederação dos Tamoios que, entre os anos de 1554 e 1555, uniu todas as tribos inimigas, de São Vicente a Cabo Frio, na maior organização de resistência aos colonizadores que este país teve. Foi aí que o pau comeu, em combates sem tréguas.
Mas é preciso fazer aqui um esclarecimento: tamoio não foi nome de tribo, como muitos de nós somos levados a pensar. Tamoio significa o mais velho da terra, o mais velho do lugar. Logo, a Confederação dos Tamoios significava Confederação dos nativos.
O grande chefe Cunhambebe tinha um ódio mortal aos portugueses. Tanto, que ele podia ficar uma semana sem comer, se não tivesse um pedaço de carne lusitana para o seu repasto.
Bradava aos quatro ventos que os portugueses eram perós, ou seja, ferozes, traidores, mentirosos e covardes. Ele chamava os portugueses de covardes porque, sempre que apanhava um deles, o gajo se apressava em dizer que era francês, tentando escapar do porrete e de ser devorado. Cunhambebe era o índio amigo dos franceses, que se tornaram aliados dos tamoios, com os quais foram mais diplomáticos. Chegaram aqui para tratar de negócios e não de guerra. E, enquanto permutavam as utilidades da civilização européia - machados, foices, calções, perfumes e até os famosos espelhinhos -, por preciosidades da terra, do pau-brasil às aves e suas vistosas plumagens -, os franceses caíam na farra, enchendo a cara de cauim, a birita dos nativos, e indo às índias. Com tanta filha de Eva à solta, do jeito que Deus as havia posto no mundo, eles ficaram doidinhos. Doidões, melhor dizendo. Muitos deles não iriam voltar à França, nem amarrados.
Já os portugueses tinham outros propósitos. Queriam tomar a terra na marra e escravizar os seus donos. Foi aí que Cunhambebe enfureceu-se. E fez a terra tremer.
E onde ele pisava a terra tremia mesmo. Era um gigante, com uma força e uma coragem descomunais. O Átila da floresta. Exageradão em tudo, em tamanho e vaidade, tinha quatorze mulheres, quando aos outros caciques só eram permitidas quatro. Os franceses o tratavam como rei do Brasil. Tanto que foi hóspede de Villegaignon, o malfadado idealizador da França Antártica, ali na ilha que ainda hoje leva o seu nome, por trinta dias. E com todas as pompas de chefe de Estado. Cunhambebe foi também o primeiro brasileiro a ter a sua estampa publicada na Europa, na Galeria dos Homens Ilustres, do frade franciscano André Thevet, ainda nos anos 500. E o alemão Hans Staden, que foi seu prisioneiro, fez elogios às suas artes militares, chamando-o de chefe supremo. Ele nunca perdeu uma batalha. Mas não morreu de pé, lutando, como achava horrado morrer. Morreu na cama, em 1557, vitimado por uma estranha epidemia, que dizimou mais de trezentos membros da sua tribo. Sua morte provocou desolação e revolta. E sua aldeia, em Angra dos Reis, ficou pequena demais para receber os que compareceram ao seu funeral. Os tupinambás, assim como todos os índios confederados, acharam que a epidemia havia sido trazida pelos brancos, dentro de suas estratégias de guerra para eliminá-los.
O grande chefe Cunhambebe, que levou todo um povo a lutar até o último homem para não se deixar escravizar, não mereceu da História oficial mais do que notas de rodapés ou verbetes mínimos, como este aqui, assinado por um historiador chamado Rocha Pombo:
"Este índio foi o tipo do selvagem na sua expressão mais repelente. Tinha ele uma força e uma estatura e uma corpulência de Cíclope, uma coragem de bruto obsecado, uma dureza e ferocidade de monstro. Em outras condições daria um Átila, talvez ainda mais devastador. Devanecia-se de abalar a terra com o seu tropel. Nunca perdoou a um português."
Pouco importa, meu querido canibal, a esta altura da peleja, como os tais historiadores o trataram. Sua estampa está no nosso imaginário não como de "um selvagem na sua expressão mais repelente", mas como do mais temido chefe indígena brasileiro, com grandes brilhos de virtudes por trás da sua brutalidade, como um frade franciscano francês o descreveu. Você inscreveu a sua legenda como o senhor destas águas de sonho e fúria. Um herói da resistência. E de Cunhambebes bem que estamos necessitados.
A Confederação dos Tamoios foi uma utopia nativa que durou cerca de doze anos. Com a morte de Cunhambebe, o seu comando passou às mãos do bravo Aimberê, o cacique da aldeia de Uruçumirim, que ficava por ali onde hoje é o bairro do Flamengo. Foi liquidada em dois dias, 19 e 20 de março de 1567, quando Mém de Sá veio da Bahia, para dar reforço a seu sobrinho Estácio, que foi flechado no rosto e morreu um mês depois. O poder de fogo dos portugueses reduziu os tamoios confederados a cacos. Foi uma carnificina. A vitória levou as tropas de Mem de Sá à loucura. Cortaram as cabeças dos cadávares e as enfiaram nas estacas.
E era uma vez os grandes índios.
A partir daí, os brancos escreveram a história, como os seus legítimos donos.
E os índios foram transformados em alegorias de um carnaval que eles iniciaram em seus rituais canibalísticos. O carnaval que se tornou o maior espetáculo da Terra.
Meus considerados:
Já se disse que ação é personagem.
Que literatura é linguagem.
Que não existe literatura sem História, com H maiúsculo.
Literatura é tudo isso, sim senhores.
Mas é também delírio e indignação.
O primeiro poeta deste país foi um indignado. Chamava-se Bento Teixeira. Era um português do Porto e chegou a Pernambuco, no século XVI, com a idade de seis anos incompletos. Tornou-se um homem livre, boquirroto e debochado. Num certo sentido, e isso pela sua independência e personalidade briguenta, ele não deixa de ser uma espécie de precursor de Gregório de Matos. Foi tido como o primeiro livre-pensador do Brasil e "talvez o indivíduo que maior cultura possuía nas letras, tanto sagradas quanto profanas, em todo o século, em Pernambuco." Teve ainda a seu crédito a primeira manifestação, em letra de forma, da literatura no Brasil, com a publicação de "Prosopopéia," um poema heróico em decassílabo. Mas ele era um cristão novo. Foi perseguido, preso e condenado à prisão perpétua, em Lisboa, onde acabou por vir a ser libertado, a 30 de outubro de 1599, "pobre, só, fraco e muito doente." Sua liberdade, porém, foi condicional: não podia sair de Lisboa. Ou seja: não teve o direito de voltar pra casa, em Pernambuco. Morreu aos 39 anos. E a História o esqueceu. Em 1995, o historiador paraibano Gilberto Vilar fez o que pôde para tirá-lo do esquecimento, ao publicar um livro intitulado O primeiro brasileiro, uma obra admirável, tanto do ponto de vista histórico quanto literário, que a TV Globo comprou para uma minisérie e engavetou. Isso para dizer que a nossa História está cheia de personagens em busca de autores. E para lembrar que as Santas Inquisições foram outro fim de mundo, como o Holocausto, o genocídio dos índios e a escravidão dos negros. Eis aí as quatro chagas do milênio.
Vida que segue, como dizia o finado João Saldanha.
Meus amigos...
Se o mundo ainda não acabou, então vamos ler.
Comecemos pela tumba de Oscar Wilde, no cemitério Père Lachaise, em Paris. Lá está escrito:
"Um mapa mundi que não inclua a Utopia não é digno de consulta, pois deixa de fora as terras onde a Humanidade está sempre aportando. Nelas aportando, sobe à gávea e, se divisa terras melhores, torna a içar velas. O progresso é a concretização de Utopias..." "O passado é o que o homem não deveria ter sido. O presente é o que o homem não deve ser. O futuro é o que os artistas são." (...) "O Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo."
Benvindos às letras.
Processo criativo.
Ou:
Como uivar para a Lua numa noite
sem a menor possibilidade de estrelas.*
Em princípio, criar e coçar é só começar. Mas como é que se faz para começar?
Se tudo depende da primeira frase, já temos uma para entrar neste tema que vem despertando muita curiosidade, principalmente para aqueles que estão se iniciando no mundo das letras. Como se o processo criativo fosse a caixinha de Pandora que cada escritor guarda dentro de si. Essa busca ao tesouro começa com outra pergunta, curta e concreta, que pode gerar respostas longas e subjetivas, pois no entender deste já velho escriba não há arte mais abstrata do que a escrita. A pergunta é: “Como nasce uma história?”
Um escritor norte-americano chamado Henri Miller, hoje em desuso mas que fez muito sentido para a minha geração, definiu o processo criativo de uma forma um tanto quanto megalômana: “Deus fez o mundo em 7 dias. Depois entrou nele. Este o segredo da criação.” Já o nosso Glauber Rocha, um cineasta de vocação literária por excelência, e que tinha fama de delirante, baixou ao terreiro dos deuses afro-baianos, ao falar da gênese de seus filmes, em entrevista ao locutor que vos fala, quando do lançamento de Deus e o Diabo na Terra do Sol, em 1964. Disse ele: “O negócio é fazer mandinga e esperar o santo descer. Aí então a gente é bem capaz de fazer um take de 4 minutos, na mão, entre luz e sombra, entre foco e fora de foco, balançando ou não. Será possível ir aos infernos de outra maneira?” Clarice Lispector também confessou que às vezes ficava dias e dias, com os olhos na folha em